Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

ESTOU TE DEVORANDO VIVO!

                     Leia duas vezes, leitor.

                 

Nasci com apenas um objetivo: matá-lo.

Irei matá-lo, amigo; mesmo que, para isso, eu morra. Se tudo der certo, se tudo for como planejei, minha morte ocorrerá logo depois da sua.

Sou fruto da combinação de mais de cinco mil substâncias. Dentre elas, posso citar: catecolaminas, carboxihemoglobina, arsênio, níquel, benzopireno e cádmio. Provavelmente você nunca ouviu falar da maioria delas. No entanto, as coloca dentro de seu "mundo" todos os dias, de uma forma compulsiva e mortífera. Babaca! Você me criou e sofrerá as conseqüências disso.

Nasci fraco, num lugar esponjoso, durante o período que os homens de branco denominaram de "estágio de iniciação". Claro que estou cercado de oxigênio por todos os lados. Um santo alimento! O oxigênio (além das substâncias, obviamente) me fortaleceu.

Quando nasci, você contava com quatro décadas de vida, lembra? Certamente que não lembra. Eh, eh, eh!

Sou quase invisível e, no princípio, silencioso. Mas confesso que não fui bem recebido por seu "mundo". Não mesmo.

No início, houve luta. A primeira luta. Teus mecanismos de defesa tentaram me matar. Foi uma batalha ferrenha e interna, que durou três anos. Na época, você nada percebia e levava uma vida normal.

Oh! Sofri ataques dolorosos. Em determinados momentos, pensei que iria morrer. Minha agonia foi cruel. Sofri, imerso em desespero.

E quando tudo parecia perdido, um fator importante me salvou.

As substâncias!

Sim. Isso mesmo. As substâncias que você coloca para dentro, as mesmas que me criaram, me ajudaram a vencer teus mecanismos de defesa. Naquela guerra insana, contei com a ajuda de tais substâncias. Uma ajuda surpreendente, porém satisfatória. Venci, na verdade, por causa da sua colaboração! Obrigado, amigo.

Livre e sem inimigos para me combater, multipliquei-me, depois, com a ajuda dos oncopromotores, e tornei-me onipresente e poderoso! Os oncopromotores, convém lembrar, substituíram os teus mecanismos de defesa (numa magnífica metamorfose!) e trabalharam a meu favor.

Minha multiplicação completa durou dez anos. Lenta e gradual; vívida e silenciosa. Dez excelentes anos. Você também não percebeu coisa nenhuma, pois não ligava para esses acontecimentos. Seu descaso foi patético, típico das pessoas ignorantes e que se julgam imortais. Agradeço a você por isso, ok? He, he, he!

O momento crucial chegou! Após treze anos, esse era o instante supremo!

Agora, eu estava pronto para destruí-lo! Eu queria obter a mais destrutiva de todas as metástases, que iria levá-lo a uma morte extremamente dolorosa. Sou mesmo destrutivo e macabro, confesso. He, he, he! O mal personificado!

Queria essa metástase e tinha que agir rapidamente.

Começo, então, a devorar tuas proteínas. Minha fome é insaciável.

Em dois anos, já estou espalhado por todas as partes do teu "mundo", devorando e ocupando locais estratégicos.

Agora sim, você notou que algo estava errado! Sua vida sofreu um colapso ignóbil. Você está fraco... muito fraco... as alterações grotescas surgem. Você está moribundo e quase não se movimenta. Parece entregue, derrotado... inerte... balbuciante... sôfrego...

Que júbilo, porra! Sua morte será uma questão de tempo.

Bem, mas eis que você reage. Você reagiu!!!

As catecolaminas e carboxihemoglobinas não estão chegando! Como?!?

Desprevenido, sou surpreendido pela entrada de outra substância, líquida, desconhecida e forte. Não sei do que se trata, mas sinto dores e alguns itens do meu corpo morrem. Nãããooo!!! Não posso perder essa luta.

A segunda luta é brutal. Durou dois anos. O poder da substância desconhecida é pernicioso e mortal. Sou bombardeado várias vezes num mesmo dia. Quando penso em me defender, mais ataques se sucedem.

Setenta por cento do meu corpo morre. Imerso em minha fraqueza, noto que irei perder essa guerra. Não conseguirei matá-lo. Antes, serei morto por sua retaliação nociva. Maldito! Desgraçado!

Sinto as dores penetrando minhas defesas... meu estado é... e-estou moribundo... putrefato... pútrido... Noto a presença da morte... ali... bem próxima... junto do meu fracasso...

De repente, algo extraordinário acontece! Incrííível!

Simplesmente... a substância desconhecida pára de entrar. Não consigo entender o que houve. E justamente quando eu estava morrendo, isso acontece. O que teria acontecido? O que você fez de errado, amigo?

Durante seis meses não sou atacado. Ótimo!

Tenho o poder da regeneração e consigo recuperar minha força. Meu corpo renasce das cinzas.

Ah, sim! Nova surpresa me espera. Catecolaminas, carboxihemoglobina, arsênio, níquel, benzopireno, cádmio, etc voltam a dar o ar de sua graça nesse "mundo". Você voltou a me alimentar e isso é sensacional! Que bom, que bom! Estou rindo à toa! He, he, he!

De novo fortalecido, volto a devorar tuas proteínas. Estou mais forte e mais enlouquecido. Acelero o processo, pois quero matá-lo o quanto antes. Nesse ritmo alucinado, morreremos quase juntos, numa simbiose satânica.

Meus ataques foram intensos e duraram os seis meses que você me deu. Em seis meses, arrasei seu "mundo" como nunca havia feito antes.

Mas você se recusa a morrer. Luta por sua vida.

Mesmo enfraquecido, coloca para dentro mais substâncias desconhecidas, incluindo a que quase me matou. Líquidos estranhos. Uma espécie de pó colorido. Atinge-me com raios poderosos, que possuem uma luz ofuscante. Chega a retirar pedaços do meu corpo, não sei com que finalidade. Modifica a temperatura ambiental. Todas essas tentativas foram dolorosas, reconheço. Algumas mataram até vinte por cento do meu corpo.

No entanto, é tarde demais.

A trégua que você me deu foi determinante para minha vitória. Estou forte. Sou imbatível. Nada pode me vencer! Nada, porra! Seus ataques não mais me atingem.

Antes, eu concentrava fogos num determinado ponto esponjoso do seu "mundo". No lugar em que nasci; lugar este já negro e carcomido, quase sem vida. Por isso, espalhei-me por todos os lados.

Estou te devorando. Estou te devorando vivo! Você grita de dor e desespero. Entra em convulsões animalescas. Chora, enlouquece, entra numa agonia mortificante. Em pouco tempo já domino noventa por cento do seu "mundo".

Fui criado para isso e estou cumprindo minha missão. Estou te matando e ninguém poderá salvá-lo. Vejo em seus olhos o brilho da mortandade... uma agonia que me deixa em êxtase. Que coisa liiinda! Maravilhosa! Em poucos dias você definha, derrete em pus, desfalece, torna-se um cadáver ambulante.

Seu terror extremo durou um ano. Foi um ano de regozijo, em que meu prazer se mesclou à sua dor. Fiz você sofrer, amigo. Ouvi-lo gemer, gritar e delirar foi minha maior recompensa. He, he, he!

E eis que o inevitável acontece... Você morre.

Sua morte foi uma das mais dolorosas de todos os tempos. Uma morte bizarra, presenciada por seus parentes e amigos e que espalhou tristeza e comoção. O caos se instalou em sua família. Você perdeu a guerra.

Adeus, amigo! He, he, he!

Sou mal. Sou perverso, porra!

E estou morrendo. Estou morrendo!!!

Todavia, minha morte é agradável, salutar e prevista, pois sei que fui criado para isso. Não sinto dor, acredite. Além disso, tenho irmãos, milhões dele, que estão espalhados por aí e que também farão a mesma coisa. Matarão outros, num processo irreversível.

Para finalizar, deixo minha mensagem: somos imbatíveis. Nada pode nos exterminar. Jamais seremos extintos! Jamais! Essa é uma cruel realidade.

Quem sou eu?

Oh, devo me identificar, antes de deixar essa vida. O tempo urge. Preciso sair de cena... sair do teu "mundo", amigo, antes que o coloquem sob alguns metros de terra.

Os homens de branco me chamam de carcinoma de células ou adenocarcinoma ou ainda... tumor maligno.

Porém, o povo me conhece como câncer de pulmão. Muito prazer. Acabei de  matá-lo... amigo fumante.

He, he, he!!!

                        FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 15/11/2006
Reeditado em 16/11/2006
Código do texto: T291959
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14846 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 09:01)
Joderyma Torres