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2 - O Corvo

2 – O Corvo


2 – Lembranças
 Os olhos são pequenos e negros. Úmidos com um líquido transparente sobre o globo ocular completamente entregues as trevas. As penas são negras e também pequenas. De asas abertas, voa em espiral, descendo sobre um cemitério. O sol poente repousa entre as montanhas, dando um tom alaranjado ao céu no fim da tarde. As nuvens carregadas de uma cor cinza escuro fecham toda a imensidão do céu. Enfim, a noite silenciosamente desperta com o sono da luz.
 O corvo plana pelas lapides dos túmulos, se desviando das cruzes e mausoléus num vôo rasante. O pássaro está no cemitério por um motivo desconhecido por pessoas normais. Pessoas mortais, por assim dizer. Enfim o animal de penas negras pousa em cima de uma lapide. Ao longe, um trovão ressoa, fazendo magicamente as nuvens moverem-se rápidas. Mas não foi o trovão, foi à natureza em si que fez essa mudança brusca no tempo. Pingos caem levemente no chão de terra preta do cemitério. Uma terra bem adubada por causa do adubo que utilizam. O melhor dos adubos. Corpos.
 Logo, a chuva cai mais intensamente. As penas molham-se, o pássaro mexe a cabeça rapidamente para os lados, confuso com a água. Uma neblina suave passa por entre os túmulos, como um líquido pálido esparramando-se pelas lapides, cruzes e mausoléus.
 Um som abafado é ecoado. O corvo mexe a cabeça para os lados mais uma vez, dessa vez, não tanto confuso. Mais uma vez o som, dessa vez mais nítido e forte, como se batessem numa porta de madeira, bem longe. O som volta a ecoar, tão nítido e próximo, que o pássaro voa assustado pousando em uma outra lapide próxima. O som mais uma vez e algo sendo quebrado. A madeira se espatifando. Areia remexida. Uma mão suja de terra surge em meio à névoa, como uma mão no mar em busca de socorro. A mão aberta parece desesperada em libertar o resto do corpo. Desesperada em libertar-se por completo do que a prende, a terra e o caixão. Com outro forte estrondo, a outra mão surge, em seguida uma cabeça de cabelos loiros penteados ao meio. O rosto vai surgindo entre a névoa, como um crocodilo se esgueirando na superfície da água. Nos olhos, frieza e desolação. Enfim levanta-se cambaleando. Equilibra-se na lapide de seu próprio tumulo. Seu corpo completamente sujo de areia negra que compõe o cemitério. A mesma terra adubada e rica em sais minerais para as plantas. E a terra é alimentada pelo corpo dos enterrados aqui. Da boca sai pequenos acessos de tosse. Olha em volta e de seus olhos lágrimas se juntam com as lágrimas do céu, caindo pesadamente sobre seus ombros. Olha para o tumulo ao lado e lê o que está escrito na lápide:
“JasonTodd.”
“Descanse em paz.”
 Então Kelly leva a mão à boca e chora convulsivamente, deixando seus joelhos machucarem-se no chão. Abaixa a cabeça, escondendo-a entre as mãos. Seus cabelos molhados balançam suavemente com o prenuncio de uma forte tempestade.
 O corvo a olha, mexendo peculiarmente sua cabeça, tentando vê-la de todos os ângulos possíveis. Em seguida, dá um pio alto e agudo. Kelly levanta a cabeça lentamente, olhando para a ave ensopada a sua frente. Um corvo. Um estranho pássaro todo preto, olhando fixamente para ela, como conversando telepaticamente. Com um acordo tácito, ela entende. Entende seu propósito. Levanta-se decidida e caminha entre os túmulos em direção a saída do cemitério.
***
 Correndo pela floresta escura, chovendo fortemente, ela percebe por que voltou a vida. Vingança. Jason morto, ela idem, provavelmente aqueles crápulas estão impunes. Impunes da justiça, impunes de sua consciência, mas não impunes de sua vingança. Seu corpo fervilha de adrenalina. Desvia com facilidade dos galhos e troncos, corre como nunca havia corrido antes. Não parece se cansar e não demonstra que se cansará tão rápido. O vestido negro que fora enterrada estava colado ao seu corpo, mostrando suas belas curvas. Os seios se movendo e o corpo esbelto gingando como um gato selvagem numa selva escura e desconhecida.
 Sai da floresta e no horizonte, vê a cidade construída com audácia e imperiosidade. A chuva parava aos poucos, restando apenas chuviscos e um vento forte e frio. Mas ela não se incomodava. Nada mais parecia incomodá-la, a não ser o fato dos assassinos continuarem livres e impunes.
 Três horas depois, Kelly caminha pelos becos escuros da cidade. A chuva havia afugentando mendigos e possíveis ladrões para seus lares. O beco está deserto, exceto pelos ratos se rastejando pelos sacos de lixo. Ela dá um salto, agarrando com as mãos a escada de incêndio, fazendo-a cair levemente no chão. Mais antes que tivesse caído, já estava no primeiro andar andando nas passarelas de metal da saída de emergência. Sobe até um terceiro andar e entra numa janela quebrada. O calor envolve seu corpo frio. Caminha entre os móveis saqueados e destruídos. Nada restou do apartamento de Jason. Um ano havia se passado. Apanha um jornal caído no chão e lê a reportagem:
Casal de namorados brutalmente estuprados e assassinados. Policia diz não terem suspeitos.
 Então Kelly lembra da tatuagem de um A de anarquia no antebraço de um dos agressores, o rosto de um índio com o corte de cabelo estilo moicano e um homem magro com olhar de louco. Fecha os olhos, tentando conter sua ira. Falta lembrar-se do quarto homem, mas esse ficava sempre na escuridão.
 Anda mais um pouco pelo quarto quando uma torrente de lembranças volta a encher sua mente. Momentos com Jason. Momentos de amor, de mágoas, reconciliações, planos, sonhos... Estragados por assassinos.
- Esse seu vestido é muito sensual, sabia?
- Ah, Jason, pára. Assim você me encabula.
- E essa sua maquiagem de garota punk então? É de enlouquecer qualquer um, Kelly.
- Eu só quero enlouquecer você.
- Então... Já me enlouqueceu querida.
 Kelly ri da lembrança e da vingança. Pega o pote de maquiagem que havia dentro de uma gaveta e um vestido negro um pouco abaixo dos joelhos. Maquia-se como naquela noite. Maquia-se como uma punk gótica. O rosto completamente pálido e os lábios terrivelmente vermelhos. Seus olhos verdes se acentuam com a cor escura ao redor dos olhos, como um cadáver. Sim, é hora de enlouquecer alguns homens.
 O corvo dá um pio, chamando sua atenção. Kelly olha para o pássaro no batente da janela. Ela sorri sensualmente se aproximando da ave, de salto alto, rebolando provocativamente.
- Você me despertou para me vingar não é, pássaro?
 A resposta do corvo é mexer a cabeça deixando-a um pouco torta.
- Pois eu vou matar. E muito. E tenho certeza que irei gostar. – Kelly vira a cabeça e olha uma foto de Jason e ela em cima da cômoda. Ambos sorriem. Um momento de alegria e saudade emolduradas num tempo que jamais irá voltar. Fecha os olhos, segurando as lágrimas. Abre os olhos, olhando para o vazio. Em seguida, sai pela janela, enfrentando a noite turbulenta, cheia de vozes e buzinas de carros.

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Não sei em quantos capítulos irá se dividir, pois vai depender de minha inspiração. Abraços e opinem.

davifmayer
Enviado por davifmayer em 18/11/2006
Código do texto: T294844
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Sobre o autor
davifmayer
Olinda - Pernambuco - Brasil, 34 anos
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