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3 - O Corvo

O Corvo 3.
 Kelly corre pelas ruas enquanto a chuva cai. Na noite, nenhuma sombra de gente, apenas ruídos de animais urbanos e barulho de televisão dentro dos apartamentos. O corvo voa apesar da chuva, sobre os altos prédios do bairro. Pousa num prédio abandonado em frente a uma boate. Pixado na parede, um “A” de anarquia, como a demarcação de um domínio. Por um instante a mulher interrompe sua corrida, olha para o céu coberto por nuvens cinza e lembra da tatuagem de um “A” no antebraço de um dos assassinos. Ele parece pertencer a uma gangue. Guiada pela visão do corvo, ela chega até a boate. Lá dentro, uma musica extasiada de thecno embala as trevas. Ela relaxa os músculos e o pescoço e vai até a casa noturna.
 Um homem gordo e de óculos escuros a olha de baixo a cima. Dá um sorriso sarcástico balançando a cabeça positivamente.
- Sim, doçura. Você pode entrar. – ele tira a correntizinha de aceso e a deixa passar.
 A musica a envolve, assim como o calor e o êxtase do clima que rodeia as pessoas que dançam provocativamente no piso principal. O show de luzes no teto parece tornar seus movimentos em câmera lenta. Sonda a área. Olhares curiosos e maliciosos em direção a ela. Um homem de jaqueta jeans se aproxima com um sorriso idiota.
- Afim de diversão, gata?
- Não com você.
- Ah, mas o que é isso. Você ainda nem me conheceu.
- E não pretendendo.
- Mas tenho certeza que vai gostar. Meu nome é Todd, e o seu?
 Os olhos de Kelly fitam um homem sentado no piso superior, rodeado de mulheres e capangas. Ele é careca, forte e alto. Uma postura despojada e confiante. Drinques e drogas estão diante dele em cima de um centro de vidro.
- Você conhece aquele “A” de anarquista pintado no muro aqui fora?
- Claro que sei. É de uma gangue barra pesada daqui. Aquele cara ali. – ele apontou para o homem rodeado de mulheres. – é o líder dela. Barra pesada, gata. Barra pesada. Não deveria se envolver com ele se eu fosse você.
- Eu gosto de pegar pesado.
- Então pega pesado comigo aqui... – Todd ri, servindo-se de drinque, levantando sua cabeça. Ao fitá-la de novo, não a encontra mais. Olha para os lados e a vê subindo as escadas para o piso superior.
 Kelly caminha confiante como uma leoa em direção à presa. Esbarra em alguns homens armadas e bem vestidos e chega até a mesa particular do careca. Ao lado dele, duas mulheres rindo e beijando o seu pescoço. Ele se farta dos seios de uma e beija a boca da outra.
- Gostaria de falar com o seu chefe. – falou Kelly para um dos capangas.
 O homem a olha de baixo a cima, como se avaliando o “material” para o seu chefe.
- Vou checar se ele pode atendê-la ou não.
 Kelly riu para ele, enquanto o mesmo vai ter uma palavrinha com o chefe no ouvido. Ele encara a belíssima mulher de curvas bem delineadas sorrindo para ele, com as mãos na cintura, provocativamente. Ele riu com gosto e lascívia.
 O capanga se aproxima dela.
- Mosar vai querer vê-la, dê dois minutos a ele.
 Kelly cruza os braços abaixo dos seios fartos querendo pular para fora do decote. Vê Mosar falar nos ouvidos das duas garotas e elas em seguida se retirarem consternadas. Quando elas saem, ele a chama com a mão. Ela se aproxima e senta ao lado dele, cruzando as pernas. Olha profundamente nos olhos castanhos vivos de Mosar, que rindo, não acredita em sua sorte.
- Que tipo de brincadeiras quer comigo, docinho? – perguntou, como um lobo diante da ovelha, passando a mão na sua boca já úmida.
 Kelly tenta se concentrar, apesar do barulho ensurdecedor a sua volta. Fecha os olhos lentamente e os abre com certa raiva.
- Há dois anos atrás, você e mais três amigos fizeram uma festinha na praia com um casal de namorados. Vocês os estupraram e o mataram, deixando-os ao relento. Aposto que se divertiram a valer. O que fizeram depois? Ninguém nunca achou os suspeitos. Ninguém nunca foi condenado, até agora.
 Enquanto ela falava, o rosto de Mosar perdia o semblante de luxuria e no seu  lugar pairava o ódio e confusão. Ele agarra os cabelos da nuca dela e a puxa para si, com raiva.
- Quem é você, docinho? Alguém da CIA, do FBI? Não sei do que está falando.
- Não precisa falar mais nada. Pela sua atitude percebo que se lembrou. E pela marca no seu antebraço também.
 No antebraço de Mosar a tatuagem de um “A” de anarquista. Ele riu, como se tivesse sido pego em uma brincadeira de criança. Aperta mais os cabelos da nuca dela entre seus dedos. O som, os drinques, as drogas, e essa revelação parecem deixá-lo mais louco agora. Sente uma raiva transbordar em seu ser. Olha malignamente para ela.
- Você não vai sair viva daqui, docinho. Mas antes de matá-la, eu vou me divertir muuuuito com você.
- Já fez isso e eu não gostei muito.
 Mosar olha para ela sem entender, então sua mente se anuvia. Algo lhe trás a memória. Ela era a mulher que estuprara e matara. Agora, está viva diante dele. Seus olhos se esbugalham de terror.
- Você devia estar morta.
 Lentamente Kelly segura a mão que agarra seus cabelos e aperta-a como uma manopla. Mosar olha para a própria mão não acreditando que sua força está sendo superada por uma mulher. Com um movimento giratório, obriga o corpo de Mosar ser arremessado em cima do centro de vidro, espalhando cacos de vidro, copos quebrados e drogas pelo chão. Os capangas se armam, mirando a mulher. Mas foram lentos. Em questão de segundos ela havia se levantado e desarmado eles. Os mercenários avançam para cima dela como touros. Com movimentos precisos e automáticos, ela quebra o nariz de um e as costelas do outro. Mosar se levanta cambaleante, molhado de sangue e álcool.
- Você veio aqui para se vingar, não foi sua piranha?
 Mosar ergue sua arma. Pessoas ao redor correm desesperadas para todos os lados. Kelly se joga atrás de um sofá, seguida de perto por tiros disparados de Mosar. Ele corre até as escadas. Ela se levanta, fazendo os seus cabelos balançarem de um lado a outro. Mais um capanga avança. Ela dá uma voadora na garganta dele, fazendo jorrar sangue do pomo de Adão. Dá um salto para o piso inferior, fazendo seu vestido subir e descer ao chegar ao chão, de frente para Mosar. A confusão se inicia. Pessoas correm de um canto a outro, enquanto Kelly espanca Mosar com as próprias mãos. Um capanga a agarra por trás. Ela faz com que ele se desequilibre e caia em cima de uma mesa coberta por garrafas de bebida. Ele a solta. Ela se levanta golpeando fortemente mais dois que se aproximam. Eles se ajoelham de dor. Pelo canto dos olhos, Kelly vê Mosar fugindo por uma porta dos fundos. Lá fora um corvo voa por cima da boate e observa um homem correndo amedrontado e entrando num carro. A mulher corre para fora da boate, deixando Todd de olhos arregalados num canto da boate. Ela sai da boate e vê um carro saindo em disparada, alucinado. Vê uma moto preta com cano de escape duplo. Sobe nela e faz ligação direta. Liga os faróis, dá algumas aceleradas e parte em meio à chuva grossa que cai naquela noite.

davifmayer
Enviado por davifmayer em 30/11/2006
Código do texto: T305387
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Sobre o autor
davifmayer
Olinda - Pernambuco - Brasil, 34 anos
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