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"A campainha"


O tempo, naquele dia, estava escuro. Nuvens negras ficavam andando de um lado para o outro, em atitudes ameaçadoras, com esgares de pura instabilidade. Muitas pessoas correndo para se abrigar, pois era iminente o temporal. Pingos grossos, pesados já tinham iniciado seu trabalho e, era engraçado, como as pessoas tinham medo de se molhar. Por que? Não saberia explicar, simplesmente tinham e eram grotescas as maneiras pelas quais elas se esgueiravam entre poças d’água, pulando feito crianças com os gritinhos ensurdecedores brotados de suas gargantas em verdadeiros disparates. Eu também aproveitei a oportunidade para acentuar o alarido dos passantes, aproveitando as criancices que sempre teimam em se fazer presentes, em determinadas horas. Pensei comigo como seria bom estar em casa, no meio da família, no aconchego dos abraços e na segurança da paz envolvente!

Meu nome é Marta, sou filha de pais maravilhosos que, conseguiram fazer dos filhos, pessoas de grande valor espiritual e compensatório na difícil arte de viver. Tenho dois irmãos, ambos já na próxima fase de trabalho, pois iriam encerrar as respectivas faculdades naquele ano. Eu, por ser a mais velha, já tinha me libertado dos bancos escolares e enfrentava a dura tarefa de me adaptar ao primeiro emprego como artista  plástico, ramo em que sempre me dediquei com afinco e amor, pois não poderia ser de outra maneira, minha vida. Sempre admirei o belo, em todas as sua formas de expressão. Claro que esse início tem sido muito ameno, apenas o de ensinar às pessoas a arte da observação. É fascinante ver como elas passam a saber ver e analisar qualquer forma, sem os grilhões impostos ao simples olhar. displicente e descontraído. Há muito, era mister para mim ficar observando e valorizando tudo que a natureza, em sua total exuberância, nos oferecia. Ora em termos de cores, com seus matizes, ora com as fantásticas ofertas de luz e sombra, oferecidos. Ficava horas seguidas, dando largas à minha imaginação de simples expectadora, na época. Eram momentos só meus e, eu não me permitia, compartilhá-los com ninguém mais, tal a seriedade em que ficava a cismar, embutida nas minhas reflexões.

A chuva, com seus salamaleques, me enfeitiçava ao perceber a imensidão dos valores que ela nos protegia e ofertava oportunidades para nossa sobrevivência, por esse motivo mesmo, ao mesmo tempo em que eu vagava na beleza das águas caindo, mais desejava estar no recôndito do meu lar, gozando das benesses familiares.

Acelerando os passos, eis-me defronte à minha casa num bairro residencial,e acolhedor. Era um edifício de três andares na cor branca, enriquecido por amplas pedras em cantaria, que faziam-no ficar elegante e convidativo viver lá, com as janelas verdes, dando um ar fantasioso e agradável. Cada andar tinhas dois apartamentos, dando-nos a impressão de ser uma casa, uma só família, dada à proximidade com todos os moradores,  pessoas de tão grato conhecimento. Ali, éramos uma só família, unida, dividida pelos seis apartamentos. Éramos assim como todos em um, que muito nos alegravam e nos tornavam felizes. Adentrando, depois de um dia de labuta, eram os normais acenos alegres de receptividade de uma família feliz.

Pensei logo em como era bom estar em casa, no agasalho das roupas e do ambiente, protegidos da chuva e do frio que sempre vinham acompanhados. Como era quase hora do jantar, fiquei na sala de estar, naqueles papos intermináveis e agradáveis, ora trocando idéias sobre os acontecimentos do dia, ora ouvindo as estórias que sempre surgiam para aumentar nossas confidências familiares. Jantamos e, logo depois, eram constantes nossos envolvimentos em assuntos sobrenaturais que o ambiente daquele dia chuvoso e escuro, nos favorecia. Surgiram estórias e mais estórias, mas sempre versando o mesmo assunto: mistérios do sobrenatural. Era, talvez que no entusiasmo da escuridão do tempo lá fora, que saboreávamos tais momentos com mais interesse.

Naquela noite não foi diferente. Logo depois, com o temporal, veio a falta de luz para nos animar ainda mais, mas ela voltou logo depois e a efervescência do assunto amainou um pouco. No vai-vem dos intervalos, encetamos as mais diferentes estórias e, foi a festa total. Falávamos com aquele ímpeto de como é bom termos amigos que nos deixam dialogar e saborear todos os assuntos, sem censuras. Por causa disso digo, que mesmo se os assuntos não fossem  os mais importantes, davam sempre a sensação de completa liberdade de expressão e entendimento recíprocos, fazendo-nos soltar as imaginações.

Bem, o tempo nesse dia passou rápido e começamos os preparativos para dormir, cada um com seu ritual próprio, dando de vez em quando, umas beliscadinhas em petiscos que sempre tínhamos para comer antes de deitar, chamados belisquetes, em termos domésticos.

Já era quase meia noite. A campainha toca, minha mãe se dirige para a porta e olha pelo visor. Nada vê e, pensando que tinha sido um vizinho, abre a porta. A portaria já estava fechada, pois o porteiro a fechava às dez horas e ela ficou intrigada, mas, pelo avançado da hora não quis bater nas portas dos outros apartamentos. Ela disse que quem tocou a campainha, iria tocar novamente e ficou na sala, esperando. Chegou a comentar conosco que o apartamento de um médico estava fechado, porque ele estava de férias e tinha viajado com a família e com os empregados. O outro apartamento era de um casal recém casado e que ainda não tinha voltado da lua de mel, estando as chaves guardadas com ela. Então, por eliminação restavam três apartamentos sem contar com o nosso, claro. Os demais, todos eles eram de pessoas idosas que se recolhiam sempre cedo, mormente com a noite chuvosa e extremamente escura como aquela. Estava o maior silêncio , então ela resolveu apagar as luzes da sala e foi para o quarto dela. O relógio da sala, um carrilhão bate meia noite e meia, pois batia de meia em meia hora.  À uma hora da manhã, em ponto, a campainha volta a tocar. Meu irmão levanta e vai atender a porta. Ninguém estava por lá. Silêncio total.

Que coisa estranha! Eu perguntei a ele  quem tinha sido e a resposta foi: ninguém . Levantei e, num misto de curiosidade e estupefação, resolvi subir os dois andares pela escada, pois não tinha elevador e nada encontrei, nem réstias de luz debaixo das portas que pudessem evidenciar alguém acordado. Nada, a não ser um silêncio insuportável. Intrigada, voltei pra casa. Então meus pais já estavam na sala e comentavam o acontecido. O carrilhão bate as duas horas em ponto e, logo em seguida a campainha tocou estridentemente sem parar. Corremos para abrir a porta e não tinha viv'alma por ali. Foi um rebuliço doido lá em casa, ninguém foi dormir mais, ficamos na sala mordiscando guloseimas e comentando o acontecido. As mais diversas opiniões foram trocadas, até de um possível curto na campainha, mas isso não formava sentido pois os toques eram organizados em horas certas inteiras, que nos deixavam à deriva de outras conjecturas que não fossem as de coisa sobrenatural. Ali nas nossas barbas acontecendo, não era apenas especulação e sim veracidade inexplicável, mas era. Isso perdurou a noite toda de hora em hora, pontualmente. Assim que se aproximava da hora inteira, já ficávamos de olho na porta, com o coração na mão, naquela expectativa. Quando deu perto das cinco horas, meu irmão mais velho se postou perto da porta com a mão na maçaneta para, num ímpeto, abrir a porta e resolver logo de uma vez por todas aquele mistério. Bate o relógio as cinco badaladas e a campainha estridentemente  toca. Meu irmão abre rápido a porta e, nada vendo, olhou para a campainha estava espetada até o final, tremelicando, nervosamente, como se alguém a estivesse deliberadamente apertando. A campainha não parava de tocar sinistramente, estrondosamente...

Meu irmão, no meio da berradeira que nós fazíamos meteu a mão e a arrancou da parede nervosamente. Os gritos foram tais que os moradores dos outros apartamentos vieram nos acudir e, quando souberam do que tinha acontecido , começaram também a gritar. Nota-se que a porta de entrada do prédio era uma porta super pesada de ferro batido e sempre trancada com fechadura de segredo.

No dia seguinte, chamamos o eletricista para vistoriar algo errado na campainha e nada encontrou, estava perfeita.

São coisas que acontecem na vida que não sabemos explicar. O eterno mistério do sobrenatural, mas uma coisa ficou guardada conosco nas nossas mentes interrogatórias, de tenebroso e injustificável

Nada fazia sentido e não conseguimos correlacionar este acontecimento a nada.

Nunca mais, ao toque da campainha, ficamos tranqüilos. Sempre uns gritinhos para nos acompanhar e fazermos especulações as mais variadas possíveis. Teria sido um aviso? De que?

Difícil responder, mas existe um ditado popular que diz: “ Yo no creo en brujas pero que las hay, las hay.”.

 

(verídica - acontecido comigo e familiares)

(nomes fictícios)
Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 12/07/2005
Código do texto: T33279
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
473 textos (54617 leituras)
5 e-livros (275 leituras)
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Myriam Peres