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O ANJO

       O mês de maio, naquela cidadezinha no interior do Norte de minas, era um dos meses mais importantes e um dos mais bonitos do ano. Para mim, um mês triste, angustiante, e principalmente  frustrante,pois ainda não havia conseguido realizar o meu mais lindo sonho: coroar a Virgem Maria!
Durante todo esse mês a cidade se transformava num burburinho e a pergunta de todos os dias era a mesma: Quem irá coroar hoje, a Nossa Senhora? Será a filha de "fulana" ou a de "cicrana"? As  "fofoqueiras" se empolgavam com a curiosidade estampada no rosto. Uma, sempre mais maldosa que as demais, dizia: "Não! A "fulana" não tem dnheiro pra vestir a filha! Se, por acaso , for ela, aposto que será um daqules anjinhos bem  "pobrezinhos", com roupas emprestadas e com aquela horríveis asas de filó, enfeitadas com estrelas de papel! Dessa forma, como poderia eu, filha de uma pobre lavadeira viúva, daquele interiorzinho também tão pobre, transformar-me num anjo?
        Sabia que vestir-me de anjo era caro e mamãe não teria condições de arcar com tanto: vestido, asas, diadema, luvas, sapatilha, etc. Este, o motivo da minha frustração e tristeza.
Todas as noites eu ia à igreja, embevecer-me com aquele coro de anjos coloridaos, como as próprias flores que enfeitavam o altar. Parecia que eles, realmente caiam do céu...como é que eu ousava sonhar ser, um dia, um anjo como aqueles? O sonho mais impossível  ainda : colocar a coroa na cabeça de Nossa Senhora!
Cantaria bem bonito (isso eu sabia fazer), bem alto, enquanto minhas mãos trêmulas de emoção, depositariam na cabeça da Virgem a linda coroa reluzente. A coroa dos meus sonhos e dos sonhos de tantas meninas iguis à mim: pobres!
             
ALGUM TEMPO DEPOIS
Fim de maio. O último dia de coroação. Dia mais importante para a cidadezinha, por ser o dia em que se encerravam as festividades.
          Por mais incrível que possa parecer, EU iria coroar Nossa Senhora( como mamãe conseguiu o dinheiro para isso, não me perguntem). A alegria era demais para que eu me preocupase com esse detalhe. O vestido de cetim azul celeste, era todo "plissado", caindo solto, mangas largas e compridas, arrematadas nas pontas com arminho branco. Mais parecia uma vestimenta sacra ou a própia veste da Santa. As asas não eram aquelas simples asas de filó, das quais falavam as fofoqueiras...eram asas de penas brancas, pesadas, de ave mesmo....e a coroa?Ah! Minha coroa! Era o mais lindo diadema feito por Dona Almerinda, a mais famosa fabricante de diademas da cidade...e a mais careira. Era um diadema digno de uma rainha, todo em pedras douradas e azuis, para combinar com o vestido. Era linda a minha coroa! Eu seria por certo, o anjo mais boniro e o mais pomposo de todos! Mamãe havia conseguido tudo (não sei como), tudo que eu havia sonhado
FINALMENTE, CHEGARA O GRANDE  DIA
Levantei-me bem cedo, embora houvesse dormido mal..."medo de que, ao acordar, verificar que tudo não havia passado de um lindo sonho.
           Inexplicavelmente, não me sentia bem...mas precisava ajudar as minhas irmãs a preparar alguns "cartuchos de amendoim". Isto também fazia parte dos festejos:
cabia ao anjo principal, àquele que iria colocar a coroa na Virgem, distribuí-los aos demais anjos participantes. Pobre mamãe! Não deixou de cumprir com nenhuma das atribuições que lhe cabiam. Quanto sacrifício!
Como já disse, eu não me sentia nada bem naquele dia...Emoção? Talvez, mas ao lavar orosto, deparei com um caroço bem grande, atrás da minha orelha direita. Seria a tal da caxumba? - Mas, logo hoje?- pensei, já completara oito anos e ainda não havia contraido a doença. Nada comentei, afim de não assustar a minha mãe, preocupada como era! Também não queria estragar aquele dia, tão esoerado e sonhado por mim.
            Assim o dia transcorreu meio tenso e "arrastado", sobretudo pela minha saúde debilitada e pelos preparativos que geravam emoções e expectativas.
Corria "à boca pequena" que até o prefeito Heculino França estaria presente para encerrar com chave de ouro as festividades do mês dos anjos e das noivas. A cidadezinha estaria "em peso" na igreja! Como teriam o que comentar, mais tarde, as "fofoqueiras" da cidade, isso, para elas era o melhor da festa.
              Às dezoito e trita, começaram a me vestir e a me preparar...às dezenove e trinta,  começaria a"reza":missa, ladainhas, terços, etc...e para culminar, o tão esperado coro dos anjos!
Minha irmã mais velha era a mais entusiasmada...minto, todas estavam eufóricas. Paradoxalmente ,eu era a menos entusiasmada...pudera! Com a pressão do arame da coroa atrás da orelha, bem em cima do caroço! Eu gemia baixinho de dor...minha irmã, ignorando o fato, cada vez mais"enterrava" em minha cabeça, para que ficasse bem firme, pois a coroa era bastante pesada.
A impressão que eu tinha era de que iria desmaiar de dor, mas nada falava. Ficava ali, estóica:_Não, não posso fraquejar, depois de tanto sacrifício feito pela minha mãe e também não poderia deixar que meu sonho se desfizesse! Só me fortalecia e me mantinha de pé era imaginar a alegria da minha mãe quando visse subir as escadas ornamentadas de flores, em especial as rosas cor-de-rosa, aquele anjo tão lindo, literalmente "feito" por ela
             Não! Não iria de maneira alguma fraquejar...superaria aquela dor, custasse o que custasse.....aiiiiii, e como doia!!!
Finalmente fomos, eu e minhas irmãs para a igreja, em direção ao meu grande sonho! Minha mãe iria mais tarde,depois que ajeitasse a casa, pois poderia aparecer alguém, quiçá até mesmo o prefeito, para nos cumprimentar...a mim e à minha mãe, é claro, pela beleza do espetáculo e pelo meu grande sucesso.
Sim ! Seria um sucesso! Disso eu tinha certeza! E foi...
Apesar da dor, agora lancinante ou mesmo por causa  dela, eu cantei como jamais  cantaria outra vez. Nem me constrangi com aquele "povão" que se punha na ponta dos pés para melhor enxergar aquele anjo que cantava tão bonito!
               _ "Aceitai esta corôoa, e também meu coraçã..ãão!!!, a voz retumbava dentro daquela grande e única  igreja da cidade, mas eu cantava apenas para as minhas "duas mães: a terrena e para a Mãe  do céu, a Virgem Santíssima! Não via mais ninguém! Cantava alto e bonito..(tinha ensaiado tão pouco!)

































A coroa que eu segurava com as mãos enluvadas e trêmulas,se desdobrara em duas, com uma eu coroava  a Virgem, e  a outra era delicadamente depositada na cabeça da minha mãe.

                     A dor aumentara com todo o esforço despendido e eu me sentia ainda mais fraca! Outra vez me adverti:-não fraqeje! Está quase acabando!
                _ "Salvs, salve, Mãe queriiida"...- era o final do cântico.
Não se usava bater palmas dentro das igrejas como se usa hoje em dia, mas me senti aplaudida...ovacionada por todos!
Desci do altar, cambaleante e febril. Como doia!! Agora não só o caroço, mas o corpo todo.
Enquanto minhas irmãs distribuiam os tais "cartuchos de amendoim", eu procurava por minha mãe. Queria tanto que ela me abraçasse, tinha certeza que todo aquele mal que sentia iria diminuir. Apenas ela, com o olhar radiante de orgulho, seria capaz de aplacar aquela dor que só fazia aumentar. Seria a recompensa de tudo, como deveria estar orgulhosa! Mas onde estava ela?
A febre havia aumentado e o meu corpo já não agüentava aquelas asas pesadas. E a coroa, esta, teria que ser retirada imediatamente, antes que eu caísse por terra, ali, diante de toda aquela gente.
Minha irmã, finalmente, percebeu o meu estado lastimável, e, afoita,começou a desamarrar as fitas que prendiam as asas, mas eu a interrompi bruscamente: _, mamãe ainda não veio para abraçar-me. Ela contestou:-você está com muita febre, e, além disso, mamãe já viu como você estava linda naquele altar e como cantou bonito! Ela deve estar muito feliz e orgulhosa
Dizendo assim, retirou minhas asas e a coroa...quase desmaiei de verdade, pois aquele maldito caroço, com a retirada da coroa, começou a latejar incrivelmente. Logo após retirou também as luvas e até os sapatos. Carregou-me no colo com carinho e foi-me levando para o adro da igreja.
_onde está maãe?_eu perguntava._deve estar no meio desse povão recebendo os cumprimentos..._respondia quase por responder, preocupada comigo. Fique calma! Vamos encontrá-la já, já...
Seguimos para a rua e tomamos a direção da nossa casa, que ficava a algumas quadras dali. Minhas outras irmãs, também haviam desaparecido. Por certo estariam com mamãe.
Muita gente descia a rua junto de nós e nem sequer reparava em mim. Despida de minhas asas e coroa, os cachos dourados desfeitos, descalça, o vestido azul celeste amarrotado, já não era nem a pálida sombra daquele anjo lindo que tanto sucesso fizera há pouco! "Consumatum est"!
A certeza do sucesso, eram os comentários das "fofoqueiras":
_Viram, como a filha de dona Bela estava linda? Como cantou bonito! Era sem dúvida o anjo mais bonito e o mais "arrumado" do mês de maio!
Será que a minha mãe estaria também ouvindo o que elas comentavam?_ pensava eu, sorrindo mesmo entre as lágrimas de dor...
O povo se dispersava pelas ruelas escuras e algumas ainda permaneciam naquela pracinha de aparência bucólica e fria.
Eu, não desistia!_ "cadê a minha mãe?
Tiná, minha irmã mais velha impaciente já com o meu choro e teimosia respondeu quase gritando: DEVE ESTAR POR AI...
a certa altura, já cansada, colocou-me no chão:_ você consegue andar um pouquinho?

                  Um "vulto" trôpego, mancando, apertando o peito com a mão esquerda,( ela sempre fazia esse gesto quando se sentia cansada), vindo no sentido contrário ao nosso, impediu-me de responder à pergunta da minha irmã.
A minha mãe mancavca, em virtude de uma úlcera na perna esquerda....Não...não podia ser ela, pois eu a havia visto lá dentro da igreja, sorrindo orgulhosa ..e até a havia coroado!!!???Não...devia ser a febre que havia aumentado. Eu estava vendo "coisas"...

Tiná, espantada, perguntou ao vê-la se aproximar:MAMÃE? É A SENHORA?
A voz de Tiná estrondou no meu ouvido doente, fazendo com que aumentase ainda mais a dor...
Mamãe...(sim...era ela...) _respondeu com outra pergunta mais  espantada e triste:
            "_UAI! JÁ ACABOU A COROAÇÃO?
 
   
                                              Fato real
dezinha
Enviado por dezinha em 31/08/2005
Código do texto: T46575
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Sobre a autora
dezinha
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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