Fios do Tempo

“O jantar está na mesa”! Gritou Alice.

E foi aquela correria de seus dois irmãos, Pedro e Débora, após um dia inteiro de arrumações devido a mudança de casa.

Alice tinha vinte e um anos e cuidava dos irmãos desde o dia de seu último aniversário, dia que perderam os pais em um assalto em sua antiga casa.

Pedro tinha dezessete anos e Débora quinze, mas a fome deles era igual: “comem feito leões”, dizia Alice. Pedro reclamou: “tem um fio de cabelo no meu prato, que nojo”! Alice disse: “tire o cabelo e coma a comida! Isso acontece”.

Depois do acontecimento trágico na família, os três ficaram morando com uma tia por um ano, na mesma cidade grande que moravam com os pais. Alice, atormentada pelas lembranças, resolveu mudar para uma casa no campo. Era um casebre que pertencia a família de sua mãe, porém ninguém gostava do lugar. Eles mesmo reformaram a casa, cercada de grama e arvores e tinha até um balanço perto do portão de madeira. Debora adorou. O novo lar não ficava longe da cidade, mas não se via muita gente passando por lá. Alice levava seus irmãos bem cedo para a escola, então ia para o trabalho, um antiquário lotado de quinquilharias por falta de clientes e que era muito admirado por ela.

Passado um mês naquela rotina, ora Pedro se queixava do fio de cabelo na comida, ora Debora. Alice nem comentava, somente tirava o fio e jantava sossegada. Em um dia de domingo, Alice acordou assustada com o escândalo de Debora: “Venham ver o que achei, rápido”! Pedro também acordou e correu lá fora para ver porque sua irmã mais nova estava em crise de histeria novamente.

“Parece um túmulo”! disse Debora em meio a um matagal próximo da casa. “É um túmulo e bem antigo”! Disse Alice. Até tentaram enxergar o nome na lápide, mas estava muito sujo e encoberto pelo mato. “Mais tarde vou limpar este quintal e veremos o que mais tem por aqui”, falou Pedro todo empolgado com a novidade.

Enquanto Débora balançava e cantava, Alice cochilava na cadeira da varanda. Pedro, suado, limpara grande parte do terreno e já era possível ver o nome da morta. Agora já sabia que era uma mulher. “Alice, venha ver! Limpei a pedra!” Aqui eis que repousa a amada esposa Alina Magalhães.

“Quem será? Pode ser da nossa família”! Disse Pedro. “Acho que não, até porque tá enterrada no terreno ao lado e nem é nosso”. Falou Alice. Débora, que vinha correndo ao encontro dos irmãos, tropeçou e caiu quase em cima do túmulo. Levantou desajeitadamente e notou que tinha uma coisa enroscada em sua sapatilha. “Veja isso maninha, no meu pé”! Alice perguntou: “você está bem? Que horror! Isso é um tufo de cabelos, que nojo”! “De onde veio isso? Perguntou Pedro.

Eles seguiram o emaranhado de fios que terminava justamente atrás da cova. No impulso, Pedro com um só golpe de facão rompeu os cabelos sujos, secos e grossos que prendiam o pé de sua irmã. Havia apenas uma pequena abertura de onde saía aquela cabeleira toda. Os três entreolharam-se encabulados com o ocorrido. “Estranho isso”, comentou Débora. Alice disse: “melhor voltarmos para casa”.

O silêncio na mesa de jantar foi quebrado por Pedro: “não vou comer hoje”! “Nem eu”, disse Debora. “Tudo bem, eu também não”, falou Alice. E os três jogaram na lixeira suas comidas com o fio de cabelo de cada dia.

Pedro sentia medo de voltar ao túmulo, mas sua curiosidade não o deixou dormir. Logo cedo, pegou a enxada e foi checar como era possível ter tanto cabelo numa cova. Bateu com a enxada várias vezes no buraco onde estava o emaranhado e então pôde ver dentro do túmulo pela parte de trás. A luz do sol que raiava no céu, tão límpido, clareava até o fundo. Pedro abaixou trêmulo para olhar bem lá dentro e de súbito caiu de costas no chão. Pegou a enxada e saiu correndo para casa.

Alice que havia acabado de acordar, lembrou que era feriado, então teriam mais um dia de descanso. Pedro entrou na casa com um palmo de língua de fora e disse: “eu vi! Não tem nada lá! Só o resto de cabelo na beirada. Me assustei com um reflexo do sol e corri”! Foram tomar café e falaram muito sobre o túmulo vazio, onde estaria os ossos? Como que só tinha cabelo lá?

“Hoje não achei nada no meu café”! falou Debora rindo-se. “É mesmo, nem eu”, admirou-se Pedro. Alice, como sempre, preferiu não falar nada sobre os malditos cabelos que encontravam na comida. Ela pediu para o irmão voltar no terreno e cobrir com terra o buraco que ele tinha cavado. Ele foi, mas ela teve que ir também, bem mais tarde, no fim do dia.

Os dias passavam e eles já não lembravam mais daquele dia esquisito que tiveram. Era sábado, e como de praxe, dia de faxina. Cada um limpava seu quarto e dividiam sala, cozinha e banheiro. Débora andava sonolenta e com dores, cada dia em uma parte do corpo. Alice não mais se importava, pois já a levara ao médico e após muitos exames, ele disse que era emocional, ela não tinha nenhum problema clínico.

Débora quase nunca limpava em baixo da cama. Resolveu limpar e ao levantar o colchão tomou um enorme susto: “Minha nossa! Alice, Pedro! Socorro!” Desmaiou.

Assustados com o que viram, sacudiram Debora que acordou rapidamente. Pedro foi na varanda buscar o facão para dar um jeito naquilo. O colchão estava preso a cama por um “bolo” de cabelos, parecia planta trepadeira, mas esses não eram feios, eram brilhosos e cheios de vida. Pedro desferiu um golpe bem no meio do enrosco e um líquido viscoso avermelhado espirrou por todo o quarto.

Os três assustados e sem entender nada, foram para casa da tia. Contaram a ela o que estava acontecendo no casebre. A tia disse a eles que nunca ouvira história tão espantosa como esta e contou-lhes o que sabia sobre a casa no campo: “O único da família a morar lá foi o bisavô de vocês com a família dele. Antes, moravam as pessoas que construíram a casa. O dono vendeu pro meu vô, pois sua esposa tinha desaparecido há dois anos, então resolveu sair a sua procura deixando a filha morando aqui na cidade”.

“Nossa, tia! Será que é possível encontrarmos essa filha ou alguém da família?” Perguntou Pedro. “A filha não sei, deve tá bem velha ou já morreu, mas a neta eu conheço. Ela trabalha na farmácia no fim da rua Anadina. Por acaso sou cliente de lá e conversamos bastante, por isso descobri seu parentesco. Nós até achamos muita coincidência”, falou a tia.

Alice pegou as chaves do carro e foi até a farmácia. Entrou e já perguntou: “você é Benedite Magalhães?” A moça surpresa responde: “sim, sou eu! Posso ajudar?”

“Sou Alice, por favor, Benedite, me desculpe em incomodar, mas estou morando no velho casebre que pertenceu a sua família! Tem acontecido coisas estranhas”.

“Bem Alice, nunca morei lá, apenas minha mãe até ficar moça, porque depois seu pai a trouxe para morar na cidade, quando a mãe dela sumiu. Ela não gostava de falar disso, mas me contou que certa vez, escutou sua mãe Alina chorando e falando ao pai que iria partir. Sofria de depressão profunda, uma mulher sem alma, dizia meu avô. Mas ele respondeu a esposa que jamais ela iria deixa-lo. Nesse mesmo dia, na hora do jantar, vovó estava com os olhos inchados de chorar servindo a mesa e, minha mãe perguntou se estava tudo bem, ela só respondeu com aceno de cabeça. Depois foi até o quarto onde minha mãe dormia e deu-lhe um beijo, o que não fazia há muito tempo e sorriu”.

“E depois?” perguntou Alice já aflita.

“Essa foi a última vez que ela viu a mãe. Me falou também que a vovó era bem parecida comigo e é só o que sei. Meu vô também sumiu, nem o conheci”, dizem que ele foi visto rondando o casebre uns dias depois de ter ido embora”.

Alice olhava para Benedite da cabeça aos pés e pode notar que ela era alta, muito bonita apesar dos quarenta e tantos anos, tinha longos cabelos pretos bem lisos e volumosos, chamavam bastante atenção. Alice agradeceu Benedite pelas informações e se foi. Achou melhor deixar os irmãos na casa da tia e dormir sozinha no casebre, podendo encarar seu medo de frente. Quem sabe não desvendaria esse mistério.

No quarto de Débora, estava o líquido seco grudado no chão e os fios pretos ressecados embolados na cama. Alice arrastou tudo para fora da casa. Despregou o velho carpete colado ao assoalho e jogou água, quando de repente notou que tinha umas tábuas soltas no lugar que estava a cama. Resolveu ligar para Pedro ir até lá ajuda-la.

“O que foi Alice? Por que nos deixou lá e veio sozinha? Débora já está dormindo e ela disse que se sente muito bem hoje”, falou Pedro ao chegar. Os dois arrancaram as tábuas frouxas e um cheiro de mofo se torna insuportável dentro do quarto. Abrem as janelas e ao retornarem com a lanterna, veem um monte de cabelos no buraco. “De novo”! Fala desapontado. Com o cabo de vassoura, reviraram os cabelos e encontraram ossos humanos.

Alice liga para a polícia. Depois da investigação e recolhimento dos ossos levados para exames de DNA, os dois irmãos vão para casa da tia. Dias depois, Benedite procura Alice na loja de antiguidades e agradece emocionada: “Obrigada por encontrar a minha vó! O resultado saiu hoje, ela foi estrangulada com o próprio cabelo! A polícia me disse que a lápide é mais recente que a data da morte dela. Provavelmente, meu vô voltou e construiu o túmulo, mas não conseguiu terminar, porque os compradores da casa mudaram antes do que ele imaginava”. Alice abraçou Benedite e disse: “Os cabelos! Eram pedidos de socorro”.

Na casa da tia, Alice chamou os irmãos para voltarem ao casebre, já que tudo estava esclarecido. Débora sentia-se muito bem de saúde, não tivera nem uma dorzinha qualquer e animou-se com ideia dizendo: “Estou com saudade do balanço”! Pedro também concordou dizendo: Espero que agora a gente possa comer em paz, sem os malditos fios de cabelos na comida”!

Michele Valverde
Enviado por Michele Valverde em 28/08/2014
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