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DEPOIS DE TER VOCÊ...

 

Mariana estava entediada. A noite trazia o mormaço da tarde quente. Pensou em sair, espairecer num barzinho. Depois, ponderou a escolha, não estava a fim de ouvir lamentos de amigas separadas que ofertavam a própria vida em troca de um amor. Também se cansara de cantadas infames recheadas de impróprias frases-feita que a deixava enojada. Acendeu um cigarro, entornou mais um copo de cerveja. Na vitrola tocava Louis Armstrong. Ouviu o som da campainha. Alguém havia se lembrado dela. Abriu a porta e teve uma doce surpresa.
- Getúlio...Não acredito que é você! – gritou Mariana.
- Mariana, você está maravilhosa!
Feito um sonho, Mariana sentiu a vida retornar, lhe dando nova chance de felicidade. Afinal, Getúlio, certamente fora sua única paixão. Há tempos não o via. Agora o tinha a seu lado, com a mesma brilhantina na vasta cabeleira, o bigode bem aparado e ainda jovem, apesar de ter ultrapassado a casa dos quarenta.
- Vim te convidar pra sair, aceita?
Mariana sentiu a face corar, há muito não era solicitada. Um leve tremor subiu pelas pernas bem torneadas.
- Se aceito? Deus do céu, sempre sonhei com este momento...Você entrando pela porta e me convidando. Aceito tudo, sou tua serva!
Saíram, os laços de afetividade eram grandes. Um beijo caloroso selou o reencontro. Como não tinham mais tempo para preparativos, foram a um motel. Mariana jamais tivera uma noite envolvida com tanto amor e ternura. Chegou a agradecer a Deus, pelo envio de seu amor. Getúlio continuava um “gentleman” impecável, de refinado trato.
Os primeiros raios solares beijavam a terra, quando Mariana retornou ao lar. Extasiada, feliz; sentindo antecipada saudade de encontros futuros. Viu o carro de Getúlio se distanciar. Precisava descansar, dormir. Novamente ouviu a campainha, desta vez, de maneira incessante!
- Calma, parece que o mundo acabou, já vou atender!
Olhou pelo visor, parecia uma multidão. Quase todas suas amigas estavam ali.
- Meu Deus, é uma invasão? – perguntou Mariana.
- Quase. Esqueceu que marcamos um chá de cozinha para hoje? – respondeu uma das amigas.
Mariana avivou a memória e se lembrou. Era isso, tinha que enfrentar aquela entediante reunião. O circo estava montado. Presentes, doces, bebidas, salgados; brincadeiras de mulheres encalhadas e algumas virgens querendo safadeza. Em determinado momento, uma brincadeira chamou a atenção. Consistia em adivinhar o nome de quem estava no retrato, logicamente que os retratos estavam alterados, alguma partes foram omitidas justamente para dificultar o índice de acerto.
Era a vez de Mariana participar do jogo de memória. Ela estava a ponto de reconhecer o retrato que lhe era incumbido. Apenas partes dos olhos da figura  masculina era mostrado.  Mariana decidiu arriscar, se ganhasse, sua turma sairia vitoriosa. Disse:
- Este aqui, - falou apontando paro o retrato – é o Getúlio.
Foi com felicidade que Mariana recordou a maravilhosa noite que passara nos braços de Getúlio.
Quando montaram a foto para confirmar o nome, falaram:
- Vamos mudar de retrato, este não vale.
- Como não vale? – indignou-se Mariana.
- Querida, este aqui da foto, o Getúlio, faleceu há mais de um ano. Pelo trato, não podemos acordar os mortos.
Mariana sentiu um aperto alucinante! Morto? – pensou. Concluiu que não poderia ser verdade. Não estava senil, ela e Getúlio se encontraram há poucas horas e tudo realmente acontecera. Ainda sentia o perfume, o corpo ainda estava cansado por ter recebido tanto amor! Empalideceu, feito robô, acompanhou o final do chá de cozinha com suas oito amigas. A tarde era cinzenta, quando conseguiu ficar só. Correu, ligou o computador e buscou a data. Lá estava a resposta que não queria ver. Realmente Getulio falecera há exatamente um ano atrás. Curioso é que o acidente fatal com o ônibus lotado, não poupara uma só alma. Todos haviam sucumbido na capotagem. Mariana correu para o cemitério, estava derrotada, tremula, o coração em compasso acelerado. Chegou. Estava frente ao túmulo e certificou-se da morte de Getúlio.
- Que faço agora, Deus todo poderoso? – suplicou, estendendo as mãos aos céus.
Deus nada respondeu.
- Getúlio, depois de ter você... – as palavras não emitiam som. Um nó interceptava
A dicção.
Intuitivamente, Mariana correu por todo o cemitério, olhando cada túmulo. Em algum jazido, poderia ter a resposta que buscava. E foi atordoante quando viu, um a um,  oito jazidos perfilados, onde descansavam suas amigas que estavam no chá de cozinha. Mesma data, mesma tragédia de um ano atrás.
- Deus, porquê que me poupastes, porque? – gritou com a divindade.
Parecendo insana, Mariana correu ainda mais, com velocidade acelerada e retornou ao jazido do amado Getúlio. Beijou a lápide e depositou flores. Algo a fez mudar o ângulo da visão, Mariana obedeceu e olhou para o jazido que estava á direita! Temerosa, deu alguns passos e encarou o jazido, olhou a foto amarelada, as flores cálidas, as velas afogadas na cera; e foi com assombro irreal que constatou, seu fenecimento. Também estava morta, falecida há um ano!
Paulo Izael
Enviado por Paulo Izael em 27/09/2005
Código do texto: T54358
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Sobre o autor
Paulo Izael
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Paulo Izael

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