OBRAS DE SANGUE

Joice acordou tarde, precisava se arrumar o mais rápido possível. Mário passaria para pegá-la em minutos. “Seria um saco ter que responder todas as perguntas", pensava ela. “Saí para passear, apenas isso".

Resolve ligar.

– Oi amor... não... ainda não estou pronta. Me dê meia hora... Sim! Meia hora.

Desligou.

– Sorte que não moramos juntos. Falou baixinho

Mário respeitou o tempo solicitado e foi ao seu encontro. Ela sentia necessidade de tê-lo por perto, sentia-se segura ao lado daquele homem bruto. Ele era domador de cavalos na fazendo do pai de seu pai. Se conheciam desde pequenos, porém, tomaram rumos diferentes.

Joice foi para a Europa estudar na academia de Belas-artes de Florença, na Itália e Mário ficou na lida do campo, seguindo a tradição da família.

Ela era a estrela da primeira exposição da cidade, quadros feitos com traços finos e que transpareciam a ideia de homenagear a cidade em que nasceu e cresceu. A cidade passava por momentos turbulentos e misteriosos, homens estavam sumindo sem deixar rastro. As obras feitas por ela retratavam as belezas daquela pequena cidade do interior.

Seria uma maneira de amenizar o temor dos moradores.

Joice aproveitou o belo dia de sol para expor seus desenhos ao ar livre em frente a um ginásio muito frequentado na cidade e também vendê-los a preços populares. Queria colocar sua marca em todas as residências do local. Em menos de uma hora havia vendido todas as obras, um sucesso total. Ela percebia que suas pinturas e desenhos conseguiam tirar alguns tímidos, mas sinceros sorrisos daqueles rostos tristes.

Mario sugeriu um brinde.

Os convidados ergueram suas taças de champanhe e em coro que parecia ensaiado, gritaram: “Viva a Joice!”, em meio a muitos aplausos e assovios. Aquele momento estava realmente lindo. Era tratada como uma estrela, todos queriam tirar selfies com a artista.

Ela desfilava entre os seus convidados e demais moradores exibindo sua bela silhueta bem marcada em um vestido tubinho. Mário ficava sempre por perto sem perdê-la de vista e mantinha no olhar a admiração pela artista que trazia em seu rosto um largo sorriso.

Ele nunca entendeu a razão daquela mulher estar com ele. Ela tinha gostos refinados, vestia-se sempre como princesa e principalmente, era rica.

Quando tudo parecia perfeito, a polícia chegou ao local. Joice foi recepcioná-los enquanto Jorge atendia os convidados.

– Boa tarde policiais. Sejam bem-vindos. – Disse, muito sorridente.

O delegado Oscar e seu parceiro apenas acenaram com a cabeça.

– Que bom que vieram, pena que já vendemos todos os quadros, mas ainda podem aproveitar o final da exposição. – Disse Joice.

– Dona Joice, nós recebemos uma denúncia de que a senhora estava envolvida no sumiço das pessoas dessa cidade. – Exclamou o delegado.

– Isso só pode ser uma piada! Eu amo essa cidade, nasci aqui, conheço todos. – Disse Joice.

– Nossa fonte nos disse que a senhora estava ocultando cadáveres em seu ateliê. – Completou o delegado.

– Vocês podem ir até lá, eu não devo nada. – Disse Joice.

– Já fomos, e encontramos dezoito corpos ressecados em um fundo falso. – Falou o parceiro do delegado.

– O que está acontecendo aqui? – Interviu o namorado de Joice.

– Estão dizendo que matei os homens que sumiram. Eu não saio de casa sozinha nem para comprar tinta. Mário é testemunha, se não fosse ele trazer o material necessário e cuidar de mim não haveria exposição. – Disse Joice Chorando.

Ele sabia que ela saía todas as noites e que ficava sozinha, inclusive nos últimos meses, os programas entre os dois eram sempre diurnos. Ela alegava preferir pintar a noite.

– A senhora está presa! – Disse o delegado.

– Não pode ser. – Falou Mário.

No fundo de seus pensamentos, ele sabia que algo estava errado. Já imaginara estar sendo traído, mas nunca passou por sua cabeça a ideia de sua amada fosse uma assassina. Não apenas isso, uma serial Killer.

– O senhor terá de prestar depoimento. – Disse o delegado a Mário.

A algemaram com as mãos nas costas e a colocaram no banco de trás do carro, ligaram as sirenes e partiram em direção à delegacia.

O delegado estava inquieto, mais de trinta anos de profissão, nunca havia passado por algo tão brutal. Olhou pelo retrovisor e percebendo o semblante calmo de Joice, indagou:

– O que você pensa que as pessoas fariam se soubessem que a tinta do quadro que compraram é feita de sangue?

– Sangue? Minhas tintas? O que o senhor está falando? – Respondeu Joice.

– Não se faça de desentendida, encontramos sangue na composição de sua tinta, não tem mais como se defender. Além disso, já faz algum tempo que estamos lhe investigando.

– Estavam me perseguindo, mas como assim? Eu não saio de casa.

– Bem, seu marido me contratou, queria saber se o traía.

– O quê? Trair? Quem ele pensa que sou?

– Porém, nunca vi nada além de seus passeios pelas ruas desertas dessa cidade, e também não entendi como que a senhora os matava.

– Não entende porque eu nunca deixaria ver. Sabia que alguém estava me seguindo, então parei. Só não imaginava ser aquele covarde do meu namorado.

– Então, senhora Joice, como os matou?

– Começou quando vendi meu primeiro quadro aqui nesse fim de mundo. Com a pintura, eu entreguei um cartão, convidando o comprador para passear em alguma determinada rua deserta. Apenas local, data e hora.

– Como não suspeitei? - Questionou-se o delegado.

– Fazia o “convite” apenas para os homens solteiros e que tivessem pouca família. Menos gente para procurar.

– Dezoito homens em menos de dois anos. – Retrucou o delegado.

– Quem recusaria meu convite? Foi muito fácil.

– Viúva negra! – Disse o motorista

– Não! Nunca deixei que tocassem em mim. Apenas utilizava o sangue inútil dessas pessoas podres e fedorentas dessa cidade.

O delegado ficou impressionado com a frieza daquela mulher. E completou:

– A senhora vai apodrecer na cadeia.

– E vocês no inferno. Gritou Joice.

Quando estavam passando por cima de uma grande ponte, Joice passou as pernas pelas algemas colocando os braços para frente, tirou um estilete que estava preso em sua perna e cortou o pescoço do policial que dirigia. O carro desgovernou e caiu de uma altura de 10 metros e afundou no rio.

Os corpos dos policiais estavam no carro, presos pelos cintos. O corpo de Joice aparentemente perdeu-se pela correnteza e nunca foi encontrado.

Não houve mais exposições na cidade, mas os homens continuaram sumindo.