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Carpe Diem

- Entre - disse A.
- O que deseja falar conosco? - perguntou E.
- Sentem-se - curvou-se A. - o caso é mais grave do que poderíamos supor.

O local não era nada agradável(aliás, que hospital é "hospitaleiro", cordato? Sempre são taciturnos e desagradáveis). Tinha uns quadros naquela sala, de vários estilos, mas, no momento, Munch seria uma boa opção para nos retratar. Havia uma mesa grande, mas não o suficiente para separar as nossas angústias das de A. A saleta era azul, mas a tinta estava desgarrando da parede. Talvez nem ela aguentasse permanecer ali. Todo aquele suspense que A. fazia nos era assustador, mas o medo nos impelia ao silêncio, até que a porta foi fechada e ele se aproximou:

- Preciso de muita sobriedade... - iniciou A.
- Fale-nos doutor, o que há? - pedimos eu e A.
- É câncer.

O choque foi imediato. Sua proporção foi tão grande, que E. abriu a boca para falar e as palavras fugiram. Mantive-me em silêncio. Acreditava ser uma espécie de logro, uma brincadeira de mau gosto que revelaria, posteriormente, a verdade; mas fui percebendo que não. E. estava horrorizada. Demorou um pouco, mas consegui, enfim, quebrar o silêncio:

- O que podemos fazer?
- Aguardar o tratamento. Começa ainda este mês, mas o que ela carrega é muito ruim. Têm fé? Então rezem! - disse ele, impetuosamente.

"Carpe diem", mencionou Horácio, certa vez em uma de suas elegias, ao descobrir a fugacidade da vida. Os movimentos que aludiam a tal época conheciam e utilizam o tema. Nem Descartes se aproximou mais da verdade do que o referido poeta: aproveite o dia, pois as trevas indubitavelmente surgirão. Para mim e meus familiares, o inferno estava começando. Acabávamos de cruzar sua fronteira agora, após o prognóstico. Carpe diem era, agora mais do que nunca, nosso desejo, mas estava longe de ser nossa realidade.
Ela ainda ostentava todos os fios na cabeça, mas a barriga crescia incessantemente, acuando a nossa vivacidade. Sinais oncológicos que ela não percebia e assim vivia melhor do que nós. "Estou comendo demais", dizia ela, de forma inocente.
A notícia não lhe fora dada, por desejo nosso. Relutávamos em fazê-lo. Esperaríamos mais alguns dias, apesar de termos aumentado a frequência das visitas, sempre alegando um novo motivo para que ela não desconfiasse:

- Olha o que M trouxe para você - dizia E. - achamos que você adoraria.
- Ah, obrigada. - dizia ela muito secamente, pois era o seu jeito sisudo.

Aquela afetação toda me corroía. Não que eu duvidasse do amor de todos por ela, mas porque estava nítido o esforço que fazíamos a fim de aparentarem mais graça, de fazê-la rir. Aquela união familiar não nos era peculiar, apesar da boa relação que mantinhamos. Minha vontade era... Nem sei o que realmente eu sentia; eu tentava fingir felicidade:

- Fala C., como você está? - perguntava, já sabendo a verdadeira resposta, e a que eu ouviria.
- Estou bem, com uma leve sonolência. Tenho dormido muito tarde.

Tudo na vida dela se resumia em sono. Era a melhor justificativa para o seu abatimento. Não conseguia conceber motivos para esse sono tardio. Ela sempre dormiu tão cedo, sempre esteve tão disposta. Imaginei que a doença manifestava seus nefastos efeitos. Sua companheira I. já mostrava sinais de cansaço. Ela sabia de tudo o que se passava, e já tinha uma certa idade para suportar tal fardo, até que veio a falecer uma semana após o relatório completo do médico. C passou a viver com uma parente distante.
Fiquei umas semanas sem vê-la, pois a labuta me tomava muito tempo. Talvez nem exigisse tanto tempo, mas havia encontrado  a fuga para tal massacrante realidade. Não desejava vê-la novamente pondo sangue pela boca. Foi traumático. "São os efeitos colaterais do remédio", dizia A. Mas tudo era efeito colateral, tudo! Eu já não aguentava mais toda aquela camuflagem, por que não falavam a verdade logo? Não extravasei, mas tinha minhas dúvidas em relação a aparente harmonia da situação. Passou-se um ano e meio até recebermos a penosa notícia:

- O tratamento falhou. Não há mais jeito. - disse A.
- E agora...?
- É esperar- se antecipou ele - Nossa linha médica não realiza amputações; aplicamos paliativos, sedativos e aguardamos. Chamamos esse procedimento de morte assistida. É uma forma menos dolorosa. Pressupomos que nossos pacientes sofrerão muito mais se mutilados. Em certos tipos de câncer nós aceitamos tal recursos, mas no caso de C. é inviável.
Os dias subsequentes nos transtornaram. A atmosfera se tornou ainda mais obscura. Todos sofríamos isolados, era um modo de penar calado, sem extravasarmos nossas dores. A outra parte da família ostentava uma avareza incomensurável. Com todos os problemas eles só pensavam em agir inventários. A nossa situação ficou tensa e tive certeza de que C. era a responsável pela guerra fria em que vivíamos, e seu fim seria o estopim da discórdia.
Acovardei-me ainda mais. Passei a não visitá-la. Gostava muito dela, mas preferi evitar a circunstância. Passei, inclusive, a evitar minha própria casa,  pois o assunto era, constantemente, C. e a doença, o agravamento do quadro, o rancor do lado escuso da família. Minha casa, nossa família, tudo era ódio e mágoa. Também, partilhavamos com C. o isolamento; a doença é a forma mais infeliz de solidão. Isso gerava grande tristeza. O riso só havia se fosse por sarcasmo; a alegria passava longe de nossas portas.
Entrava dia, saía dia e eu me escondia. Me tornei um rato, um execrável, abjeto e frouxo. Pensava em visitá-la e desistia de tudo. Mas não poderia continuar assim. Certo dia decidi vencer isso, nem que fosse só por aquele momento; até porque, se não fosse nesse dia, poderia não ser; nunca mais. Cheguei à sua casa e nem bati, como de costume. Fui entrando. Ela estava na sala escura, taciturna como seu destino, vendo TV.

- Diga C. - tentei manter meu jeito despojado, por mais mascarado que soasse - como estamos?
- Direitinho - refutou ela
- Eu estava pensando em você hoje e resolvi te fazer uma visitinh...

Vi seus olhos crisparem e seu corpo se contorcer. Ela fingia não sentir , entretanto seu estado se agravava mais a cada dia. Fixei os olhos nela e não consegui ver senão um relógio, um cronômetro regressivo que estava quase zerando; a meia-noite, que finalizava um dia. A conversa não se prolongou; não queria ver seu fim, aqueles últimos momentos doíam-me muito. Aproveitei e fui embora.
No mesmo dia aconteceu. Passaram-se apenas 3 horas... 3 horas que me separaram dela; 3 horas que a separavam da vida. Nossa vida ficou naquela saleta azul do hospital. Tudo o que se seguiu convergiu para a desavença. Três anos se passaram e me imagino quantas três horas não caberiam dentro desse período. Precisamos de pouco mais do que isso para colocarmos os "escusos" para fora; mas não sem que ao menos algumas pilhagens. A vida perde o valor e a morte é a esperança de obter algum valor a partir de uma dada herança. Difíceis são algumas lições. Carpe diem, mesmo que seja tarde.
Felipe Vigneron
Enviado por Felipe Vigneron em 24/08/2007
Reeditado em 16/05/2012
Código do texto: T621155

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Sobre o autor
Felipe Vigneron
Campos dos Goytacazes - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
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