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Nunca é tarde para se arrepender, Júlia

Júlia saiu tarde do trabalho. Tinha faltado o serviço no dia anterior e teve que compensar trabalhando até tarde. Era 22h
Trabalhava em casa de família. Limpava, cozinhava, passava e levava as crianças para a escola. Tinha um dia bastante corrido pois fazia de tudo.
Mas nem sempre foi assim.
 A vida pregou uma peça em Júlia, uma moça determinada que tinha muitos sonhos  e desejos, mas era ambiciosa. Nasceu num lar simples, seus pais eram bastante atenciosos mas não tinham dinheiro para alimentar sua ambição que sempre desmonstrou ter desde pequena. Seus avós davam de tudo à menina, desde bonecas caríssimas de porcelana à brilhantes jóias. Satisfaziam todas as suas vontades. Foi assim até sua adolescência onde seus avós faleceram num acidente de carro.
Logo sua revolta aumentou junto com a sede por dinheiro, seus pais não tinham como manter a vida que ela tinha antes, não tinham como manter o mimo de seus avós. Achava que seus pais tinham obrigação de mante-la já que não pediu para vir ao mundo. Sua mãe que faxinava para fora caiu doente e seu pai que era motorista perdeu o emprego. Nem numa fase ruim da vida, fez a moça deixar os mimos de lado e ajudar seus pais, pelo contrário, num ato impensável parou de comprar os remédios da mãe alegando que ela que deveria ser cuidada e que não iria mais gastar o seu dinheiro. Não demorou muito e sua mãe veio a falecer, em seguida seu pai foi morto num assalto. Júlia sem opções teve que engolir seu orgulho e trabalhar, justo na mesma profissão que era da sua mãe e que amaldiçoava mais do que tudo na vida.
Foi uma bela peça que a vida pregou. Saindo do trabalho naquela noite fria ela pensava em como sua vida poderia ter sido diferente, em como tratou seus pais, e como eles trabalharam para não deixar faltar o alimento. Como ela foi egóista e ingrata. Aos olhos dela, ela estava pagando por todo comportamento que teve no passado. Se ao menos pudesse voltar no tempo...
Estava caminhando rapidamente até o ponto de ônibus, a rua já estava bastante deserta e uma tempestade se aproximava. Ela atravessou a rua e entrou numa outra rua estreita e escura que ela odiava passar. Vivia cheia de mendigos e havia um cheiro muito desagradável no local devido ao lixo que os mendigos guardavam. Não tinha outro jeito, ela era obrigada a passar pela rua, mas no fim dela o ponto de ônibus a aguardava.
Havia um clima estranho no ar, seu coração batia aceleradamente como se ansiasse por alguma coisa. A rua também estava limpa e não tinha mendigo algum nela exceto por um que estava encolhido atrás de uma lata de lixo.
Apressou o passo, apertou fortemente sua bolsa contra o peito e passou pelo mendigo sem ao menos olha-lo. Mas algo que não esperava aconteceu.
-Júlia! – chamou uma voz baixa porém sombria
Ela desesperada olhou em sua volta a procura da pessoa quem a chamou.
-Eu que estou falando, Júlia! – disse a voz sombria novamente.
Júlia sentiu calafrios na espinha, a rua estava completamente deserta.
Um silêncio tremendo se fez presente no local, só os sons dos grilos e dos ratos correndo a rua podiam ser ouvidos. Rapidamente ela recolheu do chão a bolsa que tinha deixado cair devido ao susto. Quando se levantou se deparou com o mendigo em pé em frente dela. Júlia soltou um grito abafado de susto e ficou olhando intacta para o mendigo que aparentava ser bem novo.
- Nunca é tarde para se arrepender, Júlia. – disse o mendigo
- Quem é você? Como sabe meu nome? – disse ela fixando o olhar no mendigo enquanto apertava a bolsa contra seu corpo
A chuva começou fraquinha e caiu no corpo de Júlia fazendo a estremecer. Ela olhava fixamente para o mendigo, um detalhe chamou a atenção dela. Seus olhos estavam costurados.
- Chegou o dia em que você poderá livrar se da culpa e refazer sua vida. Eu apenas senti que seu nome é esse. – disse o mendigo.
- O que quer de mim? É dinheiro? Eu recebi meu salário hoje,pode ficar com tudo se quiser, mas me deixe ir embora – disse ela aterrorizada.
- Não quero seu dinheiro. Disse que hoje chegou o dia em que você poderá livrar se da culpa e do peso que sente. Nunca é tarde para se arrepender. – disse o mendigo com um ar sério e sombrio
Júlia começou a achar que era alguma brincadeira de mau gosto, tomou coragem e resolveu ir embora. Respirou fundo e tentou se desvencilhar do pobre homem.
- Não acredita em mim? Pois bem, provarei – disse o mendigo enquando Júlia dava a volta por ele e apertava o passo para sair daquela rua o mais rápido possível.
Ele nem fez nada, continuou na mesma posição enquanto ela andava apressadamente cheia de raiva por ter caído numa brincadeira sem graça. De repente sentiu uma forte pontada no seu braço e sentiu um cheiro de podridão no ar, ela viu um sangramento grave perto do seu pulso esquerdo e viu milhares de vermes entrando em sua carne em estado de putrefação. Parou de correr,e assustada examinou seu braço com detalhes, não havia nada nele.
- E então, Júlia? – disse o mendigo num tom sarcástico.
- Meu braço... eu vi... tenho certeza. Meu braço estava machucado e estava com uma aparência bem feia – disse perplexa.
O mendigo se virou para o lado que ela estava e mesmo com os olhos costurados parecia que ele fixava os olhos na direção dela.
- O que quer de mim então? Isso tudo não pode ser real... – disse Júlia desesperada.
- Eu tenho uma proposta para você. Hoje você tem nas mãos uma oportunidade de mudar de vida, de se arrepender, de esquecer do seu passado de arrogância e ambição. Uma vez aceitada a proposta você não poderá voltar mais atrás. – disse o mendigo não perdendo seu ar sombrio.
A chuva tinha aumentado e o vento soprava muito. Júlia apertava seus braços delicados com força tentando se proteger do frio em vão.
- Ok. Eu aceito a proposta.
- Você já está cansada da vida de faxineira que leva. Sua mãe também foi uma e várias vezes você pensou que estava colhendo o que plantou. Ah,se arrependimento matasse, não é mesmo? – o mendigo falava enquanto Júlia ficava com os olhos marejados – Não posso ver, mas imagino que esteja emocionada ao ser levada de volta a essas lembranças não muito distantes. Minha missão é trazer paz às pessoas que jogam no coração o desejo de arrependimento, muitas delas pensam em cessar seu tormento com a morte...
As palavras do mendigo cairam no coração dela como uma flecha que acerta o alvo, pois muitas vezes ela tinha pensado em suicídio.
- Qual é a sua proposta para eu ter paz? – disse ela atormentada com as palavras dele.
- Eu apenas ajudo as pessoas a escolherem seu caminho. Te darei duas opções, escolha aquela que acredita ser a melhor para você. Será feita a sua vontade. Se escolher certo,parabéns. Se não...
Ela nem teve tempo de pensar, ao fim dessas palavras o homem levantou sua mão rapidamente fazendo um gesto no ar e Júlia caiu adormecida no chão molhado. Sonhou que estava num lugar muito movimentado, viu todas as suas colegas que tinha na época que seus avós eram vivos, colegas que sumiram quando ela precisou de ajuda. Estavam todos usando jóias caríssimas, bebendo e sorrindo para ela. Ela sorria de volta e lembrava da vida que tinha antes, tudo era uma festa. Suas amigas a chamaram para fazer compras e ela ia e gastava com tudo que ela queria. Gastava a vontade, sem ter que se preocupar com nada, dinheiro não faltava. Mas de repente ela despertou e se entristeceu ao ver que era um sonho apenas e que estava muito distante da situação real dela.
 Levantou – se do chão e procurou com os olhos o mendigo, avistou- o agachado perto da lixeira observando- a, foi em direção a ele para contar o que tinha acontecido, estava confusa. Mas antes que pudesse dizer uma só palavra, o mendigo ergueu a mão novamente e ela caiu num sono profundo.   Dessa vez sonhou que estava num lugar simples, num campo, o lugar era muito bonito. Havia um banquete numa mesa enorme, com todo tipo de comida. Viu muitas pessoas trabalhando duro mas todas aparentavam estar muito felizes. De repente se assutou, viu seus inimigos, pessoas que ela julgava serem falsas. E se sentiu muito mal com isso. Viu sua mãe, não parecia ter doença alguma, esbanjava muita saúde. E depois viu seu pai ajudando a arrumar os pratos na mesa. Sentiu uma vontade de sair correndo dali, embora sentisse saudade de seus pais ela não conseguia olha-los, sentia um orgulho muito grande, sentiu raiva por vê-los felizes e ainda junto das pessoas que ela não gostava. Ela virou- se para ir embora e acordou. Olhou a sua volta, estava ainda deitada na rua e a tempestade caia ferozmente. Levantou- se depressa sem entender como pôde ter adormecido do nada.
- Teve bons sonhos? – perguntou o mendigo que estava atrás dela.
- Não lembro- me bem como fui adormecer. Eu... eu sonhei com meus amigos e era muito feliz com eles, nos divertíamos muito, como antes. Depois sonhei com um lugar simples, bem rústico, meus pais estavam lá felizes e com meus inimigos ainda! Esse último parecia mais um pesadelo,isso sim! – disse Júlia virando para olhar o mendigo.
- Se pudesse escolher, qual dos dois lugares você iria? – perguntou o mendigo.
- Eu escolheria o primeiro lugar, muito mais a ver comigo, é a vida que sempre tive, eu era alegre com meus amigos, bebíamos e nos divertíamos, eu não tinha preocupações nem problemas. O segundo lugar não é para mim, muito simples, muito rústico, meus pais em vez de trabalharem para me sustentar estavam lá sorridentes e pessoas que não gosto estam lá. Não conseguiria ficar perto deles! – disse a moça com convicção.
- Vejo que ainda tem muitas mágoas e que sua essência não mudou... Pois bem, você fez sua escolha! – disse o mendigo com um sorriso malicioso.
Júlia mal teve tempo de responder, entrou em transe e diante de seus olhos passou uma visão dela chegando ao lugar movimentado onde estavam seus amigos. O sorriso deles se transformaram em pranto, seus copos cheios de bebida viraram sangue. O lugar alegre virou um cenário de tortura e dor, havia fogo em todo lado. Criaturas horrendas montavam e chiicoteavam seres humanos. Júlia ficou assustadíssima, sem poder se mexer ou dizer alguma coisa, caiu sem vida no chão e sua alma foi de encontro ao lugar que ela tinha  visto.
O mendigo tirou suas vestes, apenas ficando com um manto negro e brilhoso, segurou seu enorme cetro e sorriu. Não era mais um mendigo
- Foi sua escolha. Nunca é tarde para se arrepender. – disse a morte.
Dita Spieluhr
Enviado por Dita Spieluhr em 25/08/2007
Código do texto: T622632

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