Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

PERFUME LETAL

Prédio de dez andares, luxuoso e imponente. Inaugurado há dez anos e com arquitetura curvilínea e moderna. Morava ali há vinte dias. Alugara o apartamento, no sétimo andar, por um preço convidativo e irresistível.
Naquela madrugada de domingo, três horas, voltava de uma festa (sem Patrícia, que não quis ir) e parou diante do portão. O vigia, sujeito tranqüilo, de dentro da guarita, o reconheceu e abriu o portão. Manobrou o carro para dentro e o estacionou na sua vaga.
Saiu, aspirou o ar frio da madrugada, percorreu os metros até o hall, cumprimentou o vigia e apertou o botão “sobe”, do elevador. Estava com ressaca e sono. Queria tomar banho e se deitar, para uma hibernação revigorante. Entrou no elevador. Apertou o botão do número sete. Movimento mínimo e característico. Silêncio total. Os números no painel se iluminavam: um, dois, três, quatro...
O elevador parou.
Quando a porta se abriu, levou um susto. Recuou. Uma mulher. Vestido vermelho. Branca. Loira. Alta. Magra. Parada ali na frente.
- Oh, d-desculpe... - disse, sorrindo - Você me deu um susto.
      De onde saiu? Morava onde? O que fazia no prédio?
      O perfume... seria francês?

                                             ***

     Segunda-feira quente.
     Era gerente de uma loja que vendia materiais de construção. Havia mais três lojas, dos mesmos donos, três sócios. Seu escritório era pequeno, porém gostava dele. Oito funcionários atendiam no balcão. Só era acionado para resolver casos mais complexos, principalmente quando os clientes queriam comprar em parcelas.
     Passou o dia trabalhando, atendendo ao telefone e preenchendo fichas e relatórios. O movimento na loja era intenso e tinha que ser esperto para vender telhas, cimento, madeira, tijolos, etc. Saiu da loja às dezoito horas e dez minutos. Foi ao shopping, situado ali perto, e jantou peixe grelhado. Sentiu vontade de tomar uma cerveja, mas controlou-se. Tinha que condicionar seu corpo a ingerir álcool somente nos finais-de-semana.
     Depois do jantar, passeou pelo shopping e comprou uma calça jeans e frutas.
     Saiu e retomou o caminho de casa. Chegou no prédio às vinte e uma horas, levando a sacola de plástico com as compras. Entrou no elevador. Dificilmente encontrava alguém ali. Era como se o prédio não fosse habitado, embora soubesse (por meio do zelador) que, dos trinta e oito apartamentos existentes (quatro por andar, dois na cobertura), somente três estavam desocupados. Preparou-se para encontrá-la no sétimo andar. E não deu outra. Lá estava ela, parada diante do elevador. Mais uma vez aquele olhar perdido no vazio, o vestido vermelho... o perfume... Ficou tonto.
Saiu e, sem dizer nada, abriu passagem. Não iria puxar assunto com ela.
Levou outro susto! De súbito, foi empurrado contra a parede. A mulher o beijava. Sentiu uma língua cálida e ávida na sua boca.
No corredor. Uma temeridade!
Tudo aconteceu em minutos. A sacola caiu no chão.
Não resistiu à fraqueza da carne. Retribuiu o beijo. Abraçou a mulher misteriosa. Ela começou a... Meu Deus! Ajoelhou-se e abriu o zíper. Arriou sua calça. Notou que ela estava... sua boca... chupando-o. Entrou em êxtase. Afagou aqueles cabelos dourados e lisos. Fechou os olhos. Gemeu baixinho.
Alguém poderia aparecer no corredor. Um risco! Um risco!
Aquele perfume o enlouquecia. Carícia deliciosa... envolvente... intensa... Até que... teve um orgasmo fulminante.
- Ahhhhhh! - gritou, ao atingir o clímax. Oh, ela engoliu tudo. Que excitante!
Procurou normalizar a respiração. Queria sorrir, dizer alguma coisa, um pedido, uma troca de idéias. No entanto... notou que a loira levantou-se, abriu a porta do elevador e desapareceu lá dentro, sem dizer uma palavra. Levantou a calça. Fechou o zíper. Pegou a sacola. Cambaleante, entrou no apartamento vinte e oito.
Tomou um banho, escovou os dentes, ingeriu água gelada. Esqueceu de ligar para Patrícia. Não parava de pensar na loira. De onde veio? Seria namorada ou amante de um morador de um daqueles apartamentos? Garota de programa?
O perfume dela impregnava o quarto.
Que loucura!
Sonhou com ela... um sonho erótico, em que faziam amor na praia, numa noite de lua cheia. Maravilhoso! Inolvidável!

                                             ***

Na terça-feira, saiu do trabalho e deu um tempo no shopping.
Devorou um bife com batatas fritas. Ligou para Patrícia, que queria vê-lo. Marcaram para a quarta-feira à noite. Na verdade, queria ver a loira. Conversar, convidá-la para uma cerveja no apartamento ou num bar. Desvendar o mistério de sua presença no prédio. Às vinte e uma horas, subiu o elevador. Ao sair, não viu a loira. Respirou fundo, contendo a decepção. Ia abrir a porta do apartamento vinte e oito, quando viu dois homens saírem do apartamento vinte e cinco.
- Ei! - um deles chamou.
Parou e ficou esperando.
- Boa noite. - disse um deles, após se aproximar - Sou o investigador Júlio. Esse é meu parceiro Kleber. - mostrou o distintivo - Somos da polícia civil. Podemos conversar um pouco?
Policiais? No prédio? O que teria acontecido?
- Meu nome é Macto. – apartaram-se as mãos - C-Claro... Entrem.
Os homens entraram
- Sentem-se. Querem tomar alguma coisa?
- Não. Obrigado.
Os policiais sentados o sofá. Sentou-se diante deles.
- Não sei se ficou sabendo, mas houve um assassinato no apartamento vinte e cinco. - o investigador Júlio disse, sério.
- Assassinato? Não. Não sabia.
- Pois é. O morador, Ricardo Lins, foi morto, provavelmente a punhaladas. Cinco, para ser mais preciso. Um crime feio, feio. Você o conhecia?
Arrepiou-se. Procurou disfarçar a tensão.
- N-Não. Moro aqui há menos de um mês. Aluguei esse apartamento recentemente. Ele morreu quando?
- Com certeza ontem à noite. Antes das nove. Como ele morava sozinho, o corpo só foi descoberto hoje pela manhã, quando sentiram a falta dele no trabalho. O senhor mora só? É casado?
- Moro só, mas tenho uma namorada.
- Trabalha onde?
- Sou gerente de uma loja que vende materiais de construção.
- Que horas o senhor costuma chegar do trabalho?
- Saio geralmente depois das seis da tarde. Ontem fui ao shopping, pois é costume meu jantar lá, de vez em quando.
- Chegou em casa que horas, ontem?
- Às nove.
- Um pouco depois do crime ter acontecido. Lembra de ter visto alguém saindo do prédio? Ou entrando? Ou ter ouvido algum barulho? - o investigador sorriu - Quero deixar claro que estamos fazendo essas perguntas a todos os moradores do prédio, ok? Rotina policial, digamos assim. Fique tranqüilo.
O que dizer? Citar a loira? Teria sido ela a autora do crime? Ou tudo não passaria de coincidência? E se ela falasse sobre o sexo oral? Valeria à pena passar por esse constrangimento? Se ela fosse pêga, revelaria que o tinha encontrado diante do elevador? Poderia ser indiciado como cúmplice?
Tomou uma decisão.
- N-Não. Não vi ninguém.
Os policiais se levantaram.
- Tudo bem. - o investigador retirou um papel do bolso - Temos ainda que fazer perguntas aos outros moradores. Não iremos mais incomodá-lo, senhor. Caso lembre de alguma coisa, por favor, telefone para nós, certo?
Pegou o papel e murmurou:
- Sim, com certeza.
Os policiais saíram e pararam no corredor.
- A propósito. - o investigador disse - O apartamento vinte e cinco estava impregnado com um perfume muito forte. Um perfume feminino, entende? Feminino, mas ruim, a meu ver. Ou temos uma assassina nesse caso ou a vítima recebeu a visita de uma mulher, antes da presença do assassino propriamente dito.
Não soube o que dizer.
- E o seu apartamento...
- O-O que tem ele?
- É impressão minha ou estou sentindo cheiro de perfume? Um perfume... esquisito... parecido com o do apartamento vinte cinco. Concorda comigo, Kleber?
- Sim. Um cheiro de perfume... forte... doce no início... depois fica desagradável...
- N-Não estou sentindo nada.
- Sua namorada o visitou ontem, senhor Macto?
- Não. D-Deve haver algum engano. Não tem cheiro de perfume no apartamento.
- Poderia me dar o número do telefone de sua namorada, amigo?
Ficou irritado.
- Por quê? Estão por acaso suspeitando de mim e dela? Terei que contratar um advogado? Que absurdo!
- Acalme-se. É apenas rotina. Temos que eliminar todas as possibilidades improváveis. - o investigador cheirou o ar - Ah, sim. Acho que nos enganamos. O cheiro de perfume vem do corredor e não do seu apartamento. Certo, Kleber?
- Sim. Analisando melhor, o cheiro vem do corredor. Com certeza oriundo do apartamento vinte e cinco.
Não gostou dos olhares dos policiais. Imbecis!
- Desculpe, amigo. Foi um engano. - sorriu - Não precisa dar o número do telefone de sua namorada. Acho que estamos estressados com esse caso. Fique frio, ok? Tenha uma boa noite.
- Boa noite.
Respirou fundo. Viu os policiais apertarem a campainha do apartamento vinte e sete, localizado na frente. Entrou no vinte e oito. Tomou uma cerveja e sentou-se no sofá. Ligou a TV. Suas mãos estavam trêmulas.
- Merda!
Seria a loira uma assassina? Ela visitou o prédio três vezes. Sempre com aquele vestido vermelho, mas sem bolsa. Onde guardaria o punhal? Qual a possibilidade dela ser mesmo uma assassina? Pouco provável. Pelo menos queria acreditar nisso.
E por que os policiais disseram aquilo? Babacas! Não sentia cheiro de perfume nenhum. Desconfiaram dele e inventaram a estória do perfume, para pegá-lo num erro. Com certeza notaram seu nervosismo. Teria que se preparar para vê-los novamente. E eles iriam encher o saco, até pegarem o verdadeiro assassino.
Desligou a TV e deitou.
Teve pesadelo com a loira. Faziam amor na praia, mas a loira, os olhos vermelhos e injetados de ódio, sacava um punhal e se preparava para matá-lo. Sorria e de seus lábios saía sangue.
Acordou, apavorado. Dormiu mal.

                                            ***

Na quarta-feira, dominou as emoções e conseguiu trabalhar normalmente.
Ou quase.
À tarde, viu uma loira entrar na loja. O vestido vermelho. Ficou pálido! Seria ela? Como descobriu seu endereço? O que estaria fazendo ali? Meu Deus!, pensou, assustado. Mas não era a loira do vestido vermelho. Essa era mais baixa. Enganou-se. Suspirou, aliviado. Teria que se controlar, para não enlouquecer de vez. Maldita loira!
À noite, buscou Patrícia e a levou a um restaurante.
Durante o jantar, contou sobre o assassinato no prédio. Não citou a loira.
- Nossa! - Patrícia murmurou - E os policiais queriam conversar comigo? Por quê?
Relatou o que os policiais disseram sobre o perfume.
- Babaquice deles. Acho que não foram com a minha cara. Moro ali há pouco tempo e nunca vi aquele sujeito.
- Pensa em sair do prédio?
- Sair? Mal cheguei no local. Além disso, estou gostando de morar no apartamento. E o preço é muito bom. Mas prepare-se para receber a visita dos caras, ok?
- Tudo bem.
Depois do jantar, seguiram para o prédio. Subiram o elevador. Pararam diante do apartamento vinte e oito. Apontou o vinte e cinco.
- Foi naquele apartamento que mataram o sujeito.
- Horrível.
Quando abriu a porta, levou um sustou, ao ouvir Patrícia gritar:
- Meu Deus!
Tenso, olhou para ela e perguntou:
- O que houve, gata?
Os dois estavam dentro do apartamento.
- O perfume! Estou sentindo o cheiro do perfume! - ela disse.
- Não é possível! Você tem certeza? Não estou sentindo nada.
- Está em toda a parte, Macto. Os policiais tinham razão. Você não sente nada?
- Não. Juro por Deus.
- É um perfume forte... estranho... é até bom... Não, não... Agora ficou desagradável... está me deixando tonta....
- Sério?
Patrícia abriu as janelas.
- O cheiro permanece... Um cheiro bom e ruim... Quer dizer, é ruim... - ela parecia zangada - Como é que você não sente nada, Macto? Como? Estás brincando comigo? Ou você recebeu a visita de alguma mulher? Está me escondendo algo?
- Mulher? Só tenho você, minha linda! Só você.
- Tudo bem. Desculpe. Nenhuma mulher, em sã consciência, usaria essa porcaria no corpo. Não mesmo. Mas o cheiro está forte, no apartamento todo. Meu Deus! Que asco! Como você não sente?
- Meu amor, eu juro que não estou sentindo esse perfume. Nada, nada...
- Não posso ficar aqui. Não suporto esse cheiro. Leve-me para casa.
Tentou beijá-la.
- Gatinha, vamos ficar...
- Não! - ela o empurrou.
Abriu a porta e foi para o corredor.
Surpreso com esse rompante de fúria, teve que ir atrás.
Trancou a porta do apartamento.
- Aqui no corredor o cheiro não penetra. - ela murmurou, mais calma - Incrível! É só dentro do seu apartamento. Você precisa fazer alguma coisa, Macto.
Abraçou-a. Beijou-lhe o pescoço.
- Não sinto nenhum cheiro.
- É como se fosse uma maldição... - ela suspirou e retribuiu o abraço - Você tem que dar um jeito.
- Tudo bem. Darei um jeito. - beijou-a - Sexta-feira você verá um apartamento diferente, ok?
- Promete?
- Sim... - mais beijos - Sim...
Desceram.
Deixou-a em sua casa. Conversaram no carro.
- Sexta-feira?
- Sem o perfume, sim. - ela murmurou.
- Esse perfume... é tão horrível assim?
- Muito... Você nem imagina o quanto... Às vezes cheira bem... ervas, almíscar, sândalo... Depois parece se transformar... como se fosse flores podres ou animal morto... sei lá... uma mistura de tudo isso, entende? Não dá para explicar. Só cheirando para saber. - seus lábios tremeram - Precisava fazer algo, Macto.
- Irei fazer. - segurou a mão dela.
- Não sei como esse perfume foi parar no seu apartamento. Acho que está vindo do apartamento onde morreu o homem. E acredito que está impregnando todo o prédio, lentamente. É como se houvesse um cara doidão, com uma máquina doidona, em algum lugar do prédio, jogando o perfume para todos os lados. Sei que é uma explicação maluca, porém com uma certa lógica. Você não acha?
- Você tem razão. Encontre o homem da máquina de perfume e terás achado o assassino. Um negócio sinistro pra caramba. Já vejo até as manchetes nos jornais: “O assassino do perfume espalha o terror”. Eh, eh, eh!
- Seu bobo. - ela riu - Boa noite, Macto. Também te adoro.
Retornou ao prédio.
Sem saber o motivo, decidiu conversar com o vigia, um moreno robusto e que teria seus cinqüenta e poucos anos. Talvez ele tivesse alguma novidade para contar.
- Boa noite. - disse - Encontraram o assassino?
- Ainda não. Os “polícia” interrogaram todo o mundo do prédio, mas ainda não solucionaram o caso. Esse mistério danado continua. - os olhos do vigia brilharam - Mas cuidado com a loira, meu jovem.
- O que disse? - perguntou, surpreso.
O vigia ficou em silêncio, como se tivesse falado demais.
- O que disse? - repetiu.
- Disse... - o vigia suspirou - Disse para você ter cuidado.
- O senhor disse para eu ter cuidado com a loira. Por que disse isso?
- Eu falei em loira? - o vigia ficou na defensiva - Você deve ter entendido errado, meu jovem.
- O senhor citou uma loira. Ouvi muito bem. Viu alguma loira por aqui?
- Não vi nenhuma loira. Você está delirando, rapaz. Vá dormir um pouco.
- O senhor sabe de alguma coisa? Está escondendo algo?
O velho parou de falar. Respirou fundo e... pareceu ter tomado uma decisão.
Saiu da guarita e aproximou-se dele.
- Tudo bem. Tudo bem. Escute. - ele falava baixo - A polícia e o dono pediram para não falar, mas vou contar. Você é um sujeito novo na área e parece ser um bom rapaz. Além disso, vai acabar descobrindo, mais cedo ou mais tarde. É o seguinte: outras mortes aconteceram no prédio. Trabalho aqui há dez anos, desde a inauguração, e é o terceiro crime que ocorre no prédio. Terceiro, entendeu? Os outros rapazes também moravam sós. Solteiros. Promíscuos. Farristas. Recebiam visitas de mulheres diferentes. Muitas. E ninguém descobriu quem os matou. Ninguém. É por isso que eu disse para você ter cuidado.
- Cuidado com as loiras?
- Cuidado com as mulheres. Você entendeu errado.
- Não sou como eles. Acredita que o assassino possa ser uma mulher?
- Uma loira se atirou do sétimo andar, assim que o prédio foi inaugurado. Do apartamento onde você mora atualmente. Acho que o dono não lhe contou isso. Teria sido rejeitada pelo marido. Ela era meio doida e neurótica. Nunca conversei com ela, apenas o essencial, mas ouvi dizer que mexia com magia negra ou algo parecido. Não foi à toa que o marido a deixou. No dia em que morreu, estava bêbada ou drogada e usava um vestido vermelho. Depois desse suicídio... três mortes misteriosas. Três.
- Aonde o senhor quer chegar?
- Não sei, meu jovem. Vi muitas loiras, nesses anos todos, se é que você me entende. Subindo e descendo. No entanto, não vi nenhuma loira, ultimamente. Não vi, mas senti o perfume.
- O perfume? - arrepiou-se de medo - O p-perfume?
- No prédio todo. Um perfume esquisito... uma mistura de coisa boa com coisa ruim... desagradável... como se fosse de flores em decomposição. Sentiu também, né? Então sabe do que estou falando. Acho que tem algo errado com o prédio, entende? Estou pensando em pedir demissão, pois esse prédio me dá medo. E é o mesmo perfume que senti quando ocorreram as outras mortes. O mesmo...
- Mas...
- E sabe quando senti o perfume pela primeira vez?
Não queria ouvir a... Estava horrorizado. Talvez soubesse a resposta. Acreditava em Deus, mas também no Diabo. Ia à igreja de vez em quando, porém menos do que o necessário. Não era supersticioso, nem se assustava fácil e...
Mesmo assim, numa ânsia doida, ousou perguntar:
- Q-Quando?
- Quando a loira se suicidou. - o vigia respondeu, os olhos fixos em algum ponto do estacionamento, a mente voltando ao passado - Naquela noite, ela estava toda perfumada e teria usado dois vidros de um perfume estranho. Derramou tudo no corpo, a maluca, como se fosse um ritual. Um negócio de doido. Entendeu, meu jovem, o raciocínio?
Não teve coragem de perguntar mais nada.
- Boa noite, jovem. Tome cuidado.
- B-Boa noite. Obrigado.
Trêmulo e com vontade vomitar, entrou no elevador.
Subiu o elevador. Entrou no apartamento vinte e oito. Bebeu água gelada, ligou a TV. As palavras de Patrícia em sua mente. “É como se houvesse um cara doidão, com uma máquina doidona, em algum lugar do prédio, jogando o perfume para todos os lados.”  
       Inconcebível! Se assim fosse, o cheiro seria sentido no corredor.
“É como se fosse uma maldição.”
Será? Poderia acreditar nessas coisas?
O que estaria acontecendo? Onde estava a loira? Para onde foi? Quem era ela?
Uma loira... no passado... pulou daquela janela... Morava nesse apartamento... Suicídio... Nossa! Por que não sentia o cheiro do maldito perfume? Parecia tão agradável na loira. Não pode ser o mesmo perfume. Começou a sentir dor de cabeça. Que merda! Tomou um comprimido. Angustiado, sentiu o estômago embrulhar. Vomitou no banheiro, num esgar cruciante. Seu estômago doía. O medo lhe tirava o sono. Viu TV, mas a imagem da loira não lhe saía da cabeça. Nem as palavras do vigia lhe saíam da mente.
“Cuidado com a loira, rapaz.”
“Esse prédio me dá medo.”
Sentiu vontade de ligar para Patrícia, mas desistiu.
Deitou-se perto da meia-noite, irritado com a loira, com o perfume, com o crime e com os policiais. Irritado e assustado. Merda! Um péssimo dia!
Fechou os olhos, mas não conseguiu dormir. Mal sabia ele que seu angustiante horror estava apenas começando. A loira! A mulher e seu horrendo vestido... vermelho! O perfume! A morte no prédio! Punhais espalhados! Sangue! Seus nervos estavam fora do controle. Nunca tinha ficado assim, antes. Abriu os olhos e ficou olhando o teto. Deixou a luz acesa. Iria sair desse apartamento amanhã mesmo. Sentia algo horrível ali dentro, como se fosse uma presença maligna. Estaria enlouquecendo? Delirando? Não! Não ficaria ali nem mais um dia. Aquele lugar estava lhe deixando em pânico. Arf!
Vinte minutos depois, logrou ter ouvido um barulho, vindo da cozinha.
Sentou-se na cama, pálido e temeroso. Apurou os ouvidos. Um objeto teria caído? Levantou-se. Descalço, em passos lentos, o medo no corpo, foi até a cozinha. Ligou a luz.
Levou um susto!
A loira! Estava ali. Encostada na geladeira. Bebia água. Como conseguiu entrar?
Usava o vestido vermelho. Os olhos fixos no vazio. Mas sorria.
- O-O que quer? - perguntou, trêmulo.
- Você sente o meu perfume? - ela disse e sua voz era estranha, como se estivesse rouca ou gripada.
- Sim... - não soube como respondeu. Sentia-se fraco... como que dominado...
- Vim buscá-lo... Vim buscar meu perfume...
Oh, o perfume. Inebriante. Agradável. Delicioso! Ficou tonto.
- Beije-me... - ela murmurou.
Deixou cair o vestido. Seu corpo era perfeito! Seios grandes. Belos pêlos pubianos. Curvas. Sensualidade explícita! Um tesão em forma de pele.
Aproximou-se dela, em passos cambaleantes, louco de desejo, e a beijou.
O desejo sobrepujou o medo. Adorou o beijo, as mãos dela em seu pescoço, o perfume, a língua, o contato. Ficou excitado. Ela era linda!  Um beijo maravilhoso! Durou apenas oito segundos.
De repente, sua visão ficou turva. A loira... havia sumido! No lugar dela... O que estava...  Meu Deus!, pensou, em pânico.
Na sua frente! Algo que não era a loira, mas tinha cabelos loiros. Alto, garras no lugar das mãos, pele deformada, feridas espalhadas pelo corpo, olhos pétreos e exalava um perfume nauseabundo, que sufocava! O perfume da morte!
Seu horror foi rápido. Não conseguia ver nada. Não conseguia respirar! Tentou gritar, mas... Seu corpo estava fraco... iria cair... iria cair...

                                            ***

Dois dias depois, nos jornais, lia-se a seguinte manchete:

                            “Assassino encontrado morto”

“Macto Villar Julert, de 30 anos, foi encontrado morto em seu apartamento, provavelmente vítima de ataque cardíaco. Os olhos estavam arregalados, como se tivesse visto o próprio demônio. Ao seu lado, um punhal ensangüentado e um vidro de perfume. Tudo leva a crer que Macto teria assassinado, com cinco punhaladas, o jovem Ricardo Lins, de 28 anos, seu vizinho do mesmo andar. A namorada de Macto, Patrícia Souza, está em estado de choque. Amigos e colegas de trabalho afirmam que Macto era um ótimo funcionário e excelente pessoa, mas que estava bebendo muito, ultimamente. É a quinta morte ocorrida no prédio, nos dez anos de sua existência. Três crimes (dos quais dois não foram solucionados até hoje) e dois suicídios. Muitos o chamam de “o prédio da morte”. Alguns moradores, apavorados, pensam até em se mudar do lugar. O vigia (que trabalhava no prédio há dez anos) pediu demissão, ao saber da morte de Macto. A polícia não conseguiu explicar o motivo do crime, uma vez que - aparentemente - assassino e vítima não se conheciam, nem o local onde o assassino teria comprado o punhal e o vidro de perfume. O perfume, por sinal, era bastante desagradável (segundo os moradores, que o sentiram durante alguns dias no prédio todo) e não se tem notícia de qualquer loja no Brasil que o tenha em seu estoque ou para vender. Esse é um mistério que provavelmente jamais será solucionado.”

                                               FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 29/08/2007
Reeditado em 03/09/2007
Código do texto: T628645
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (15039 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/08/17 07:03)
Joderyma Torres