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Naquela noite...

(Baseado em uma lenda urbana)

Quando eu percebi eu já estava lá no meio. Nessa hora, fechei os olhos e só o que fiz foi fazer o que esperavam de mim. Dancei. Não sei o quanto eu já havia bebido. Só sei que naquela noite eu não fui eu. Dia seguinte acordei com uma tremenda dor de cabeça. Fui abrindo os olhos com calma. Senti frio. A dor de cabeça ainda era grande. Quando finalmente dei por mim, percebi não saber onde estava. Senti frio. Minha cabeça e meu corpo doíam. Foi quando me vi naquela situação. Nada podia fazer. Não podia sequer acreditar. Eu estava em um banheiro. O lugar não conhecia, mas era um banheiro. Quanto a mim, ou o que de certa forma lembrava a minha pessoa, estava na banheira coberta por gelo. Dei um grito de pavor, nervosismo, receio, raiva. O corpo doía muito. Fechei meus olhos, crente que tudo aquilo se tratava de um pesadelo. Aos poucos, e com uma calma súbita que me veio na hora, fui recompondo a noite anterior.
Saí de casa, devia ser umas cinco horas da tarde. Apanhei as chaves do carro e desci até a garagem onde acabei encontrando o Gustavo. Ele e uns amigos bebiam cerveja e ouviam rock. Logo me enturmei e passei a fazer parte daquela pequenina festa. Não bebi muito, acho que umas duas latinhas, e peguei o carro. Passei na casa do Rogério onde encontrei o Henrique e a Luísa. Vinho era a bebida e bossa-nova a música. Eu não resisti. Ia levá-los ao bar, mas antes tivemos que curtir um pouco o momento. Saímos de lá por volta das oito. O Henrique e a Luísa já estavam juntos pra variar. Acabei largando os dois na casa dele. Eu e o Rogério seguimos nossa trilha boêmia. Nunca fui tão canguru quanto naquela noite. Bar do Beto, Club’s Bar, restaurante não sei das quantas, Amarelinho e outros tantos, com muitas tentativas fracassadas de paquera. Até que decidimos ir a uma discoteca. Lá, as coisas dessa noite começaram. Foi lá. O Rogério começou a conversar animadamente com uma loiraça de mini-saia. O rapaz foi bom de lábia, pois dali a pouco estava aos esfregões com a bonitona. Eu fiquei na cuba libre. Não tinha surgido nada de meu interesse ainda. Foi quando me empurraram. Eu não vi. Quando eu percebi eu já estava lá no meio. Nessa hora, fechei os olhos e só o que fiz foi fazer o que esperavam de mim. Dancei. Ao abrir os olhos eu a vi. Era uma visão do paraíso, ou culpa da bebida. Cabelo curto, dourado, olhos amendoados, sorriso penetrante, pernas calientes chamando por um homem. Veio em minha direção e eu, sem lábia alguma, dali a pouco estava aos esfregões com ela. Me chamou a um canto e disse que queria sair dali. Nem parei pra pensar, ou talvez, acredito que a bebida tenha me feito esquecer do que era pensar. No carro me falou de uma festa. Um amigo de faculdade. Dirigi o carro com sua mão em minha perna. Meu corpo, mesmo repleto de álcool, era só tesão. A casa do tal amigo estava lotada. Jurava que era êxtase. Não era. Dormi.
Tinha um recado no espelho, escrito com sangue ou batom, não sei: um não levante e um número de telefone com um ligue logo pra esse hospital. Olhei pro lado e vi o aparelho sem fio. Medo, dor e frio era o que eu sentia. Uma moça do outro lado me atendeu e lhe contei tudo o que sabia, ou lembrava. Ela aos poucos foi me instruindo. Passei a mão nas minhas costas. Ainda havia um pouco de sangue e um tubo plástico. Os paramédicos não demoraram. Eu não tinha mais um dos rins. Fui levado às pressas para o hospital.
Conto isso porque em coma nada tenho a fazer a não ser contar pra quem puder e quiser ouvir que naquela noite eu fechei meus olhos e só o que fiz foi fazer o que esperavam de mim. Dancei.
David Scortecci
Enviado por David Scortecci em 25/10/2005
Código do texto: T63502
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Sobre o autor
David Scortecci
Irati - Paraná - Brasil, 39 anos
21 textos (1713 leituras)
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David Scortecci