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MORTE NO PORÃO

Dez horas de uma manhã de sol.
O homem encapuzado desceu as escadas do porão em passos tranqüilos. Ligou a luz.
O porão estava sujo e cheio de quinquilharias: mesas, cadeiras, caixas, ferramentas, papelões, sacos plásticos, etc. Tudo velho e empoeirado. Baratas circulavam, ratos fuçavam por ali e as teias de aranha eram visíveis.
Também havia um homem ali.
O homem se encontrava de pé, as mãos unidas e amarradas por uma corda, fixada no teto. Mãos acima da cabeça. Fita crepe na boca. Pés igualmente amarrados.
Vestia apenas uma calça jeans. Descalço. Magro. Evidenciava cansaço. No corpo, cortes que sangravam. O olho direito fechado. Fedia a fezes e urina. Em desespero.
Mal sustentava o próprio corpo.
O encapuzado parou na frente do homem amarrado.
Os olhos do homem amarrado brilharam de medo, de pânico extremo, ao ver-se diante do homem encapuzado.
Tentou dizer alguma coisa, mas só conseguiu emitir grunhidos ininteligíveis.
- Bom dia. - disse o homem encapuzado.
De repente, surgiu uma pistola nas mãos dele.
- Não se preocupe. Seus dias de sofrimento só irão aumentar.
Riu, baixinho. Alisou a pistola.
- Você está aqui há três dias, certo?
Segurou firme a coronha.
- E não sabe porque eu o trouxe para cá.
Deu cinco passos pelo porão, por entre as caixas e mesas.
- Vingança. Trata-se de uma vingança.
Sentou-se numa das mesas velhas.
- Não irei falar muito. Você e mais quatro comparsas participaram de um assalto a um banco. Simples e rasteiro. Algo comum na Grande São Paulo. Há cerca de dois anos. Lembra disso? Captou?
Notou que os olhos do homem amarrado brilharam. De medo? Ou de surpresa?
- O assalto, a princípio, foi bem sucedido. Roubaram um pouco mais de seis milhões de reais e conseguiram fugir. Até aí tudo bem. O problema é que vocês deixaram um morto para trás. Um dos clientes do banco. Um tiro no peito. Certeiro e mortífero. Mortífero.
Alisou novamente a coronha da arma.
- Parece que ele tentou reagir. Será? Não sei, nem quero saber.
Levantou-se.
- Dois dos assaltantes, amigos seus, foram presos recentemente. Confessaram o crime. Como sou um homem influente e tenho muitos contatos na polícia, logo soube das prisões. De repente, consegui uma entrevista com os dois. Ficamos frente a frente. Conversamos e eles contaram tudo.
Deu três passos.
- Com as informações obtidas, consegui localizar os outros dois. Fácil, fácil. Afinal, bandidos do seu tipo são burros. Não passam de uns drogados, sem um grama sequer de inteligência. Uns animais irracionais, isso é o que vocês são. Monstros!!!
Parou na frente do homem amarrado, que suava, balança a cabeça (numa negativa desesperada) e tentava libertar-se das cordas.
- Os dois estão mortos. - passou a mão no pescoço - Zap, zap! Defuntos, tão desprezíveis que nem os vermes os querem comer. Estavam em São Paulo, na capital, por incrível que pareça. Assim como você. Burros! Praticam um assalto, matam uma pessoa e, depois de fugirem, voltam para São Paulo. Meu Deus! É muita burrice!
Colocou o cano da pistola na testa do homem amarrado.
- Antes de morrer, eles também falaram. Contaram tudo.
Notou o pânico que brotava dos olhos do homem amarrado.
- Tem medo de morrer? Tem, seu filho da puta? Mas não devia ter. Não mesmo.
Os dedos tocaram o gatilho. A arma foi destravada.
- Os quatro falaram a mesma coisa. Cada um separadamente. Não tiveram tempo de combinar. Todos disseram que você, seu monstro, apertou o gatilho. Foi você quem matou o cliente do banco.
O homem amarrado estava pálido (o rosto numa palidez cadavérica) e balançava a cabeça negativamente. Suava, tremia e as lágrimas de medo desciam pelo rosto. Tentava dizer alguma coisa.
- Não quero ouvi-lo, seu monstro. Não quero ouvir essa tua voz nojenta. Só quero é curtir o doce sabor da vingança.
O homem negava com a cabeça. Queria dizer algo, mas soltava apenas grunhidos.
- Aquele cliente... era meu irmão. Na época, casado e pai de dois filhos. CAPTOU, SEU FILHO DA PUTA? - gritou, num urro satânico - Captou? Captou?
O encapuzado, então, apertou o gatilho, com ódio.
O homem amarrado fechou os olhos e anteviu a própria morte. O projétil romperia a caixa craniana, lançando ossos esmigalhados para todos os lados, penetraria o cérebro, queimando a massa encefálica, jorrando o sangue da vida para os confins do inferno, sairia pelo lado sul da cabeça, bateria na parede, num ricocheteio macabro e pararia no piso do porão, se transformando num pedaço de chumbo amassado, insignificante, porém mortífero.
O homem amarrado sentiria dores terríveis, o corpo entraria em convulsão, o ar faltaria aos pulmões e a morte aconteceria em segundos, numa agonia incomensurável.
O medo e os pensasmentos o fizeram mijar-se todo.
No entanto...
Ouviu-se apenas um “click!”.
O homem amarrado - trêmulo e pálido - abriu os olhos, sem entender nada.
O encapuzado soltou uma gargalhada. Baixou a mão armada e recuou, rindo. Foi um riso insano, alto, maquiavélico e que durou cerca de cinco minutos.
O riso da morte!
Depois, ele respirou fundo, parou de rir e voltou à calma.
Aproximou-se do homem amarrado.
- Pensou que iria morrer com uma bala na testa? Um tiro e pronto? Pensou, seu verme?
Colocou a pistola no cós da calça.
- Você está fedendo.
Enxugou o suor da testa. Os dois suavam.
- Você terá uma morte lenta. Lenta como a maldade que domina seu coração. Captou?
Afastou-se.
- Adeus, amigo.
Recuou e começou a subir a escadaria do porão, tão lento como chegou. Desligou a luz.
Logo desapareceu, lá em cima.

***

Imerso em trevas, o homem amarrado, vendo seu algoz sair, tentou falar, mas não conseguiu.
Trêmulo, teve ciência de que iria morrer de fome e sede. A mais cruel das mortes!
No entanto, sabia que aquele homem vingativo estava cometendo um erro! Um erro mortal!
Não assaltara nenhum banco. Não matara nenhum cliente. Nunca matara ninguém na vida. Era um ladrão, reconhecia, mas sua especialidade era roubar residências.
Fora, portanto, preso por engano! Alguém o confundira. Por que, meu Deus?, pensou. Por quê??? Seria isso azar? Destino? Premonição? Castigo divino? Maldição?
Tremia, em desespero. Não! Não! Não!
Morreria naquele porão fétido e sombrio, solitário, abandonado, o corpo estraçalhado, cercado pela escuridão, as fezes e a urina se esvaindo de seus órgãos, o medo incrustado em sua alma, as dores penetrando-lhe os poros, a loucura o conduzindo ao sofrimento.

***

A morte... os ruídos... os ratos...
Sentia dores!
O homem encapuzado se enganara! Tolo! Imbecil! O ódio o fez cometer um erro crasso. E agora... mataria um inocente. Meu Deus! As dores eram insuportáveis.
E o tempo passava... lento... inexorável... ignóbil...
Com o passar das horas, resignou-se com seu destino.

***

As dores! Como agulhas perfurando! A escuridão brutal! Não podia respirar!
O que devia fazer?
Apavorado, chegou à conclusão de que só lhe restava chorar e rezar.
E foi o que fez...

FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 02/09/2007
Reeditado em 07/09/2007
Código do texto: T635540
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (15039 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/08/17 06:46)
Joderyma Torres