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Amor amordaçando a morte

         O Dr. Pemozze apareceu esta manhã com um mandado de busca. Sabia que apareceria. Junto vieram dois guarda-roupas devidamente equipados com pás e picaretas para quebrarem o chão da garagem. Ainda não sei que vizinho fez a denúncia. Tanto o da esquerda quanto o da direita andaram olhando ariscos e desconfiados nos últimos dias.
         Vai estragar muito ? pergunto dando passagem a contragosto. – Levei duas semanas fazendo! Explico, forçando um meio sorriso.
         Entram direto sem responder nada, esbarrando em mim. Sequer dignaram se a pedir licença. Atravessam direto a sala rumando para a porta dos fundos da garagem. A da frente está sempre trancada.
         Finjo não perceber a falta de educação e vou para a cozinha tomar uma cerveja. O calor de dezembro é sufocante. E dói ver meu trabalho ir por água abaixo. Melhor dizendo, pás e picaretas abaixo.
         Uma porção de salame italiano acompanhando a cerveja. Refestelado na poltrona, vista para o fundo da casa consigo até sentir um pouco de pena dos ajudantes do delegado cavoucando o chão como dois tatus. Um pouco de pena só. Suei horrores cimentando. Porque não deveriam suar desfazendo ?
         Tento contar as pancadas secas das picaretas . Tolo exercício de imaginação. Então me concentro nas bolhas da cerveja. O Dr. Pemozze deve estar de lado dos picareteiros apreciando o trabalho enquanto tenta não se sujar de pó. Rio baixinho. Será que sabe do apelido ? Hum! Acho que não! Dr. Fimose! Só serve para atrapalhar o prazer. Se souber deve estar pê da vida e louco pra descobrir quem foi o gaiato que inventou.
          Terceira cerveja, ele entra.Percebo a olhadela rápida no copo na minha mão. Deve estar seco por um gole. O apelido anterior era Dr. Garrafa, não preciso explicar porquê. Dizem até que veio para nossa cidade devido certos “exageros” na cidade anterior. Culpa da mardita. Ofereço porra nenhuma. Que se dane! Incoerência ser gentil com  quem vem detonar minha casa.
       Tudo certo ? pergunto e, gozando um pouco :- Vão me prender agora ou podem esperar acabar a cerveja ?
        Expressão que não gostou . Coça a palma da mão visivelmente constrangido. Percebe-se que procura as palavras certas.
        Gostaria que o senhor nos desculpasse pelo transtorno! Parece que encontrou. – Mas não se preocupe! Amanhã mesmo eu mando alguns homens refazerem o serviço.
         Acabar de quebrar a casa ou consertar o estrago?
         Ele olha desconcertado.
         Amorteço um pouco a ironia.
         Desculpe, Doutor! É que ando muito cansado ultimamente, o senhor entende.
         Olha um ponto inexistente antes de responder.
         O senhor é que precisa entender. Temos de cumprir nosso dever.
         Seu dever? E qual seria esse tal de dever que o delegado fala?  Escarafunchar minha casa? Esburacar meu chão sem mais nem menos?
         Recebemos uma denúncia. Tosse.- Viemos averiguar.
         E que raios de denúncia é essa que obriga os senhores virem aqui na minha casa e detonarem meu chão? Confesso que não entendo ?
         Viram o senhor trabalhando altas horas da noite. E perguntando:- O senhor fez todo o trabalho durante a noite, não foi?
         E isso é crime?
         O desconcerto dele á patético.
         As pessoas vêem coisas. Imaginam outras. . . depois elas mesmas acreditam no que imaginaram. O senhor sabe como é!
         Sei ? – Uma delícia estar por cima da situação.
         A pessoa que ligou deve ter pensado pior. Parece que brigavam muito nos últimos tempos.
         Dou de ombros.
         O delegado deve ser casado, ( eu sei que é, todos na cidade sabem ) portanto sabe como é a vida de casais. Todos brigam. Nós não éramos exceção.
         Ele coça o bigode. Sinal de que procura o que dizer.
         Nisso tem razão! E ataca, como eu esperava:- Só que as esposas não desaparecem após uma briga de casal.
         E eu registrei seu desaparecimento 24 horas depois. Na sua própria delegacia, se bem me lembro!
          Nada diz. Portanto continuo:
          O doutor vem me falar de deveres da profissão. Não sou de me intrometer na vida de ninguém, mas me parece que o dever de vocês é o de procurá-la. Eu não fui na sua delegacia por uma coisinha qualquer. Não fui encher o saco de vocês porque meu cachorro de estimação ou meu gato de madame sumiu. Eu fui dar queixa do sumiço da minha esposa! Que desapareceu sem deixar nenhuma pista. Eu fui dar queixa do desaparecimento da mulher que vivia comigo e não de uma vagabunda qualquer! E o senhor e seus homens vem na minha casa destruir minhas coisas, com um maldito mandado judicial na mão em vez de sair por aí procurando. E porque vieram? Tinham alguma base lógica?Não tinham nada, a não ser a denúncia de um idiota qualquer que me viu trabalhando altas horas da noite e resolveu foder minha vida. Posso não ser o homem mais inteligente do mundo, mas que raio de dever é esse que o senhor me fala?
         Nós estamos trabalhando no caso! Responde indignado. Devem estar mesmo. – Só não conseguimos nada de positivo até agora. Ninguém a viu sair da cidade. Ninguém a viu nas cidades vizinhas. Levamos até uma foto dela, cedida pelo senhor na rodoviária, sem resultado algum.
          Quando registrei a ocorrência deixei claro que ela havia levado o carro. Porque iria tomar um ônibus ?
          O delegado não tem resposta. Prossigo enraivecido:
          E o que esperavam encontrar aqui? O corpo enterrado no chão da garagem ? Tenha dó, doutor Pemozze! O que mais me irrita não é escafuncharem meu chão. Ou destruírem minha casa ( acho que estou exagerando um pouco). O que me irritou mais foi fazer pouco caso da minha inteligência! Se eu tivesse assassinado minha esposa a enterraria na garagem? Me respeite por favor!
           Tudo se encaixou.
           Faço-me de desentendido:
           Como assim. . . se encaixou ?
           As circunstâncias. Tosse novamente. – A diferença de idade. As brigas constantes. O desaparecimento dela após uma discussão. Coloque-se no meu lugar. A esposa some após uma briga. Não é encontrada a menor pista sobre o seu paradeiro. Existe esse tipo de casualidade. – dá uma pausa. – Aí, de repente o marido quebra o chão da garagem durante a noite e o cimenta de novo. O que se pode pensar?
            Encho o copo de novo.
            E pensaram o quê ? Bebo num gole só. – Que eu dei uma machadada na cabeça dela durante a briga, ou discussão, como quiser melhor. Carrego o corpo até a garagem. Quebro o cimentado e enterro o corpo. Depois cimento de novo. Aí vou na delegacia e registro o desaparecimento. Pigarreio. – Eu tenho a impressão que vocês andam lendo muito Ágata Christie. E os motivos que me levaram a isso? Pelo que eu saiba é preciso motivos para se matar alguém. E quais seriam os meus? As briguinhas que todo santo casamento tem?
             Como o delegado nada responde continuo:
             Se seus homens trabalharam direito, e eu acredito nisso, com certeza descobriram que eu adorava minha esposa. Que fazia tudo por ela! O que me levaria a fazer o que estão insinuando ?
             Não seria o primeiro a matar por causa de brigas de casais. O senhor deve conhecer muitos casos assim.
             Então porque um marido matou a mulher depois de brigar, todos os maridos tem essa obrigação?  As cadeias estariam cheias de maridos assassinos, não sobraria espaço pra mais ninguém.
            E o trabalho noturno ? Que eu saiba o senhor tem condições financeiras pra pagar alguém. Um pedreiro. Um servente. Porque o senhor mesmo ?
             Sabia que faria tal pergunta! Óbvia.
             Não sei se o delegado vai entender.
             Posso tentar.
             Então explico do desespero que tomou conta de mim quando ela foi embora. Falo dos lugares onde fui em busca dela. Das fotos que deixei nos lugares mais improváveis, na esperança que alguém pudesse tê-la visto e me comunicado. Da recompensa oferecida por qualquer informação útil. Das idas aos hospitais e necrotérios da região. E da minha decisão de procurar a polícia quando descobri que todos os meus esforços foram em vão.
              Lágrimas molham meus olhos. Emociona-me pensar nela. Dói dentro de mim lembrar-me dos momentos agradáveis que passei junto dela e saber que não voltarão jamais. Assim como dói contar a ele, um estranho em minha vida, de ter quase certeza dela haver me abandonado, apesar de tudo o que fiz por ela. Da minha incapacidade de faze-la feliz e ter ido procurar a felicidade longe de mim.
             Ele também se emociona. Posso perceber distintamente.
             E tem idéia do porquê da fuga?
             Cheguei a mil conclusões. Talvez tenha se cansado de viver comigo. Talvez tenha sofrido algum acidente e esteja desmemoriada por aí. Talvez tenha sido seqüestrada por alguém e o pedido de resgate ainda não chegou. Passo a mão na cabeça, desconsolado. – Não sei, doutor! Simplesmente não sei o que aconteceu com ela!
             Cheio de dedos faz a pergunta que eu já esperava:
             Poderia haver outro?
             Estou preparado. Olho-o bem nos olhos.
             Que eu posso falar? Claro que pensei nessa hipótese também. Respiro fundo antes de continuar. – Talvez tenha se apaixonado por outro e esteja com ele em algum lugar esperando a poeira baixar. O que posso te dizer? Que eu prefiro sabê-la morta em vez de estar nos braços de outra pessoa? É isso que quer ouvir? Talvez prefira! Sabe, doutor Pemozze! o que dói mais na gente? São as incertezas. São elas que mais machucam por dentro. Eu juro: daria todo o meu dinheiro para saber a verdade, mesmo que ela doesse .
             E se foi isso que aconteceu ? pergunta. – E se ela, a sua esposa tiver ido embora com outro, o que o senhor fará?
             Não respondo. Volto ao assunto anterior.
             Depois de alguns dias sem notícia nenhuma decidi esperá-la. Se estivesse machucada em algum lugar alguém mandaria me avisar dia mais dia menos. Se tivesse fugido com alguém talvez mandasse um recado: Venha me buscar! Estou arrependida do que fiz! E eu iria. Quem sabe alguém a visse em algum lugar e me telefonasse avisando. E eu poderia não estar em casa, como saberia? Por isso estacionei. Passei as noites andando de um lado para o outro, como um vampiro. Geralmente bebendo até cair bêbado. Uma, duas, dez. O senhor me entende, não?
             Ele acena a cabeça concordando.
             O piso da garagem tinha de ser consertado. Havia entrado em contato com alguns pedreiros antes, pedindo orçamentos. ( Com toda a certeza, havia averiguado isso ). Decidi fazer eu mesmo o serviço. Ajudaria a passar o tempo e não me faria afundar na bebida o tempo todo. Sabia, delegado, que o melhor remédio para se ocupar o tempo é gastá-lo em coisas úteis. Indico a garagem com o olhar e um leve menear de queixo:- Fiz um bom trabalho, não é mesmo?
              Ele para pensando. Nada do que eu disse está fora da lógica. Tudo dentro do contexto. Ele está assim . . . assim como uma criança pega em fragrante num delito grave . A pena que eu sentia antes por ele transforma-se em raiva momentânea. Tenho nojo de pessoas servis. E é assim que o sinto nesse momento. Completamente servil. Nunca fui. Mesmo estando errado nunca transpareci meu erro. Essa é a melhor maneira de se perder o controle. Decido dar uma estocada leve.
             Pena que seus homens estragaram tudo.
             Amanhã eles virão refazer tudo. - diz num fio de voz.
             Confirmou a subserviência.
             Não é preciso! Respondo de batepronto.
             Faço questão!
             Coloco a mão em seus ombros. Cena patética: pai confortando o filho.
             Por favor, doutor Pemozze! Não custará nada fazer o serviço. E vou ser sincero. Será uma boa terapia até ela voltar!
             É hora de ser gentil. Ofereço uma cerveja. Aceita. Cairia ainda mais no meu conceito se não o fizesse.
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             Mãos acariciando meu pênis. Lábios carnudos sussurrando palavras de amor em meus ouvidos.
             Dor gostosa no baixo ventre, prenúncio de gozo, contorço-me um pouco para poder alisar os seios grandes e duros.
             A boca desvia-se do ouvido e procura a minha. Cheirando canela. Os lábios movem-se em câmera lenta, murmurando palavras desconexas, sem sentido algum.
             Beija.
             O beijo não tem o sabor esperado.
             Beijei-a tantas vezes, o gosto ainda dentro de mim. Pressentido.
            Algo tenta penetrar minha boca. Viscoso. Comprido. Diferente da sua língua.
            Afasto minha boca um pouco. Passo a mão nos lábios e retiro algo que tenta penetrar minha boca. Ergo até a altura dos olhos.
            Antes que veja sinto o gosto de podre.
            VERMES!
            Minha boca está cheia de vermes compridos e viscosos.
            O rosto dela começa a desfazer-se diante dos meus olhos. Como manteiga no sol quente.
            E os vermes continuam a sair pela boca. Olhos, nariz, ouvidos.
            Grito desesperado antes de acordar molhado de suor.
            Levanto rápido da cama, procurando os bichos nojentos no lençol e acendendo a luz imediatamente.
            Pelo vidro da sala espio a rua deserta, lamentando não ter saído esta noite e enchido a cara de bebida barata.
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            A carta está junto dos prospectos de propaganda na caixa de correio.
            Demorou um pouco mais do que esperava para chegar. Levo-a para dentro junto com os prospectos e as cobranças bancárias. Terei de tomar o máximo de cuidado ao abri-la, senão minhas cautelas terão sido em vão.
            Quando postei fiz uma pequena alteração na tática do fio de cabelo colado na porta, usado em quase todos os filmes baratos de espionagem. Aquele truque manjado de, ao sair, colar um fio de cabelo na abertura da porta. Quando o herói do filme volta para casa, depois de matar um monte de bandidos, a primeira coisa que faz é espiar o cabelo. Se estiver colado no mesmo lugar é sinal que ninguém invadiu sua casa. Se não estiver . . .
             Antes de colar o envelope tirei um fio de barba e, com o máximo dos cuidados deixei-o entre duas fileiras finas de cola no envelope. Tomei cuidado também em evitar que o fio de barba entrasse em contato com a cola. Isso anularia o resultado desejado.
             Se alguém abrisse a carta antes de mim, provavelmente deixaria o fio cair e eu saberia. Se o adulterador fosse bem cuidadoso e visse o fio e o recolocasse no lugar, nunca saberia a posição correta: 30 graus em relação ao endereço do remetente. Eu sim! De qualquer maneira saberia de alguém havia aberto a carta antes de mim,
             Haviam.
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             O doutor Fimose novamente.
             Deve ter gostado das minhas cervejas.
             Que bons ventos o trazem ? digo, arrependendo em seguida por usar frase tão antiga. Tão do tempo do onça.
             Estava nas redondezas. Apareci para ver como estão as coisas.
             Mente, é lógico que mente.
             Então é o amigo que veio? Não o delegado de polícia ?
             O sorriso dado como resposta não me agrada. Sempre preferi as respostas diretas e francas. Sorrio também, apesar da preocupação.
             Esta é uma das minhas qualidades: sempre sou maleável. Já disseram antes em tom de ironia que  devia ter seguido a carreira de ator.
             Outra das minhas qualidades é a paciência. Por mais pesada que seja a situação, sempre agüentei calado e tentei reverter a meu favor. Foi assim em Serra Pelada.
             Arrumei um sócio e juntos investimos um bocado de dinheiro nuns barrancos promissores, Durante um bom tempo, na época das vacas magras, tudo correu bem. A gente conseguindo algum ouro, nada espetacular, nossos homens cavoucando o chão feito tatus, trabalho duro para os dois, mal sobrando tempo para descansar o corpo na noite chegando. Mal o dia surgindo e nós no barro grudento, a máquina  trabalhando sem parar, separando o cascalho do ouro.
              Quando atingimos o centro e o amarelo começou a surgir como gotas de chuva em dias de trovoada percebi que estava sendo roubado. E não era pouca coisa!  Primeiro pensei nos contratados. Trabalhando por dia, uma ou outra gorjeta quando  era satisfatório, eram os mais prováveis.
               Ledo engano! Uma investigação mais detalhada e o culpado apareceu com todas as linhas. Meu sócio em unha e carne. Outra investigação e descobri onde estava indo o grosso da roubalheira: entre as pernas de uma morena nem tão bonita , nem tão nova assim para compensar o crime. Apenas mais uma aventureira indo atráz do dinheiro onde ele estivesse. E um péssimo negócio para o meu ex-amigo: quaisquer dez gramas e a vagabunda daria a buceta, o cu e chuparia o cacete de qualquer um. Acho que até por menos!
                Posso perdoar tudo neste mundo, até sacanagem! O que não consigo perdoar é burrice. Meu ex-amigo estava ali, no maior trampo, os mosquitos comendo a gente vivo, num lugar onde Deus não visitaria a não ser por motivo de força maior e em vez de segurar a barra para dias melhores, mulheres melhores, vida melhor, comendo uma piranha de quinta categoria e o pior, às minhas custas! Se quizesse enfiar todo o ganho do seu trabalho duro num buraco qualquer, tudo bem! Mas enfiasse no cu o seu próprio dinheiro, não o meu! Enfrentando uma vida de cão, rezando por alguns minutos de descanso e ele ali, comendo a putinha no bem bom? Sacanagem das grossas!
                Havia uma saída. Poderia confrontá-lo! Mostrar que sabia de tudo e exigir minha parte roubada com juros e correção monetária. Desfazer a sociedade. Mas. . . e depois? O sacana devolveria meu dinheiro? Tudo ficaria numa boa ?
                Numa sociedade normal, feita na cidade, num tabelião, tudo legal dentro dos conformes, podia funcionar. Provava o roubo, lascava um bom advogado para tirar até as calças do filhadaputa. Porém num garimpo não é bem assim que funcionam as coisas. Primeiro: não existe lei! Bem, vamos corrigir: existe. . . porém não funciona. Aliás, a única lei que funciona nesse tipo de lugar é a da eliminação dos problemas. Traduzindo: se abro a boca, virava eu o problema.
                Decidi capitalizar as perdas. O melhor a fazer no momento.
                Fiquei de olho aberto, bem mais que antes, na produção dos lucros. Ele, meu ex-amigo, percebeu alguma coisa e maneirou um pouco a capitalização paralela, e ficou atento, é claro!
                Tive sorte, a maior sorte do mundo quando ele morreu num acidente algum tempo depois. Não é que o barranco onde trabalhava desabou, enterrando ele e mais dois homens na lama?
                Houve quem dissesse à meia voz, bem longe de minha presença, haver me visto minando o barranco noite anterior à tragédia. Calúnias,é claro! E não se deve confundir em hipótese nenhuma sorte das brabas com maledicências.
                Posso perguntar uma coisa que ficou no ar ? o delegado me tira do devaneio.
                Claro que pode! Sei bem o que vai perguntar. Conheço as pessoas. Aprendi nessa vida dura a quase adivinhar o que as pessoas vão dizer antes mesmo de dizer.
                Até agora não entendi porque não deixou a gente revistar sua casa sem um mandado. Se não havia nada contra o senhor, e isso ficou provado sem sombra de dúvidas, porque negar a vistoria ?
                Finjo seriedade antes de responder.
               Achei uma sacanagem da parte de voces suspeitarem de mim e ficarem enchendo o meu saco em vez de procurarem minha esposa. Uma cafagestada da parte da lei achar que matei minha mulher. Vou te dizer um negócio: sem mandado não entrariam nem no quintal da minha casa, quanto mais esburacarem meu chão!
               Também procuramos sua esposa, o senhor sabe bem disso. E já pedi desculpas pelo transtorno. E tínhamos de investigar sua casa. Faz parte dos trâmites esgotar todas as possibilidades.
               Sorrio antes do tapinha nas costas dele.
               Calma amigo ! Não estou criticando o rumo das investigações. Estou apenas respondendo suas perguntas
              Terminou a cerveja. Levanto para buscar outra na geladeira.
              E voces dois ? pergunta antes mesmo de eu voltar para a sala. – Como se davam ?
              Bem -  respondo. – acho que igual a maioria dos casais. Uma briguinha aqui e ali, nada grave. Porque a pergunta?
              Falo pela diferença de idade entre voces. Quantos anos mesmo?
             Claro que sabe esse pormenor!
             Trinta anos!
             Isso não ajudava nas brigas ?
             Abro a garrafa.
             Acredito que sim! Nossos gostos pessoais não combinavam. Sou da geração hifi, cuba libre, Ray Coniff. Não combinava em nada com as diets cokes , Danielas Mercures e esses conjuntos barulhentos  da vida.
             Ele passa para a próxima pergunta.
             Conhece alguém chamado Cássio? Cássio Lopes para ser mais exato ?
             Que me lembre, não. Deveria ?
             Ele é funcionário do banco onde tanto o senhor quanto sua esposa tinham contas bancárias.
             Nós tínhamos contas em quase todos os bancos da cidade.
             Da Caixa Federal.
             Sacudo a cabeça.
             Talvez. Pelo nome não. Tem alguma coisa a ver com tudo ?
             Ele também sumiu.- Pigarreia -  Quase que na mesma época que sua mulher.
             Isso quer dizer o quê, exatamente ?
             Sua esposa o conhecia? Tinha algum tipo de amizade com ele ? Eu quero dizer. . . não apenas da agência?
             Gosto da maneira como ele alterna esposa e mulher quando fala dela.   E não gostaria de estar na pele dele. Deve ser terrível fazer esse tipo de pergunta maliciosa para uma pessoa que oferece cerveja e amizade, mesmo depois de quebrarem a casa  e suspeitarem.. Talvez seja por isso que tome a bebida de um gole só. Como se quizesse se ver livre dela o mais rápido possível.
             Nunca soube nada. O senhor delegado acredita em algo mais?
             Não sei! Sinceramente não sei! São as coincidências, entende?
             Coincidências ?
             É. De repente duas pessoas de uma mesma cidade somem sem deixar vestígios. No mínimo é estranho, o senhor há de convir.
             Sento. Gostei da sinceridade dele. Não apalpou . Direto no queixo.
             Deixa eu ver se consegui entender! O doutor acha que podem estar juntos? Certo ?
             A expressão no rosto do delegado dá pena. É hora de mostrar a carta.
             Ele finge surpresa. Se eu não soubesse que já havia lido, seria até capaz de acreditar. Bebo levemente.
             Apanha o envelope. Examina atentamente como se nunca o tivesse visto. Um grande ator o doutor Pemozze!
             Foi postado em Foz do Iguaçu duas semanas atrás. ( Claro ) Tinha parentes lá ?
             Não.
             Procurou nas redondezas ?
             Não havia motivos. A partir de agora sim.
             Pensa longamente.
             Ela não faz referência a ninguém na carta. Tem idéia por que?
             Minha resposta é vaga.
             Quem entende as mulheres !
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            Quanto tempo leva para um corpo decompor-se por inteiro? Isso, sem contato algum com o chão. Num ambiente fechado e úmido.
            Médicos, enfermeiros, enfim, pessoas que lidam com a morte diariamente devem ter esse tipo de informação, eu não. São fatos que não se aprendem na escola. Nos livros que li, e não foram muitos, não me lembro de haver lido algo a respeito.
            Teria de descobrir sozinho se quisesse saber.
            Matei um coelho, pendurei-o num varal num paiol de muita umidade num lugar deserto e esperei.
            No dia seguinte o corpo estava duro e começou a feder.
            Os vermes apareceram no terceiro dia.
            Duas semanas depois apenas o esqueleto pendurado e o fedor ficou insuportável.
           Fiz essa experiência três meses atrás. É preciso ser curioso às vezes.
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          O Nizan telefonou, querendo saber se vou ficar com o Rancho dos Escravos.
         O nome real é outro. Mais simples. Rancho Trevanian. Sobrenome do último proprietário, porém ninguém o conhece assim. O nome pelo qual é conhecido deve-se ao fato de já existir na época da escravidão. Contam  histórias sobre os instrumentos de tortura ainda existentes no barracão onde antes foi a senzala. Instrumentos primitivos feitos com o que tinha na época. Madeira, bambu, ferros enferrujados. Não há quem não o conheça por esse nome:- Rancho dos Escravos.
        Eu demonstrara interesse tempos atrás, Achava interessante cultivar esse tipo de história viva. O Nizan se entusiasmara. Fazia tempo que estava com o sítio para vender e não conseguia interessado. Talvez fosse pelas histórias de assombrações que o povo inventava sobre o lugar. Que a os escravos mortos com requintes de crueldade pelos patrões atormentavam quem se aventurasse passar pelas terras. Lendas bobas.
        Longe da cidade. Completamente isolado.
        As chaves comigo.
        Não deu para ir lá ainda! minto descaradamente.
        . . .
        Talvez vá esse fim de semana. A Ângela vibrou com a idéia! Mentiras de novo. Minha esposa nem sabe do interesse meu no Rancho.
         . . .
         Outro interessado ?
         . . .
         Pôrra Nizan ! Segura o outro comprador mais um pouco. Voce ofereceu pra mim primeiro. E tem mais! Quando esse tal de interessado que voce diz que existe souber das histórias sobre o sítio não compra merda nenhuma! ( faço uma pausa ) Pensa que não sei o tamanho do mico que voce está empurrando pra mim? Dez anos com essa merda na mão e só porque eu quero ia aparecer outro querendo? Se voce pensa que eu sou algum idiota está completamente enganado ! Aguenta mais um pouco.
        Desligo na cara dele.
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        Quantas vezes eu lera ? Dez? Vinte ? Mil vezes?
        A letra caprichada de Ângela me faz reviver os momentos felizes passados junto dela.
        “Voce é o melhor homem do mundo.”
         Fui mesmo ? Pensando friamente, poderia ter sido mais. Deveria ter esquecido os negócios um pouco e me dedicado a ela em tempo integral. Pra que tanto dinheiro? O que tinha acumulado nessa vida de cão já não era o suficiente para viver como rei o resto da vida ? Pra que mais ? Tinha dinheiro . Tinha conforto. Tinha ela. Pra que mais?
         “ Me fez feliz a maior parte do tempo que vivemos juntos. Eu juro por Deus! Voce foi o amigo que nunca tive. O pai que me abandonou menina ainda. O homem que. . .”
         Paro, tentando pensar em outras coisas que não ela. Sinto que vou chorar, um nó na garganta prestes a explodir dentro de mim. E não devo. Não é hora de fraquejar. Ainda não.
        Viver aos lado dela fez-me remoçar. Fez-me esquecer dos dias amargos. Das tristezas. Dos dissabores. Das mágoas que essa vida deixa marcadas na gente. O tempo passado junto dela transformou-me de um homem duro, calejado , num outro homem, completamente apaixonado pela vida e todas as pequenas coisas que existem ao nosso redor. Fez-me ver a vida sob uma ótica bem mais bonita e calma.
         Dói lembrar dela. Não sei se pelas horas felizes ou por saber que nunca mais a terei perto de mim . Restarão apenas as lembranças de um tempo bom.  Que eu não sabia o quanto eram,agora que perdi é que descobri.
        “ preencheu totalmente meus dias. É pena que não dá mais. Lutei todo o tempo tentando acreditar que voltaria a ser feliz com voce. Tentando voltar no tempo quando via em voce o homem ideal. Mas, não dá mais. Infelizmente não dá mais.
        Voce é bom. Simplesmente é a melhor pessoa que alguém poderia conhecer na vida e agradeço a Deus por ter tido esta graça. Só que descobri que não mereço viver ao seu lado. Sabe amor, eu não presto. Nunca prestei nessa vida. E estou sendo sincera, talvez até não devesse, mas estou sendo sincera o máximo que posso. Bom viver com voce do meu lado. Tenho tudo que uma mulher poderia desejar e não falo apenas de bens materiais ou conforto. Voce sempre esteve do meu lado dando apoio. Amor, carinho, segurança, afeto.”
        Neste ponto a letra está levemente tremida e a folha amassada  . Tento imaginar o que ela estaria sentindo. Conforta-me pensar que ela parou  alguns instantes e sentiu vontade de voltar atráz. Que pensou no amor que dediquei a ela . Percebo que  estou trêmulo. Mesmo depois de lida e relida mil vezes, praticamente decoradas todas as palavras tanto li esta carta nos últimos dias, a emoção ainda me vem a flor da pele. Lágrimas teimam em sair dos meus olhos e molhar o papel. Lembram gotas de sangue.
        Preciso de uma bebida urgente.
        A garrafa de uísque do lado. Um trago. Dois. Muitos.
        Torno a reler as palavras dela.
        “ me vi insegura. Precisando de um ombro amigo.
        Por isso vou embora para bem longe. É melhor para nós dois. A distância se encarregará de faze-lo me esquecer e eu também. Ainda não sei para onde vou. E isso pouco importa. Qualquer lugar neste mundo será um bom lugar, desde que eu te esqueça. E consiga superar a dor de ter perdido o melhor homem deste mundo. E consiga esquecer que eu tive esse homem especial um dia para mim e hoje não tenho mais.
         Voce vai encontrar alguém pra te fazer feliz, o que infelizmente eu não consegui.
         Sou obrigada a levar o carro  e algum dinheiro, senão não tenho chance nenhuma de sobreviver , me desculpe. Se puder um devolvo tudo. Eu juro.

                                                 Ângela “

         Enxugo a lágrima com a ponta da camisa.
         Sei o quanto será difícil viver sem ela.
         Torno a apanhar a garrafa. Nem me preocupo em encher o copo, bebo no gargalo mesmo.
         O Johnny Walker é um bom amigo. O melhor nesta circunstância.
         Pena que sua companhia sempre me deixe zonzo .
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         Faz dois meses sem ela. Parece mil dias.
         Saio as vezes quando a solidão aperta demais e as paredes parecem criar vida. Quase sempre trago alguma puta para fazer-me companhia. Não é difícil encontrá-las. Estão sempre por aí. Pelas esquinas.
         Faço questão de pagá-las regiamente. Tenho muito dinheiro e além disso, deve ser um pé no saco aguentar um velho como eu. Algumas tentam me iludir dizendo que gostam de mim e não do meu dinheiro. Finjo que acredito. Mais vale uma mentira gostosa que a verdade crua e dolorosa. E afinal de contas o que é a vida , senão uma grande mentira?
        Como eu imaginava a história sobre outro provável comprador para o Rancho dos Escravos era mentira do Nizan e foi por isso que ainda não entreguei as chaves.  Nem poderia.
        O doutor Pemozze aparece vez ou outra para umas cervejas e bater papo.  Jogamos conversa fora a maior parte do tempo. Ele não tocou mais no assunto da minha ex-esposa. Tornou-se meu amigo e não quer me ferir. Todas as vezes que comenta sobre o chão da garagem ainda não ter sido refeito e da disposição de mandar seus homens para fazê-lo, mudo de assunto.
        A solidão está sendo boa para os negócios. Jamais ganhei tanto dinheiro como agora e descobri uma grande verdade: viver ao lado de quem se ama torna a gente fraco, piedoso. Pensando se não estaria prejudicando o outro lado. Em negócios isso não funciona. É preciso comer o fígado do oponente se fôr necessário. Tornei-me mais frio e ganancioso que antes. São as leis da vida! Engolir para não ser engolido. Sacanear para não ser sacaneado.
         Doutor Pemozze ! Doutor Fimose !!
         Será que é tão ingênuo quanto tenta parecer ? Não sei. Acredito que não.
         As vezes finjo beber e observo-o. Cerveja ou uísque regando as plantas enquanto encho o copo seguidamente. Depois finjo estar bêbado e tento captar seus pensamentos. Ainda não consegui nada de positivo.
         Com certeza ele finge também. Se eu faço isso a maior parte do tempo porque ele não o faria ?
         Afinal todos  fingem neste imenso palco que é a vida. Não é mesmo ?
         Meus sócios nos negócios fingem .
         Meus amigos fingem.
         Ângela fingia.
         É a vida.
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         Descobri que era traido por acaso.
         Um lugar onde não deveria estar. Um reconhecimento de carro que não era para acontecer. Um beijo que não deveria ver.
         O primeiro impulso foi apanhar o revólver no portaluvas e fuzilar os dois sem piedade. Dois tiros e tudo se resolveria. Um bom advogado, sequer veria a porta da delegacia.
         Não sei porque não o fiz. Certas atitudes nesta vida nem mesmo a gente consegue explicar. Fui embora sem os dois perceberem, corroido por dentro e pensando no tapa levado na cara. Os pensamentos martelando minha mente incessantemente. Dera a minha vida a ela. Dedicara todo o meu viver para faze-la feliz. No entanto me trocara por outro, apenas por ser mais jovem e bonito. Dois tiros seriam piedosos demais.
         Na zona de meretrício, acompanhado de duas putinhas recém chegadas, pensei melhor. E descobri que ela estava certa. O que uma mulher como ela poderia obter de um velho carcomido como eu? Dinheiro e conforto, nada mais. Na flor da idade, o libido explodindo, desejada por muitos, e eu ? Apenas um velho rico esperando a morte chegar e mais nada. NADA! NADA! O que podia esperar? Fidelidade eterna? Lorotas.
         O efeito do álcool deve ter ajudado na minha decisão. Pensei nas inúmeras mulheres que conheci na vida, a maior parte mais velhas e menos belas que ela, com suas vidas ordeiras dentro de casa, seus maridos, seus filhos, suas missas aos domingos . . . e seus amantes à tiracolo. Porque Ângela seria diferente? Apenas por ser minha ?
          Decidi fingir nada ter visto. Tentaria reconquistá-la. Um bom tratamento numa clínica e meu vigor sexual aumentaria. E havia mais: eu a amava. Apesar de tudo eu a amava e não queria perdê-la. Jovem, bonita, inteligente, cheia de vida . . . e ordinária. A ordinária mais linda que eu havia encontrado nessa vida. Faria companhia a mim. Daria amor fingido, porém daria amor a mim. Que se pode querer mais nesta vida miserável?
           Em casa, vendo-a dormir o sono dos justos, chorei por não te-la conhecido antes. Quando eu ainda era jovem e podia dar a ela tudo o que precisasse. Senti vergonha de mim mesmo. Da minha covardia . do meu medo de perde-la . Da traição.
           Duas semanas depois encontrei a carta escondida na gaveta entre as roupas íntimas.
           Um desespero ainda maior tomou conta de mim.
           Apesar de tudo eu a perderia. Nunca mais sentiria seu cheiro. Nunca mais ouviria seu riso contagiante. Nunca mais a teria nos braços.
           Isso eu não suportaria.
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           Atraí-o com a desculpa de fazer um seguro para o sitio que estava comprando. Pedi sigilo absoluto para outras pessoas não melarem o negócio.
           A função dele no banco era essa: setor de seguros. Precisaria ir comigo ao sítio ver a situação geral do lugar. Sei que se pudesse mandaria outro, porém não havia outro. Teria de ser ele mesmo, não havia como negar.
           Mal entrou na carro, seis horas da manhã, ninguém nas ruas, uma pancada seca na cabeça, quando acordou estava amarrado sobre uma mesa no Rancho dos Escravos. Mesma mesa onde os antigos proprietários torturavam seus escravos fujões. A mordaça era desnecessária, ninguém poderia ouvir seus gritos mas eu não queria ouvir sua voz. Ele ouviria a minha.
           Eu não tinha nada nessa vida desgraçada que me desse prazer, apenas ela! eu falei quase chorando. – No entanto voce quis tirá-la de mim. Voce que é jovem e tem toda a vida pela frente, voce que podia conseguir a mulher que quizesse, até mais jovem e bela que ela. Eu só tinha ela. Mas voce a quis também e a tomou de mim!
          Resmungou algo, a mordaça não deixou-me entender o que.
          Ela era a minha vida. A única razão de eu viver e voce a roubou. Tomando ela de mim está tomando a minha vida também – fiz uma pausa – e isso me dá o direito de também tomar a sua. Roubando Ângela de mim voce me deu o direito de também roubar a sua vida. E eu a quero! Eu quero a sua vida! Olho por olho. Vida por vida.
          Ele nada podia fazer. Caminhei para o carro e abri o portamalas. Apanhei o embrulho no saco plástico. Com cuidado carreguei para perto dele. Os olhos acompanhando cada gesto meu. Era só o que podia fazer: olhar. Imaginei o que podia estar pensando.
          Duas pessoas mereciam sofrer nesse imblógio todo.
          Eu. E apenas eu sabia o quanto estava sofrendo por fazer tudo aquilo.
          Ele. Por tomar-me a única pessoa capaz de me dar ânimo para viver.
          Ângela não. Foi apenas uma vítima das circunstâncias. A honestidade estava implícita na carta que encontrei. Seria tão fácil continuar a farsa. Só não partiu antes porque consegui iludi-la com mil histórias. E por pena de mim ficou um pouco mais. O necessário.
         Um tiro só – TUFF – na cabeça, enquanto dormia. Nada sentiu ou sofreu. Não merecia.
         Passei a noite inteira chorando ao lado dela. Apenas de madrugada depositei o corpo no portamalas e fiquei esperando ele chegar. Foram as lembranças dela, dos nossos tempos felizes que deram-me força para continuar. Doeu sabê-la ali perto de mim o tempo todo.
         Amarrei o corpo de Ângela sobre o corpo dele. Pulso com pulso. Perna com perna. Frente a frente. E fui embora. Ele a havia tomado de mim. A teria pelo resto da vida.
         Pena que curta.
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         A chuva me faz lembrar dela.
         Em noites assim, aconchegava-se nos meus braços dizendo estar com frio, me pedindo para aquecê-la. Morria de medo de trovões e relâmpagos.
         Não encontrei viva alma quando voltei duas semanas depois ao Rancho dos Escravos buscar os corpos. Ninguém me viu entrar em casa e enterrar os corpos no chão da garagem. Que os homens do doutor Pemozze fizeram o favor de quebrar o cimento e encher de buracos. Enterrei-os bem longe um do outro. Ele de bruços para sacanear. Ela normal. Eu a quero sozinha mesmo na morte.
         Postei a carta em Foz numa agência grande dos correios. Movimento infernal, ninguém se lembrará do homem que um certo dia enfiou a correspondência na abertura destinada ao estado de São Paulo.
         Amanhã ou depois quando o delegado aparecer para as cervejinhas de sempre, vou aceitar a oferta dos homens refazerem o concretado. E vou exigir um trabalho reforçado. Nada de concreto fino, pelo menos 20 centímetros. O material faço questão de comprar. Não é justo a comunidade local pagar por uma benfeitoria que apenas eu irei desfrutar.
         Depois ligo para o Nizan. Não quero mais o Rancho dos Escravos. Doeu demais retirar cada pista do que aconteceu. E o cheiro dela continua ali. Apenas eu posso sentí-lo, mas está. Ele que venda para quem quiser. Não quero mais merda nenhuma.
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         Dei uma boa grana para os ajudantes do delegado. O cimentado ficou perfeito. Nem eu faria melhor.
         Estou sem ânimo para sair e caçar alguma puta por aí.
         Um bom livro de mistério, a imaginação do autor é delirante, minha voa longe.
         Imagino o terror sentido pelo Cássio ( finalmente consigo dizer o nome dele sem me revoltar ) antes de morrer de fome e sede. Deve ter levado uns três dias. Era bem forte.
         No segundo ou terceiro dia o corpo de Ângela deve ter começado a apodrecer e os vermes apareceram. Ele, amarrado como estava, não tinha como impedir que entrassem em seu corpo também. Entrando nele vivo pelos olhos, boca, nariz e rabo.
         Torço pra que as histórias de assombração sejam verdade. O terror dele foi maior se os escravos mortos apareceram e o infernizaram. Por instantes consigo até sentir pena dele. Bobagens de  velho.
         É por ela, por Ângela que devo sentir pena de verdade. Eu queria dar o mundo a ela. Sequer pude dar um túmulo com seu nome escrito na lápide.
         O que posso fazer – e faço sempre – é rezar por ela ajoelhado no cimento frio. Pedindo que o bom Deus tenha piedade de sua alma e ela tenha paz onde estiver.
         Que eu não terei jamais.
         Nesta vida, pelo menos, não.
Nickinho
Enviado por Nickinho em 24/09/2007
Reeditado em 01/11/2007
Código do texto: T666144
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Sobre o autor
Nickinho
Ibitinga - São Paulo - Brasil, 64 anos
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