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Prazer cego

    Aline sentira que não estava mais em movimento. Não mais chacoalhava, o que significava ter parado em algum lugar. Continuou assim como estava, esperando uma possível volta de movimentação, mas não o aconteceu.
    Acordava no momento, mas ainda assim não conseguia abrir os olhos, ficava então a imaginar o que poderia estar acontecendo. Em sua mente apareciam várias possibilidades para o caso da falta de movimentação, mas não sabia certamente qual era a alternativa correta.
    Deitada na poltrona de um ônibus não sentia a mínima vontade de mexer qualquer músculo de seu corpo. A duvida de o veículo não estar mais em movimento a perturbava sim, mas a preguiça era maior, ficaria para sempre como estava, deitada e de olhos fechados.
    Seus ouvidos apuraram-se quando ruídos de passos começaram a freqüentar o corredor e vozes infantis chamavam por suas mães. Em primeiros instantes aquela algazarra chegava a seus ouvidos de modos escandalosos, perturbando seus pensamentos. Só que algum proveito pode tirar daquela situação, pois sabia agora onde estava e não mais precisaria abrir os olhos para descobrir; alegrou-se.
    Atentava-se a tudo o que de novo ocorria e escutava as conversas dos novos passageiros, mas ainda sem mexer um músculo. Enquanto prestava a atenção em duas senhoras, que comentavam sobre seus filhos, sentiu alguém sentar ao seu lado.
    Apurou ainda mais os ouvidos, concentrou-se, mas nada, a pessoa ao seu lado não produzia qualquer ruído, parecia estar como ela, estática.
    "Criança com certeza não é"; - Pensou - "Não conseguiria ficar assim tão quieto. E nem mesmo um idoso, pois esses velhos parecem ter medo de ônibus, e ficam olhando pela janela o tempo todo" - Estava certa de que era um mistério a ser revelado.
    Cinco minutos mais tarde o veículo se pôs em movimento, o que tornou impossível a permanência imóvel de Aline. Sentiu também uma pequena dor que começava a se revelar no lado direito de seu pescoço, com certeza causada pelo fato de continuar na mesma posição por tanto tempo.
    Pensou decepcionada na possibilidade de ter que se virar. Queria continuar como estava e assim, talvez, voltar a dormir, mas aquela pequena dor começava a aumentar, e sabia que não demoraria muito para tornar-se insuportável.
    Tomou coragem e então começou pelos braços, movendo-os delicadamente e no mesmo ritmo o fez com o resto de seu corpo, virando-o 180° e aconchegando-se novamente na poltrona.
    O lado direito de seu pescoço sentiu-se aliviado pela carga que lhe foi tirada, e o lado esquerdo não pareceu incomodado de ter que carregá-la, o que foi realmente um alivio, pois poderia agora voltar a se preocupar somente em ficar quieta.
    Depois de novamente cômoda, e ainda sem abrir os olhos lembrou-se novamente da companhia que havia ao seu lado. Quem quer que ali estivesse ainda não havia feito qualquer movimento brusco, o que a deixava irritada, pois assim não poderia saber quem seria o seu acompanhante. Mas já que nada poderia fazer a respeito resolveu concentrar-se em seu sono e esquecer todo o resto.
    Nos primeiros momentos fora difícil; seus pensamentos, o chacoalhar do ônibus e as conversas paralelas dos passageiros não a deixavam esquecer o mundo.     Somente após alguns minutos é que sentiu estar adormecendo.
    Estava totalmente relaxada, no ponto de transição entre o sonho e a realidade, era aconchegante e admirável, mas aquele foi somente um momento, pois não pode prosseguir, entrar no mundo dos sonhos, algo a fez retornar. Sentiu dedos em sua face. Neste momento estremeceu e todos os pelos de seu corpo arrepiaram-se. A caricia começou fraca, tímida, mas foi "melhorando" gradualmente e em pouco tempo Aline já estava totalmente entregue. Há muito tempo que não sentia esse tipo de sensação, e a mão desconhecida de alguma forma a agradava.
    Mas poderia não ser totalmente desconhecida, o que tornaria, claro, as coisas mais fáceis. Era uma nova dúvida a atormentá-la. "Oh não, mais uma" - Pensou.
    A mão passava agora em sua nuca, e provocava a sensação de seus pelos dançarem ainda mais agitados. Era ótimo.
    Cerrou os dentes, a pessoa dona da mão era delicada, e realmente sabia o que fazia. "O que uma mulher poderia querer mais?" - Pensou - Mas sim, sempre teria mais coisas que poderia querer, que vinham à mente essas horas.
    Não era mais somente nas partes onde a mão tocava que Aline sentia prazer.
    A sensação descera, seu coração acelerara e imagens de nudismo circulavam em sua mente. Queimava por dentro, sentia sua vagina umedecer.
    "O que estou pensando? Nem mesmo sei quem me toca! E se for algum estrupador?" - Reprimiu-se - Realmente não poderia estar pensando e imaginando todas aquelas coisas; na verdade deveria parar por ali a ousadia daquele estranho.
    Levou as mãos aos olhos; era hora de abri-los.
    - Não faça isso, por favor, está linda assim, continue com os olhos fechados - Agora conhecia, além do tato, a voz do estranho. Aliviou por poder ter certeza de que era masculina e saber se tratar de um jovem, como ela, dentre os dezenove e os vinte e cinco anos, e não um velho tarado.
    Não abriu os olhos e voltou as mãos a sua lugares anteriores.
    - Obrigado - Falou novamente o rapaz. Tinha a voz um pouco rouca, mas romântica, perfeita, como sempre havia sonhado.
    "Só espero que seja tão bonito quanto sua voz, não estou afim de ter uma decepção mais tarde" - Pensou, mas não disse, pois caso dissesse correria o risco de o rapaz parar com a brincadeira, e não era isso que desejava no momento. Somente sorriu.
    Há muito tempo não se sentia tão bem. Mesmo parecendo tudo uma brincadeira era gostoso, até mesmo o tesão que sentiu subitamente foi maravilhoso.
    Queria mais, muito mais, e tinha certeza de que seria melhor do que foi até agora.
    Respirou fundo e voltou a relaxar. Esperou para ver o que ele faria a mais. E isso não demorou a acontecer.
    Uma forte e tensa respiração aproximou de sua face. Retraiu os lábios e apertou os punhos enquanto esperava pelo inevitável. A respiração chegava cada vez mais perto, fazendo a sua tornar-se tão ofegante quanto.
    Lábios se encontraram, transformando aquele no momento mais esperado da brincadeira. A química ocorrida foi enorme e ela apaixonava-se gradualmente junto ao calor, que ardia cada vez mais forte. Seus lábios pediam mais, queriam que aquele momento fosse eterno, como parecia estar sendo.
    No momento mais ardente do beijo o rapaz segurou sua mão, e ela, sem perceber o que fazia, levou-a a seus seios. Começou um delicado carinho, primeiramente por cima da blusa e cinco minutos depois o mais perto que poderia chegar de seu coração, por debaixo da blusa. Começava a se contorcer, sentia muito prazer. Mas...
    ... Lembrou estar dentro de um ônibus, possivelmente lotado e com certeza haviam pessoas olhando.
    "Ai minha mãe! O que estou fazendo?" - Condenou-se - "Pareço uma prostituta, nem conheço esse cara".
    Empurrou forte o rapaz e se virou para a janela, envergonhada com o que havia feito. Esperou alguma reação dele, mas nada aconteceu.
    Seu coração batia rápido, não suportava a idéia de ter feito o que fez na frente de tantos, deveria ser realmente uma puta.
    Ficou encolhida na poltrona, com lágrimas escorrendo de seus olhos, pensando nas besteiras que havia feito e tentando esquecê-las, o que certamente era impossível, pelo menos enquanto permanecia acordada.
    - Senhorita, me desculpe, mas temos que sair todos do veículo - Foi acordada pelo motorista.
    - O que houve? - Perguntou.
    - O ônibus quebrou e há outro vindo nos buscar, desça para pegar suas coisas
    - Respondeu o motorista.
    Não havia mais ninguém dentro, mas muitos fora, uma multidão. Quando desceu percebeu que a olhavam de forma estranha. Lembrou então do ocorrido, corando sua face com a vergonha que sentia.
    Foi então para a parte de traz do veículo, onde somente tinha uma senhora, com aparentemente sessenta anos. Apoiou as nádegas em seus calcanhares, como que se sentada e ficou a olhar para o chão.
    - Realmente muito lindo ele. - Escutou a senhora dizer, mas não respondeu.
    - E você também... Mas deveriam ser mais comportados. - Continuou a senhora, fazendo-a erguer a cabeça.
    - Ele quem? - Perguntou.
    - Aquele rapaz hora - Respondeu a senhora.
    Ao olhar para frente viu um jovem de calça jeans e camiseta. Tinha os cabelos negros e o corpo apesar de um pouco magro era bonito. Ele estava um pouco distante, e costas a ela. Provavelmente esperando a carona.
    Quando esse se virou acenou, provavelmente para ela. Aline retribuiu com um sorriso e outro aceno. E então ele começou a andar em sua direção.
    Seus passos eram curtos, preguiçosos, parecia não ter pressa, mas pelo sorriso em seu rosto dava para perceber que era para agoniá-la. Aline viu então um ônibus, da mesma empresa do que a transportava, aparecer no horizonte. Ficou ainda mais feliz, não gostaria de continuar naquele local por mais tempo, e sim sair o mais rápido possível, para logo chegar ao seu destino e se livrar de todos que a condenavam. Mas em menos de dois minutos a sua felicidade transformou-se em medo...
    O ônibus saiu da pista e começou a andar no acostamento, onde seu "novo amante" estava. Andava de pressa, rapidamente aproximando-se dele. Aline levantou depressa e queria gritar, gesticular para que ele saísse da frente, mas não conseguia, estava estática, mas dessa vez pelo terror.
    Continuou respirando forte, com os olhos arregalados, e suando. Viu o rapaz olhar para traz, mas não havia mais tempo algum para qualquer reação dele. O ônibus o atingiu, levando esse pregado na sua frente. Aline então conseguiu gritar, era a pior coisa de que já havia visto, pior do que todos seus pesadelos. O veículo continuava a se aproximar e a única coisa que ela pode fazer foi saltar para o matagal a beira da estrada, salvando-se de ser esmagada, como a senhora.
    Ao saltar ouviu um forte estrondo, caiu no mato e rolou numa ladeira que havia. Ao parar olhou para traz e viu fogo e fumaça preta, antecessoras de um pneu que voava em direção a sua cabeça.
Lesfar Inmors
Enviado por Lesfar Inmors em 26/09/2007
Reeditado em 26/09/2007
Código do texto: T669349

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Sobre o autor
Lesfar Inmors
São Paulo - São Paulo - Brasil, 31 anos
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