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Destino (série "Contos Agoniantes")

Destino é uma coisa curiosa. Há aqueles que acreditam e a ele creditam quando determinada sorte de fatos vem a ocorrer; e há também aqueles mais céticos, mais realistas talvez, que contestam sempre e duvidam que possa existir alguma manobra astral, cósmica ou o que seja, que transcenda aos conhecimentos e chegue a influir no comportamento das pessoas de modo a ser chamado de destino. Particularmente, reconheço que me identifico mais com esses do segundo grupo; acho, por exemplo, que se alguém vem envolvendo-se com freqüência em atividades ilícitas e acaba um dia sendo preso, isso ocorre muito mais devido a suas atitudes do que por obra de uma improvável entidade abstrata denominada destino. Admito, porém, que a minha posição não é das mais firmes. Vejo a situação da seguinte forma: há na trajetória existencial de determinadas pessoas - entre as quais obviamente me incluo, não fosse essa a razão de ter justamente desenvolvido tal teoria – algo como uma espécie de falha geológica, uma rachadura, profunda o suficiente para marcar diversas camadas, as etapas da vida deste indivíduo, contribuindo assim, diante da repetição corriqueira de fatos, situações e emoções com que irá se defrontar constantemente ao longo da vida, para forjar-lhe o caráter e moldar-lhe a própria personalidade.

No meu caso específico, a falha geológica onde eu sempre tropeçava, desde pequeno, era no envolvimento com as mulheres. Algum simplista diria que eu era um romântico. Alguém mais direto e objetivo resumiria meus repetidos fracassos amorosos com uma breve sentença: não dá sorte com as mulheres. Talvez os dois conceitos estejam certos.

Nos dias de hoje, por romântico entende-se que seja alguém ingênuo, bobo ou, senão, coisa pior. Por outro lado, de fato os meus relacionamentos desastrados e mal concluídos não me elegiam mesmo como um bem sucedido conquistador. Ao criar a tese da falha geológica, eu quis dizer que a maldição que me perseguia tinha marcas bem mais profundas do que poderia supor qualquer observador.

Pelo que lembro, minha triste sina teve início ainda nos primeiros anos do colegial. Era uma época de festejos juninos e, como acontecia todos os anos, as turmas ensaiavam cada uma a sua quadrilha para a apresentação no dia da festa. Não sei por qual critério de escolha, coube a mim como par na dança uma menina fofinha, de bochechas rosadas, chamada Tininha. Na inocência dos meus oito anos, só por segurar a mãozinha quente e macia daquela menina gorduchinha, eu me apaixonei perdidamente. E nem o fato de no segundo dia de ensaio ela sequer lembrar que o par dela era eu, aquele menino tímido e calado que a olhava insistentemente desde que chegara para a aula, nem isso me fez desanimar. Quando segurei de novo a mãozinha rechonchuda de Tininha, senti-me inteiramente recompensado, imaginei que já éramos namorados, sem ter dito sequer uma única palavra. Depois, em casa, de tanto e com tanta intensidade que eu pensava nela, especialmente antes de dormir, eu cheguei a acreditar que ela também devia estar pensando em mim. Naquela época, eu ainda não sabia que as coisas não aconteciam assim. Esperei, então, ansiosamente o dia da nossa festa junina. Na hora da quadrilha, contudo, em meio ao tumulto de crianças, professoras e mães, no pátio da escola, encontrei Tininha fazendo par com outro menino, completamente esquecida de mim.

Não gostaria de me deter em outros revezes acontecidos na minha infância e pré-adolescência, mas devo dizer que não foram poucos, afinal sempre fui dado a me apaixonar com extrema facilidade – e geralmente pelas garotas erradas. Assim, rapidamente, lembro que, quando tinha 9 anos, apaixonei-me perdidamente por tia Telma, a professora mais linda do mundo. O resultado dessa paixão foi dos mais desastrosos; além de não conseguir nada com esta minha nova paixão, devido a minha total falta de atenção nas aulas, quase perco o ano.

Lembro também, alguns anos mais tarde, quando me apaixonei por Catarina, a namorada de um primo. Ele era seis anos mais velho do que eu, mas ela era da minha idade e mesmo assim vivia me chamando de pirralho. Uma noite, eu vi os dois namorando no quintal da casa do meu tio. Catarina estava com a blusa aberta e meu primo lhe sugava os seios como se fosse um bebê faminto. No outro dia, querendo parecer adulto, deixei que ela e meu primo soubessem que eu sabia que garotas tinham leite nos peitos. Quando expliquei como sabia, os dois caíram na gargalhada, e meu primo ainda me deu uns bons cascudos para eu aprender a não ficar espiando o namoro dos outros.

Foi quando jovem, porém, que me ocorreram os mais sérios desastres. Lembro de certa garota, chamada Cláudia, a quem conheci num baile de sábado, no clube. Era uma morena vistosa, extrovertida, de sorriso amplo, que adorava dançar. Embalado por muitas caipirinhas a mais, superei minha timidez, driblei minha apatia, desfiz meu permanente ar contemplativo e parti para a abordagem. Bêbado e descontraído, nós dois dançamos até o fim do baile. Para surpresa de meus colegas, saí do clube de mãos dadas com Cláudia. Alguns inclusive, depois, vieram me felicitar pela conquista e saber também se ela não tinha alguma amiga para apresentar. Mas infelizmente ela não tinha. E digo infelizmente não sem motivo – e o porquê disso vocês logo saberão.

Sem os eflúvios do álcool, que da primeira vez me fizeram ousado e corajoso, Cláudia foi, dia a dia, se desinteressando de mim. Isso ao mesmo tempo em que, por não ter amigas ou irmãs para apresentar, ela acabou conhecendo e se interessando pelos meus amigos. Até o dia em que o orgulho que antes eu sentia, por notar o interesse respeitoso dos colegas pela minha namorada, transformou-se numa coisa bem mais dolorida.

Aconteceu numa noite, quando Cláudia e eu estávamos num barzinho, bebendo e conversando. Por notar que, ultimamente, ela não vinha demonstrando a menor satisfação em estar comigo, naquela noite eu me empenhava especialmente em agradá-la, fazendo repetidos elogios a sua beleza e delirando acerca de projetos de viagens de férias, de passarmos o reveillon juntos, coisas enfim sobre o nosso futuro – um futuro que eu mesmo, inseguro e com medo de perdê-la, não conseguia mais acreditar plenamente que pudesse existir. Foi quando chegaram dois colegas meus e ocuparam outra mesa, próxima a nossa. Habitualmente distraído, não notei nada de imediato, mas a chegada dos dois alterou o humor e o comportamento de minha namorada. Ela que antes estava muito séria e calada, começou a rir e a falar em voz alta, como se quisesse chamar a atenção. E, sem nem sequer procurar disfarçar, visivelmente passou a ignorar todas as coisas que eu dizia. Era como se eu nem estivesse ali, sentado diante dela, derramando-me em elogios. Logo, Cláudia levantou e disse que ia ao banheiro. Permaneci sentado, pensando, agoniado, em alguma coisa que eu pudesse fazer para atrair novamente o interesse e a admiração da minha bela garota. Um dos colegas passou por trás de mim, bateu em meu ombro afetuosamente e seguiu na direção do banheiro. Amuado, não percebi nada. Nem que Cláudia e esse colega retornaram quase ao mesmo tempo, ambos rindo muito, numa alegria exagerada. Tampouco me chamou a atenção, na hora, que Cláudia passou a olhar mais para o que acontecia na mesa onde estavam os meus colegas do que mesmo para mim, que, naquela altura, desesperado, insistia em conversar sobre um assunto qualquer. Alguns minutos depois, Cláudia tornou a levantar para ir ao banheiro. Dessa vez foi o meu outro colega que passou por trás de mim, passou a mão na minha cabeça e seguiu na direção do banheiro. Quando Cláudia voltou, foi que eu comecei a ficar desconfiado. Ela estava rindo muito para a outra mesa, e era um tipo de riso cúmplice, safado, com jeito de deboche, coisa que me deixou ainda mais cismado. Notando meu ar desconfiado, Cláudia se inclinou sobre a mesa e me beijou a boca de um modo tão brusco, tão vulgar, passando a mão pelos meus cabelos, de uma maneira que até me causou certa surpresa, principalmente por ela até aquele momento estar me tratando tão friamente. Na outra mesa, os colegas deram uma risada. Como até aquele momento nós não havíamos bebido muito, no que Cláudia tornou a sair da mesa para ir pela terceira vez seguida ao banheiro, mesmo vendo que nenhum dos meus colegas a seguiu, eu decidi investigar aquela curiosa incontinência urinária dela. Esperei um minuto e saí atrás. Fiquei em pé, parado na porta do banheiro das mulheres, montando guarda. Logo a minha presença ali começou a causar certa estranheza entre os garçons, então disfarcei e entrei no banheiro masculino. Ia sair imediatamente para continuar a vigiar a outra porta, quando ouvi uns gemidos vindos de dentro de uma das cabines do banheiro. Cismado, empurrei de leve a porta e tive uma triste surpresa. Encontrei minha namorada ajoelhada no chão, abraçada às coxas de um rapaz fortíssimo, que reconheci como sendo um colega dos meus colegas; ela gemendo, entalada com um enorme salame que o desgraçado lhe enfiava boca adentro, sem piedade. Ao me pegar espiando, o rapaz empurrou a cabeça de Cláudia para o lado e, ao mesmo tempo, me puxou com força pela camisa. Fiquei tão impressionado, vendo aquela imensa lingüiça saindo, toda lustrosa, de dentro da boca da minha namorada, que esqueci de me proteger. Cláudia ainda me olhou por um segundo, de baixo para cima, cheia de desprezo, arfando, extasiada, com as narinas arreganhadas, os lábios melados e com um fio de gosma escorrendo pelo queixo. O punho do rapaz, então, explodiu feito uma pedrada em cheio no meu olho. Não vi mais nada. Quando recobrei os sentidos, não havia mais ninguém por perto. Levantei do chão com esforço. A cabeça parecia que me pesava duzentos quilos, não sei se por causa da fileira de chifres que eu carregava ou se por efeito do soco. E o gosto amargo que sentia na boca, eu também não sabia se era o sabor do ciúme, da mágoa, da humilhação, ou se coisa ainda pior. Por via das dúvidas, passei água pelos lábios e procurei esquecer aquele último beijo, brusco e pegajoso, que aquela ingrata havia me dado.

Nessa história toda, pior do que a dor física, causada pelo murro, e da dor moral, provocada pela humilhação de ser traído, incomodava-me perceber o meu absoluto despreparo em lidar com uma garota como Cláudia. Enquanto eu, ingênuo, romântico e sonhador, dedicava-me a tentar agradá-la com elogios e poesias decoradas, ela se fartava em chupar os paus de todos os meus colegas e dos colegas dos meus colegas, sem que eu nunca tivesse merecido tratamento semelhante.

Mas não pensem também que a minha história era um fracasso completo, que eu só tinha pontos perdidos acumulados na tabela. Nada disso. Com o tempo, após terminar a faculdade e passar num concurso público, especialmente, quando comecei a ganhar um bom salário e de me dispor a gastá-lo com jantares e presentes, consegui me tornar bem mais atraente para as mulheres. O único problema era quando eu começava a desenvolver um sentimento um pouco mais profundo por alguma garota. Logo a coisa toda começava a desandar. A falha geológica surgia novamente no meu caminho e eu acabava, mais uma vez, tropeçando e fazendo papel de bobo.

Não terminou diferente o meu envolvimento com Magali, a filha mais nova de um juiz que trabalhava comigo no fórum. Como eu era um rapaz inteligente e dedicado, o doutor Nogueira disse que fazia muito gosto em me apresentar à moça.

Magali era uma menina de 19 anos (eu estava com 30), muito bonita e interessante, embora fosse acanhada e de modos discretos. Começamos a namorar imediatamente. Ela não tinha uma beleza exuberante, que fascinava os homens com sua simples presença, como acontecia com Cláudia; não gostava também de festas, nem de badalações, preferia se dedicar aos estudos e à pintura. Inseguro como eu era em meus relacionamentos, esses gostos recatados e caseiros de Magali pareceram-me qualidades admiráveis. Comecei, então, a pensar em casamento. Mas Magali, que era pura e virgem, disse que não estava preparada ainda para casar. Esperei, então, dois anos inteiros até que ela enfim se decidisse. Consolava-me, de certo modo, testemunhar o comportamento distinto dela, aquele recato, aquela timidez, que me davam a certeza de que, se eu não vinha afinal conseguindo avanços muito substanciais nas nossas intimidades de namorados, pelo menos nenhum outro homem me ameaçava.

Bom, isso era o que eu pensava. Quer dizer, isso era o que eu pensava até certo dia.

Ocorreu que precisei me ausentar da cidade por duas semanas, para realizar um trabalho e também participar de um seminário em São Paulo. Magali, que nessa época já era minha noiva, não pode me acompanhar. Quando retornei, surpreendi-me com os modos frívolos dela. Fiquei ressabiado. Nessa altura da vida, com 31 anos, eu não era mais um garoto tolo. As meninas viram mulheres, mesmo as mais tímidas, eu sabia disso. E duas semanas era tempo mais do que suficiente para que uma transformação dessas acontecesse...

Magali me recebeu com novidades extraordinárias: beijos gulosos, de língua.

Ora, qualquer outro com um passado tão inglório quanto o meu, ficaria igualmente ressabiado. Aquele assanhamento todo não era coisa daquela menina virgem e tímida que eu conhecia de antes. Decidi, porém, não passar recibo dessa vez. Aproveitei de estarmos sozinhos no jardim da casa e resolvi fazer um teste para ver se os princípios de minha noiva permaneciam os mesmos, e se os arroubos com que me recebeu após duas semanas de ausência eram somente entusiasmo provocado pela saudade.

Perguntei a Magali, fazendo parecer que estava zangado, que modos eram aqueles, afinal estava parecendo mais uma piranhazinha qualquer do que uma moça virgem e noiva.

“Moça virgem...”, ela respondeu de volta, cheia de desdém.

Senti, na mesma hora, um calor forte subindo-me às faces. Minhas pernas tremeram. Ela não era mais virgem, eu podia apostar. Maldita viagem! Maldito seminário!

“O quê? Você não é mais virgem? É isso que você está querendo me dizer? Que brincadeira é essa?”

Aquela situação, de ser passado para trás, não era novidade para mim, mesmo assim fiquei descontrolado. Antes que eu me descabelasse totalmente, Magali disse que não queria mais me enganar. Ela contou, então, que durante a minha ausência havia sido deflorada por um certo Renato, que vinha a ser o ex-marido de sua irmã, um playboy, um janota, que mesmo após a separação continuava freqüentando a casa dos Nogueira. Fiquei furioso. Pensei que o malandrão a houvesse seduzido, valendo-se da intimidade que ainda gozava na família e aproveitando-se do fato de Magali ser tímida e de estar longe da minha proteção. Ofereci-me para matá-lo, mas Magali riu da minha oferta. Confessou que era apaixonada pelo cunhado desde quando ele ainda era casado com sua irmã.

“Então por que você aceitou ficar noiva?”, perguntei confuso e de modo patético.

“Para os meus pais não me encherem. Eles não iam aceitar que eu namorasse logo o Renato... E foi você que quis ficar noivo, não vem, não!”

Estas revelações me derrubaram completamente o moral. E, para piorar o quadro, reparando o meu abatimento, Magali ainda disse que o meu mal era justamente aquele, ser apático e passivo.

“Você me respeitou demais, me preservou como se eu fosse uma santa... Nenhuma mulher gosta disso”, explicou ela, como quem se exime de qualquer culpa.

Na rua, o alto-falante de uma kombi anunciou de modo conclusivo: “Pamonha! Pamonha!”

Um assomo de raiva começou a tomar conta de mim.

Senti como se, após um longo tempo de espera numa fila interminável, ao chegar a minha vez, o guichê de atendimento se fechasse. Fiquei desesperado. Resolvi, então, tomar na marra aquilo que durante tanto tempo me foi negado; aquilo que deveria ter sido meu, mas que, desgraçadamente, tinha sido dado a outro na minha frente. Agarrei Magali pelos ombros e atirei-a com força sobre a grama do jardim. Porém não fui capaz de fazer nada mais do que isso. Além do moral abalado, outra coisa igualmente importante também se encontrava tragicamente desabada naquele momento.

Terminei o noivado imediatamente. Em duas semanas, Magali viajou com o ex-cunhado para a Europa.

A sucessão de golpes jamais me abateu definitivamente. Um ano e meio depois, eu enfim me casei.

A escolhida foi Vanessa Lins, uma loura deslumbrante que conheci num cruzeiro que fiz até Punta del Leste, em férias. Era uma mulher lindíssima, de trinta e poucos anos, elegante, fina e inteligente. Só tinha um defeito: a fidelidade não era absolutamente o seu forte. Ou melhor, noutras palavras: era uma verdadeira vagabunda. Pena que eu, sempre tão ocupado e absorvido pelos assuntos do meu emprego, tenha demorado tanto a descobrir esse detalhe. Verdadeiramente constrangido, posso afirmar que nenhuma mulher me corneou tanto quanto Vanessa durante o breve período em que estivemos casados.

A culpa desse meu novo desastre amoroso, entretanto, foi mais minha do que mesmo da indignidade dela. Desde o começo, eu devia ter desconfiado de qualquer coisa, tal a quantidade de provas que se apresentaram. Mas, distraído e ingênuo, eu nunca atinei com nada. Eu devia ter desconfiado, por exemplo, que não era exatamente carisma o que explicava a intimidade que toda a tripulação do navio tinha com Vanessa. Outro fato que deveria também ter chamado a minha atenção ocorreu em função da festa do nosso casamento. Apaixonado e absolutamente encantado com a beleza de Vanessa, eu quis fazer uma grande recepção, convidar todos os amigos, os colegas de trabalho, os parentes e também todos os meus desafetos, para que todo mundo testemunhasse a sorte que eu tinha tido de encontrar uma mulher tão maravilhosa, bela e sofisticada. Vanessa, entretanto, a despeito do bom trânsito que tinha no soçaite carioca, preferiu casar escondido, numa cerimônia simples, em uma capelinha minúscula no interior do estado, quase em segredo. Pensando tratar-se apenas de um capricho da minha princesa, resolvi atendê-la. Outras evidências logo se sucederam, mas eu, cego de paixão, jamais as enxerguei. Quando chegava do trabalho e Vanessa me recebia com beijos e me amava com tamanho furor, eu, bobo, pensava que aquilo só podia ser um grande amor. Não sabia que ela tratava da mesma forma apaixonada o carteiro, o mecânico, o dentista e a vasta legião de rapazes que habitava as redondezas. Só vim tomar conhecimento desse meu novo infortúnio por ocasião da mudança de síndico no prédio onde morávamos. E, como não podia deixar de ser, de uma maneira bastante vergonhosa, quando o caso já havia se tornado um escândalo e apenas eu de nada desconfiava.

Na assembléia, para minha surpresa, o novo administrador entregou-me uma conta altíssima, referente a seguidos meses de atraso no pagamento do condomínio. Estranhei aquela cobrança. Eu costumava deixar o cheque com minha mulher, para que ela fizesse os pagamentos de todas as contas da casa. Cínico e maldoso, o novo síndico, insinuando alguma coisa, mandou que eu procurasse investigar qual a forma que minha mulher usava então para saldar as dívidas com o antigo responsável, uma vez que as cotas jamais haviam sido pagas e, entretanto, nunca nos tinham sido cobradas. Notei que houve certo alvoroço entre os demais condôminos, no salão. Fiquei ressabiado. Comecei, então, a ligar os fatos uns aos outros.

Se Vanessa, apesar de eu sempre deixar o cheque para as despesas, preferia pagar ao síndico o valor da taxa do condomínio com os serviços sujos que eu, em minha triste agonia, naquela hora estava imaginando, em qual outra forma de pagamento poderia acreditar para explicar uma série de outras coisas que então começaram a me ocorrer? Os nossos carros, por exemplo, sempre lavados e polidos, sem que eu nunca tivesse recomendado nada nesse sentido e nem dado sequer uma moeda para o rapaz que trabalhava como zelador do nosso edifício. Aliás, a educação e a presteza de todos os porteiros e funcionários do prédio também não podia ter outra explicação. E o trabalho do personal-trainer, do professor de inglês, do marceneiro que fez a estante do quarto, até do entregador de pizza? Qual tipo de favor Vanessa usaria ainda para pagar as contas do jornaleiro, do açougue e da farmácia? E o conserto da máquina de lavar?

O peso sobre a testa foi me fazendo curvar a espinha. Lembrei, envergonhado, de certa manhã de domingo, dois meses depois de termos nos mudado, quando Vanessa desfilou de biquíni na quadra de futsal do condomínio, aclamada por uma multidão de peladeiros, que a escolheram como madrinha do time e, numa homenagem suprema, deram o nome dela ao vestiário dos jogadores. Eu, que na ocasião cheguei a me penitenciar por nem saber que a minha doce mulherzinha gostava tanto de esportes, fiquei imaginando então que tipo de atividades ela não deve ter praticado dentro daquele vestiário para merecer aquele reconhecimento unânime de todos os peladeiros.

Divorciei-me de Vanessa após apenas seis meses de casados. Dessa vez o baque foi mais violento, caí imediatamente numa profunda depressão. Depois de dois meses de licença médica, passei a viver somente do trabalho para casa e de casa para o trabalho. Afastei-me totalmente de qualquer forma de diversão e jamais procurei alguém ao menos para desabafar. Mesmo porque, afinal, eu não tinha amigos. Todos que se aproximavam de mim não o faziam por amizade ou coleguismo, mas sim na sórdida intenção de querer comer também a minha mulher. Essa era a minha triste sina. Tornei-me, assim, um indivíduo soturno, vivendo praticamente recluso, evitando qualquer tipo de relacionamento. Essa fase da minha vida durou exatos dez anos.

Foi então que eu conheci Maria Clara. E se hoje estou aqui contando a história da minha triste sina, onde, de passagem, questiono a ação do destino no cotidiano das pessoas, é porque essa mulher um dia entrou na minha vida.

Dez anos vivendo ensimesmado, isolado de tudo, dedicando-me somente ao trabalho, fizeram com que eu pensasse bastante na minha própria vida. E, desse modo, pesando erros e acertos, chegasse então a aceitar a hipótese do destino como regente dos meus passos e, portanto, único responsável tanto pelos meus insucessos amorosos quanto pelo meu incontestável êxito profissional. Afinal, quanto mais eu me ferrava com as garotas, com mais afinco me dedicava ao trabalho e aos estudos. Pensar dessa maneira me fez admitir, não sem dor, que eu estava mesmo destinado a ser traído por todas as mulheres com quem me relacionasse. Esta era a paga que me cabia receber em troca do meu amor dedicado e sem imaginação, sempre morno e tedioso: chifres – um par atrás do outro, cada um maior e mais pesado.

Ao trazer Maria Clara e a filha dela para morarem comigo, porém, eu descobri que ser corno não era o meu verdadeiro destino nessa vida, mas apenas um estágio para o que viria a seguir.

Os dez anos de reclusão voluntária, a título de me proteger o coração das decepções amorosas, arrefeceram também o meu impulso de macho conquistador - ainda que desastrado. A rotina solitária foi ajudando pouco a pouco a adormecer o meu ímpeto sexual. Aos 42 anos e com o preparo físico já deixando bastante a desejar, eu me satisfazia plenamente com eventuais visitas com hora marcada a moças lindas e de corpos esculturais, que me recebiam com alegria e nunca reclamavam da brevidade do meu ato. E ainda que, tão logo eu saía, recebessem outro homem entre suas pernas, com isso não me faziam sentir humilhado, nem com a cabeça pesada.

Ver Maria Clara descendo a rua, todo dia, porém, era um prazer obrigatório não só para mim, que me plantava na varanda, perto da hora do almoço, de binóculo em punho, ansioso, a procurá-la; os comerciantes todos corriam às portas, também, e os porteiros deixavam suas portarias e os vagabundos se assanhavam na esquina, quando ela vinha, com seus passinhos curtos, andando em direção ao colégio, para buscar a filhinha pequena.

Desde que se mudou para aquela rua, a vida de Maria Clara e de sua filha passaram a ser tema recorrente nas habituais fofocas da vizinhança. Em primeiro lugar, por causa da beleza dela, que obviamente alucinou os homens e em contrapartida a opôs à maioria das mulheres. Em segundo lugar, e para temperar ainda mais as falações que aconteciam nas calçadas, a criança dela não tinha pai. Ou melhor, Maria Clara é que não tinha marido. Se era viúva, como fantasiavam os canalhas de plantão, ou mãe solteira, como suspeitavam algumas donas, ninguém sabia dizer com certeza. A idade também era imprecisa. O corpo era de vinte e poucos anos e o rosto indicava talvez dez anos a mais. Mas os olhos registravam tanta vivência, guardavam tanta dor, que nem três reencarnações chegariam para explicar. Era, no entanto, para desespero tanto no caso da ala masculina quanto da feminina, uma moça de comportamento sóbrio e distinto. Ainda que se desconfiasse da integridade do seu passado, nunca ninguém descobriu nada que a desabonasse.

Os tempos difíceis pelos quais atravessou o país fizeram com que eu me aproximasse de Maria Clara. Aconteceu que, certo dia, encontrei-a chorando na rua, andando abraçada a sua filhinha. Há dias que não se a via mais passar na hora do almoço, indo buscar a menina no colégio, e aquele sumiço sem motivo já havia me deixado, mais do que desapontado, particularmente curioso. Vê-la chorando, então, desamparada, buscando conforto e proteção no abraço angustiado que dava na filha, deixou-me acima de tudo preocupado. Pensei em falar com ela, dispor-me a ajudá-la no que precisasse, já que sabia que não possuía amigos, e uma vez também que a crise não tinha de maneira nenhuma me atingido. Entretanto, desajeitado, não consegui me aproximar.

Através de comentários indiscretos, fiquei sabendo que ela havia tirado a menina do colégio por não poder mais pagar as mensalidades. Estava desempregada; constava que vivia da renda de alguns investimentos, que, no entanto, já deviam estar no fim. Comentavam também que vinha comprando fiado na mercearia da rua, e que a conta não estava baixa.

Resolvi me apressar. Passei a ir todas as manhãs à pracinha, onde eu sabia que ela levava a filha para brincar. Fiz amizade primeiro com a menina. Era uma graça, muito parecida com a mãe, o mesmo tipo de beleza. Chamava-se Roberta e estava com oito anos.

Não demorou e Maria Clara começou a prestar atenção em mim – aquele homem que estava sempre ali, lendo jornal, certamente sem o tipo característico dos paqueradores, e que demonstrava tanto carinho e tanta atenção com sua filha. Pouco a pouco, então, fui conquistando a confiança das duas.

Um dia, perguntei se não era tempo de Roberta já estar no colégio. Os olhos de Maria Clara encheram-se de lágrimas. Ela contou que um novo reajuste nas mensalidades obrigou-a a tirar a menina da escola; precisava agora esperar o próximo ano para pleitear uma vaga no ensino público. Inventei, então, uma história. Disse que, por coincidência, eu conhecia os diretores da tal escola onde a menina estudava e que eles me deviam alguns favores. Enfim, resumindo, saldando as mensalidades vencidas, consegui que aceitassem a menina novamente.

Daí para levá-las para morar comigo demorou apenas mais dois meses. A crise econômica estava feia, a taxa de desemprego era alta. Quando Maria Clara me contou a sugestão que o desgraçado do turco, dono da mercearia, havia lhe feito para abater a dívida que ela tinha na loja, eu decidi que era a hora de tomar uma atitude. Disse que ela precisava de alguém para protegê-la, e convidei-a então para vir morar em minha casa com a filha.

Nossa convivência, desde o começo, foi a mais harmoniosa possível. Maria Clara era uma moça muito simples, ingênua e de pouco estudo. Eu nunca tinha perguntado nada, mas podia apostar que Roberta era um produto do que essa interessante mistura de beleza e ingenuidade podia proporcionar. Indubitavelmente, contudo, ela jamais tinha sido tão bem tratada quanto naqueles anos em que passou em minha casa. Era, portanto, um sentimento diferente de amor ou mesmo amizade o que nos unia: Maria Clara tinha por mim, na verdade, gratidão. Ela aceitava o meu amor servil com resignação, me respeitava em troca do conforto e da segurança de que ela e a filha dispunham. Eu, de minha parte, aos poucos fui deixando de fazer minhas visitas a prostitutas de luxo.

Então, um dia, depois de jantarmos fora os três e de eu presenteá-la com um rico colar de pérolas, Maria Clara, na volta para casa, enfim concordou em me receber em sua cama. Não posso afirmar, contudo, que, a partir de então, para ela, me ter como amante tenha sido sequer razoável. Mesmo assim, fomos levando a nossa vida, os anos foram se passando e “nossa” filha sendo criada.

No fim de quatro anos de relacionamento, a ameaça de topar com a falha geológica que sempre marcou a minha vida começou novamente a me abalar o espírito e a me deixar bastante inseguro. Nessa época, cada vez mais envergonhado por reconhecer minha incapacidade, ainda que Maria Clara nunca reclamasse disso, eu havia desistido definitivamente de tentar satisfazê-la sexualmente. Vínhamos vivendo então como irmãos, ou melhor, como pai e filha, uma vez que eu gostava de cuidar dela e de protegê-la exatamente como um pai zeloso. Aceitaria até que se apaixonasse por outro homem, contanto que eu aprovasse a escolha, lógico, pois não queria que ela caísse na lábia de um espertinho qualquer. Entretanto, eu sabia também que a minha simples presença servia para afastar a maioria dos interessados. E o prolongamento dessa situação por um tempo indefinido, confesso que não me era nada desagradável, afinal eu gostava de ter a companhia de Maria Clara e de Roberta, gostava de tê-las sob minha inteira proteção. Não contava, porém, que acontecesse o que veio a seguir.

O que ocorria comigo era que o medo me deixava inseguro, e a insegurança me fazia tropeçar. Pode ser esta uma boa alegação para quem não acredita em destino. Mas o que eu quero dizer é que eu próprio criava as situações que mais tarde me embaraçavam e, não raramente, até me derrubavam, e que aqui neste relato chamo de falha geológica. Esta minha situação indefinida em relação a Maria Clara, por exemplo. Persistiu ainda durante mais dois anos. Dois anos sem que eu exercesse a função de marido, que, de todo modo, me garantiria alguma autoridade sobre ela, embora fosse eu, com meu rico salário, o único esteio da casa, e que Maria Clara jamais houvesse cometido contra mim qualquer indignidade. Mas foram mais dois anos sem que eu fosse plenamente o “homem” da casa, portanto deixando vago um espaço importante por onde um adversário poderia penetrar e me derrubar.

Naquelas últimas semanas, Maria Clara vinha se mostrando especialmente preocupada com nossa filha. Roberta, aos quatorze anos, estava uma garota linda e formosa; sua magnífica estrutura física e os bons tratos que recebia em minha casa faziam parecer que tinha até mais idade. Não era surpresa, portanto, que já despertasse paixões entre a garotada e que atraísse, enfim, a atenção dos rapazes em geral. Foi um certo olhar cobiçoso, porém, que um homem já maduro lançou a nossa menina, na rua, que levou Maria Clara àquela preocupação.

“Estou preocupada com a Roberta”, ela me disse certa vez. “Precisamos arranjar um namorado para ela... Antes que seja tarde demais.”

Achei sem sentido aquela ressalva, tratando-se de uma menina de quatorze anos, e tão bonita que tornaria perfeitamente dispensável nossa ajuda para que lhe “arranjássemos” um namorado. Maria Clara, contudo, tinha suas razões.

“Eu sei o que estou falando. É exatamente como aconteceu comigo, só com a diferença que com ela está acontecendo um pouco mais cedo, o que torna o caso ainda mais sério. Você ainda não percebeu? Ela deixa os homens doidos.”

“E o que tem isso? Ela é linda, é natural...”

“Ah! Você não entende. Eu não quero que ela se machuque, não quero que ela passe pelas coisas que eu passei, não quero que ela seja enganada, que caia na conversa de um homem mais velho que só vai querer se aproveitar da juventude e da inocência dela para satisfazer taras imundas.”

Fiquei sem argumentos. Maria Clara com certeza sabia o que estava dizendo.

Era verão. Estávamos passando férias em nossa casa de praia quando então ela pareceu encontrar alguém que a agradou para servir como namorado de Roberta. O critério de escolha é que me deixou ressabiado.

Havia na praia, próximo ao ponto onde nós ficávamos, uma turma de rapazes, que se reunia junto a uma quadra de futevôlei. Era uma rapaziada torrada de sol, a maioria de músculos avantajados e sungas minúsculas. O escolhido de Maria Clara, porém, foi o mais magricela de todos, um rapazinho abusado, que levava mais jeito do que os outros com a bola e que, sem medo, provocava qualquer um dos fortões.

Um dia, quando Maria Clara passou pela quadra, com seu maiôzinho branco que realçava maravilhosamente o desenho do seu corpo, o tal rapazinho teve o atrevimento de dizer algum gracejo. Maria Clara deteve-se por um instante, medindo o garoto de cima a baixo, depois seguiu em frente, na direção da nossa barraca. Não diria que a ruga que marcava a testa de Maria Clara naquele momento fosse alguma espécie de aborrecimento com a cafagestada daquele moleque. Mas quando ela me contou o que havia acontecido, pensando inicialmente que pudesse estar ofendida, eu cheguei a ficar preocupado com a possibilidade de ter que vir a me bater com algum daqueles rapazes. Maria Clara, no entanto, tinha outros planos em mente, diferente de me incitar a reagir.

Ela pegou Roberta pela mão e foram as duas passar bem diante da rede onde os rapazes jogavam bola. Fiquei de olho. O garoto abusado se assanhou todo ao vê-las se aproximando. Com meu olhar vigilante, pude ler perfeitamente os lábios dele dizerem quando ela passaram:

“Linda família! Como primeiro a mãe, depois a filha!”

Fiquei furioso com aquele desrespeito. Levantei da cadeira e parti reto para quebrar a cara daquele imbecil. Entretanto, ainda que o moleque fosse o mais fracote da turma, mais do que os amplos peitorais e do que os bíceps inchados dos outros rapazes, o sorriso franco e um certo músculo que ele tinha, e que marcava poderosamente sua sunguinha vermelha, impressionaram-me de tal maneira que, ao mesmo tempo que me fizeram descobrir a razão que tinha feito Maria Clara primeiro não se aborrecer com o galanteio cafageste do menino e depois ainda passar novamente diante dele, dessa vez levando Roberta junto, fizeram-me também mudar o rumo da minha investida.

Segui, então, direto para casa, inseguro como se fosse um adolescente medroso.

Maria Clara e Roberta ficaram sem mim na praia a tarde inteira, condição propícia e tempo mais do que suficiente para que o tal rapazinho abusado se aproximasse das duas e acabasse fazendo amizade com elas.

Eu fiquei espiando tudo por cima do muro de nossa casa. Pior do que notar a intimidade com que os três logo se puseram a conversar, foi tentar adivinhar sobre o que versava aquele papo tão divertido, que fazia com que aquele moleque desaforado se mantivesse escandalosamente excitado na frente de duas distintas mulheres. E afinal de contas, do que eles riam tanto? Quem seria o alvo daquelas gozações?

Cocei a testa, ressabiado, e procurei não pensar nas minhas últimas atuações na cama de Maria Clara.

Menos de uma semana depois, no fim de uma tarde de sexta-feira, para minha surpresa, Maria Clara e Roberta voltaram para casa trazendo junto o novo amiguinho delas. Ele era pouco mais do que um garoto, eu observei. Esbanjava juventude e vigor. Ao nos apresentar um ao outro, Maria Clara disse que ele se chamava Tequinho – e isso me deixou ainda com mais raiva, por causa da imbecilidade daquele apelido, que o volume portentoso que ele trazia dentro da sunguinha desmentia tão acintosamente.

Enquanto Roberta foi tomar banho, Maria Clara providenciou um lanche para o rapaz. Ela o deixou na sala, comendo e veio ter comigo no quarto. Não ligou para o meu amúo, disse que aquele seria o grande dia de Roberta. Não deu maiores detalhes, pediu apenas que eu a acompanhasse.

Fiquei na sala aguardando, e procurei entabular alguma conversa com o rapaz. Nenhum de nós dois estava à vontade quando Maria Clara entrou trazendo Roberta descalça, enrolada numa toalha macia. A menina estava com os cabelos molhados, escorridos sobre os ombros, os olhinhos piscando com um misto de malícia e ingenuidade. Maria Clara segurou a ponta da toalha e despiu Roberta diante dos nossos olhos. Fiquei mudo. Tequinho também não disse nada, mas demonstrou sua emoção de uma maneira, digamos, bastante crescente, se é que me faço entender.

Sem que eu interferisse, Maria Clara guiou Roberta e o garoto para a cama de casal do quarto de hóspedes. Em seguida, saiu, fechando a porta atrás de si.

“O que é isso? Você ficou maluca?”, perguntei logo que Maria Clara voltou para a sala.

“Ele vai tirar a virgindade da minha filha. Eu não quero que ela seja seduzida por um homem mais velho.”

“Você está louca! A primeira vez de uma mulher deve ser uma ocasião especial...”

“Você não sabe nada disso. Sem envolvimento é muito melhor. Isso vai prepará-la para a vida. Vem... Vamos assistir.”

Eu devia ter impedido aquela maluquice, mas não o fiz.

Apesar da minha contrariedade, demos a volta pelo lado externo da casa e ficamos espiando pelas frestas da janela. Começou nessa hora a parte mais negra desse verdadeiro pesadelo em que haviam se tornado aquelas minhas malditas férias.

Quando chegamos, Tequinho já tinha se livrado da sunga. Excitadíssimo, ele beijava os seios, o ventre e as coxas de Roberta, enquanto com um dedo acariciava as partes íntimas da minha menina. O garoto tinha um membro que me deixava humilhado.

A pureza de Roberta de repente me comoveu. Notei que ela se enregelou com os carinhos audaciosos do rapaz e tentou resistir. Ele, porém, insistiu, beijando-a e acariciando-a até conseguir finalmente domesticá-la. Então, sem interromper os beijos, o desgraçado forçou-a a abrir as pernas e começou a penetrá-la, sem dó.

Fiquei agoniado.

Quanto mais ele forçava, mais Roberta gritava.

Os gritos e todo o sofrimento da filha pareciam trazer grande satisfação para Maria Clara.

De tanto forçar, o rapaz teve um orgasmo preliminar. Eu vi quando o líquido leitoso se derramou sobre o corpo de Roberta. Mas isso, para minha vergonha e meu desespero, não o arrefeceu. Pelo contrário, o novo ataque que ele realizou foi ainda mais fundo e, a julgar pela força dos berros de Roberta, começou enfim a romper o hímen de minha querida filhinha. Somente na terceira tentativa, contudo, é que a fortelaza foi definitivamente tomada. Nessa altura, Roberta, que antes chorava de dor e de medo, passou a gemer e a gritar de prazer, como uma qualquer. O garoto, então, para minha absoluta humilhação, resolveu rasgá-la pela quarta vez consecutiva.

Quando o quarto finalmente silenciou e os corpos tombaram exaustos lado a lado, Maria Clara deu a volta e entrou em casa. Ofereceu ao rapaz uma dose de whisky e congratulou-o, emocionada.

“Tequinho querido! Eu sabia que você não ia me decepcionar!”

Através das frestas da janela, eu vi o sem vergonha levantar da cama e estender o braço – mas não somente para pegar o copo. Ele segurou a mão de Maria Clara e a puxou.

Tímida e envergonhada, Roberta pulou da cama e correu para fora do quarto. Uma gosma feita de esperma e sangue escorreu por suas pernas e pingou no chão.

Tequinho abraçou Maria Clara e a derrubou sem dificuldade sobre a cama.

Ia comer mãe e filha. Exatamente como havia anunciado claramente na minha cara.

Fiquei desesperado. Bati com a cabeça na janela, com raiva.

Através das frestas, eu vi o rapaz virar o rosto para a janela e soltar uma risada debochada.

“Fica olhando só mais essa, coroa”, ele disse. “Depois vai ser a tua vez. Vou te arrebentar todo, seu viadão! Tu vai ficar uma semana sem poder sentar!...”

Além do peso na testa, senti pela primeira vez uma fisgada na base da espinha, que me fez até contrair as nádegas. Era isso, então, o que me esperava? Virar viado depois de ser corno da cidade inteira?

O desgraçado arreganhou as coxas de Maria Clara com brutalidade e enfiou nela de uma só vez aquele membro imenso e incansável dele.

Eu nunca acreditei em destino e nem aceitaria que aquele fosse o fim que estivesse a mim destinado. Preferia antes continuar com minhas habituais visitas a garotas de programa do que passar a receber visitantes pela porta dos fundos.

Enlouquecido, voltei para dentro de casa. Entrei em meu quarto e apanhei meu revólver no armário. Fui para o quarto de hóspedes e despejei todas as balas do tambor na cabeça e nas costas do rapaz. As balas atravessaram o corpo dele e atingiram também Maria Clara. Quando Roberta chegou à porta do quarto e começou a chorar desesperadamente a dor daquela tragédia, eu lamentei não ter guardado uma bala para ela e outra para mim.

Peguei doze anos de cadeia por este duplo homicídio. Meus advogados, porém, dizem que em três anos conseguirei sair daqui. Mesmo em prisão especial, a rotina na cela é dura. Não falo com ninguém, tenho apenas o papel para desabafar. Continuo pagando os estudos e todas as despesas de Roberta. Penso em jamais desampará-la, ainda que ela nunca tenha vindo sequer uma vez me ver.


Carlos Eduardo Melo
Enviado por Carlos Eduardo Melo em 28/09/2007
Reeditado em 29/10/2009
Código do texto: T672319

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Carlos Eduardo Melo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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