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A VIAGEM

           
     No momento em que entrei na nave, sabia que minha tarefa não seria uma das mais fáceis entre as que teria que executar. Naquela nova missão, que escolhera já há muito tempo, tinha consciência de que haveria grandes obstáculos.
     Os sons que ouvi no momento da  aceleração e partida, pareciam com os que eu sempre ouvia na natureza, o que me provocava certa nostalgia. Sentia como se aquela fosse a minha primeira viagem, embora eu soubesse que já viajara muitas outras vezes.
     A nave, no entanto, parecia ser mais moderna e especial do que as outras de viagens anteriores. Já fizera diversas vezes o mesmo caminho, porém em épocas  diferentes.
     O adiantado da hora não permitia que eu ficasse mais tempo na base, tinha que executar aquela tarefa, que já não poderia ser adiada. Diversas pessoas dependiam dela e de seus resultados.
     No início, imaginei uma viagem monótona, pois pouco dependia de mim. A  nave era dotada de um programa perfeito que me levaria ao destino traçado. Durante o percurso da viagem, pouco poderia me comunicar com a base e isso me  isolava, o que provocava saudade.
     Enquanto passava por dentro da zona escura, o isolamento era total. Sabia, no entanto, que tudo seria realizado de acordo com o programa que fora colocado no comando central da nave.
     A região que parecia ser mais escura me provocava um estado de angústia em conseqüência da solidão que sentia. Eu sabia que aquilo era necessário para que eu pudesse ir- me acostumando com o que encontraria quando chegasse ao meu destino.
     Meu pensamento ia e vinha de um lado para outro como se fosse uma fera enjaulada. Sabia que os próximos meses de viagem seriam daquela forma. Tinha, a partir daquele momento que exercitar a paciência de modo que não me estressasse e ficasse desajustado, no meu destino.
     Era uma viagem solitária que tinha de fazer e que somente eu poderia realiza-la. Tudo fazia parte de um compromisso por mim assumido.
     Os sons que ouvia durante a travessia do espaço, onde me encontrava, dava a impressão de que a nave estava partindo-se, mas eu sabia que isso seria impossível de acontecer. Ela era muito segura.
     Somente algum acidente no espaço poderia abortar a missão e isto não poderia acontecer de maneira alguma, pois muitas pessoas dependiam daquela viagem.
     Apenas os pensamentos ficavam enjaulados dentro do raciocínio que indicava um rumo já delineado, uma vez que fora inserido dentro do sistema de navegação da nave.
     Milhões de anos haviam sido necessários para desenvolver aquela maravilhosa nave, que percorria enormes distâncias levando consigo passageiros que iam de um lugar a outro em missões especiais.
     Eu, em particular, sempre achava que a minha nave era mais especial do que as outras que já vira. Conhecia-a de todas as formas e sabia que nada poderia impedir que eu chegasse ao meu destino. Eu era senhor e conhecedor da nave que operava, pois participara ativamente da construção dela.
     Durante o período na zona escura, a solidão era maior, pois não poderia comunicar-me com a base. Não sentia medo, muito embora  ficasse apreensivo. A viagem sempre era efetuada entre a vigília e o sono e os pequenos ajustes feitos no curso, eram executados independentemente de minha participação.
     Nas recordações que iam e vinham durante as horas de vigília, procurava rever nos arquivos todas as obrigações que teria que executar durante a minha permanência na  Terra. Nestes momentos parecia ouvir a voz do meu amigo: “Cuidado com as armadilhas que irá encontrar  durante a sua missão  no planeta terra”.
     As palavras pareciam soar em meus ouvidos, à medida que a viagem ia-se aproximando de seu destino final. As palavras soavam de uma forma  como se fosse uma advertência.
     Já me acostumara com aquela proteção que me era dada. Era um grande amigo a que eu chamava de irmão e em outras épocas tivemos a felicidade de viajar juntos.
     Aquela missão, no entanto, eu deveria realizar sozinho e tinha por finalidade  executar tarefas que haviam ficado inacabadas. Já haviam transcorrido vários dias e ia acostumando-me com a solidão. Quando tinha que me comunicar com a base,  eu matava um pouco da saudade dos amigos que haviam ficado para traz.
     Tudo transcorria normalmente e vez por outra procurava sonhar com o futuro na Terra, enquanto olhava o grande vazio do lado de fora do veículo. Nos momentos em que me encontrava no comando, através das duas escotilhas, via luzes que passavam velozmente.  Eram como se fossem meteoros desfazendo-se quando entram na atmosfera de um planeta. Eram riscos luminosos muito rápidos que passavam através das vigias e desapareciam.
     Eu, no entanto, sabia que não eram meteoros, pois no espaço onde me encontrava, eles não se queimam e ainda faltava muito para minha chegada ao planeta. Em outras viagens vira o mesmo fenômeno e, no entanto, esquecera-me de perguntar aos engenheiros, responsáveis pelo vôo, o que seria aquilo.
     Tantas vezes viajara na mesma rota e a cada nova viagem parecia-me ser a primeira. A emoção sempre me fazia sentir como um marinheiro de primeira viagem. Todas as vezes que me aproximava do destino, começava a memorizar todos os detalhes da missão que teria que executar.
     Quando conseguia comunicar-me com o comandante que ficara na base, ele sempre me incentivava e, como sempre, com sua voz que até parecia a de um pai eu o ouvia dizer: “Tenha calma, irmão, em poucos dias estará chegando, então poderá encontrar muito  dos nossos que já se encontram lá.”
     Quando ele me falou aquelas palavras na última vez que nos comunicamos fiquei mais tranqüilo. Sabia que iria encontrar outros do nosso mundo em missão na Terra, portanto eu não ficaria sozinho, totalmente isolado do meu mundo.Porém sabia  que poucos iriam reconhecer-me.
     Na mesma proporção em que o tempo transcorria,  parecia que a nave aumentava. Eu comandava todos os setores dela, já  não sentia as  dificuldades que sentira nos primeiros dias.
     O momento da chegada se aproximava. Recebera todas as informações  através dos comandos que podia dispor no controle central da nave, quando manuseava a memória central. Em poucos dias poderia novamente a nave pousar em solo firme e a partir deste momento estaria isolado, sem poder contar com o comando central.   As normas deveriam ser obedecidas, era necessário para que pudesse me acostumar mais rápido.
     Embora fossem estas as determinações, tudo dependeria da necessidade do momento. Há casos que podemos continuar a nos comunicar por vários anos, dependendo apenas da necessidade da missão.
     Naquele dia acordei bem cedo, programara para que isto acontecesse. Deveria fazer os ajustes e checar todos os detalhes do pouso que, segundo o comando central,  deveriam acontecer nas primeiras horas da manhã.
     Chequei o instrumental e aparelhagem de que dispunha. Verifiquei minha roupa para ver se estava adequada ao momento. Observei  os instrumentos e após verificar  todos  os detalhes sentei-me confortavelmente em minha poltrona e esperei.

     A humilde mulher passou com seus passos lentos e arrastados pela filha que se encontrava na cozinha e depois de algumas recomendações sobre o almoço do dia, dirigiu-se para o quarto, sentando-se  na cama, pois sentia que o momento se aproximava.
     Outras vezes já se sentira daquele jeito, mas, como sempre, em cada vez era como se fosse a primeira.
     A filha mais velha, sabendo das necessidades da mãe, indagou sobre  o que deveria fazer ou se devia sair a procura de ajuda, pois precisava continuar a providenciar o alimento e cuidar dos irmãos menores que naquele momento se encontravam brincando. A mãe a avisou que já não havia mais tempo para ir em busca da parteira.
     Sentido que o momento se aproxima, chama a filha e lhe transmite as recomendações necessárias para que tudo transcorresse de modo adequado.
     A jovem providencia roupas limpas e água quente e como sempre uma tesoura estaria à mão. Enquanto tomas as providencias e recolhe os objetos necessários ao parto, observa os irmãos, que devem continuar brincando no terreiro.
     Quando os primeiros gritos ecoaram  pela tapera que servia de abrigo àquela família, os irmãos mais novos ainda brincavam do lado de fora da casa. Agora  eram nove  as crianças que aquela mulher colocara no mundo.
     O chefe da família se encontrava na lida diária com os filhos mais velhos, trabalhando na roça e só saberia que o filho acabara de nascer quando viesse para o almoço.
     Enquanto eu tentava entender o que acontecera, um pensamento me veio, como se fosse uma mensagem telepática do amigo e mestre que ficara na base:
     “ Parabéns, a nave pousou.”



17/05/04






Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 18/10/2007
Reeditado em 07/08/2008
Código do texto: T699607
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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Vanderleis Maia