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A BOMBA


     O policial estava determinado.

     - Pare, coloque o pacote no chão lentamente e depois ponha as mãos na cabeça.
     Assustado e sem saber o que fazer o jovem, procurava proteger ainda mais o embrulho que trazia colado ao peito. Num misto de medo e horror, balbuciava:
     - Não, as minhas bombas não.
     - Coloque o embrulho no chão lentamente, senão atiramos.
     - Não, minhas bombas não.
     Assustado e cercado de todos os lados por várias viaturas e dezenas de policiais que lhe apontavam as armas, e esperavam apenas uma reação negativa dele para atirar.
     Sem saber o que estava acontecendo, o pobre infeliz ainda tentou correr, carregando colado ao peito o embrulho,  que naquele momento era  objeto do desejo dos policiais.
     Apenas tentou correr, carregando o embrulho mesmo depois de várias admoestações para não tentar aquela loucura.
     Ele tentou.
     Dezenas de disparos atingiram o corpo do pobre infeliz, que ainda tentava proteger algo tão valioso, que segundo os policiais era muito perigoso.
     Antes dos disparos, o comandante da operação gritava para seus homens:
     - Em hipótese alguma atirem no pacote, cuidado, pode explodir.
     Enquanto ele caía e, cambaleando, ainda tinha em suas mãos o pacote que tentava proteger de todas as maneiras e num último esforço conseguiu articular poucas palavras:
     - Minhas bombas...
     Quando o corpo ficou inerte, as mãos  ainda seguravam o embrulho.
     O comandante da operação, cauteloso e em gritos e berros dizia:
     -Afastem-se todos, ninguém se aproxime, temos que chamar o esquadrão anti- bombas.
     A multidão começou a se formar perto do ocorrido. Entre os que chegaram uma mulher ainda nova e de certa forma bonita se aproximou e perguntou:
     - O que aconteceu?
     Um dos policiais, de pronto, respondeu:
     - Um terrorista; acabamos com um terrorista.
     Marina, este era nome da moça, chegou até onde foi permitido e, ao reconhecer a vítima, falou:
     - Eu o conheço, é um colega de trabalho.
     E complementou:
     - Realmente eu sempre o achei muito estranho, sempre pelos cantos, quase não se comunicava com ninguém. Ele não tinha amigos, deve ter sido por isso que resolveu explodir tudo.
     O  comandante da operação, ao ouvir as palavras da curiosa, aproximou-se e chamou-a em particular e começou a fazer uma investigação:
     - Você o conhece há muito tempo?
     - Sim, ele trabalha na nossa empresa faz mais de 3 anos, mas anda sempre isolado, não se comunica com ninguém e não tem amizades. Ninguém sabe o que ele faz fora do expediente. E complementou:  Sempre desconfiei dele, tem realmente o perfil de terrorista.

DOIS DIAS ANTES.

     No escritório onde Marcos trabalhava, ele sempre era motivo de brincadeiras e chacotas. Ele quase não se comunicava com os companheiros. Era, no entanto, um ótimo funcionário que cumpria suas obrigações à risca e nunca fora chamada sua atenção.
     Ao término do expediente, saía furtivamente, dizendo que tinha que visitar a mãe e depois desaparecia. Sua vida fora dali ninguém conhecia. Devido a seu caráter introspectivo, era rejeitado pelos outros colegas que gostavam mesmo era de uma boa farra nos fins de semana.
     Sempre às sextas-feiras, saía e somente era visto de novo nas segundas, no horário normal do trabalho.
     Às festas de comemorações nunca aparecia e até nos dias do próprio aniversário evitava que lhe desejassem felicidades ou parabéns pela data natalícia.
     Ele até fora chamado de Psíquico-maníaco-depressivo (PMD) ,  muito embora fosse somente uma piada de mau gosto de algum colega, por inveja de sua capacidade de trabalho e inteligência brilhante.
     Quando, naquela sexta feira saiu, mais uma vez sorrateiramente, não queria ser incomodado ou mesmo abordado por ninguém, desejava, segundo ele, visitar sua mãe.

     Enquanto o enorme cordão de isolamento era mantido mesmo à custa de muito esforço, Marina, conhecedora que era da vítima, ia destilando seu veneno para todos os lados.
     - Faz muitos anos que eu o conheço, sempre foi mesmo muito estranho o comportamento dele. Ainda bem que conseguiram acabar com mais um terrorista.
     Ela se vangloriava de conhecer a vítima do trágico acontecimento e dava entrevistas às emissoras que haviam chegado. Tornava-se uma celebridade, diante do trágico acontecimento. Num arroubo de arrogância  disse:
     - Sempre desconfiei dele, ainda bem que foi detido a tempo de não cometer mais uma atrocidade.
     A repórter perguntou:
     - Ele já havia praticado outros crimes?
     - Vários, parece até que faz parte daquela organização terrorista Al Qaeda. Certa vez o vi, lendo  alguns esquemas de como montar bombas. Quando eu perguntei, ele me disse que era apenas esquema de jogos eletrônicos. Eu não acreditei. Eu sabia que havia alguma coisa de errado com ele.
     Enquanto ela dava sua entrevista chegava, o carro do esquadrão anti-bombas, que, dirigido por um enorme crioulo, chegou perto do comandante e disse:
     - Tenente, mande recuar ainda mais esse pessoal, não quero ninguém por perto quando nossa equipe estiver desarmando os artefatos. E complementou: Se for explosivo plástico pode até arrasar o quarteirão, pelo volume que vemos, deve haver muito explosivo.
     Enquanto eram efetuados os preparativos para desarmar a bomba, ela, que passara a ser uma celebridade, ia dando entrevistas e tirando suas conclusões, baseada nos fatos daquele acontecimento.
     Depois de mais de duas horas desde o acontecido naquele beco, finalmente, todo o esquema para desarmar o artefato terrorista estava pronto.
     Um dos homens, especialmente preparado, além de vestir uma parafernália de vestimenta especial, ainda levava um escudo  feito de fibra de carbono que lhe servia de proteção. Ele  fora treinado no exterior e tinha grande experiência no serviço que iria executar. Foi recrutado na capital federal e teve que vir de jato fretado. Ele era o mais gabaritado de todo o país.
     Andando bem devagar, com cada passo estudado, ia se aproximando lentamente do corpo do terrorista, enquanto as emissoras que mantinham certa distância do ocorrido iam mostrando tudo, para  todo o mundo e uma repórter ia narrando da seguinte forma:
     - Segundo informações que tivemos do coronel Teixeira, o mais preparado  militar  que existe no país, está neste momento se preparando para desarmar o artefato. Conforme ainda o coronel Teixeira, existe enorme risco de uma mega explosão. Os explosivos plásticos  são muito instáveis e se não forem manuseados corretamente podem explodir.
     Enquanto ia descrevendo dados técnicos do artefato, que se presumia haver dentro do embrulho, outro repórter de outra emissora ia mais longe com suas conjecturas:
     Dizia ele:
     - De acordo com informações confidenciais que obtivemos de fonte que não quis ser identificada, o criminoso já há muito tempo era procurado e  vinha sendo monitorado dia e noite pelas autoridades.
     O perito em bomba aproximou-se, colocando o escudo entre ele e o pacote e com todo o cuidado foi desatando o nó do barbante que mantinha a caixa fechada. Depois de tirar o barbante, pegou novamente o escudo, colocou-o bem em frente e, cautelosamente foi tirando a tampa da caixa.
     Enquanto isso ocorria, diversas pessoas saíram em disparada, tentando evitar ser atingida por destroços da explosão que iria ocorrer.
     Os repórteres mantinham seu público cativo à TV;  descrevendo cada cena que se desenrolava naquele quadro caótico de um dia de inverno.
     Quando retirou a tampa e a colocou do lado do corpo inerte, aproximou-se lentamente da caixa e num misto de admiração e decepção, levantou-se e saiu depressa do ambiente onde estava, indo ao encontro do seu superior, o coronel Teixeira.
     - Coronel, venha ver as bombas.
     O  coronel, mesmo com medo, acompanhou o perito e quando chegou perto da caixa, olhou balançou a cabeça e se retirou.
     O tenente, comandante da operação, sem entender o que estava acontecendo, aproximou-se do perito em explosivo e perguntou:
     - O que está acontecendo?
     - Venha ver sua bomba, tenente.
     Aproximou-se devagar, abaixou-se, pegou a caixa e sem falar mais nada  levou-a até a viatura onde a colocou.
     Na caixa, três bombas de chocolate, devidamente embaladas, tinham sobre elas um cartão:
     “ Feliz aniversário, mamãe, aqui estão as bombas que pediu”.

      30/10/07-VEM






Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 31/10/2007
Reeditado em 15/08/2008
Código do texto: T717289
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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