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Flores de Deus

Sentia-me incomodado em morar vizinho ao antigo sobrado dos Marins, principalmente por conhecer a história trágica da família que ali habitara. Voltavam de um feriado quando, num momento de infelicidade, o carro em que viajavam foi violentamente arrebatado da pista por um ônibus que fazia uma ultrapassagem proibida. Pai, mãe e dois filhos: ninguém escapou. Desde então, aquela casa permanecia vazia; dava um ar assustador à rua. O meu incômodo transformou-se em receio quando, por conta de um entupimento nos esgotos, a prefeitura precisou abrir toda a rua. Vendo aquela tubulação exposta, em frente a minha casa, atentei para algo que nunca me ocorrera: todas as casas da vizinhança estão, de certa forma, interligadas pelos tubos de esgoto. Para minha fértil imaginação de criança que mal completara 8 anos, tal fato apresentava-se como ameaçador. A tubulação funcionaria como túneis de acesso entre as residências. Meu Deus, minha casa tem ligação com o assustador sobrado dos Marins. E se alguma coisa resolver passar de lá para cá? Um simples ralo no banheiro representava uma ameaça latente. Sentia-me na iminência de um ataque, sabe-se lá do que, vindo dos subterrâneos da casa.

Certa noite, antes de dormir, pensando na tragédia dos Marins, perguntei a minha mãe:

— Mamãe, por que as pessoas morrem?

Ela respondeu prontamente:

— Porque já cumpriram sua missão no mundo. Deus as chama de volta para Seu lado.

Tendo dificuldades em aceitar respostas curtas e rápidas, voltei a indagar:

— E as crianças? Por que Deus dá tão pouco tempo para elas cumprirem sua missão?

Acredito ter herdado da minha mãe a imaginação fértil. Diante das minhas perguntas embaraçosas, ela sempre encontrava uma saída. Disse-me que Deus amava muito as crianças e achava que o céu ficava triste sem elas e, por isso, as levava para o lado Dele. Acrescentou que, no céu, existe um lugar especial reservado para as crianças: um imenso jardim onde o Criador cuida das crianças com o mesmo carinho e amor que um dedicado jardineiro cuida das flores. Deus considera as crianças flores do paraíso. Adormeci ouvindo essas palavras. Sonolento, levantei-me no meio da noite. Apesar do forte sono, a vontade de ir ao banheiro era maior. A bexiga estava tão cheia que me causava dores. De pé, em frente ao vaso sanitário, observava preocupado o ralo do banheiro. De repente, levei um grande susto ao ouvir um ruído estranho. Parecia barulho de água, semelhante ao som produzido quando pulamos numa piscina. Imaginei, instantaneamente, que aquele som vinha do chão, da temida tubulação do banheiro. Um frio estranho tomou conta do meu corpo quando lembrei que a única casa com piscina existente em minha rua era o sobrado dos Marins. Estava convencido de que o som tinha sua origem lá, no imóvel onde habitavam meus receios. Apesar de assustado, venceu-me a minha alma curiosa. Hesitante, aproximei-me um pouco mais do ralo, aguçando os ouvidos. Tive a impressão de ouvir risos de crianças; pareciam brincar divertidamente. Fiquei totalmente paralisado ao ouvir uma voz infantil cantarolar, entre sorrisos, pequenos versos de uma canção. Dominado pelo pavor, não sei exatamente o que aconteceu naquele momento. Não lembro sequer de ter voltado para a cama. Só sei que acordei nela com o nascer do sol. Meus lençóis estavam completamente encharcados. Fiz esforço para acreditar que tudo não passava de um sonho, mas parecia tão real. De súbito, os versos cantados por aquela voz infantil voltaram claramente à minha cabeça. Consegui rememorar, pasmado, a canção suave que dizia assim: "não estou mais aqui / não sou mais eu / estou num jardim / sou um jasmim / regado pelas mãos de Deus / lá – lá – lá – lá – lá". A partir desse dia, o simples ato de ir ao banheiro tornou-se um tormento. É verdade que não voltei a ouvir sons vindos da tubulação. Porém, meus costumeiros banhos demorados tornaram-se breves. Com o passar do tempo, consegui convencer-me de que tudo não passara de um sonho. A história de crianças serem flores, contada pela minha mãe, deveria ter me levado àquele pesadelo.

Tornei-me adulto. Por força do meu trabalho, já não via minha querida mãe há sete anos. Passei todo esse tempo fora de casa. Casei-me há exatos seis anos, idade que tem hoje meu filho Renato. Aproveitando um período de férias, volto a casa onde passei toda a minha infância. Estou realizando o sonho, por muitas vezes adiado, de rever minha querida mãe, apresentar-lhe minha esposa e dar-lhe a oportunidade de conhecer seu único neto. Foi um reencontro emocionante. Abraçamo-nos demoradamente e ficamos todos muito felizes. Na chegada, não pude deixar de observar a antiga casa dos Marins; continua abandonada e, depois de passados tantos anos, com um aspecto ainda mais desolador. Já não me incomoda como na infância; o que é perfeitamente compreensível. Pela minha ótica de adulto, aquele sobrado não passa de um imóvel entregue às baratas e ratos, um fantasma da infância há muito exorcizado. Porém, mesmo com minhas convicções realistas de adulto, não pude evitar a perplexidade diante de um fato ocorrido pela manhã. Ainda não me refiz do impacto e estou confuso até agora. Tínhamos acabado de acordar e nos reunimos à mesa para o café. O único ausente era o Renato. Minha mãe, a exemplo do que fazia comigo, gritou pelo neto.

— Renato, o café está esfriando. Venha logo, querido.

— Estou no banheiro, vovó. Já estou indo.

No mesmo momento, senti um suave perfume de jasmim invadir a sala. Aquele aroma transportou-me, subitamente, de volta ao passado. Alguns minutos depois, assisti, boquiaberto, meu filho entrar na sala cantando, com sua voz infantil, versos que um dia acreditei serem fruto da minha imaginação. Não sei se originados na casa dos Marins ou, quem sabe, vindos de conexões milhões de vezes mais distantes. O fato é que, depois de muitos anos, tornaram misteriosamente aos meus ouvidos, cantarolados pelo meu herdeiro, antigos versos que diziam: "não estou mais aqui / não sou mais eu / estou num jardim / sou um jasmim / regado pelas mãos de Deus / lá – lá – lá – lá – lá".

Elenildo Pereira
Enviado por Elenildo Pereira em 08/11/2007
Código do texto: T728995
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Sobre o autor
Elenildo Pereira
Ibicoara - Bahia - Brasil, 50 anos
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Elenildo Pereira