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Primeira vez

Era capaz de sentir a fragrância daquele corpo angelical ainda no corredor. Um perfume de flores do campo, que o remetia a uma infância rural. Parou em frente à porta do quarto. Olhou pela fresta e viu a ninfeta esparramada sobre a cama, como a chamá-lo para um ritual de hedonismo. Há quanto tempo não possuía uma virgem? Desde os tempos da fazenda - lembrou -, quando as novilhas serviam de mudas confidentes, e depositárias, dos desejos inomináveis de garotos já púberes.

Agora, entretanto, seria diferente. Daria vazão a seus instintos mais candentes, tomaria para si uma verdadeira fêmea intocada. Imaginava os gemidos de prazer que proporcionaria à jovem. Ele, um touro prestes a explodir de desejo. Ela, uma adolescente exalando vida. Por quantas noites refreara os impulsos de seu corpo! - pensava ele, antes do mágico momento.

Dia a dia esforçava-se por esconder o enorme tesão que nutria por ela. Seduzia-se por aquele rosto mavioso - com as primeiras espinhas a denunciar a transformação dela em mulher. Não foram poucas as vezes em que teve de esconder sua sofreguidão sob as folhas do jornal ou debaixo das toalhas da mesa da sala. O jeito serelepe, e por vezes provocador, com que a amada o tratava não deixava dúvidas em sua alma: ela o tinha sim, ainda que inconscientemente, convidado para o paraíso dos sentidos.

E ele antes poderia ter chegado a esse tesouro, não fosse o fato de o contato entre ambos haver se tornado mais raro. Mas guardara o mapa da mina e não desperdiçaria outra oportunidade de abraçar a fortuna.

Abriu os umbrais da alcova cuidadosamente, para não despertar o objeto de seu desejo. Fazia questão de surpreendê-la. E, de todo modo, sobressaltos não combinavam com o que planejara para essa primeira noite de amor. Contendo com esforço a voracidade, caminhou descalço até o leito da jovem. Com os pêlos púbicos já eriçados, percebia o sangue ser bombeado com violência até cada extremidade do seu corpanzil.

Por um instante, observou ainda a beleza da ninfa. O odor campestre estava mais forte. À meia-luz do abajur, passeava tranqüilamente a mão direita por sobre um campo de força imaginário que encobria a jovem. Podia notar a pele alva, os cabelos escuros, as curvas esguias e - repentinamente - os olhos de safira!

Quando seus olhares se cruzaram, já estava ele com o membro na angulação máxima - talvez uns cento e vinte graus. Antes que ela pudesse assimilar a situação, tomou-a nos braços e a pôs de quatro, de costas para ele. Depois, desembainhou a espada - que foi rápida na tarefa de persecução e logo começou a terçar armas com a vulva intacta.

Naturalmente, imaginava que a amada fosse sentir dores. Mas ele seria breve. Apresentá-la-ia ao prazer e satisfaria seus próprios caprichos. Não tardou para que a resistência do hímen logo fosse vencida e um regato de sangue escorresse pela virilha da agora mulher.

A amada volta e meia se debatia - devia ser a dor, especulava ele -, e emitia sussurros - todos abafados pelo travesseiro, onde repousava o rosto dela, pressionado pela força do varão que a dominava, tal qual uma bezerra. Durante esses espasmos, ele se enchia da convicção de que a jovem gemia de satisfação.

E como poderia ser diferente?, refletia. O amor não é a senha para a felicidade? E o sexo não é um dos meios de se alcançar o ápice do amor? Ele, ao menos, estava quase lá. Iniciou uma intensa série de penetrações, num entra-e-sai que o levava e trazia por um caminho pavimentado de frescor, cuja trilha sonora era o estalar da madeira da cama. Tudo o mais em volta parecia sem sentido, diante daquela comunhão de corpos.

Então, um risinho malicioso marcou a explosão de volúpia. Ela pertencia a ele. Era como uma descarga de sensações. E logo adveio a leve depressão que sucede o orgasmo.

Finda a cópula, olhou para o leito de lascívia e a adolescente inerte. Sim, ela gozara. Tudo havia sido perfeito. Plenamente satisfeito, retirou-se do cômodo. Acabara de viver uma daquelas noites inesquecíveis.

Para ambos, na verdade. Realmente, ela gozara, atingira o ponto máximo da excitação. Estreara no enigmático mundo do sexo. Todavia, era ainda incapaz de compreender. Fora sugada por um buraco negro em cujo centro reinava a dúvida, anulando todas as coisas a seu redor. À inocência perdida seguiram-se o desespero e o asco. Assim que a porta bateu atrás de si, a menina-mulher sentiu correr uma lágrima por sua delicada tez. Antes que uma gota d'água salgada caísse sobre a capa do caderno da sexta série jogado ao lado da cama, balbuciou a única palavra que conseguiu regurgitar naquele instante: "Pai!?".
Jorge Eduardo Machado
Enviado por Jorge Eduardo Machado em 21/11/2005
Código do texto: T74262

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Sobre o autor
Jorge Eduardo Machado
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 37 anos
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Jorge Eduardo Machado