Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

No cemitério

     Levantou-se, sonolento.
     Escovou os dentes, fez as necessidades e tomou banho. Vestiu-se (calça, camisa e sapatos), pegou a mochila e saiu, sem tomar café. Era 5 horas da manhã daquela sexta-feira. Rua escura e deserta. Passos ecoando no chão. Desceu a rua daquela cidade de cinqüenta mil habitantes.
     Dobrou à direita e aproximou-se do cemitério.
     Lá estava ele, todo sinistro, a duzentos metros. Não o temia, pois passava ali todos os dias, de segunda a sábado. O vento frio no rosto. Nada de lua no céu.
     A cem metros, ouviu... um grito!
     Um grito de dor.
     Assustou-se. Seus pêlos arrepiaram-se.
     Diminuiu os passos e procurou descobrir a origem. A cinqüenta metros, novo grito, proveniente do cemitério. Não havia dúvidas. Por trás daquele muro alto, alguém sofria. Continuou andando, já temeroso.
      Estava agora passando pela área do cemitério. Viu o imenso portão. E o muro, pintado de branco. Atrás do muro, jazigos, catacumbas, sepulturas, cadáveres, a fatalidade da morte. Tinha mais oitocentos metros a percorrer, com o muro do lado...
      Tentou ignorar o próprio temor. Respirou fundo, dando uma olhada na área. De um lado o cemitério... De outro, um imenso matagal... Macabro. Estrada de terra batida. Depois, veria a avenida.
      Ouviu o grito! Ahhhhhhhhhhhhhh!!!
      Estremeceu de medo.
      "Meu Deus!" - pensou.
      Algo acontecia lá dentro. O que fazer? O que fazer? Suspirou e controlou-se.
      E eis que... logrou ter visto alguma coisa! À sua esquerda! Uma cabeça brotou de cima do muro. Sim! Olhos que brilhavam! Luz esverdeada, brilhante! Cabeça disforme e maligna. Arrepiou-se!!!
      Aumentou as passadas, já trêmulo. A mochila vibrava em suas costas. Semblante pálido. Foi andando, em passos mais rápidos, sem olhar para trás. Gemido. Um urro! Um urro sobrenatural e horripilante!
      Começou a correr.
      O medo no semblante! Quase em pânico!
      Alguma coisa vinha em seu encalço. O perseguia! Sentiu a aproximação da morte!
      Continuou a correr, o suor descendo da testa.
      Novamente ouviu o urro maquiavélico de um animal. Horrível!!! O pânico começou a dominá-lo. Não parou de correr. Passos firmes no chão. Pensando em algo sobrenatural, monstruoso, tétrico, horripilante e asqueroso. Exibia garras sinistras.
       Lembrou dos filmes de terror que assistia. Arrepiou-se...
       Delirava! Teria ouvido novo grito? Passos lá atrás? Bater de asas? Uma gargalhada? Uma luz esverdeada?
       E continuava correndo. Lágrimas de pavor nos olhos. Rezava. Corria sem olhar para trás. Ofegava. Os músculos doíam. Estava em pânico, sentindo a aproximação de algo monstruoso e inumano. O hálito da morte em sua nuca! O esgar do medo! O horror de todos os infernos! Isso nunca havia acontecido antes. O cemitério sempre foi calmo e silencioso.
       Corria, os músculos doloridos, respiração difícil, apavorado, desesperado. Sozinho. Estrada escura. Matagal sinistro, que parecia esconder criaturas horríveis em suas entranhas.
       Não ousou olhar para trás. Não teve coragem. Apenas corria, chorando, reunindo forças para salvar sua vida. Aquele bater de asas... o urro... passos lá atrás...
       "Meu Deus!" - pensou, apavorado - "Salve-me! Livre-me dessa criatura! Eu te imploooro!"
      O medo o impulsionava.
      O delírio o dominou.
      De repente, pensou que... que... sim... um monstro sobrenatural, alto, olhos diminutos, garras asquerosas, a pele derretendo, como um cadáver em decomposição, mordendo sua cabeça. Sentiu que pedaços de seu cérebro foram sugados, o sangue fluindo.
      Dentes rasgando sua carne, num louco desvario. Seu braço direito rasgado, ombro despedaçado.
      As dores eram insuportáveis.
      O choro! Gritava por sua vida!
      O monstro o arrastava, ainda vivo, para a escuridão do cemitério, onde outras formas grotescas aguardavam. Os ruídos se tornavam tétricos.
      O fedor de carne podre lhe causava náuseas.
      Dor! Muita dor!
      Foi lançado numa cova rasa e aqueles zumbis sanguinários se aproximavam.
      - Nããããooo!!! - gritou, apavorado, o corpo em convulsão.
      De repente (talvez devido ao grito que dera) o pesadelo esvaiu-se, nos confins de sua mente desvairada! O pesadelo, as visões, as alucinações terríveis... chegaram ao fim.
      A realidade - vívida e benevolente - surgiu diante dele.
      Viu-se correndo, em pânico, sozinho, ao longo do muro do maldito cemitério.
      Não havia mais nenhum monstro, nenhum zumbi.
      Somente o muro!
      De repente, sem saber como, viu-se na avenida. O muro do cemitério ficou para trás. O cemitério ficou para trás. Incrível!!!
      Mais animado, desembocou na avenida. E continuou correndo, rumo ao norte. A parada de ônibus. Havia uma pessoa lá. Talvez o velho que sempre pegava o ônibus no mesmo horário dele. Ou não?
      Era alguém... estranho. Parecia uma entidade esdrúxula e sobrenatural. Não conseguiu reconhecê-lo.
      O que fazer? Mas continuou correndo. Aproximou-se da entidade. Sem olhar para trás. Alcançou a parada e apoiou-se na coluna. Ofegante. Cansado. Em pânico. Ajoelhou-se e preparou-se para o pior. Iria morrer! Iria morrer! Por quê? Por quê?
      Não tinha mais forças para fugir.
      Não tinha mais forças para lutar.
      Fechou os olhos, ainda de joelhos e colocou as mãos na cabeça... Escuridão... Silêncio... Não ouviu mais o urro, nem o grito... Estava trêmulo, pálido, o medo já dominando totalmente seu corpo e sua mente.
      A criatura do cemitério estaria ali?
      O que iria fazer com ele?
      O que pretendia? E por que ele?
      Minutos depois, ousou abrir os olhos...
      E o que viu?
      O velho!
      Sim, o velho que pegava o ônibus com ele. O velho que o olhava, perplexo. Respirou fundo, aliviado, com lágrimas nos olhos.
      O velho, surpreso,perguntou:
      - Acalme-se, meu jovem. O que houve? Você parece que viu o próprio demônio. Sente-se aqui.
      Não soube o que responder. Olhou para o velho, mas não conseguiu pronunciar uma só palavra. O que iria dizer a ele?
      Sentou-se no banco, o velho do lado. Não havia nenhuma criatura nas imediações. Nenhum monstro proveniente do cemitério. A avenida estava bem iluminada...
      De repente, sentiu vontade de ... rir. Isso mesmo. Um riso baixo, que logo se transformou numa gargalhada. Gargalhada insana, que fazia estremecer seu corpo. Lágrimas nos olhos... Histeria. Um pouco de depressão. Riu por quase três minutos... Depois, foi voltando à calma. Tinha que dizer alguma coisa ao velho. E foi o que fez:
      - E-estou b-bem... - conseguiu murmurar.
      Parou de rir... O ônibus estava vindo. Acalmou-se, voltou a ser um homem normal.
      O velho o olhava, sem entender nada.
      - Tudo bem. - disse, baixinho, encarando o velho, e entrou no veículo.
      Respirou fundo e sentou-se o mais longe possível do velho.
      Procurou esquecer as visões.
      Não contou para ninguém o que vivenciou nas proximidades do cemitério. E nem poderia. Ninguém acreditaria nele. Quer dizer, nem ele mesmo. Perguntou-se se teria delirado. Se tudo não passou de paranóia, ilusão diabólica.
      Teve um final de semana tumultuado. Sem conseguir comer e dormir direito, pensando no cemitério. Sábado à noite, foi ao baile com a namorada e conseguiu disfarçar suas emoções. Ela apenas notou uma certa frieza e distância, por parte dele. Algo que disfarçou, inventando mentiras. Domingo, as visões continuavam a persegui-lo.
      Na segunda-feira, foi para o trabalho, mas sem passar na frente daquele cemitério. Para isso, dava-se ao trabalho de percorrer um itinerário maior, para pegar outro ônibus.
      No trabalho, não conseguia se concentrar nas suas funções. Os amigos notaram o quanto estava inquieto, temeroso e com os olhos sempre arregalados.
      Foi somente na terça-feira que começou a ter os verdadeiros pesadelos.
      Isso mesmo. Horripilantes pesadelos!
      Zumbis saíam das catacumbas, exalando um fedor putrefato, e o perseguiam, querendo devorá-lo. As criaturas do cemitério queriam pegá-lo.
      Do cemitério desgraçado!
      Acordava gritando, pálido e trêmulo, e não mais dormia direito.
      As coisas foram piorando, com o passar dos dias.
      Sua mente entrou em colapso... lentamente... cruelmente... o cemitério rasgando seu raciocínio... o cemitério o estraçalhando psicologicamente... as criaturas... as visões tétricas... o medo... o pavor intenso... de modo irreversível... dizimando... expurgando sua vida... até que... até que...
      Na sexta-feira, já enlouquecido, foi recolhido a um hospital psiquiátrico.
      FIM


      Obs: E você, leitor, teria coragem de passar na frente de um cemitério, às 5 horas da madrugada de uma sexta-feira?
      He, he, he, he, he!!!


Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 21/11/2005
Reeditado em 03/05/2006
Código do texto: T74547
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14850 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 23:50)
Joderyma Torres