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Um animal demoníaco

      Duas horas da madrugada. Observou a imensa casa, cercada pelo muro alto. Sabia que os donos haviam saído. Sabia que os dois cachorros estavam soltos.
      Aproximou-se do muro.
      Retirou da mochila os dois pedaços de carne e os jogou ali por cima, no gramado da residência. Esperou o tempo suficiente para ter certeza de que os cães estavam fora de combate. Do lado esquerdo da casa, uma igreja. Do lado direito, terreno baldio. Na frente, outras casas, todas cercadas por muros, todas silenciosas e sinistras. Tinha que ser rápido, pois daqui a pouco o homem da motocicleta faria sua ronda.
      Colocou a tábua na base do muro e pulou o mesmo, com movimentos ágeis. Lá de cima, avistou os dois cachorros, que imergiam na agonia da morte. Saltou para o gramado da casa. Estava agora dentro do terreno da casa, mochila no ombro, luvas, roupas pretas, pronto para a ação. Percorreu cinquenta metros, por entre as árvores e flores, e parou diante de uma das janelas gradeadas. No segundo andar, a janela não tinha grade.
      E havia aquela árvore... plantada no lugar certo.
      Subiu agilmente nos galhos da árvores, até se ver a dois metros da janela. Janela aberta, na imprudência típica dos que se julgavam a salvo. Deslocou-se para a extremidade do galho, que se dobrou com seu peso, num nível acima da janela. Fácil, fácil... Era magro, possuía músculos, força, disposição.
      Num rompante de energia, pulou para a janela e agarrou-se nas bordas. Seus pés apoiaram-se na base da janela. Sala escura. Pulou para dentro da casa. Uma casa deserta, todinha sua. Sacou a lanterna da mochila e começou a andar. Saiu da sala e percorreu o corredor. Logo chegou no quarto, seu destino maior. Cama de casal imensa, luxuosa. Guarda-roupa, TV, DVD, ar-condicionado, criado-mudo, rack.
      Coisa linda!
      Começou a abrir as gavetas do guarda-roupa. Havia doze gavetas, um exagero. Foi abrindo uma a uma, descartando as roupas. Então, eis que encontrou o que procurava, na gaveta de baixo, do lado esquerdo. Ali estava a caixa de madeira, com a jóias.
      Sua informante não errara. Não era à toa que sua amiga trabalhou naquela casa por seis meses, antes de pedir demissão. Perfeito! No entanto, havia um porém. Ela disse que o casal de meia idade recebia visitantes estranhos, nas noites de sexta-feira, e que eles se trancavam numa espécie de sala secreta, no andar de baixo. Suspeitava de que eles participavam de algum ritual cabalístico ou de candomblé ou de magia negra. Havia velas e eles não permitiam que ela ali adentrasse. Eles mesmo limpavam o local. Ela ouvia músicas esquisitas, cantos africanos esdrúxulos e ruídos de preces, gritos e outros barulhos. Um negócio estranho e assustador. Nunca pôde ver o que tinha dentro da sala, mas a temia, assim como ao casal. Foi justamente por causa do medo que sentia da referida sala que sua amiga pediu demissão do emprego.
      Estava ciente de tais fatos, mas não era supersticioso. Não acreditava em feitiços e muitos menos nessa tal de magia negra. Macumbeiros ou não, aquele casal iria ficar sem suas jóias hoje. Seria um serviço grandioso.
     Já colocava a primeira jóia na mochila quando... algo se abateu sobre ele!
      Foi atacado!!!
      A lanterna caiu. Garras se fixaram no seu pescoço.
      Tudo muito rápido e sinistro. Sentiu dor! Foi jogado contra o armário. Ouviu um urro estranho. Um animal havia saltado sobre ele. Como?
      Logo estava no chão, com o animal em cima dele. Garras em seu pescoço. Dentes em seus rosto. Tentou segurar a criatura. Roupas rasgadas, o sangue jorrando. Deu um safanão e afastou o animal.
      Tentou levantar-se, para fugir, quando algo saltou sobre suas costas. Garras em sua nuca, pescoço, rosto. Mais sangue. Dor. Soltou um grito de dor. Entrou em pânico. Saiu cambaleando do quarto, rumo à sala... e à janela. Andava, o animal em cima. Deu-lhe um tapa e o afastou de novo.
      Correu para a sala, já ensanguentado. Não conseguiu identificar que animal o atacara, por causa da escuridão. Talvez um gato. Um gato? Com aquele tamanho e aquela força? Ou uma jaguatirica. Ou um quati. Ou um gambá. Seria um texugo? Um guaxinim? Um... puma?
      Que ente maldito seria esse???
      Entrou na sala, sentindo dores no pescoço e no rosto. Viu o sangue escorrer. Deixara a mochila e a lanterna para trás. Pendurou-se na janela e ia pular quando...
      Novo ataque!
      Mortal! Insano! Horripilante!!!
      A criatura em seu pescoço, garras afiadas rasgando sua carne! Dentes na sua nuca! A dor! O susto! O MEDO!!!
      Desequilibrou-se e caiu. Ele e a criatura. Caiu no chão frio e bateu a cabeça.
      Tudo, então, ficou escuro... muito escuro...
 
                           *****

      Abriu os olhos.
      Estava num quarto. Luz fraca do teto. Sombras por todos os lados. Ataduras no corpo. Soro. Dores. Dores antipáticas. Temor. Desorientação. Onde estava?
      E eis que viu o homem fardado. Dentro do quarto. Cochilando na cadeira. Seria um policial?
      Compreendeu tudo. Não havia mais escapatória. Tudo estava perdido. No entanto, uma dúvida azucrinava sua mente, seus neurônios. Que animal o atacara? E por que tanto ódio? Estremeceu, ao lembrar. Queria tentar esquecer.
       De repente... ouviu um barulho, vindo da janela.
       Viu algo se mexer na janela, que estava aberta. Havia alguma coisa ali! Como? Estaria delirando? Seria aquilo real? Um animal! Uma mistura de... quê???
       Parecia um... felino. Ou não?
       Parado, quieto e esperando. Esperando o quê? Olhava para ele! Com ódio. Ódio mortal! Escatológico! Inumano! Estremeceu de pavor. Terror puro.
       Seria o animal que o atacara na casa?!?
       Não havia dúvidas de que o seguira até aqui. Para terminar o serviço?
       Aquele olhar... O brilho maligno... Olhos diabólicos, fixos nele... Esperando o momento certo...
       Não havia dúvidas de quais eram as intenções daquele bicho! Arrepiou-se, ao perceber. E sentiu medo.
       Medo! Pavor!
       Lembrou do que sua amiga dissera. O casal! Os rituais estranhos na sala misteriosa. Cantos, orações, música africana, magia negra!!! Meu Deus! O que estaria acontecendo com sua amiga, nesse momento? Ela seria a próxima? O animal iria pegá-la? Depois dele?
       Suas mãos... tremiam!
       Sem saber como e já imerso no mais horrendo de todos os horrores, começou a... gritar. Começou a gritar, trêmulo, como nunca gritou em toda a sua vida.
     
               FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 21/11/2005
Reeditado em 14/01/2006
Código do texto: T74590
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14846 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 12:44)
Joderyma Torres