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CRIANÇA DESAPARECIDA


Já era quase meio-dia,  quando chegamos á rodoviária de S. Paulo. Minha irmã Clara veio nos esperar, pois morava num bairro  próximo do centro da cidade. O dia de Natal não estava muito longe. Íamos pelas ruas, nós cinco: eu, meus filhos Felipe, Rafael e Lúcia esta apenas com quatro anos, e minha irmã Clara. Felipe estava para completar oito anos e Rafael com seus seis anos loiros, como o dia.
As ruas estavam muito enfeitadas mas as luzes ainda apagadas; as vitrines muito bem decoradas, as vendedoras nas portas das lojas; tudo estava preparado, esperando apenas chegar a noite para poder brilhar.
Não demoramos a chegarmos à casa de Clara. Da janela de nosso quarto, víamos o shopping, a noite parecia um encantamento, um sonho feito de luzes coloridas.
Um sonho transformado em pesadelo!
Após o jantar, na noite seguinte, decidimos levar as crianças para ver as luzes da cidade e  Papai Noel. Tudo era mágico.
As crianças olhavam tudo de boca aberta. Subimos e descemos as escadas rolantes várias vezes, elas nos levavam cada vez mais para dentro daquele mundo de sonhos e fantasia.
Um homem vestido de Papai Noel estava sentado numa espécie de trono, segurando um saco de balas, que distribuía às crianças. Observávamos de longe toda aquela magia. As crianças estavam loucas para ir abraçar aquele velhinho do qual eu sempre falava nas histórias de Natal.
Com o coração quase saltando do peito permiti que fossem, os três, mas eu os  olhava de longe.
Não sei como aquilo aconteceu pois não tirei os olhos deles um minuto sequer.
Quando retornaram, eu fiquei desesperada, vendo apenas Lúcia e Felipe, Rafael desaparecera em meio àquela gente toda.
Voltei, abracei meus dois filhos e comecei a chorar como louca, eu estava num pânico só, e meus filhos estavam ficando com medo.
Foi como se um grande buraco se abrisse sob os meus pés, e tudo escureceu.
Isto aconteceu  por volta das oito e meia da noite, não tenho muita certeza, mas quando voltei a mim, eu estava numa maca no corredor de um hospital, Clara segurava minha mão, as lágrimas corriam como rios de meus olhos. Perguntei pelas crianças, tinha esperança de que fosse apenas um pesadelo. Ela ficou calada. Seu silêncio foi como uma facada em meu peito, sentia a dor em meu coração.
Da maca eu via o relógio na parede, que já marcava quase duas horas da madrugada.
Tentando conter o soluço do choro, Clara me disse que Felipe e Lúcia estavam com Miguel em casa, mas que Rafael ainda não tinha sido encontrado.
Um silêncio me tomou por inteira, e pedia com o pensamento para Deus ajudar a encontrar meu filho.
Neste instante, Miguel chegou ao hospital, deixara as crianças com sua irmã. Chegava naquele momento do shopping, onde em busca minuciosa com a polícia e os segurança do local nada encontraram.
Deixamos o hospital, eu arrasada.
Hoje é segunda-feira, faz sete dias que meu filho sumiu, e até agora nenhuma notícia. Não tenho disposição para mais nada. Meu marido, que veio para S. Paulo um dia depois do ocorrido, está desesperado. Não dorme, nem quer saber de se alimentar, vejo um homem arrasado, com a face desfigurada, um homem forte chorando como uma criança, chora muito, anda desnorteado pelas ruas com a foto do filho na mão, mostrando a todos e dizendo: Você viu este menino ? É meu filho , e eu o amo.
Quem levou meu filho, levou também um pedaço da nossa vida, aquilo que uma família tem de melhor, que é a alegria, e deixou uma dor horrível, que é a falta de um filho.
Quando vamos à delegacia a resposta é sempre a mesma, nada ainda. Mas meu filho está vivo, sinto isso, sou mãe, e de certa forma ainda estamos ligados por algum laço, talvez divino, ele e eu.
Hoje de manhã saímos a espalhar cartazes com o rosto de Rafael pela cidade, com o número do telefone de Clara e o número do nosso celular. Tenho esperanças de encontra-lo, mesmo que seja para dizer adeus.
Decidimos  voltar para o interior, vou contra a minha vontade, mas é importante manter-nos unidos neste momento, seja aqui ou no interior do Estado, e meu marido precisa voltar ao trabalho.
Telefono quase todos os dias para Clara e a resposta é sempre a mesma, ainda nada de notícias de Rafael. Mas sei que esta vivo, sinto isso. Repito para mim mesma várias vezes por dia.
Faz agora quinze dias que ocorreu a tragédia, para não dizer outro nome, em nossa vida. Meu marido já emagreceu alguns quilos, ás vezes o encontro chorando pelos cantos, mas ele tenta disfarçar, procurando se mostrar um homem forte, talvez para não me fazer ruir também, e então começamos a chorar juntos.
Meu Deus, eu não sei mais o que fazer! Rezo todos os dias e todas as noites, mas nada parece mudar a situação, está cada vez mais difícil  tocar a vida.
No meio do dia, recebemos um telefonema do delegado de S. Paulo, dizendo que encontraram um garoto parecido com o nosso. Marcos, meu marido, largou o trabalho e foi imediatamente verificar, voltou decepcionado, não era  Rafael. Está calado, não diz uma palavra, o vermelho já faz parte do azul dos seus olhos, e sua voz parece  amarrada ao coração. Pobre homem.
Durante a tarde de hoje reuni-me com um grupo de mães que também tiveram os filhos desaparecidos, alguns repórteres nos entrevistaram, foram mostradas fotos, inclusive a de Rafael, com seus cachos loiros e olhos azuis, igual ao pai, contamos várias histórias de como as crianças desapareceram e estamos contando com a sorte e com Deus.
Á noite recebemos vários telefonemas, que no dia seguinte descobrimos ser brincadeira de pessoas maldosas, desocupadas, que não se importam nem um pouco com os sentimentos dos outros, somente quem é mãe como eu, sabe disso.
Mas, o que nos chamou a atenção e reacendeu nossas esperanças foi um telefonema, logo de manhã, do delegado de uma cidade do interior, perto da capital. Ainda me lembro de cada palavra que me disse ao telefone. “ ... ele é loiro, de cabelos cacheados e olhos azuis, usa uma camiseta verde com gola branca, e tem na mão um pedaço de brinquedo, mas não diz uma palavra...”.
Demoramos cerca de três horas para chegar até aquela cidade. Todos os detalhes que nos dera mostrava que era o nosso Rafael, aquele pedaço de brinquedo podia ser o que restou da mini-motocicleta que Clara lhe dera naquela noite.
Quando chegamos, procuramos pelo delegado Chaves, aquele que nos telefonara. Um homem negro, alto, quase majestoso, apresentou-se.
Imediatamente nos convidou para que o acompanhássemos a um abrigo para menores, que ficava do outro lado da pequena cidade. No meio do percurso, paramos numa praça, onde nos disse que fora ali que o garoto fora encontrado, “... quando cheguei aqui, ele estava sentado neste banco, usava apenas um calção preto e uma camiseta verde, e segurava aquele pedaço de brinquedo como se fosse a coisa mais valiosa do mundo”.
Seguimos então para o abrigo de menores. Era um casarão antigo, com um grande portão de ferro. Tocamos a campainha, e uma senhora vestida de freira veio nos atender. Tinha um sorriso que encantava, cumprimentou-nos e fez um sinal para que a acompanhássemos.  Era madre Guadalupe, sua idade lhe aparecia na face, muito respeitada por todos. Mas eu já estava suando frio, quase não sentia a mão de meu marido segurando a minha, estava louca para ver a criança da qual o delegado falara.
Finalmente chegamos a uma sala, em que, sentado num canto, estava o garoto de costas. Meus olhos já não acreditavam no que viam, meu marido engolia em seco, dei dois passos para dentro da sala e chamei:
“ – Rafael.”. Ele virou lentamente a cabeça, e eu reconheci meu filho.
- É ele, meu Deus.
E eu abracei meu filho muito forte, e chorei como jamais havia chorado em toda a minha vida. Meu marido sentou-se encostado na parede e chorava como uma criança. Neste momento, parecia que nossas vidas voltava a ter um pouco de felicidade.
Depois de reconhecida a criança, fomos para a delegacia. Preenchidos todos os papéis, voltamos para  casa no mesmo momento. Rafael, durante o tempo que durou a viagem, não disse uma palavra, somente olhava para a beira da estrada , através do vidro traseiro do carro, como vendo algo que nós não conseguíamos ver.
Finalmente chegamos a casa, minha família e a de Marcos nos esperavam em frente ao portão, estavam lá também muitos vizinhos e amigos nosso. Foi uma festa, pensamos que tudo já estava solucionado. Desci do carro, peguei meu filho do banco traseiro com todo carinho e levei-o para dentro de casa, todos me olhavam com admiração e orgulho. Felipe e Lúcia transbordavam de alegria.
Enquanto  Marcos segurava Rafael no colo e conversava com todos, fui para o quarto dos meninos e separei uma roupa confortável para Rafael vestir após o banho. Tendo já preparado tudo, fui à sala e, desculpando-me com todos, levei Rafael para o banheiro. No momentoem que retirei sua camiseta e ele virou-se de costas para mim, fui tomada de grande susto. Dei um grito e caí sentada no chão.
- O que foi ? Perguntou Marcos.
E eu, quase sem voz, mostrava a ele a marca na costa de Rafael, com quase quatro dedos de extensão. Todos ficaram horrorizados.
Rafael me olhava calado, sem entender nada, estava aéreo, não dissera ainda uma palavra desde que o encontramos. Estava completamente traumatizado.
Terminado o banho, seguimos para o hospital local. Foram realizados vários exames, mas a surpresa realmente viria com o ultra-som , que detectou a falta de um dos rins do garoto. Tendo sido realizados todos os exames, o médico perguntou-nos se queríamos que fossem abertos os pontos para se certificar da operação, pois tudo estava correto, o corte no lugar certo, os pontos foram feitos, como por profissional da área.
Ficamos horrorizados.
Por que fizeram isso com meu filho ? Esses ladrões de órgãos, de crianças .
Seqüestraram meu filho para roubar um órgão, um rim.
Meu filho está comigo, agora. Amanhã completa oito anos, e ainda não está recuperado completamente. Ás vezes chora sem motivo, tem pesadelos á noite, não é mais uma criança normal como seus irmãos, apesar das consultas com o psicólogo.
Tenho esperanças e fé em Deus de que ele vai melhorar, mas o mais importante é que meu filho está aqui, junto de mim novamente.

20/06/2001
Justino
Enviado por Justino em 21/11/2007
Reeditado em 25/11/2007
Código do texto: T746507

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Sobre o autor
Justino
Pinhais - Paraná - Brasil, 47 anos
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