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O Caso da Redenção - Parte I

Eram quase 11 horas da noite e o Monumento ao Expedicionário parecia maior e mais formoso que de costume. Péssima hora para passear no Parque da Redenção, mas o jornalista Heitor Boaz, que cruzava a contemplar atentamente o monumento, sempre foi meio “doido de pedra”. Não havia muitas pessoas lá, como de hábito àquela hora, exceto alguns caras fumando um baseado. Nada de tão assustador.

Os brigadianos rondavam o local de meia em meia-hora. Eram dois naquela noite fria e densa. Tão fria que, mesmo vestindo suas luvas de lã, Heitor sentia os dedos como pedras de vidro. O minuano soprando em sua nuca deixava uma pesada sensação de calafrio, normal, mas ao mesmo tempo, de pavor. Nem a manta de lã, nem a toca vermelha do Sport Club Internacional o salvariam daquele frio Rio-grandense que desertava a cidade de Porto Alegre naquele mês de julho.

Para muitos, já era uma obrigação difícil e assustadora atravessar o parque durante o dia, quanto mais à noite. Mas Heitor nunca se incomodou muito com isso. De fato, já fora assaltado mais de quinze vezes na Grande Porto Alegre, e sempre agira com impassibilidade e astúcia nessas situações. Depositava muita confiança na Brigada Militar e em seus métodos “descomunais”.

Heitor caminhava serenamente à beira do lago. Ouviam-se ruídos de corujas e pássaros noturnos, mas nada disso o alarmava. Pelo contrário, gostava muito do fenômeno acústico da natureza. A geada já tomava conta da grama e subia quase que instantaneamente por suas pernas, atravessando a malha forte da calça de abrigo preta e a ceroula de lã que vestia por debaixo, deixando-o com uma forte sensação de dor aguda. Os coturnos que ganhara de sua mãe, em 1956, como recordação de seu pai, eram a única coisa que o protegiam do frio intenso.

Seu pai, Fernando de Souza Boaz, servira no exército brasileiro e fora chamado para lutar em defesa dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, com a Força Expedicionária Brasileira. O pracinha morrera na Itália no quinto dia de viajem, ao entrar em Monte Castello, com um tiro de Luger, - revólver alemão - precisamente no olho esquerdo. Seus coturnos do exército foram enviados de volta à cidade de Alegrete, no interior do Rio Grande do Sul. Sua mãe, Regina Boaz, tratou de mandá-los de presente para o filho em Porto Alegre, como recordação de seu velho pai.

Não havia um dia sequer que Heitor não se lembrasse de seu pai. Seu coração era preenchido com um sentimento de ira e, ao mesmo tempo, pesar. Aquele não era um dia diferente. Tomado de aflição e angústia, Heitor tentava esquecer todos esses aforismos e voltar logo à sua casa. Chegando ao fim do lago, presenciou uma cena que poucos têm a infelicidade de fazê-lo. Atrás de uma grande árvore, um pequeno braço esticado, mergulhado em uma poça de líquido orgânico, que ele reconhecera de imediato. Aproximou-se e, tremendo, ajoelhou-se lentamente. Meu Deus... Que horror... O que devo fazer? Não deveria tocá-lo... Ah, imagina, preciso ver se ele está vivo...

Aquela sensação de horror e infração não o deixava. Estava confuso. Será que devo deixá-lo aqui e fingir que nunca vi nada? Não! Seria muito injusto. Na verdade não, eu poderia sair. Não tem ninguém aqui. Quem vai me ver indo embora? Ah, cala a boca tchê! Quem não deve não teme! Vou achar aqueles brigadianos...
Então, decidido, percorreu o grande parque rapidamente, encontrando os dois policiais encostados no grande Monumento o qual mais cedo admirava.

“Com licença...” E, instintivamente, os dois colocaram-se em forma e olharam estranhamente para aquele cidadão. “Acabo de encontrar um corpo no término do lago, lá do outro lado, parece de um jovem de uns 15 ou 16 anos.”

“Estava sozinho? Alguém o viu? Perguntou o brigadiano, desconfiando da situação e do sujeito.

“Estava sozinho, aparentemente ninguém me viu.” Respondeu rapidamente.

Os dois oficiais se olharam, desconfiando do homem e indagando-se em pensamento o quão perigoso ele poderia ser e o que poderia fazer a partir daquele momento.

”Leve-nos ao corpo então.”

“Senhor, pode nos informar o seu nome completo?” Perguntou o oficial subalterno.

“Heitor de Souza Boaz”

Enquanto caminhava, Heitor sentiu uma imensa vontade de ir embora, tomar um belo banho quente e, embaixo de suas cobertas pesadas, descarregar todas as tensões em uma bela noite de sono, mas a culpa não o permitiu se mover. Depois de algumas passadas, os três chegaram à cena do crime. O corpo permanecia lá. A mancha de sangue agora contornava a árvore.

“Por gentileza senhores, será que posso me retirar? Estou muito cansado e tenho de trabalhar amanhã cedo.” Perguntou com certo tom de nostalgia em sua voz.

“Onde trabalha?”

“Diário Gaúcho.” Respondeu. “Chefe da redação.”

“Entraremos em contato com o senhor em breve. Tenha uma boa noite, cuidaremos do caso como deve ser feito.”

Heitor suspirou com alívio e, sem olhar para trás, seguiu rumo à sua casa.
Daniel Pereira
Enviado por Daniel Pereira em 22/11/2007
Reeditado em 22/11/2007
Código do texto: T748231

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Sobre o autor
Daniel Pereira
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 27 anos
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Daniel Pereira