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O Caso da Redenção - Parte II

Descendo pela Rua Ramiro Barcelos, Heitor seguiu até a Rua Mostardeiro, onde residia. Mais ou menos na altura do Parque Moinhos de Vento. Um edificiozinho que quase esquinava com a Avenida Goethe. Uma zona muito barulhenta, porém, definitivamente ilustre.

Como era de se esperar num domingo cinzento, nenhuma vivalma se encontrava na rua - desprezava os mendigos que dormiam um sopor lento, sem fim, recostados à parede, protegidos pela cobertura da entrada do edifício.

Subindo as escadas, pensativo, Heitor acendeu as luzes do corredor do segundo andar e dirigiu-se ao apartamento de número 203. Amém... Finalmente estou em casa... O que será que houve com aquele pobre guri? Bom, os brigadianos devem ter cuidado do caso, como prometeram. Devo descansar minha mente. Ficar pensando nisso não me trará benefício algum!  Cadê a maldita chave!? Diabos! Mas que joça! Finalmente, após muito sacrifício para encontrar a chave do apartamento que se misturara com um monte de chaves do trabalho, entrou em casa.

Acendeu a luz e, quase que de imediato, Haole, o cachorro, se atirou em cima dele, que caiu e deu com a cabeça no chão.
Haole era um cão muito especial. Labrador. De procedência. Pedigree e tudo. Heitor o considerava um consangüíneo, já que o cão fora do pai antes de partir à peleja e deixá-lo com a esposa, que, ao ficar sabendo da morte do marido, mandou de presente para o filho juntamente com os coturnos do exército.

“Como está Haole? Estava com saudades!” Disse Heitor, conversando com o cão. Era seu confidente.

“Au! Au! Auuu!” Latiu.

“Hoje presenciei uma cena muito estranha, mas que com certeza, me renderá uma bela matéria! Não posso dormir sem escrever sobre o fato” Disse. Estava empolgado com o fato o qual havia presenciado. Já havia se esquecido da gravidade da situação.

Definitivamente, para um jornalista, nada passa despercebido. Tudo é trabalho. Tudo é inspiração. Tudo pode ser escrito e publicado. Ainda mais quando se pode render dinheiro. Foi o que Heitor pensou com relação àquele fato incomum. Após o rápido episódio com o cão, fechou a porta de casa, tirou a jaqueta de couro e jogo-a por cima do sofá bege da sala. Com um apoiar de pés, descalçou os coturnos e sentiu-se livre por um instante. Uma ótima sensação. Agarrou a toalha de banho que se encontrava pendurada na cadeira da cozinha e dirigiu-se ao banheiro. Finalmente o banho de que tanto esperava aconteceria.

Quando tudo estava mais calmo – e limpo -, sentou-se na frente da máquina de datilografia e esperou as idéias fulminarem sua mente abandonada. Heitor escreveu o artigo que pretendia publicar no Diário Gaúcho na Segunda-Feira, dia seguinte àquele em que ocorrera o tal fato. Eis o artigo:

“A noite estava suave, tranqüila, gelada. Meus pensamentos variavam de mulheres a filmes de ação. Atravessando o Parque da Redenção, fui parar do outro lado do lago. Lá estava a árvore. A árvore que escondia uma calamidade perpetrada por um homem. Um guri de uns 15 anos de idade, estirado no gramado sob uma poça de sangue. Sua cabeça estava definitivamente amassada devido a algum tipo de golpe de martelo ou marreta. Coisa bizarra. Cena assombrosa. Eu estava sozinho, então resolvi comunicar os brigadianos que guardavam o local àquela altura da noite. Desconfiaram de mim. Definitivamente, sem me conhecer, desconfiaram de mim. De início me preocupei, achei que seria preso, por fim me acalmei e percebi que eu faria o mesmo no lugar deles. Retirei-me com a permissão dos homens fardados e fui para casa. Tudo o que deixava aquele dia um tanto normal não fazia mais parte de minha lembrança. Só o fato de que, a partir de então, aquele dia não era mais normal. A morte foi boa comigo. Nem mesmo chorei. Nem mesmo pensei. Fui injusto com o guri, com sua família, seus conhecidos. Fui injusto com todos ao meu redor. Poderia ter feito algo a mais? Não sei. Não sei muita coisa, a propósito. O que sei é que, depois de tudo aquilo pelo que passei, aprendi o que realmente significava a palavra violência.”

Sentiu-se muito satisfeito com o desabafo. Ainda mais que aquele tipo de história prendia muito os leitores, e, se usasse da estratégia de divulgá-la na capa do Diário, poderia vender algumas edições a mais.

Levantou-se da cadeira, levando consigo o papel donde havia escrito o texto. Sem mais nem menos sentiu um mau pressentimento, daqueles que, sem motivo nenhum, aparecem no coração. Lembrou do pai. Uma única lágrima escorreu de seu olho esquerdo. Esfregou com o polegar direito, curvou a fronte, refletiu. Depois de alguns minutos de reflexão, levantou a cabeça, fungou com o nariz e, sentindo-se renovado, largou o papel no balcão de mármore preto da cozinha.

Entrou em seu quarto, apagou as luzes. Finalmente descarregaria as malditas tensões daquele assombroso dia em sua cama de casal – solteiro. Deitou-se e sentiu como se estivesse flutuando nos ares. Seus braços e pernas pareciam tão leves como algodão. Naquela noite, ironicamente, sonhou que fora morto a marretadas.
Daniel Pereira
Enviado por Daniel Pereira em 22/11/2007
Reeditado em 22/11/2007
Código do texto: T748427

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Sobre o autor
Daniel Pereira
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 27 anos
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Daniel Pereira