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Carta do maníaco

      Uma carta, escrita a caneta esferográfica de tinta azul, foi encontrada nas imediações da Casa de Custódia de Taubaté, em São Paulo, provavelmente jogada de uma das celas.

O papel - que estava amassado e sujo - era oriundo de um caderno pequeno, espiral de arame, e as letras estranhamente tortas, com os pingos do "is" diminutos, quase imperceptíveis. A ortografia mostrava-se sofrível, com erros de concordância e acentuação, porém a mensagem se mostrava clara.

O papel foi levado, pelo vento, para alguns quilômetros longe do presídio. Um menino encontrou o papel e o entregou aos pais (o homem, um vendedor de cachorro-quente) que, por sua vez, apesar de chocados, o levaram ao delegado de polícia civil. Este, surpreso, mas sem nada revelar aos jornalistas, passou a carta para uma equipe, constituída por: um especialista em grafia, um psicólogo e dois juízes, todos pertencentes aos quadros do Ministério Público.

Tais especialistas avaliaram minuciosamente a carta e, depois de atestarem a veracidade da mesma, chegaram à conclusão de que seu autor necessitava urgentemente de um psiquiatra, pois sofria de angústias jamais imaginadas por um ser humano comum.

- Esse homem não deve dormir direito há meses. - comentou o psicólogo, aliviado por saber que tal ser animalesco se encontrava atrás de fortes grades.

Ninguém quis tecer mais comentários. Só sabiam de uma coisa: a imprensa (e o público) não poderia tomar conhecimento do teor da carta. Teriam, a todo o custo!, de evitar um sensacionalismo e um escândalo desnecessários.

O papel foi, portanto, arquivado no acervo do Ministério Público.

Todavia, a história vazou. Fontes obscuras revelaram ao Brasil (e ao mundo!) o que dizia a carta. Ninguém soube quem jogou a carta na imprensa. Dizem que o vendedor de cachorro-quente teria tirado uma cópia e a vendera para o melhor jornal de São Paulo. Ou que um dos juízes, revoltado, mudou de idéia e decidiu divulgá-la, como forma de protesto. Pode ser que sim; pode ser que não. Talvez nunca se saiba realmente a verdade.

       O que apenas se tem ciência é de que todos foram surpreendidos por seu conteúdo macabro e nauseabundo.

       No jornal, o teor da carta se destacava, gritante e assustador.

       Dizia a carta:


      "Senhor Deus, entidade sagrada, quero o seu perdão para meus pecados!!!

      Perdoe-me, pois sou um homem doente.

      A sociedade me condenou. Muitos me chamam de monstro, assassino, psicopata e outros adjetivos cruéis. Não me considero assim. Sei que fui possuído por forças malignas, ao cometer aqueles atos insanos. É como uma doença perniciosa e ignóbil, que penetrou e dominou meu cérebro. Nada pude fazer para combatê-la.

      Senti, em certo momento de minha vida, uma vontade irrefreável de estuprar, torturar e matar. As mulheres estavam ali, me cercando e me bajulando com falsos sorrisos. Todas elas oferecidas, carentes e frágeis, mas, acima de tudo, aproveitadoras. Quer dizer, apesar disso, em nenhum momento tive ódio... delas ou do mundo.

      Lembro que, quando criança, eu ia ao matadouro de porcos da minha cidade. Eu ficava impressionado com a forma com que eles torturavam e matavam aqueles porcos. Os gritos! O fato de amarrarem os animais, deixando-os de joelhos. A morte lenta. O sangue. Os olhos arregalados! Havia um misto de fascinação, medo, prazer e asco em meu íntimo, ao presenciar aquelas cenas. Acredito que foi ali, naquele matadouro, durante aqueles dias decisivos, que as forças malignas iniciaram seu trabalho em minha mente.

      Cresci, tornei-me adulto, mas a imagem daqueles porcos morrendo não saíam da minha mente. Aos poucos, dia a dia, imerso na solidão, fui sendo dominado pelo espírito do mal. Lúcifer estava dentro de mim! Meus pesadelos se multiplicavam, pois via os porcos em todas as partes.

Logo (sem saber como e sem poder me controlar!) senti uma irrefreável vontade de matar. Eu queria subjugar, bater, socar, estuprar (gozando dentro, jogando meu esperma em seus corpos e em suas almas!), amarrar (como os porcos!), a todas as mulheres do mundo. Oh, eu as amava! Oh, eu queria tirar suas miseráveis vidas!

Então, já dominado pelo maligno, não pude me conter.

Eu seduzia as mulheres, sim, pois tinha esse poder. Elas acreditavam em mim, caíam na minha lábia e se deixavam seduzir por minha habilidade em conversar e convencer. Coitadas! Eram mulheres carentes e patéticas! Mulheres ávidas por fama e dinheiro fácil. Elas queriam ser seduzidas, queriam algo que eu não lhes poderia dar, a não ser sofrimento e morte.

Bem, depois que eu as seduzia, logo em seguida as levava para qualquer lugar, por mais sinistro que fosse. Juro. Elas me seguiam sem desconfiar! Ridículas! E, uma vez no lugar por mim escolhido eu... meu Deus!... preciso escrever isso!.. eu... eu... as torturava! Sim. Acredite! Eu as torturava, batendo e socando. Em seguida, as estuprava violentamente (entre socos e tapas), para usufruir um prazer que, na verdade, não sentia. Eu gozava, mas não sentia prazer. Como posso explicar isso?

Depois, as colocava de joelhos, amarrava seus braços e pernas e, enfim... vendo aqueles olhos arregalados - Como os porcos! Como os malditos porcos! - as matava impiedosamente. Por estrangulamento! Apertando seus pescoços macios! Ouvia seus gritos desesperados, pedindo piedade, implorando por clemência, mas... mesmo sem odiar e sentir prazer... era impulsionado a continuar apertando... apertando até o fim...

      Meu Deus, meu Deus! Nunca gostei de matar. Juro. Não sentia prazer naquilo. Meu sofrimento era pior do que o delas. Depois que cometia tais crimes, sozinho em meu quarto, eu chorava. Chorava feito criança, deprimido, triste, arrependido e sabendo que estava doente. Minha doença era maligna, cruel, e me impulsionava catatonicamente para o mal. Eu chorava, mas sabia que iria fazer de novo. Eu iria matar, torturar e estuprar de novo. E não tinha forças para evitá-lo.

      Cheguei a pedir para que o senhor me livrasse desse mal. Fui à igreja diversas vezes, rezei, rezei muito, implorei por uma salvação, por uma cura, mas... não sei se devido a minha pouca fé... na época não obtive resposta. Fui fraco, um derrotado, e não devo ter rezado com a força de que necessitava. E sozinho no meu quarto, chorei, rezei, tentando voltar a ser um homem normal.

       Mas eu voltava a matar! Por quê? Por que, meu Deus? Eu as convencia, sorria para elas, conversava com elas, as enganava com minhas falsas promessas, dava-lhes confiança e... depois tirava suas vidas, sua dignidade. A força maligna, o mal, o demônio, um anjo perverso estava dentro de mim, me induzindo, me impulsionando a isso. Como eu podia parar? O que me faria parar, meu Deus!
 
       Mas, eis que veio vossa resposta. Meu Deus, o senhor encontrou a solução.

        Fui preso. Bendita prisão!

O senhor não tem idéia, meu Deus, do quanto fiquei aliviado, quando a polícia colocou em meu pulso as algemas. Algemas da liberdade. Fiquei livre, ao ser preso, pois sabia que não voltaria a matar. Sua resposta foi benevolente, meu Deus. O senhor foi o responsável pela minha prisão e, ao mesmo tempo (grandioso paradoxo!), pela minha liberdade. Estou livre. Sou um homem livre e isso foi uma bênção. Tenho a vida, o arrependimento, e hoje sou um homem... quase normal. Considero-me um homem que foi libertado das forças malignas.

       Porém, algo está errado!

       Hoje, meu Deus, estou sendo torturado... pelas lembranças. Isso mesmo. Por incrível que possa parecer, não consigo esquecer os gritos dos porcos (aqueles porcos do matadouro) e, principalmente os gritos daquelas mulheres, em sua agonia final. As mulheres. Elas gritavam, imploravam por suas vidas, choravam muito! E aqueles gritos. OS GRITOS! OS GRITOS ESTÃO ME ALUCINANDO!!! NÃÃÃÃOOOO!!!

       Por isso, peço-lhe, meu Deus, perdão pelos meus pecados. Perdoe-me. E livre-me, acima de tudo, das lembranças. Elas me enlouquecem, estou paranóico e, imerso na solidão de minha cela, rezo bastante, para me livrar de tudo isso.

       Escreverei mil cartas para o senhor, numa tentativa de me livrar das lembranças. O passado me angustia. Sofro. Sou um homem livre, porém angustiado. Os gritos. Tudo por causa dos malditos gritos! Eles estão em toda a parte, me enlouquecendo aos poucos. Penso até em dar cabo da minha própria vida. Não suporto mais!!!!

       Deus, meu Deus!!! Livrai-me... dos horríveis gritos!

       Assinado: Francisco de Assis Pereira, o maníaco do parque."


                           FIM



PS: Personagem real, conto fictício. Provavelmente jamais saibamos o que - incontestavelmente - se passa na mente daquele monstro.
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 26/11/2005
Reeditado em 26/10/2006
Código do texto: T76610
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
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Joderyma Torres