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Um grito na noite


      Um grito dentro da noite parecia anunciar que algo estranho e aterrador estava acontecendo naquele lugar, que sempre fora considerado  calmo.
      No momento em que ouvi o grito pela segunda vez, comecei a imaginar quem poderia, naquela hora da madrugada, estar  sofrendo de algo tão horrível para conseguir gritar de forma tão alta e  dolorida.
      A princípio, tentei, dentro de uma lógica que é natural a todo ser humano,  imaginar  qual  seria a direção e pudesse indicar-me o local exato do acontecimento que  deveria estar ocorrendo.
      Agucei a minha atenção, esperando que novamente “a vitima” viesse a gritar para que eu pudesse, na medida do possível, descobrir o local e talvez, quem sabe, prestar os socorros devidos a quem quer que fosse.
      Passaram-se alguns minutos, porém os sons que surgiram depois daquele último grito, foram somente os barulhos que ouvi durante toda a noite.
      Lá fora, o tempo bastante frio, impedia que pudesse haver pessoas circulando por ruas desertas. Isto eu imaginava em virtude do adiantado da hora.
      O barulho distante de um carro que passava indicava que a solidão fazia parte daquela noite que tomara os ares de sombria, além da escuridão de um dia após a lua nova. Olhei para o relógio na parede e vi que passava das 3 horas.
      Aguardei alguns minutos que me pareciam horas, porém o silêncio da noite era quebrado pelo gato que miava, o cão que ladrava e mesmo algum galo que cantava, como se houvesse perdido o juízo, devido ao adiantado da hora.
      Enquanto pensava no juízo do galo, sorri com certo ar de arrependimento. Em virtude de estar julgando-me e aos meus semelhantes que mesmo sendo homens, ainda não conseguiram o suficiente juízo, para conseguir viver em paz e harmonia com todos os reinos da natureza.
      O galo apenas estaria, naquele momento, fora de sintonia, pois anunciava uma aurora que ainda deveria demorar pelo menos duas horas. Sempre existem galos que se apressam por anunciar horas que ainda demoram.
      Enquanto revia meus pensamentos que surgiam dentro de outros  que se iam sucedendo um após outros, o meu senso crítico,  ao mesmo tempo, dizia que deveria procurar inteirar-me no dia seguinte daquilo  que poderia bem ser a prática de algum delito.
      Embora não muito definido, o som do grito parecia indicar que a  possível vítima era do sexo feminino,em razão do som estridente e agudo.
      Enquanto aguardava e nada acontecia, dirigi-me à cozinha quando, novamente, observei que trinta minutos haviam passado desde a ultima vez que olhara o relógio. Na ânsia de poder aguardar uma nova oportunidade, providenciei a fervura de água para fazer um café. Enquanto isso poderia esticar mais e mais o tempo de desperto à espera de algo que nem mesmo eu sabia, o que seria.
      Tomei o café e, na falta de sono, que fora também ocasionado pela ingestão de um pouco mais de cafeína, fui até a estante e, manuseando os livros que lá se encontravam, peguei um que poderia bem ser considerado literatura saudável.
      Naquele momento queria apenas um motivo para ficar acordado e aquela leitura poderia servir de desculpa, enquanto eu esperava que o tempo corresse e surgisse a aurora, quando eu poderia, com certeza, inteirar-me dos acontecimentos da noite.
      O mundo estava desmoronando; os alicerces da sociedade estavam solapados, os valores haviam sido abolidos por todos os tipos de conceitos que visavam apenas manter a raça humana prisioneira de valores que tinham sido criados para manter os homens vivendo como se estivessem felizes. Na realidade, este era um conceito que já há muito havia sido abolido do relacionamento humano.
      Lembrava-me de tantas vezes ousara insurgir-se e falar contra tudo isto e de muitos ouvira um sonoro “você é louco”.
      Sim, eu, um louco que ousara me insurgir contra todo tipo de mando e comando que era perpetrado contra todos os valores que eu ouvira quando ainda era bem pequeno.Valores que moldaram e norteiam minha personalidade, que eu julgo, serem certos.
      Enquanto os questionamentos vinham, sentia certo desconforto em saber que todos aqueles que haviam compartilhado o mesmo teto e os mesmos ensinamentos se mantinham de certa forma arredios ao que eu sempre tentara falar.
      Eu, como visionário, louco e sonhador não havia conseguido impor o meu pensamento dentro do próprio seio familiar e, com isto, sofrera por nunca conseguir respaldo e poder falar abertamente, dar a minha opinião sobre situações das mais diversas.
      Enquanto tentava, de todas as maneiras, prender minha atenção apenas no livro, via que parecia ser inútil,meus pensamentos se sobrepunham uns aos outros e as letras impressas ficaram esquecidas. Impressas no papel mas sem nenhuma serventia naquele momento.
      Quando ainda bem jovem, ouvi frases feitas que serviam de roteiro e medida norteadora de meu caráter. Havia imprimido em minha personalidade conceitos e valores que ainda julgo real. Aquelas palavras do Rui, de forma alguma, serão por mim esquecidas, mesmo que se passem eternidades.
      Pensando neste ou naquele pensamento, estava atento a outros possíveis gritos que poderiam surgir em algum lugar perto de onde eu me encontrava, como que acuado, sentado e sozinho.
      Nestes momentos de lucidez da alma, vemos o quanto estamos sós num mundo tão populoso, onde as multidões que passam apenas se atropelam uns aos outros sem, no entanto, conseguirem ouvir ou ver nada mais além daquilo que lhes interessa.
      As lembranças de um passado distante vieram a minha mente quando tentava em meu sonho, livrar-me da prisão dizendo ser quem eu sou. Quando me lembro das palavras do Rui Barbosa parece que o ouço falar, sempre o imagino como amigo e companheiro que conviveu comigo em uma outra época quando eu era outro.
      Procurei durante a minha vida conseguir fazer-me entender por pessoas que pudessem estar mais a meu lado, porém sempre restou a aridez de palavras que ficaram sem ressonância diante de figuras alheias e que nunca querem ou não conseguem sonhar.
      Enquanto lembrava dos meus sonhos, imaginava um mundo igual, onde o amor fosse o princípio primeiro de todo o entendimento entre todos que habitam a terra. As utopias, os desejos quase sempre ficam no  mundo da mera ideação sem resultados práticos dentro do mundo materialista que ainda teimam em tentar manter coeso, como se fosse o mundo real e ideal.
      Falam da felicidade humana, daquele que possui riqueza como se isso fosse atributo da felicidade e nestes espaços que nunca se encontram, vemos também ricos e milionários se suicidarem diante da inutilidade da vida que levam.
      Novamente notamos que os males se acumulam como se a estante do mundo ainda não estivesse lotada de tanta idiotice humana e que teima em lutar contra a própria sensatez que é sempre encarada como mero devaneio e sonho de uma alma que não se sujeita.
      O meu pensamento que nunca se acomoda nem muda quando se trata de falar verdades, fica esperando e imaginando que os gritos que ouvira há tão pouco tempo, poderia ser o resultado da incompreensão e da ignorância que matam e maltratam  todos os homens que vivem na Terra.
      As divisões se acentuam diante das mentiras que são faladas todos os dias para manter os impúberes psíquicos presos a medos e superstições que são alimentados apenas visando ao lucro e para manter meia dúzia no topo da pirâmide social e no poder.
      Ouvimos falar de valores irreais e quando tentamos contestar somos barrados diante do sistema que foi criado e é alimentado para manter os que não se sujeitam fora do círculo dos benefícios daqueles que mandam.
      Imaginando o que poderia ter acontecido, para os gritos que ouvira, passei a olhar para o lado de fora, tentando  vislumbrar os primeiros raios do sol que se anunciava, e que fora tão cantado pelos galos.
      Fechei o livro, coloquei-o em cima da estante e sentei-me novamente na poltrona e, fechando os  olhos, tentei  imaginar-me vivendo num mundo onde somente houvesse a paz e que todos os seres vivessem em perfeita harmonia, inclusive com a natureza. Nesta sociedade perfeita e equilibrada todos seriam providos de suas necessidades e cada um vivia em decorrência do seu semelhante. A exploração do homem pelo  homem não passava de recordações que se perdiam num passado distante.
      E assim pensando, de olhos fechados, ouvi uma voz que me dizia “ Calma, o futuro  já se faz presente; pouco resta do velho antes do novo”
      Apressadamente, abri os olhos, tentando vislumbrar a figura de onde poderia ter vindo aquela voz. Nada, porém, parecia indicar o lugar de onde ela poderia ter vindo.
      A Minha parte racional sabia que não poderia ver o autor da frase, mas meu lado sonhador me dá a esperança de um dia podermos ficar de frente com algum ser especial que venha purgar as nossas moras, dar um novo rumo para que possamos seguir em frente ao destino que nos foi reservado.
      As ruas passaram a ter algum movimento de pessoas que se deslocavam para seus trabalhos e em mais alguns minutos eu estaria acordando os filhos para que pudessem se aprontar  para irem à escola onde, naquele dia, teriam provas.
      Os raios de sol que, timidamente, se anunciavam, pareciam que vinham com o intuito de uma vez por todas acabar com os medos que se tem das noites escuras, cúmplices daqueles que  usam  a escuridão para seus desatinos.
      Diante de medos, dúvidas e sofrimentos, somos obrigados a ficar calados, esperando que o tempo se encarregue de resolver todas as dificuldades que possam surgir em virtude das constantes lutas que temos que travar no nosso dia-a-dia.
      Logo após o amanhecer e com o tráfego normal  de pessoas que se deslocavam, aqueci o carro e conclamei os filhos a irmos para a escola ,quando, então, eu poderia saber o que ocorrera durante a noite.
      Enquanto ia rumo à escola, o meu pensamento novamente se ausentava e buscava encontrar sentido sobre a vida e a morte, onde cada um pensa que pode e faz aquilo que mais lhe apetece, sem nunca respeitar os valores e direitos  dos outros.
      Na volta para casa fiquei sabendo que a vizinha  que morava em rua paralela a minha, na quadra de baixo, havia tido uma crise renal e, como é do costume dela, os gritos eram  para extravasar suas dores.
      Aquilo eu podia entender, pois em outras épocas eu tivera crises renais, porém nenhuma me fez gritar da maneira que ouvi durante a noite. O grito  me obrigou a me portar como um vigia, esperando saber o que acontecera. Chegara, inclusive, a imaginar o pior, um possível  crime poderia ter acontecido.
      De qualquer forma, a noite me fez mais uma vez refletir sobre estas feras que transitam e lotam o planeta e que se intitulam homens.




19-05/04




 


Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 11/12/2005
Reeditado em 07/08/2008
Código do texto: T84191
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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