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A morte e o azar caminham juntos

I
      Florianópolis, Avenida Beira-Mar Norte.
      Seu azar começou naquele sábado à noite.
      Quer dizer, tudo parecia que daria certo.
      Hugo estacionou o Vectra vermelho entre um Fiat Uno e um Corsa. Respirou fundo e saiu do carro lentamente.
      Aproximou-se do clube El Divino, que estava lotado.
      Entrou na fila para a bilheteria. Deu uma nota de 50 e esperou o troco. Um rapaz esbarrou nele, mas pediu desculpas em seguida.
      - Tudo bem. - murmurou, sério, embora sentisse vontade de dar um soco naquele babaca.
      Recebeu o troco e entrou na outra fila. Foi revistado e conseguiu entrar. Clube lotado, com homens e mulheres dançando ao som da música eletrônica. Foi ao bar e pediu uma caipirinha de vodka.
      Encontrou o lugar adequado, num dos cantos. Ficou mexendo as pernas, o mais próximo que conseguiu fazer de uma dança.
      Tinha trinta anos, alto, branco, magro e estava bem vestido. Logo despertou o interesse de várias garotas.
      Uma delas, que o encarava bastante, aproximou-se.
      Devia ter de dezoito a vinte e dois anos, morena, magra, bonita, lábios carnudos, tatuagem no ombro esquerdo e um corpo perfeito. Usava blusinha curta e calça jeans, deixando à mostra os contornos dos seios, o piercing no umbigo e a barriga delineada. Notou o olhar e o sorriso dela. Ofereceu uma bebida.
      - Aceito. - ela disse sorrindo, num tom alto, por causa da música, já acercando-se dele.
      Foi ao bar e comprou outra caipirinha. Discretamente, sem deixar o garçom ver, retirou um pacote minúsculo do bolso da calça, rasgou a extremidade e depositou o conteúdo no copo.  Logo o pó (bendito pó!) se misturou com a caipirinha.
      Aproximou-se da garota e ofereceu o copo.
      Conversaram, dentro do que o volume da música permitia.
      Chamava-se Renata, vinte anos, universitária, nasceu em Concórdia (oeste do Estado) e dividia o aluguel com mais duas amigas, no bairro Trindade. Veio para Florianópolis para concluir a faculdade de educação física. Malhava em academia. Estava no El Divino sozinha, algo raro. A vítima perfeita, Hugo refletiu.
      Disse chamar-se Paulo, 28 anos, solteiro, nasceu em Tubarão (sul do Estado) empresário do ramo de edificações e que morava no bairro Coqueiros. Sozinho. Mentiras verossímeis para um ataque certeiro, pensou.
      Contou uma piada. Renata riu. Afagou aqueles cabelos longos, negros e lisos. Tocou sua mão. Ela tinha as mãos macias, tenras, sedosas.
      Teve que dançar com ela. Renata ingeria a caipirinha e rebolava. Corpos colados, esfregando-se um no outro. Pura sensualidade. A música alta, o jogo de luz, o ambiente propício. Renata embriagando-se aos poucos. O pó fazendo efeito, lentamente.
      Abraçaram-se. Beijou-a na boca, línguas se tocando, pele na pele, excitação em sua carga máxima. Mordiscou-lhe a orelha. Passou a mão em sua barriga, umbigo, contorno dos seios. Ela jogou os braços por sobre seus ombros.
      Secaram os copos. Ele comprou mais duas caipirinhas.
      O jogo da sedução se prolongou por toda madrugada. Dançaram bastante, beijaram-se muito. Por volta das quatro horas, convidou-a, entre beijos, para ir ao seu apartamento.
      - Sim. - ela murmurou, imersa em êxtase... embriagada... voz embargada.
      Saíram, abraçados.
      Renata mal se agüentava em pé. Não parecia ter noção de onde estava. Hugo depositou-a no banco dianteiro do Vectra. Renata jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. Salivava, algo parecido com um sorriso nos lábios carnudos.
      Hugo movimentou o carro, deixando o El Divino para trás.
      Havia noites em que não dava certo, pensou. Nessa noite, porém, tudo parecia perfeito.
      Fez o contorno, na Avenida, e seguiu rumo à ponte. Viu o Scuna Bar, do lado direito, localizado debaixo da ponte Hercílio Luz, também em final de festa. Dirigia com cuidado, excitado com o que iria acontecer.
      Efetuou a curva de 360 graus e entrou na ponte Colombo Sales. Ponte em linha reta e com poucos carros na pista.
      Logo desembocou na BR 282, conhecida como Via Expressa. Mais na frente, alguns quilômetros depois, fez o contorno, indo na direção de Palhoça. Madrugada quente, o verão de janeiro em sua carga máxima.
      Renata parecia dormir, o corpo sensual amolecido no banco.
      Dobrou à direita, ainda na BR 282, seguindo na direção de Santo Amaro da Imperatriz, de cinco mil habitantes, cidade pacata, de colonização alemã, distante 30 km de Floripa.
      Passou pelo bairro Colônia Santana (de São José) e seguiu em frente. Pista de pedra, estreita, com parca iluminação. Tomou um cuidado redobrado. Meia hora depois, avistou o imenso portal da cidade: "Bem-vindo a Santo Amaro da Imperatriz, Primeira Colônia Alemã". Mais alguns quilômetros e dobrou à direita, entrando no bairro Passo Fundo. Percorreu a rua principal e dobrou à esquerda. Rua absolutamente deserta.
      Sua casa estava ali.
      Casa de um pavimento, pintada de verde-claro, com três quartos e cercada por um muro baixo. Deixou o carro na calçada mesmo. Teve que carregar Renata nos braços, pois a mesma estava completamente adormecida. Passou pelo portãozinho do muro.
      Teve que deixá-la no chão, para poder abrir a porta. Enrolou-se com a chave, pois estava ansioso. Não queria que ninguém visse a cena.  Era imprescindível que ninguém notasse o estado em que a garota se encontrava. Era o momento mais perigoso.
      Conseguiu, enfim, abrir a porta. Respirou fundo, aliviado. Suava um pouco. Ligou a luz da sala. Carregou Renata diretamente para o primeiro quarto, preparado especialmente para tais eventos. Trancou a porta da sala.   Em seguida, não perdeu tempo e tirou toda a roupa dela. Em minutos a viu nua e linda. Deliciou-se com a firmeza daqueles seios, as curvas, as coxas, a perfeição de sua anatomia.
      - Meu Deus! - murmurou, excitado - Que coisa linda!
      Controlou-se e seguiu para o banheiro, onde despiu-se e tomou banho. Um banho refrescante, para afastar os últimos resquícios de sua embriaguez. Ao entrar no segundo quarto, que era seu verdadeiro ponto de descanso, parou.
      Teria ouvido um barulho estranho, vindo do primeiro quarto? Renata estaria acordando? Um gemido? Um urro? O que estaria acontecendo? De repente, o barulho cessou e o silêncio voltou a reinar, no aposento.
      Enxugou-se, depois, e retirou, dos bolsos da calça, mais três envelopes. Geralmente um só envelope resolvia o problema, mas sempre levava mais, para emergências. Deixou os envelopes em cima da escrivaninha. Foi à cozinha e ingeriu um copo com água gelada. Desligou a luz da sala.
      Ainda nu, dirigiu-se para o quarto. Entrou.
      Ligou a luz.
      Ao ver aquele corpo nu, ficou excitado. Não conseguiu parar de olhar aquela barriga, aqueles pêlos pubianos aparados. Maravilhoso!!! Divinal!!! Deitou-se ao lado dela. Admirou aquele corpo atlético e sensual. Beijou a barriga (a barriga mais excitante do mundo!), o piercing e os mamilos dos belos seios. Chupando... sugando... mordiscando de leve. Foi subindo, lentamente. Tinha todo o tempo do mundo para isso. Beijou aquele pescoço cheiroso. Apetitoso. Estava excitado, pronto para esvair seus mais libidinosos desejos!
      Ia beijar os lábios quando... levou um susto! Algo estava errado!
      Os olhos!
      Por que estavam abertos daquele jeito? Vidrados! Arregalados! A saliva nos lábios... estranha! O corpo... imóvel demais... frio... Não havia percebido antes, mas os mamilos não haviam reagido às suas carícias. Por quê?
      - Meu Deus! - disse, assustado. - Ela... ela...
      Pegou o pulso direito. Nenhuma pulsação. Deu um tapa naquele rosto bonito. Dois tapas. Três. Quatro. Balançou violentamente o corpo. Nada, nada.
      Recuou, pálido, assustado, em princípio de pânico.
Não havia dúvidas do que acontecera. Daí o motivo do barulho estranho. Trêmulo, levantou-se e encostou-se na parede. Respirou fundo e tentou controlar as emoções:
      - Pense... pense...
      Só havia depositado o conteúdo de um envelope no copo. O que poderia ter acontecido? Teria Renata sofrido um ataque cardíaco? Ela sofreria do coração? Mas, como? Renata tinha somente vinte anos, malhava em academia e parecia saudável. A probabilidade de ter um coração fraco era mínima. No entanto...
      - Merda!
      Sentou-se na cama. Não teve coragem de olhar o corpo.
      Era a oitava garota que trazia para sua casa. Gatas que conhecia na New Time, Cantuária, Ludh, Mecenas, El Divino, La Pedrera e John Bull. Transava com elas, passava o domingo com elas. Usufruindo os prazeres dos corpos. No quarto. Sempre no quarto. Filmava. Tirava fotos. Fazia o que queria. As garotas não acordavam. O pó era forte o suficiente para 48 horas de sono. Pó que comprara no Uruguai. O pó do sexo.
      No domingo à noite, saciado, colocava as garotas adormecidas no Vectra e as largava numa praia deserta. Nunca havia tido problema. As garotas não lembravam de nada. E depois ficava vendo os filmes, as fotos, masturbando-se e deliciando-se com tudo. Ficava assim por dois, três meses. Depois, não suportando mais, tornava a sair para caçar, para atacar. Às vezes não dava certo; em oito oportunidades, deu.
      Agora, o primeiro grande problema.
      Tinha um cadáver em seu quarto e precisava livrar-se dele.
      O que fazer? O que fazer?


II
      Santo Amaro da Imperatriz.
      Domingo à noite.
      Uma hora da madrugada.
      Primeiro verificou que a rua estava deserta. Sempre estava, àquela hora. Era, sem dúvida, uma rua típica de uma cidade pequena. Destrancou a porta do Vectra, deixando-a no ponto certo. Deixou a porta da sala aberta. Deixou o portãozinho aberto.
      Pegou o cadáver (já devidamente vestido) e o conduziu para o carro, apoiado em seu ombro, dando a impressão de que levava uma namorada embriagada. Estava ligeiramente endurecido pelo rigor da morte. Depositou-o no banco dianteiro.
      Olhou ao redor. Ninguém na área. Todas as casas fechadas. Como era previsto.
      Trancou a porta da sala; trancou o portão. Preparou-se para a viagem.
      Pisou o acelerador e saiu do bairro, pegando a rodovia. Deixou Santo Amaro da Imperatriz para trás.
      Dirigia e refletia.
      Foi um dos piores domingos que já passara na vida. Pela manhã não conseguiu dormir direito e não almoçou.
      Chegou a tomar três cervejas em lata, preocupado com o que iria fazer. Fechou a porta do primeiro quarto e não teve coragem de olhar o cadáver. Ficou vendo TV, na sala, o medo querendo dominá-lo.
      Por volta de quatro da tarde, o cansaço, enfim, o venceu, e ele dormiu no sofá, somente de bermuda. Apagou durante seis horas, suado e tendo pesadelos. Num deles, um cadáver feminino apertava seu pescoço. Mãos que queriam matá-lo! Renata, viva, querendo matá-lo! Olhos pétreos, boca aberta, rosto pálido, aspecto de um zumbi nauseabundo! Apertando seu pescoço... estrangulando-o!!! Não podia respirar! Meu Deus!
      Acordou assustado e trêmulo.
      Tomou mais três cervejas e esperou o tempo passar.
      Meia-noite, tomou banho, colocou bermuda alaranjada e camisa de algodão verde, mais boné e óculos escuros. Para dificultar um provável reconhecimento. Não bebeu mais nada, para não perder os reflexos.
      Agora, estava na Via Expressa, seguindo rumo a uma das praias da Ilha da Magia.
      Passou pela ponte Ivo Campos.
      Em Florianópolis, tomou a direção sul. Teve que percorrer ruas estreitas, onde só cabia um carro de cada vez. Era a maior aberração de Florianópolis, algo que dificultava o trâmite dos veículos, principalmente no verão. Um sufoco para os turistas e moradores. Erro dos políticos do passado, que não tiveram a mínima visão do futuro. Otários!
      Dirigia devagar, para o cadáver não tombar.
      Não o encarava, para não ficar mais tenso do que já estava.
      Passou pelas praias do Campeche, Morro das Pedras (a panorâmica mais linda e espetacular da ilha, na sua opinião), Armação e Pântano do Sul.
      Naquele ponto, começava uma estrada ruim, de pedras, um sobe-e-desce cruel. Morro de um lado, o mar do outro. E, finalmente, viu-se diante do seu destino.
      Praia da Solidão.
      Estava a 30 Km do centro de Floripa, no extremo sul da ilha. Uma belíssima praia, com imensa faixa de areia, mas pouco freqüentada, mesmo no verão.
      Parou o carro num dos estacionamentos, lotado de areia. O mar ficava mais embaixo, depois do mato, e teria que percorrer uma pequena trilha. Já havia deixado uma garota ali, antes, e sabia que dificilmente encontraria alguém nas imediações.
      Na sua retaguarda, viu o morro chamado Costa de Dentro e o matagal. As casas ficavam distante uma da outra, algumas lá em cima, no referido morro.
      Na sua frente, mais mato, areia e, embaixo, o mar.
      E só.
      Tirou o boné e os óculos, deixando-os dentro do porta-luvas. Saiu do carro e retirou o cadáver de Renata.
      Começou a arrastá-lo (segurando-o pelas axilas) para a trilha. Estava nervoso, trêmulo, quase em pânico, tentando terminar a tarefa macabra o mais rápido possível. Depois dessa teria que dar um tempo nas suas atividades, até as coisas esfriarem. Ficaria apenas vendo os filmes.
      Foi arrastando o corpo pela trilha, que tinha uns duzentos metros. Parecia não ter fim. Chegou, finalmente, à praia propriamente dita. Não via o mar, mas parte dele, devido à escuridão. Pensava em jogá-la no mar, apenas para dar um aspecto cinematográfico e irônico ao negócio. O vento tornou-se mais forte e um pouco frio, o que deixava o mar agitado.
      Parou, descansou um pouco, respirou fundo, inspirou, enxugou o suor da testa e já ia prosseguir quando...
      - O que está fazendo, amigo?
      Hugo estremeceu de susto e soltou o corpo!


III
      Praia da Solidão.
      Madrugada de segunda-feira.
      Trêmulo, viu um velho diante de si. Velho barbado, gordo e alto. Mais alto que ele. Surgiu do nada! O que faria ali, numa hora daquelas? Desgraçado!
      - B-Boa n-noite. - conseguiu murmurar, esboçando um sorriso amarelo.
      O velho permaneceu em silêncio. Parado. Olhando ora pra ele, ora para o corpo no chão. Sério. Desconfiado. Beligerante. Estava suado, sujo e exalava um cheiro forte e esquisito. Seria querosene? Ou gasolina?
      - Mi-Minha namorada está bêbada. - sorriu - Bebeu todas. Estou tentando reanimá-la.
      Apontou para o mar.
      - Quer uma ajuda, filho? - o velho continuava sério.
      - N-Não, obrigado.
      - Você tem certeza de que ela está bem? Parece doente...
      - Oh, ela apenas está meio adormecida...
      - Posso dar uma olhada nela? - o velho não tirava os olhos do corpo.
      - Não p-precisa... Um banho de mar resolverá o problema.
      - Por que está nervoso, filho?
      - Como a-assim, n-nervoso?
      - Você parece que não bebeu nada. E por que estão aqui numa hora dessas?
      Tinha que pensar em algo. O velho estava desconfiado. Tentou esconder o tremor das mãos. Ele não poderia tocar no corpo. Senão, tudo estaria perdido!
      Pense, pense...
      Olhou discretamente ao redor. Viu um pedaço de madeira na areia.
      - T-Tudo bem. Se o senhor quiser ajudar...
      O velho se mexeu e, lentamente, agachou-se sobre o corpo. A primeira coisa que fez foi tocar no pescoço.
      Hugo não hesitou. O brilho do ódio surgiu em seus olhos. Num esgar de maldade, chutou fortemente as costelas do velho. Depois deu mais dois chutes fortes. Pêgo de surpresa, o velho caiu. Hugo pegou o pedaço de madeira e deu com ele na cabeça do velho. Três pancadas fortes e... pronto. Tinha mais um cadáver nas mãos. Havia sangue na madeira.
      Olhou ao redor. Não havia mais ninguém.
      Estava trêmulo e apavorado.
      O surgimento do velho não estava em seus planos. Merda!, pensou. Não queria matá-lo, mas chegou à conclusão de que não tinha alternativa.
      Suspirou, deixou os dois cadáveres ali mesmo e subiu a trilha, levando o pedaço de madeira. Poderia tê-los enterrado ou escondido no mato; porém, estava nervoso demais para raciocinar. Alcançou o carro. Tenso, jogou a madeira ensanguentada no banco de trás.
      Acionou a ignição e movimentou o Vectra pela estrada. Provavelmente encontrariam os corpos na manhã desta segunda-feira. O que deduziriam? Que o velho tentou atacar a garota? E que alguém matou os dois? Em dias descobririam que a garota havia ido ao El Divino no sábado. Haveria alguém para dizer à polícia que ela foi vista saindo com um homem alto e branco? Poderiam fazer um desenho do seu rosto? Uma descrição mais detalhada? Impressões digitais? Exame de DNA de algum fio de cabelo seu, deixado no corpo? Sua prisão seria uma questão de tempo?
      Afastou tais pensamentos. Sua situação não poderia piorar. Duas mortes... Duas mortes não previstas. Merda!
      De repente, ouviu a sirene da polícia.
      Contínua.
      Reverberante.
      Inquietante.
      Estremeceu de medo! Mas... como?!? Por quê?
      - A polícia aqui perto. Não é possível! - murmurou, temeroso, preocupado.
      Dirigiu na estrada estreita, numa subida íngreme, deixando a Praia da Solidão para trás. E logrou reconhecer o som da sirene. Não era a polícia. Era o Corpo de Bombeiros. Suspirou, aliviado. Apenas os bombeiros.
      Alcançou o topo da ladeira. Quando iniciava a descida, viu o fogo. O fogo! Numa das casas localizadas na base do morro. Três carros do Corpo de Bombeiros. Muita gente na rua. E passava quinze minutos das duas horas da madrugada!
Conduziu o carro pela estrada, mas uma das viaturas dos bombeiros obstruía a passagem.
      Teve que parar o Vectra. Dali podia ver a enorme mansão em chamas, várias pessoas assistindo, muita fumaça dominando o local, labaredas diabólicas rasgando tudo e os soldados lutando contra o fogo.
      Um dos soldados aproximou-se dele.
      - A rua está interditada, amigo.
      Sorriu, tentando controlar o nervosismo. Suas mãos tremiam.
      Pare de tremer, pare de tremer!, refletiu, apavorado.
      - T-Tudo bem...
      O soldado olhou para ele. Fixamente. Como que pensando. Olhou para dentro do carro. Viu o pedaço de madeira. Olhou de novo para ele. Perscrutando. Deduzindo. Viu o suor em sua testa. O nervosismo.
      - O que faz aqui uma hora dessas, amigo?
      - V-Vim visitar uma amiga... - disse a primeira coisa que lhe veio à mente.
      O soldado ficou em silêncio. Encaram-se fixamente por segundos. Desviou o olhar. Sentiu vontade de matar aquele soldado imbecil. Procurou controlar-se.
      - Quer sair do carro, por favor? - o soldado disse.
      Estremeceu. Ele deve ter percebido alguma coisa.
      Talvez houvesse notado o sangue na madeira. Merda! Devia tê-la colocado no porta-malas. O que fazer? O que fazer?
      - Por que, seu policial? F-Fiz algo errado?
      - Saia, por favor.
      Um outro soldado aproximou-se.
      Soldados do Corpo de Bombeiros que estavam ali apenas para apagar um incêndio. Não eram policiais, não teriam motivo para prendê-lo. Ou teriam?
      Meu Deus! Que azar, que azar, pensou.
      - Alguma coisa aí, Júlio? - o outro soldado disse, acercando-se do carro.
      - Estou só pedindo para esse cidadão sair do carro.
      Hugo inspirou e tentou uma saída:
      - Escute, seu policial, nada fiz de errado. Estou vindo da casa de minha amiga e estou cansado. Meus documentos estão em dia. Por que não me libera?
      Então, eis que o soldado explode:
      - Escute você, rapaz. Alguém tocou fogo nessa casa de propósito. Por incrível que possa parecer, uma testemunha viu uma pessoa tocar fogo e sair correndo na direção de onde você veio. Você está vindo de lá, está suado e tem um pedaço de pau muito estranho no seu carro. Também estou cansado, tendo que apagar um maldito fogo no meio da madrugada! Mas, acima de tudo, quero pegar o filho da puta que fez isso. Posso estar enganado, mas, por vias das dúvidas, quero revistar a porra do seu carro. Entendeu, meu? Fui claro?
      Evitou encarar o soldado.
      Não é possível! O velho! O velho desgraçado tocou fogo naquela casa!
      Meu Deus! Estou perdido. Tudo por causa de um maldito incendiário!, refletiu, em pânico.
      O que poderia fazer para salvar-se?
      De repente, pisou furiosamente no acelerador.


IV
      Praia da Solidão.
      Madrugada de segunda-feira.
      Hugo acelerou e passou - como um raio! - pelos soldados.
      Seguiu na direção de algumas pessoas, que estavam entre o mato e a viatura do Corpo de Bombeiros. Alguns tentaram sair da frente, mas ele atropelou dois. Jogou-os a metros de distância. Quebrou um dos faróis; frente do carro amassada. Dane-se! Aumentou a velocidade.
      Deixou a viatura e as pessoas para trás.
      A rua era estreita e ele precisava dirigir com cuidado. Com cuidado, porém com rapidez. Logo desembocaria na avenida bem asfaltada.
      Morava em Santo Amaro da Imperatriz. Cidade pequena, escondida dos grandes centros. Se conseguisse sair da ilha a salvo, ninguém mais o pegaria. Tinha que sair da ilha!
      Subiu ladeira, desceu ladeira. Estrada ruim, constituída de pedras, algumas soltas, com buracos perigosos em alguns pontos. Enfim, alcançou uma rua plana, o mar do lado direito, lá embaixo.
      Olhou o retrovisor interno.
      Um carro!
      Um carro vinha lá atrás, e mal dava para ver seus faróis. Aumentou a velocidade.
      Mais alguns metros e alcançaria a estrada asfaltada.
      Vociferava, mentalmente. Maldita Renata e seu coração fraco! Maldito velho incendiário!
      De repente, ouviu um ruído. Um estouro.
      O pneu! O maldito pneu do Vectra explodiu. Alta velocidade naquela estrada ruim, não poderia dar outra.
      - Merda! Outro azar! Outro azar!
      Perdeu o controle do carro! Volante sem comando, carro correndo sem rumo. Nãããooo!!! Quando pensou em pisar no freio, era tarde demais.
      Caiu na pequena ribanceira.
      O carro capotou duas vezes. Bateu com a cabeça no painel e... desmaiou.
      Desmaiou diante do mar, numa noite de verão.


V
      Acordou no hospital.
      Atadura no braço esquerdo, faixa de pano na cabeça. E... dores. Sentia dores nas costelas; na cabeça.... e na alma. Dores que o perturbavam. Merda!
      Um policial e uma enfermeira estavam no quarto.
      A enfermeira aplicou-lhe uma injeção, em silêncio. Notou que ela evitava encará-lo nos olhos. Devia estar sabendo de tudo, pensou.
      Quando a enfermeira saiu, o policial aproximou-se dele e disse:
      - Oi, Hugo. Achamos teu endereço, em Santo Amaro. Bonita casa. Bonita mesmo.
      Fechou os olhos, pois não queria ver o policial. Se possível, nem ouvi-lo.
      - Encontramos os corpos. O pó. As fotos. E assistimos todos os filmes. Filmes... eu diria... diabolicamente reveladores. Você nem tem idéia do quanto. Isso sem contar os atropelamentos. E sabe o que isso significa? Que você está encrencado, amigo. Muito encrencado. Para ser mais claro, você está fodido, entendeu? Fodido e mal pago. Teus dias de crime terminaram, com certeza.
      O policial passou a mão no pescoço, sério, no típico sinal de estrangulamento, e voltou a ocupar a cadeira.
      Hugo nada comentou.
      Permaneceu de olhos fechados, os pensamentos dominando sua mente.
      Sabia que tudo estava perdido. Não poderia sequer tentar fugir, dolorido do jeito que estava. E para onde iria? Inconcebível!
      E o que diria sua mãe? Seu pai? Seus irmãos? Colegas de trabalho? Estariam chocados? Iriam abandoná-lo, com certeza.
      E tudo por causa de um velho incendiário.
      Pensou nas festas. New Time. Ludh. El Divino. O melhor clube de Floripa! Música eletrônica. Caipirinha. Mulheres lindas e deliciosas. O pó que as fazia dormir. Noites de prazer inolvidáveis. Tudo perdido...
      Pensou no cadáver da Renata. Seu coração fraco. Uma garota de vinte anos com um coração de velha de oitenta. Meu Deus! A probabilidade seria de uma em um milhão!
      Pensou no velho incendiário. Devia ter desconfiado de que aquele velho gordo escondia alguma coisa.
      Pensou nas labaredas que consumiram aquela mansão. Fogo que surgiu na hora errada!
      Pensou naquele soldado desconfiado. Soldado miserável! Devia tê-lo atropelado.
      Subitamente, uma frase filosófica lhe veio à mente: A morte! A morte e o azar caminham juntos!
      Foi o que tivera: azar. O azar por causa da morte da Renata. Onde tudo deu errado.
      Pensou nos horripilantes e sinistros anos que teria pela frente.
      Estremeceu!
      Discretamente... mas muito discretamente... uma solitária lágrima desceu de seu olho direito.

                     FIM

Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 29/12/2005
Reeditado em 31/12/2005
Código do texto: T91974
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 09:11)
Joderyma Torres