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RIO DE JANEIRO SITIADO

 

            Meu primeiro nome é BEL. Hoje irei relatar-lhes o que me acontece nestas últimas horas do ano de dois mil.

            Saio às 6 horas da manhã de meu duplex, cujo número é 6, no 6° bairro nobre desta cidade maravilhosa, tanto no viver quanto no morrer, de qualquer forma é ainda a mais sedutora.

            Na saída do prédio, ainda na portaria, permito a meus olhos avistar uma intrigante discussão entre três mendigos, consigo então, dando ensejo a me aproximar, entender o porquê de tamanha agressão. Um deles, aparentemente o chefe, estava exigindo o excedente das esmolas para comprar mais alívio noturno, uma espécie de ²esquece tudo.  Percebendo  a dinâmica do acontecido e vendo o olhar curioso deles para mim, achei a hora de interceder. Chamo o opressor num canto dizendo que o ajudaria dando-lhe um cala boca de uma nota de cinqüenta reais. O indigente, com olhar esbugalhado, agradece-me incessantemente, alimentando sua ventura e quase me tornando seu dono, porém, a única coisa que desejava era comprar-lhe o futuro. O moribundo, não entendendo por completo a ação, é subordinado por ela e vai de encontro a seu destino.

            Mais tarde correndo pela orla ensolarada, espreito aquilo que seria um assalto, minha participação ocular não tem fim, e esta cena vai de encontro a uma lixeira, aproximo-me da vítima e conto-lhe que vi o acontecido, até mesmo o larápio fugindo e se livrando de um objeto mais logo adiante, incito sua ida ao lugar onde ocorreu o depósito, após ele me contar toda consternada estória de perda de cartões de crédito, cheque, dinheiro e foto de família. Chegando ao local indeciso, olha para dentro da lixeira e vem a transformação, outrora vítima, agora um justiceiro assoberbado. Vejo-o revirando o lixo e retirando o objeto com sua mão direita, a mão da justiça, então levanta a camisa, guarda-o e corre atrás de seu inimigo a pouco íntimo.

 

            Mas um adepto do BEL viver. Murmurei.

 

            Poderia lhes contar mais coisas de minha vida terrena das quais participei, como a depressão levando a suicídio de um colega de faculdade, a corrosão do álcool nas várias “saideiras” de minhas namoradas, assaltos por filhos da classe média e a eterna disputa entre o lascivo e a quinta-essência, porém, a cada dia que passa, tenho mais compromissos inadiáveis a cumprir, pois estão querendo derrubar meu posto no próximo milênio, falam que me afogarei no próprio aquário montado por mim, apesar da terra estar mais árida e poluída, falam que me escondo nos detalhes contudo todos sabem meu sobrenome, só não querem admiti-lo; dizem que minha Era é efêmera e não estou mais no meu zênite.

            Não quero me colocar na frente da batalha, pois tenho muitos homens para isso, só quero, com este relato, acabar com a incerteza, na mente dos incrédulos, de que eu realmente pertenço a esse mundo, e finalizar deixando no ar o seguinte recado:

 

“A melhor forma de repudiar minha existência é me achar onde acham que eu não exista.”

Milton Roza Junior
Enviado por Milton Roza Junior em 03/01/2006
Reeditado em 03/06/2011
Código do texto: T93798

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Sobre o autor
Milton Roza Junior
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 49 anos
97 textos (82792 leituras)
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Milton Roza Junior