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Poder de vida e de morte

I
      Segunda-feira à noite.
      - Até amanhã, Pat!
      - Até amanhã, Ana! - desceu do ônibus, após despedir-se da amiga.
      Percorreu cem metros da movimentada rua principal do bairro.
      Dobrou à direita e entrou numa rua larga, bem asfaltada e quase deserta.
      Bolsa a tiracolo no ombro e pasta preta nos braços. Usava calça jeans e blusa verde, com detalhes floridos nas mangas, mais o sutiã. Sapatos de salto baixo.
      Tinha vinte e dois anos, 1,67m de altura, morena da pele clara. Cabelos médios, lisos e pretos. Rosto bonito. Corpo magro e repleto de curvas. Belas pernas.
      Aproximou-se de uma casa de dois pavimentos. Frente cercada por muro. Jardim entre a porta da sala e o portão pequeno. Garagem. Varanda no andar de cima. Pintada de amarelo-gema. Bela casa.
      Quando tocou no portão pequeno, viu o homem.
      A cem metros. De pé, encostado num carro. Braços cruzados. Alto. Moreno. Corpo atlético. Calça preta. Jaqueta marrom. Com boné e óculos escuros.
      Imóvel, olhando para ela. Ou na direção dela.
      Fixamente.
      Como se fosse... o quê?
      Não sabia.
      O encarou por segundos.
      Ele acenou com as mãos, sem sorrir.
      Não retribuiu o aceno.
      Sentiu-se mal. Um gosto amargo na boca.
      Respirou fundo e evitou olhar o homem.
      Controlou-se.
      Era a primeira vez que o via. E não gostou do que viu.
      Passou pelo portão pequeno e abriu o portão de proteção da porta da sala, a porta da sala propriamente dita e entrou na casa.
      - Oi, Patrícia! - uma mulher de meia-idade, atraente, sentada num sofá, diante de uma TV de vinte e nove polegadas, a cumprimentou.
      - Oi, mãe!
      Beijaram-se nas faces.
      - Tudo bem, filha?
      - Sim, mãe. Mais um dia sem problemas.
      Sua mãe sempre a esperava. Carinhosa. Protetora. Gentil. Amava sua mãe. Muito.
      Conversou com ela rapidamente e...
      Seguiu para o andar de cima. Tomou banho. Ingeriu um copo de leite gelado. Escovou os dentes.
      Sua mãe foi dormir. Só dormia depois que ela chegava. Seu pai apagara há horas.
      No quarto, ligou o computador e viu os e-mails recebidos. Dois da Júlia. Um da Ana. Um do Ricardo. Seis não solicitados. Respondeu alguns. Deletou todos.
      Deitou-se.
      Leu alguns capítulos de "Este Mundo Perfeito", do Ira Levin.
      O homem lhe veio à mente. Aquele aspecto sinistro. O aceno. Nunca o tinha visto. Nunca! O que estaria fazendo ali? E por que acenou?
      Rezou um pouco, fez o sinal da cruz, desligou a luz e... dormiu.

II
      Terça-feira.
      Tomou café com os pais e os dois irmãos.
      "Seu" Roberto; dona Kátia; Renata, de vinte anos; Vítor, de dezoito.
      Conversaram banalidades típicas de uma família unida e feliz.
      O pai prometeu lhe dar carona.
      Arrumou-se.
      Bolsa a tiracolo e pasta preta.
      Vítor deu carona para Renata, no seu Vectra azul.
      Entrou no Fiat Uno, vermelho, do pai.
      Viagem de quinze minutos, até o centro.
      Desceu do Fiat na frente daquele prédio de seis andares:
                       "Spuk Contabilidade S.A."
      - Tchau, pai.
      - Tchau, filha!
      Entrou na sua sala e, após cumprimentar todo mundo, iniciou os trabalhos no computador da firma. Passou o dia trabalhando. Ricardo perguntou se havia recebido seu e-mail. Assentiu. Leandro a convidou para um cinema. Recusou, pela milésima vez. Meio-dia, almoçou no restaurante da esquina. Junto com Márcia e Ricardo. Bife, claro. Colocou as fofocas em dia, pois o chefe, Sr Gutemberg, não permitia conversas durante o expediente. À tarde, mais trabalho. Sentiu calor. Era início de novembro, mas a temperatura estava ligeiramente alta. Quarto andar. Vista panorâmica do centro da cidade. Mais trabalho. Números. Contas. Ativos.
      Saiu do prédio às 18:00h.
      Pegou o ônibus lotado, como sempre.
      Viajou em pé.
      Chegou no campus universitário uma hora depois.
      Extensa área, incontáveis prédios. Cidade educacional. Universo dos universitários.
      Encontrou Ana, sua melhor amiga.
      Garota alta, magra e com óculos. Morena de cabelos encaracolados. Bem-humorada e atraente.
      - Tudo bom, amiga?
      - Sim.
      Conversaram um pouco, entre risos. Ana estava interessada num rapaz da sala 301. Talvez fossem ao cinema, sábado. A feira de ciências - tão esperada! - foi adiada. A professora Marlene, conhecida como a Rainha da Chatice, seria substituída. Graças a Deus, Ana comentou, sorrindo. Iriam reformar o laboratório de química. Papos. Abobrinhas. Confidências. As duas entraram na sala espaçosa.
      Concentrou-se nos estudos. Cálculos. Professores chatos. Teorias. Anota isso. Pesquise aquilo. Quase cochilou.
      No intervalo, comeu misto quente com suco de graviola. Ana a acompanhou.
      Mais aulas.
      Saiu da sala às 22:15h. Ela, Ana e mais inúmeros alunos seguiram para a parada do campus. Outros iam embora de carro. Entraram na fila.
      Pegaram o ônibus. O mesmo ônibus. Velho amigo de jornada, como dizia Ana.
      Conseguiram viajar sentadas, lado a lado. Deram sorte, hoje.
      Mais um pouco e estava de volta a seu bairro. Despediu-se de Ana e desceu do ônibus, na tradicional rua movimentada.
E mais uma vez... viu o homem.
      No mesmo lugar. Com a mesma roupa. Mais o boné e os óculos escuros.
      Novo aceno. Olhos ocultos. Dessa vez ele riu. Um riso sinistro, como se dissesse "espere e verás". Estremeceu. Arrepiou-se toda.
      Não retribuiu, claro.
      Mas ficou, além de temerosa, curiosa.
      Quem seria esse homem? O que pretendia?


III
      Quarta-feira.
      Novamente o homem de óculos escuros.
      Mesmo lugar. Mesmo carro. Jaqueta. Óculos. O aceno. Sem sorrir. Sério e tétrico.
      Ele acenava, mas não fazia mais nada. Não se mexia. Não se deslocava. O que pretendia? Que ela fosse até ele, para conversar? Idiota!, pensou.
      Sentiu um misto de medo e raiva.
      Optou por não comentar nada com seus familiares.
      Por enquanto.


IV
      Quinta-feira.
      Foi de ônibus para o trabalho.
      Antes de entrar no prédio da firma...
      Levou um susto!
      Na portaria do prédio, perto da recepcionista! Olhando-a e sorrindo. Meu Deus!
      Passou por ele sem encará-lo.
      Ele a viu. Acenou para ela, sem deixar de sorrir.
      Lá estava a jaqueta marrom. O boné. Os óculos.
      Era alto. Quase dois metros. E forte. E sinistro.
      Entrou no elevador, juntamente com mais quatro pessoas.
      Suas pernas tremiam. E se ele subisse junto?
      Não subiu.
      Tentou concentrar-se no trabalho, mas...
      Ele sabia onde morava! Sabia onde trabalhava! O que mais sabia? O que pretendia? Estaria a seguindo? A mando de quem? Seria um maníaco? Seqüestrador? Por que a escolhera? Onde a vira pela primeira vez?
      - Tudo bem com você, Patrícia?
      Surpreendeu-se. Não esperava ser abordada pelo chefe.
      - Sim, "seu" Gutemberg. - tentou dar um tom normal à voz.
      - Parece... distraída... aérea.
      - Não. Impressão sua. - sorriu - Estava apenas...
      - Ok. Não precisa explicar. Vou ter que sair. Pode digitar esse relatório?
      - S-Sim...
      Pegou os papéis, sem olhar "seu" Gutemberg nos olhos.
Acalme-se!, refletiu. Vão começar a perceber que está com medo ou então que problemas pessoais estão interferindo nas suas atividades profissionais. Controlou-se e voltou a trabalhar.
      No início da noite, saiu do trabalho e pegou o ônibus.
Viajou em pé, ônibus lotado. Ficou na parte da frente e algo instintivo a fez olhar para trás. Não soube explicar o motivo. E o que viu?
      O homem!
      Novamente o indivíduo, perto do trocador, olhando para ela.
      Como pôde?!?
      Alto, mal-encarado, com a jaqueta, o boné e... aqueles malditos óculos escuros.
      Ele me segue. Meu Deus!, pensou. Será um seqüestrador?
      Desceu do ônibus e aumentou as passadas. Andando. Nervosa. Apavorada. Não teve coragem de olhar para trás. Viu Ana e aproximou-se dela.
      - O que houve, Pat?
      - Ana, olhe discretamente... para a parada... observe... tem um homem lá, alto, usando jaqueta, boné e óculos escuros?
      Ana deu uma olhada. A parada estava localizada a duzentos metros. Na frente. Na retaguarda, o primeiro prédio do campus, a trinta metros. Estacionamento do lado esquerdo. Campo de futebol do lado direito.
      Vários alunos chegavam.
      - Não tem ninguém de jaqueta, boné e óculos escuros. Pode me dizer o que houve?
      Soltou um suspiro de alívio. Olhou para a parada. O homem havia desaparecido. Talvez nem tenha descido do ônibus. Contou tudo para Ana. Em todos detalhes. Finalizou, perguntando:
      - O-O que você acha? O q-que devo fazer?
Ana refletiu. Séria. Vendo o ar de preocupação da amiga.
      - Primeiro, você tem que ficar calma. Certo? Respire fundo. Assim. Ótimo. - sorriu - Bem, Pat, com certeza esse homem quer alguma coisa. Seqüestrá-la, talvez. Ou é apenas um admirador. Ou está ali a mando de alguém. Sei lá. Faça o seguinte: se ele estiver na sua rua hoje à noite, daqui a pouco, diga a seus pais. Eles saberão o que fazer. Seu pai com certeza chamará a polícia, que inquirirá o homem. Entendeu?
      - Sim. Farei isso. Farei isso...
      - Agora fique quieta e vamos estudar... Não pode pirar por causa de um doido. Ele não quer atacá-la. Senão, já o teria feito. Certo?
      - Falarei com meu pai. Hoje.
      - Muito bom, Pat. Vamos.
      Não estudou direito. Trêmula. Tensa. Temerosa.
      Saiu com Ana para a parada. Deu uma olhada ao redor. Ele não estava ali.
      - Quer ir para sua casa de táxi? - Ana perguntou.
      - Não. Irei de ônibus. Tudo bem.
      - Quer que eu vá com você até sua casa?
      - Não precisa, Ana.
      - Ok.
      Viajou em silêncio, séria, atenta. Chegou a olhar para trás duas vezes. Como se esperasse encontrá-lo? Desceu do ônibus, ao chegar no bairro. Despediu-se de Ana. Ao dobrar à direita e entrar na rua...
      O homem não estava lá.
      Suspirou.
      Ao entrar na casa, contou tudo à mãe.
      Ela ouviu tudo atentamente. Acordou seu pai. Conversaram. Seu pai decidiu que, se o homem aparecesse de novo na rua, iria até ele para fazer perguntas e intimidá-lo. Se não desse certo, avisaria a polícia.
      Dormiu mal, pensando naqueles óculos escuros.

V
      Sexta-feira.
      Trabalhou normalmente (ou pelo menos tentou) e não viu o homem.
      Foi à faculdade e... ele não estava lá.
      - O doido te seguiu hoje? - Ana perguntou.
      - Até agora não. Espero não vê-lo na minha rua.
      - Conversou com seu pai?
      - Sim. Ele disse que iria inquirir o homem, se ele aparecesse hoje. Se não desse certo, chamaria a polícia.
      - Ótima decisão. Breve saberemos o que ele realmente quer.
      Estudou.
      Ou tentou estudar.
      Pegaram o ônibus juntas. Ana contou algumas piadas. Riu. Conseguiu rir, apesar do estado psicológico em que se encontrava. Tranqüilizou-se um pouco.
      Desceu na parada do bairro.
      Ia passar por uma Kombi, que estava estacionada, vinte metros na frente, quando...
      - Oi!
      Recuou, assustada!
      O homem surgiu de repente. Estava diante dela. Jaqueta. Calça jeans. Óculos escuros. Boné. Com ar ameaçador e hostil. Ele colocou a mão direita para trás. Como se...
      Largou a pasta preta. Começou a correr.
      Pernas trêmulas. Passos vivos na calçada. Segurando a bolsa. Sem olhar para trás.
      - Linda! - teria ouvido o homem falar? Teria ouvido ele rir?
      Ele estava rindo dela?
      Meu Deus! Ele vai me matar! Seqüestrar! Estuprar! E está se divertindo! Salve-me, Deus! Proteja-me!, pensou, apavorada.
      A cem metros, um barzinho. Repleto de pessoas bebendo, conversando e ouvindo música. Correu naquela direção. Atravessou a rua.
      Ofegava. Tentava controlar o pânico. Não sabia se ele a seguia ou não. Olhava para frente, evitando tropeçar e cair. Uma queda agora seria um ato desastroso. Não diminuiu o ritmo.
      Talvez ele lhe desse um tiro. Ou talvez uma facada. Poderia dominá-la até com as mãos, devido seu porte físico. Usar clorofórmio. Cordas.
      Para colocá-la num carro e levá-la para algum lugar ermo.
      Era audacioso, pois o risco de ser visto naquela rua era imenso. Se alguém do barzinho visse a cena, poderia causar complicações. O ônibus do bairro poderia aparecer. Um carro. Uma pessoa de uma das casas.
      Era um louco! Perniciosamente insano!!!
      Continuou correndo.
      Rezando por sua vida.
      Até que...
      Alcançou o barzinho. Sua salvação! Esperava que fosse...
      Parou de correr e, ofegante, em passos apressados, passou pelas mesas e parou diante do balcão. O atendente olhou para ela, surpreso com seu estado.
      - P-Por favor... há um homem me seguindo... - disse para o garçom, com lágrimas nos olhos. - P-Posso usar seu telefone?
      - Ele é seu namorado, dona?
      - O telefone... por f-favor...
      - Tudo bem. Entre aqui.
      Ela passou pelo balcão. E ligou para o pai. Chorando. Em desespero.
      Dez minutos depois, sua família apareceu, de carro. Seus pais, mais o Vítor e a Renata.
      Informaram a polícia.

VI
      Sábado.
      Foi convocada pela polícia para ver fotos. Viu muitas, mais de trezentas, mas...
      Não reconheceu o homem.
      O policial a orientou a chamar a polícia, tão logo avistasse o sujeito. Concordou.
      Seu irmão, Vítor, a levou, de carro, ao seu curso de Inglês, pela manhã, assim que saiu da delegacia.
      Não conseguiu se concentrar. Quase não prestou atenção à aula.
      Desistiu de ir, na parte da tarde, à academia.
      Dormiu mal e teve pesadelos.

VII
      Domingo de chuva.
      O chuvisco se estendeu pelo dia todo.
      Almoçou com a família numa churrascaria.
      Passou a tarde na casa da Ana, estudando, ouvindo música e papeando.
      Ana, sempre alegre, tinha o dom de tranqüilizá-la e fazê-la sorrir.
      Grande amiga.
      Sorria, mas ainda estava trêmula.
      À noite, depois que parou de chover, foi à igreja com os pais e Renata.
      Pediu a Deus que a protegesse.
      Dormiu relativamente melhor.

VIII
      Nunca mais encontrou aquele homem.
      Aos poucos, readquiriu a confiança e começou a voltar ao normal.
      Descia do ônibus e não havia nenhum homem assustador em sua rua.
      Chegou à conclusão de que, seja o que for que ele pretendia fazer com ela, com certeza desistiu de pôr em prática.
      Um mês depois, já sorria, voltou a andar de ônibus e tudo se normalizou.
      Ou quase.
      Havia um porém. Um ignóbil porém.
      Toda vez que via um homem alto, forte, com jaqueta, boné e óculos escuros, tomava um susto. Tremia. Suava. Tentava fugir. Depois, ao notar que não era seu perseguidor, acalmava-se. Tinha medo de sair à noite. Sempre checava a rua, quando descia do ônibus. Checava todos os locais. Como se pensasse que ele iria aparecer a qualquer momento para matá-la. Sofria silenciosamente. Chorava sozinha, no quarto, às vezes. Notou que ficou uma seqüela. O medo! O medo ainda a estava ali dentro, em seu coração, em seu íntimo, rasgando-lhe o raciocínio.
      Ela não sabia se um dia iria ficar completamente curada.
      "Seu" Roberto, seu pai, observava o sofrimento da filha.
      E viu que só havia uma forma de curá-la.

IX
      Seis meses depois, ela viu a notícia na TV, no programa local.
      Jornal das seis, em pleno sábado.
      A repórter filmava uma casa isolada, num dos bairros da periferia da cidade.
      Dentro da casa, um cadáver.
      Um homem alto e forte atravessado no sofá, a pistola jogada no chão. Imóvel. Sangue saindo do peito. Lá estava a jaqueta marrom em cima do sofá. Bem visível. O boné no chão. Calça jeans. Um morto nu da cintura pra cima, mas usando óculos escuros.
      Dizia a repórter, segurando o microfone, olhos fixos na câmera:
      - ... Em nossa cidade. Um homem de quarenta anos, identificado como João Fruber Korman, morreu ao trocar tiros com a polícia. Ele foi denunciado pela jovem Catarina Jugle, vinte anos, ao tentar seqüestrá-la há dois dias.
      Surgiu, na tela, a foto de uma jovem bonita.
      - Catarina contou que o homem passou uma semana seguindo-a na escola, no trabalho e no bairro onde morava, assustando-a. O seqüestro não deu certo, pois Catarina, ao vê-lo, correu para proteger-se. Antes, ela havia anotado a placa do carro e informou à polícia, que preparou uma armadilha. Outra garota, de dezenove anos, chamada Helena Trunnes...
      Outra foto, de uma loira magra.
      - ... Também reconheceu o homem como sendo o mesmo que passou quatro dias seguindo-a, principalmente em sua rua. Helena disse que, quando chegava da faculdade, à noite, encontrava o homem, com aquela jaqueta, o boné e os óculos, encostado no carro e que isso a assustava. A polícia acredita que o morto, João, solteiro, que não era fichado na polícia e que trabalhava como açougueiro, vivia seguindo moças.  Não há provas de que ele tenha seqüestrado e estuprado as moças que seguia. No entanto, exames médicos comprovaram que o homem tinha problemas mentais. O Dr Fábio Savedra, psiquiatra da polícia...
      Surgiu a imagem, em movimento, de um homem de meia idade e que usava óculos.
      - ... Afirmou que provavelmente o homem tinha por mania seguir moças, mas sem consumar um crime mais grave. Talvez seu prazer fosse assustá-las, apenas com sua presença, concluiu. A polícia não sabe explicar porque João reagiu com tiros, ao ser abordado em sua casa. E, para finalizar, a polícia pede que, se mais alguma moça identificar esse homem...
      Nova imagem do cadáver.
      - ... como alguém que a importunou, que entre em contato com o telefone 33445-56789. Repetindo: 33445-56789. E agora, o repórter Danilo Cintra dará novas...
      - É ele, pai.
      O pai, "seu" Roberto, a abraçou, ao ver lágrimas em seus olhos.
      - Você irá à polícia, filha?
      - O que o senhor me aconselha, pai? - ela enxugou as lágrimas e retomou a calma.
      - Por que se expor desnecessariamente, filha? Ele está morto. Tudo acabou, entendeu?
      Ela sorriu, tranqüilizando-se com o abraço protetor do pai.
      - Sim, pai. Não irei, então. - murmurou, aliviada.
      - Ótimo, filha. - "seu" Roberto completou - Ótimo.

X
      "Seu" Roberto estava na mesa do bar quando um homem alto e magro, que usava calça jeans e camisa meia-manga, verde, aproximou-se e ocupou uma das cadeiras.
      - Tudo bom, sargento Mateus? - disse.
      - Sim. - o homem respondeu, sério.
      Pediram cerveja. Tomaram o primeiro gole e ficaram em silêncio por alguns momentos.
      - Foi aquele o homem que estava importunando sua filha? - o sargento perguntou.
      - Sim... sim... Como o pegaram?
      - Começamos a investigar. E descobrimos que ele vivia seguindo moças. Duas denúncias, além da de sua filha, foi suficiente. A jaqueta, o boné e os óculos escuros não deixaram dúvidas. Ele insistia em usá-los. Preparamos uma armadilha e descobrimos onde ele morava. Sozinho. Casa própria. Um cara maluco.
      "Seu" Roberto sacou o talão de cheques e preencheu a quantia devida. Assinou, separou uma das folhas e a passou ao Sargento Mateus.
      - Tome. Conforme o combinado.
      O sargento Mateus pegou o cheque, conferiu e o guardou no bolso da camisa.
      Tomaram uma dose da cerveja. Em silêncio. Concentrados. Como se refletissem...
      "Seu" Roberto preparou-se para fazer a pergunta. Talvez obtivesse resposta. Talvez não. Mas precisava saber.
      Inspirou fundo e...
      - Foi fácil matá-lo? - perguntou, minutos depois.
      - Sim. - o sargento respondeu, de modo enfático e frio, como se a explicação lhe desse algum tipo de prazer - Ele abriu a porta da sala e se entregou sem problemas. Era doente mental, mas não era agressivo. Apenas gostava de assustar as garotas, mas não as atacava, entendeu? O difícil foi o depois. Tivemos que simular e improvisar. Atiramos nele duas vezes, a uma boa distância. No peito. Dentro da sala. À noite. - tomou uma dose da cerveja - Encontramos a arma na estante. Mas a arma que o cara tinha era de brinquedo, acredita? Ele assustava as garotas com uma pistola de brinquedo. Que doido! Tivemos que providenciar uma pistola de verdade e colocar nas mãos dele, para inserir suas impressões digitais. Demos dois tiros com a pistola, para garantir a veracidade do negócio. O resto foi fácil. Afinal, nós, da polícia, temos poder de vida e de morte sobre os bandidos. - sorriu, irônico - Sabemos quem pode viver e quem tem que morrer. Há bandidos que atrapalham a polícia. O nosso poder sobre eles é mortal. O senhor nos chamou, nos contratou e queria um cadáver. O senhor pediu a morte dele e cumprimos o acordo. Simples e objetivo. Sem remorsos e arrependimentos.
      "Seu" Roberto estremeceu levemente, ante a frieza satânica do sargento.
      - B-Belo trabalho. - foi só que pôde dizer.
      Tomaram a cerveja.
      Apertaram-se as mãos. O Sargento Mateus se ergueu, como que se estivesse, subitamente, com pressa.
      - Tenho que ir. Adeus, "seu" Roberto. - o sargento disse, o olhar gélido e assustador - Missão cumprida. Acredito que esteja satisfeito.
      - Sim, o-obviamente. Adeus, sargento. D-Dê lembranças minhas ao Capitão Luís Carlos. Muito obrigado.
      - Ok. - O sargento Mateus saiu lentamente, sem olhar para trás.
      "Seu" Roberto ali ficou.
      Pensando...
      Poder de vida e de morte. A vida! A morte! O destino que acompanha a humanidade. Real e cruel! O sargento tinha razão. Quem entra no mundo do crime está sujeito a essa máxima da polícia. O homem poderia ser preso. Mas isso seria suficiente para tranqüilizar sua filha? Na opinião de "seu" Roberto, a resposta é não. A justiça brasileira é muito falha, muito flexível. Se fosse preso, em questão de anos estaria de volta às ruas. Incomodando moças. Perseguindo-as. E quem sabe se não as mataria, no futuro? Ele tinha que morrer. Não se pode correr riscos. Poder de vida e de morte... E sua filha? Estaria curada? Acreditava que sim. Com o tempo ela esqueceria tudo aquilo.
      Ingeriu mais uma dose da cerveja.
      Tentou sorrir, mas não conseguiu.

                 FIM


Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 10/01/2006
Reeditado em 21/01/2006
Código do texto: T96745
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14849 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 23:17)
Joderyma Torres