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As treze almas

 Nos deparamos com fatos bizarros, histórias mal contadas, superstições populares muitas vezes um tanto quanto cretinas. Com o passar dos anos, não se sabe o que é mito e o que é real. Mas esta história onde eu fui um dos protagonistas ou talvez em determinados momentos um mero coadjuvante, me fez acreditar de que existe um mundo além daquilo o que os nossos olhos podem ver.
  Era inverno de 2004, decidi tirar férias no interior, na casa de minha tia Tereza. Senhora de feições rosadas, uma boa cozinheira e sempre de bom humor. A cidade era um tanto quanto estranha, não havia quase ninguém nas ruas, possuia apenas 800 habitantes e qualquer visitante era recebido com certa desconfiança e hostilidade.
  As primeiras noites foram tranqüilas, eu e minha tia dialogavamos sempre sobre minha infância, minhas peripécias de moleque e lembranças de família, infelizmente cada membro faz seu destino, e alguns se esquecem de suas raízes.
  Na segunda semana, havia uma atmosfera estranha no ar, e eventos pertubadores começaram a acontecer. Moscas gigantescas invadirão a cozinha durante o dia, e a noite o silêncio era perturbado por vozes, sussurros e choros melancólicos quase imperceptíveis a um ouvinte desatento. De manhã persisti em conversar sobre o assunto com minha tia, mas sem sucesso,  desvencilhava-se, e logo mudava de assunto, com um ar inconveniente. Havia algo errado com a casa e isso me preocupava.
 Nas noites seguintes, o mesmo acontecia, e eu já estava ficando louco, procurei os sons em cada quanto da sala, mas eles pareciam existir apenas na minha mente. Até que caminhando para um pequeno jardim aos fundos da casa, avistei o poço que quando criança me aterrorizava, hoje já homem feito, já não possuia o mesmo efeito. Quando me aproximei, as vozes cessaram, estava disposto abri-lo, um impulso inconsciente talvez. Quando ouvi;
_ Samael, o que estava fazendo ai, venha para cá, meu filho!
O susto e o suspense foram suficientes para acelerar meu coração;
_ Não pode abrir este poço, meu filho...É perigoso!
_ Calma Tia, qual é o problema com este poço? - Perguntei eu.
_ Entra, vou lhe explicar, já é bem grandinho e deve saber...
Então sentamos a mesa da cozinha, com vista para o jardim. Ela estava tremula e com as mãos frias, tomou uma xícara de café e logo iniciou;
_ Desde de criança já lhe dizia para não brincar perto do poço. Há muito tempo atrás, quando eu ainda era menina, ouvia histórias do velho do chapéu preto. Sua avó e sua mãe acreditavam fielmente nesta história, pois não é uma simples superstição. Uma vez por ano, varias crianças da cidade desapareciam, as mães enlouqueciam, e o delegado da cidade proibia que as crianças brincassem nas ruas do bairro.
_ Vocês e essas histórias, mais o que um simples poço tem a ver com tudo isto?
_ Calma...Esses paulistas apressados, vou chegar lá...Ao todo,  onze crianças desapareceram, entre seis e oito anos de idade. As buscas não paravam porque um dos filhos do delegado também estava entre as vitimas. Pois Bem, encontraram o poço, o velho estava morto junto à carcaça de todas as crianças, umas sobre as outras.
_ Tia, mas como você pode morar aqui, mesmo sabendo disso?!
_ Quando comprei a casa, eu não sabia, pois o local era desconhecido, apenas o delegado e poucos moradores sabiam. Bem, continuando, dizem que as almas jamais descansarão em paz, elas querem voltar para casa, e algumas querem vingança. Apreendi a conviver com a vozes, as moscas e os sussurros. Dizem que a alma do maldito ainda esta presa no poço, por isto digo que não deve ir até lá...
_ Bobagens, tia você esta apenas tentando me assustar, estas histórias não passam apenas de conhecimento popular, crenças sem fundamento teórico ou ciêntifico, não tem sentido!
_ Povo antigo não brinca meu filho, conhecimento não é passado apenas nos livros lá da sua terra...

  Decidi pesquisar sobre o fato, procurar bases históricas. Custo a acreditar nestas histórias populares. Como um bom jornalista, pesquisei em arquivos da pequena biblioteca, dados confusos e boletins da época. Descobri o nome do velho, era Augusto dos Santos, morava sozinho há quinze anos na casa e tinha um comportamento que julgavam pouco suspeito. Certa data receberam uma denúncia anônima, onde relatavam um odor estranho e ruídos suspeitos. Os oficiais de policia chegaram ao local, e seguiram o odor de morte, vinha do poço que estava aberto com moscas que pairavam no ar. Cobriram o rosto com panos, e a visão que tiveram foi aterradora, o morador da casa estava em meio a corpos em avançado estado de putrefação, quase que irreconhecíveis, seus membros estavam torcidos. Todas as provas apontavam para ele como culpado das mortes, retalhos de roupas das crianças e brinquedos foram encontrados em sua casa. Sendo assim, eles arquivaram o caso como encerrado, já que o assassino estava morto.
Comecei a escrever sobre o a história, talvez forneça uma matéria de grande valor para o jornal. Quando estava organizando meus pensamentos, ouvi as vozes novamente, vindas do poço, caminhei lentamente em direção a ele. Haviam moscas gigantescas ao redor do poço, o vento estava forte, senti um estranho arrepio. Vento começou a emitir sons estranhos, sussurrava algo, oculto e medonho.  No impulso, sem pensar empurrei a pesada tampa, o vento transformou-se em algo violento, os pássaros foram afugentados, logo depois tudo cessou, e o silêncio foi completo.
_ O que você fez Samael !. - Perguntou minha tia com lágrimas nos olhos.
_ Eu não tenho certeza, ma acho que acabei de libertar as almas...
_ Ele vai matar a todos novamente! Vai embora da minha casa e não volte jamais!
  Depois destas palavras, fui hospedar-me em uma pensão local. Mesmo depois de tudo continuava com a idéia de que o ocorrido era apenas uma crença popular cretina, nos dias seguintes boatos locais chegaram aos meus ouvidos, uma criança havia desaparecido novamente.
  Caminhei durante a noite com destino a casa de minha tia, as janelas estavam lacradas com madeiras, nenhum som, nenhuma luz. A porta estava trancada, sorte a minha que havia uma cópia da chave comigo, quando entrei, a casa estava em uma completo caos, os móveis haviam sido destruídos, muita sujeira em todo lugar e um cheiro insuportável de urina e sangue.
  Apenas uma vela com chama tímida na cabeceira, iluminava uma cama, me aproximei e vi que havia algo estranho, uma criança estava deitada na cama imóvel, a coloquei em meus braços, ela estava pálida, com olhinhos negros opacos, abertos e fixos, seus lábios estavam pálidos, tentei reanima-la, mas o pulso estava tão fraco que já não o sentia. Não havia o que ser feito.
Peguei o meu celular para chamar a policia, quando senti uma forte pancada em minha cabeça, cai inconsciente no chão, não me recordo muito bem o que houve. Quando acordei, estava amarrado em uma cadeira, minha visão estava turva, e uma figura negra estava diante de mim.
_ Quem é você?...
_ Sou aquele que guarda os portões do inferno!...- Uma voz tremula e assustadora foi ouvida, e minha alma estremeceu.
A luz da vela iluminou sua face, era minha tia, estava estranhamente diferente, seus olhos estavam cerrados, seus lábios estavam roxos, e em seu corpo pude ver inúmeras feridas das quais o sangue brotava.
_ Tia é você? nos temos de sair daqui.
_ É tarde, você me fez um grande favor, libertou as almas e a décima terceira será a sua, e assim posso finalmente libertar todos os demônios famintos do inferno!
_ Tia você enlouqueceu?...
_ Meu nome é Augusto, e você se unira a essas criaturas podres!
Sua voz ecoava como a de mil vozes do inferno, o suor escorria sobre a minha pele, o medo contraia cada músculo do meu corpo.
No instante em que ele preparava a cerimônia de execução, ouvi um barulho no lado de fora, a policia havia chegado.
_ Não! Eles não vão me banir de novo!...
  A policia logo entrou, em um rompante derrubaram a porta de madeira, com suas armas em punho, e na companhia deles estava um padre local. Sobre a presença do padre ele ficou paralisado, fixava seus olhos na enorme cruz que ele segurava, e recuava cada vez mais. Enquanto os policiais me soltavam, o padre proferia palavras em latim, fiquei estarrecido, pois ele exercia enorme força sobre aquele ser, que se ajoelhava e se contorcia, urrava como um animal feroz. Quase sem forças, o espírito abandonou o corpo de minha tia, uma forte luz emanava de seus olhos e de sua boca, como fogo, saiu em direção ao poço. Minha tia estava inconsciente e o padre exausto. O espírito se materializou, tomando a forma de um homem de meia idade, animalesco, seus olhos emanavam puro ódio.
  O vento começou a soprar forte, e vultos negros com asas gigantescas surgiam por entre as árvores, elas envolveram o demônio, e o levaram, desaparecendo em meio à escuridão. O padre sentou-se exausto.
_ Esta feito ele foi levado para o inferno...Filho você teve sorte!
_ Como sabia padre, que eu estava em perigo?
_ Há alguns dias atrás sua tia foi me procurar, disse que havia algo errado com ela e com a casa... senti que alguém estava em perigo! Bem, não se preocupe ela vai ficar bem...

  Desde aquela noite, comecei a acreditar que haviam forças inexplicáveis no universo, e meu ceticismo deu lugar à religiosidade . Minha vida voltou ao normal, tia Tereza não se lembra de nada, a casa foi vendida e o poço destruído. Mas uma coisa me intriga, será que esta alma atormentada finalmente fora derrotada?

Fim.
Taiane Gonçalves Dias
Enviado por Taiane Gonçalves Dias em 01/07/2008
Reeditado em 13/11/2010
Código do texto: T1060847

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Sobre a autora
Taiane Gonçalves Dias
São Bernardo do Campo - São Paulo - Brasil
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