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A LOIRA DO BANHEIRO

A LOIRA DO BANHEIRO

        Era um dia de avaliação. Tudo que Fernandinho queria era que não caísse aquele assunto no teste final. Ele não gostava muito da genética, muito menos da professora Elisa. O garoto era o melhor em História e o terceiro em língua portuguesa, mas em Biologia era mais ou menos, e em genética, era menos. Não queria, mas genética estava ali, e graças a sua precavência, trouxera uma solução. Estava no bolso da camisa. Umas anotações. O garoto estava decidido a colar na prova.
      A temível professora, postada em sua cadeira diante da classe, dominando prazerosamente os trinta alunos do primeiro ano colegial, se regozijava ao vê-los mergulhados, aflitos, no teste de biologia. Fernandinho transpirava todinho. Não sei dizer se toda a agonia do menino era por causa da dificuldade da prova ou se medo da professora pegá-lo colando. Sua caneta tremia na mão e seu coração palpitava, tornando-se o único som audível na classe.
      Olhava de um lado, para o outro, e todos pareciam que estavam indo bem, e ele estacionado na quinta pergunta. Mas a cola estava em seu bolso e não podia lê-la ali, na frente da professora. Pensou em sair um pouco, talvez ir beber água. Mas resolveu esperar.
      Adiou então a questão difícil e tentou resolver a próxima, depois a seguinte. Pensou, calculou, estava até meio fácil. E , quando estava na de número oito...algo da barriga queria sair.
      Sentiu subitamente vontade de ir ao banheiro. Sua bexiga, parecia querer estourar. Toda a água do seu corpo queria ser eliminada. Se esforçou, segurou, podia resolver a questão oitava e depois ir. Mas a vontade era tanta! Cruzou as pernas, forçou com a mão esquerda para resistir alguns minutos, ou segundos... A temperatura inacreditável e misteriosamente despencava subitamente... Mas aquilo queria sair, estava irrepreensível.
      Tinha que ir ao banheiro.
      O menino levantou trôpego e com as mãos contra a púbis, não perdeu tempo. Nem pediu autorização à professora.
      Quando atravessou a porta, lá fora viu que uma densa nuvem escura tinha pairado sob o sol, ocultando seu brilho. A aparência era de assombro. A escola estava com um ar sombrio. Era apenas dez horas da manhã, e o clima era de um melancólico crepúsculo. O frio era macabramente congelante.
  Fernandinho estava tonto e o banheiro ainda estava a alguns bons metros pela frente. Pensou que não conseguiria chegar até lá e veio-lhe a idéia de urinar por ali mesmo, pelo corredor. Ia fazer ali, atrás de um bebedouro. Levou a mão desesperada na braguilha da calça mas, na hora H duas garotas surgiram de uma porta ao lado e interromperam seu sonho.
      Mas ele não desistiu. com as últimas forças que lhe restavam, ergueu se, e, passo a passo, tropeçando seguiu seu caminho.
      Parecia que iria estourar por dentro. Imaginou que o líquido que emanaria de seu corpo não teria fim, e o pior, sairia tudo de uma só vez. Mas faltavam dez metros, eternos,  para  chegar ao banheiro. Sua visão já havia enegrecida.
      Impressão dava-lhe, de serem os dez metros de sua vida. E em meio àquela escuridão, se formou um estreito corredor onde todos os alunos do colégio gritavam seu nome. Rostos de meninos e meninas surgiam dispersos e gritando ecos longínquos, “Fernandinho, vai”. Ecos que faziam redemonhinhos em sua mente. Em sua frente apareceu a temível professora, gigantesca, com os olhos brilhando na escuridão, “só depende de você, garoto”. Ele transpirava naquele frio congelante.
      No vaso sanitário abriu o zíper da calça, e deixou sua alma fluir com a urina. A exclamação de alívio foi copiosa. Era como fugir das trevas e ver a luz. Sair do espinho e deitar em pétalas. Era como sair de uma prisão perpétua.
      Urinava solenemente, olhando para o teto.
      Mas o líquido teria que ter um fim!
      E quando estava quase terminando lembrou da prova de biologia, da quinta questão, a genética. Ia tirar a anotação do bolso quando... reparou que havia sangue no chão. Muito sangue.
      Seu sobressalto foi grande e um choque gélido lhe feriu a espinha. O líquido de um vermelho muito vivo estava quase a altura de sua canela e lentamente ia subindo. Algumas manchas já respingavam na parede. Seu coração ganhou vida desesperada em seu peito.
      Perplexo por aquela cena horrorosa, imediatamente tentou gritar. mas o grito saiu mudo, pois o som era muito volumoso e ficou enroscado no estreito canal de sua garganta.
      E seu medo se propagou ao ouvir sinistros murmúrios de gemidos atrás de si. Gemidos sonoramente doces. Então, foi que decidiu olhar para trás para entender o que se sucedia. Mas a náusea lhe veio. Havia um leve odor de enxofre no ar. A urina estava nos últimos pingos.
      A macabridade da cena era totalmente sobrenatural.
      Não contendo a ânsia, o café da manhã foi jogado para fora, junto com o grito que estava estacionado em sua garganta. Som gutural. Depois olhou para trás. Ao ver o que havia atrás da porta, o sangue de Luiz Fernando parou de circular.
Uma menina  vestida toda de branco, com cabelos cor de ouro, sentada inerte sobre as pernas dobradas ao chão. Olhava-lhe impiscavelmente. A boca e o nariz tapada com algodão, e de seus ouvidos se espichava sangue, como de chafariz, e em seu pálido rosto haviam dois notáveis olhos negros. Ao mesmo instante que aparentava uma figura bela era terrível. Luiz Fernando estremeceu. Tentou correr. Tentou gritar. Observar. Morrer. Mas nada conseguiu fazer. E ela soltava sussurros horripilantes de dores. E os dentes do menino batiam uns contra os outros e todos os seus pêlos se eriçaram.
      Num instante ela fez um esforço para se erguer, mas não conseguiu. Então estendeu a mão para o rapaz, soltando uma voz rouca e fraca que varou o algodão da boca.
            - Preciso de você. Venha comigo.
      O menino, fazendo todo esforço de sua vida, arrancou suas pernas que estavam pregadas no chão e as pôs para correr. Num arranque violento se emergiu daquele mundo, deixando pegadas de sangue pelo corredor. A gritos histéricos, pulou o muro da escola, cruzou a rua parando o trânsito e rumou desesperado para sua casa.
      Só queria entrar debaixo da coberta e cobrir a cabeça.
      Após ficar só, no banheiro, a loira do banheiro recolheu todos os materiais de assombro e, tudo se dilatando lentamente, voltou para seu mundo sobrenatural, satisfeita... E o banheiro recuperou sua tranqüila aparência, voltando a ser o lugar de maior alívio para o homem.
      Mas as manchas de sangue que o menino havia deixado pelo corredor, permaneceram...
      E a densa nuvem deixou o campo livre para o sol e o frio foi embora.
   





 































                                                   

Antonio Fabiano Pereira
Enviado por Antonio Fabiano Pereira em 31/01/2006
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Sobre o autor
Antonio Fabiano Pereira
Cornélio Procópio - Paraná - Brasil, 33 anos
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Antonio Fabiano Pereira