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Os gatos satânicos - Primeira parte

I
        - Não me mate! P-Por favor... não...
        Apontou a arma (um revólver calibre 38) e puxou o gatilho.
        O som do tiro reverberou malignamente no local, a explosão foi como uma mensagem da morte. O projétil penetrou no peito, do lado do coração, rasgando roupa e carne e fazendo jorrar o sangue. Um tiro foi suficiente. O corpo estremeceu, mãos foram levadas ao peito. Um misto de grito e gemido, num estertor gutural, se fez ouvir. Gemidos de dor e agonia. O desespero de quem sabe que a morte chegou.
        O corpo caiu.
        Estremeceu por alguns segundos - olhos horrivelmente abertos, boca escancarada, como que à procura do ar que faltava - e depois ficou imóvel, o buraco ensangüentado bem visível na claridade daquela tarde.
        O assassino deu uma olhada e ficou satisfeito.
        Mais um cadáver.
        Desta vez seria encontrado naquele terreno fétido, abandonado, onde as pessoas (ignorando a placa de proibição) jogavam o lixo do bairro.
        Terreno extenso, maior do que um campo de futebol. Ao redor, a estrada de terra batida e... mato. A casa mais próxima estaria a um quilômetro de distância.
        O lugar perfeito.
        Breve receberia o pagamento para mais um trabalho realizado.
        Sorriu discretamente.
        O assassino vestia calça jeans, camiseta preta e jaqueta verde. Sua inseparável jaqueta verde. Velha e surrada, sua companheira de muitas jornadas.
        Já ia entrar no carro quando avistou... os gatos.
        Dois gatos!
        Um preto, com uma mancha branca num dos olhos. Outro marrom, também com uma mancha branca num dos olhos. Os dois tinham manchas brancas, ambas no olho esquerdo.
        Que estranho, ó xente!, pensou.
        Um gato preto; outro marrom. Seriam um casal?
        Surgiram do nada e pararam diante do cadáver. Deram uma cheirada. Olharam-no, por alguns segundos. Depois, desviaram os olhos do cadáver e o encararam. Um do lado do outro. Sentados sobre as patas traseiras, olhando-o fixamente, como se reprovassem o que fizera.
        Por alguns segundos, ficou incomodado por aqueles olhares. Possuíam uma aura... como poderia definir?... inquietante, digamos assim. Olhares inquietantes, era a palavra adequada. Gatos com os olhares absolutamente inquietantes.
        Nunca os tinha visto antes. E não gostou daqueles olhares.
        Não gostou da afronta que via neles, como se os gatos não o temessem. Como se o desafiassem. Parecia que os gatos o odiavam. Sim. Teve a impressão de que havia ódio nos olhares dos gatos. Um ódio esdrúxulo, pernicioso, nocivo! Eles estavam ali, calmos, imóveis, mas seus olhos diziam tudo.
        Sem saber como, também sentiu ódio e repulsa pelos gatos. Era como se eles houvessem invadido sua privacidade, numa tétrica ousadia. Gatos foram feitos para temer e respeitar os homens; não para afrontá-los.
        E foi por estar com ódio e nojo dos gatos que pensou em matá-los.
        Chegou a levantar a arma e apontar. Dois tiros e seriam dois gatos mortos. E adeus olhares inquietantes, raiva, repulsa, sentimentos mútuos e negativos. Eles iriam parar na baixa da égua! Mortinhos da silva!
        No entanto...
        Estremeceu!
        Seu corpo, de modo súbito e involuntário, começou a arrepiar-se! Arrepios esquisitos!
        Sentiu um princípio de frio. Um frio incômodo. Frio?!? Em pleno sol do sertão? Como? O que poderia explicar essas coisas? Seus olhos vacilaram. Seus lábios tremeram. Ficou pálido! O braço estava erguido, o cano da arma voltado para o primeiro gato, o preto. Bastava puxar o gatilho, só isso. Simples e decisivo.
        Mas... não conseguiu puxar o gatilho!
        Por quê? O que estava acontecendo?
        Suas mãos. Vacilavam. Não tinham forças! Seu corpo tremia. O frio penetrava seus ossos, tirando-lhe o raciocínio.
        Os gatos continuavam ali, imóveis, como estátuas.
De repente, viu-se baixando o braço. Sem entender como. O maldito braço baixou, sem que ele desse o comando. A arma apontava para o chão. Outro mistério.
        O frio passou. Sim. Inexplicavelmente. O tremor foi embora, tão rápido como chegou.
        Os gatos! Levantaram-se, viraram as costas e foram embora. Em passos apresados, entraram no mato e... desapareceram.
        Notou que suava.
        Enxugou o suor do rosto e respirou fundo.
        - Merda! - gritou, desabafando.
        Acostumado a matar pessoas e não conseguiu matar dois gatos. Por que não puxou o gatilho? Por que os gatos o olharam daquele jeito? Teria havido mesmo os gatos? Ou não? De onde veio aquele frio?
        Talvez tivesse imaginado tudo aquilo. Quem sabe delírio de matador. Gatos que não existiam. Frio ilusório. O sol cozinhando seu cérebro. Pode ser, pode ser. Bem, precisava de uma cerveja danada de gelada, isso sim. Tinha que esquecer aquilo.
        Olhou o relógio e percebeu que já estava a mais de meia hora naquele terreno. Precisava sair dali.
        Entrou no carro.

II
        Recebeu o pagamento (grana suficiente para viver de modo confortável por muitos meses) no mesmo dia, numa cidade vizinha (lugar neutro e seguro, claro) e, após ter feito a viagem de volta, comemorou tomando cerveja num bar, na sua cidade natal, no início da noite.
        Estava numa cidade nordestina, pequena, discreta, a cerca de cinqüenta quilômetros da capital daquele Estado.
Empresários, fazendeiros, maridos (e até esposas!) o contratavam para serviços mortais. Um telefonema, uma conversa num bar, a combinação do preço, a forma e o local do pagamento, a foto da vítima (ou descrição), o local onde poderia encontrá-la e pronto. Uma vida a menos, dinheiro na conta. Sorriu, ante a idéia.
        Seu carro era um opala cinza, de duas portas, com mais de vinte anos de estrada. Carro gente fina, arretado de forte e que nunca o deixava na mão.
        Às vezes precisava seqüestrar a vítima na capital e levá-la para um terreno abandonado, nas cidades da vizinhança. Às vezes matava na capital mesmo, com tiros ou facadas. De vez em quando por atropelamento. Seu opala já matou gente, com certeza. Carro bão, sô.
        Dependendo da situação, simulava roubo ou suicídio.
As vítimas eram pessoas insignificantes e que não faziam falta à sociedade. Raramente matava um figurão, gente de grana. Muito raramente. E contava com vários contatos no submundo da capital, amigos seus, que o indicavam, quando havia um serviço mortal a ser feito. Eles davam seu telefone para a pessoa contratante, após se certificarem de que não era trote ou armadilha.
        Matou muita gente (mais de vinte, sim senhor!), mas os jornais nunca associaram as mortes como de autoria de uma só pessoa.
        Os motivos? Talvez por ser inteligente o suficiente para não deixar assinatura. Ou por mudar os métodos. Ou por simular roubo seguido de morte. Ou por estar no nordeste, terra sem lei. Ou por matar pessoas desconhecidas e, em alguns casos, em débito com a lei. Ou por ter sorte. Ou por contar com a ineficiência da polícia. Ou... sei lá.
        O certo é que estava se dando bem e há muito tempo.
        Haveria remorsos ou arrependimento em sua alma? Vixe! Nenhum. Absolutamente nenhum. Matava porque era um negócio rentável e seguro. Matava por que seu organismo o impelia a isso. Foi feito para matar. Tinha, confessava, até um certo prazer em matar. Mínimo, é bom dizer. Nada que pudesse descontrolá-lo. Nunca matou ninguém por vingança ou pelo simples prazer. Sempre matou por dinheiro. E dificilmente o faria por outro motivo que não fosse grana. Ou seja, conciliava seu instintivo matador com o lucro que obtinha disso. Era uma questão de inteligência, acima de tudo.
        Outro item que facilitava sua vida era o fato de nunca ter sido preso, nem ter se envolvido em brigas, acidentes ou escândalos. Considerava-se um sujeito frio e calculista e que media muito bem as conseqüências de seus atos. A calma era sua maior arma.
        Pelo menos até o surgimento dos gatos.
        Os gatos... não queria pensar neles.
        Era moreno, alto, magro, solteiro, quarentão e morava só. Morava numa casa grande (amarela, de um pavimento, três quartos, garagem, quintal, com uma varanda chique na frente, como gostava de dizer aos amigos) e confortável. Gostava de morar ali.
        Para os vizinhos e familiares, ele era vendedor ambulante, que vendia de tudo um pouco: roupas, panelas, relógios, facas, bugigangas de plásticos, brinquedos, etc. Colocava tudo no opala e saía pelas cidades vizinhas, mostrando sua lábia e oferecendo seus produtos de casa em casa. Ninguém desconfiava de sua outra atividade. Quer dizer, na verdade ele era vendedor mesmo. A arte de matar era sua segunda profissão, um bico, digamos assim (riu, ao pensar nisso), coisa que fazia de vez em quando.
        Já foi casado, mas não deu certo. O casamento durou seis anos. Seis anos de brigas e discussões. Mulher chata da moléstia! O incrível é que nunca bateu na mulher, porém sentiu vontade (várias vezes!) de matá-la a tiros. Sentiu vontade, mas não matou. Tiveram um filho, mas a mulher se mudou pra capital, com ele. E hoje estava casada com outro, tendo até mais dois filhos. Seja feliz, muié. Tem sorte em estar viva, diacho.
        Com relação ao filho, o via cerca de cinco ou seis vezes por ano. Duas quando o garoto vinha visitá-lo, durante as férias escolares. Nas outras vezes, quando ia à capital, para vê-lo, na casa da ex. Isso sem contar os telefonemas que trocavam. Adorava o filho, apesar de achá-lo delicado demais para ser seu filho. Só esperava que ele não fosse... bicha. Deus me livre!,pensou. Tinha 15 anos e era alto para a idade. Estudioso, educado e tranqüilo. No item tranqüilidade puxou ao pai. Bem, pelo menos esperava que não se tornasse um matador de gente. Um outro assassino na família seria catastrófico. Nem bicha e nem assassino.
        Mas... e se ele decidisse ser um promotor ou policial? O que poderia acontecer entre eles? Já pensou ser preso pelo próprio filho? Estremeceu e afastou a idéia. Não. Seu filho não poderia ser bicha, nem assassino, nem promotor e nem policial. De jeito nenhum.
        Estava na primeira semana de novembro, logo depois do dia de finados.
        No mês de dezembro, seu filho viria visitá-lo, para passar o Natal com ele. Ansiava por essa visita, que lhe dava uma alegria indescritível. Seu filho adorava a casa, por ser enorme e ter videogame e computador. Era um assassino, reconhecia. Porém, acima de tudo, era pai. Paizão. Nossa! Como adorava ser pai.
        Estava feliz.
        Sua vida seguia um rumo verdadeiramente positivo.
        Quer dizer, antes dos gatos.
        Os gatos satânicos.

III
        Naquela noite, chegou em casa, bêbado, por volta das duas horas da madrugada.
        Deixou o opala na frente da casa.
        Teve dificuldade em destrancar a porta. Maldita chave! Maldito buraco da fechadura, muito pequeno naquela hora. Sorriu. Entrou, cambaleante, e seguiu direto para o banheiro. Foi ligando luzes pelo caminho. Urinou. Não tomou banho, apesar do calor. Estava doido demais para se molhar. Em seguida, a cozinha. Depositou a arma em cima da mesa da cozinha. Ingeriu água gelada. Nem sabe como conseguiu abrir a geladeira e encher um copo com água. Coisas da vida. Em seguida, tirou apenas os sapatos e a camisa.
        Ligou o ventilador e jogou-se na cama de casal, na suíte da casa.
        Não demorou muito e apagou geral, imerso na embriaguez da bebida e do sono.
        Fez zzzzzzzzz, sem sonhos.
        Acordou por volta das dez horas da manhã, ressacado e com dor de cabeça.
        Abriu os olhos, bocejou, esticou os braços, espreguiçou-se e viu... os gatos!
        Parados, juntos, na porta aberta. Olhos fixos nele. As manchas brancas, sob a pouca claridade do quarto, tinham um aspecto horrível! Pareciam ter vida! Assustou-se. Sentiu novo tremor e... frio. Mais uma vez o frio chato. Quem abriu aquela porta? Como conseguiram entrar na casa? Onde estava sua arma? Não lembrou onde a deixou.
        Quando ousou movimentar-se, os gatos foram embora. Ou desapareceram? Não sabe ao certo. Levantou-se e percorreu a casa, na tentativa de encontrá-los. Incrivelmente, as portas e janelas estavam trancadas. E nem sinal dos bichos. Estranho! Teriam aqueles gatos o seguido até sua casa?
        Estariam no bar à sua espera? E também na boate? Impossível! O que pretendiam?
        O frio passou. Se foi, juntamente com os gatos desgraçados.
        Não soube o que pensar.
        Acreditava em Deus, mas não era do tipo fanático. Freqüentava a igreja católica uma vez por mês, quando tinha saco. No entanto, não acreditava em feitiços e bruxarias. De jeito nenhum, ó xente. Devia ter uma explicação lógica para a presença dos gatos no terreno e em sua casa. Iria investigar. Provavelmente alguém poderia ter deixado os gatos ali, para azucriná-lo. Era uma idéia. Mas... e o frio?
        - Merda! - vociferou, com um misto de raiva e temor.
        Parou de pensar nisso (ou tentou não pensar) e seguiu para o banheiro.
IV
        Dois dias depois, os gatos aparecerem.
Mais uma vez abriu os olhos e lá estavam eles, parados na porta aberta.
        Imóveis.
        Apoiados nas patas traseiras. As manchas brancas. Assustadoras. De manhã cedo. No quarto. Dessa vez estava sóbrio e quando pegou a arma, deixada sobre o criado-mudo, os animais sumiram. Os procurou pela casa e... nada. Portas e janelas trancadas. Não entendia como eles poderiam entrar na casa. E tinha certeza de que trancara a porta do quarto - à chave! - antes de deitar.
        Notou que suas mãos tremiam.
        Enquanto tomava café, refletia.
        O negócio se tornava mais esdrúxulo do que pensava. Gatos que abriam porta, que entravam numa casa completamente trancada e que desapareciam subitamente não estava previsto no percurso de sua vida. Isso é coisa de filme de terror, meu Deus! Stephen King. Edgar Allan Poe. Hollywood. E não numa cidade pacata do sertão nordestino.
        Rebuscando sua mente, à procura de um motivo, lembrou-se de três incidentes com gatos, que protagonizou no passado. Quer dizer, provavelmente tais incidentes nada tinham a ver com o que estava acontecendo agora, mas lhe vieram à mente mesmo assim. Talvez fosse coincidência. Ou talvez não? Os gatos povoavam sua mente, na verdade. Todos os gatos do mundo! Merda! Como odiava esses bichos! Sempre odiou.
        Lembrou-se que, quando tinha dez anos, jogou pedra num gato, num terreno abandonado, localizado ao lado de uma casa verde. O gato estava ali, de bobeira, sujo e feioso, olhando para ele de modo sarcástico. Era uma criança tranqüila, mas, como nunca gostou de gatos, sentiu raiva daquele. De onde veio a raiva, não sabia. Talvez pela forma como o bicho o encarou. O certo é que, num ímpeto selvagem, pegou uma pedra com aproximadamente 10 cm de diâmetro e... jogou.
        A pedra atingiu o animal em cheio e notou que ele urrou, deu um pulo e fugiu, cambaleante, provavelmente sentindo muita dor. Não sabe se o bicho morreu por causa da pedrada. Porém, gostou do que fez. Gostou mesmo. Aquele urro foi delicioso, um bálsamo para seus ouvidos. Acredita, até hoje, que foi a partir daquela pedrada que percebeu que seria um matador de gente. Um assassino profissional. Um ladrão de almas. O deus-morte do nordeste. Sorriu.
        O outro incidente deu-se dez anos depois, quando tinha vinte anos.
        Menino novo e inexperiente. Estava com o Mateus, seu amigo de infância. Voltavam de uma festa, bêbados, e haviam enchido a cara de batida de maracujá. Ambos usavam armas, revólveres calibre 22, que colocavam no cós da calça. Coisa de interior nordestino, claro. Voltavam a pé e passava das cinco horas da madrugada. Andavam, cambaleantes, na maior zoeira, rindo e soltando piadas.
        De repente, avistaram um gato preto (quer dizer, não tinha certeza de que era preto - poderia ser marrom ou cinza ou... sei lá), que rebuscava uma lata de lixo tombada. O gato, entretido na tarefa de procurar comida, não os viu. O local? O mesmo terreno abandonado, ao lado da mesma casa verde. Na época não havia percebido a coincidência.
        Sem saber como, numa veneta doida, sacou o 22 e apontou para o gato. Afinal, sempre os detestou. Desde menino que considerava os gatos seres preguiçosos e nojentos. Cresceu bem longe deles, pois não os suportava.
        Mateus, mesmo bêbado, resolveu intervir:
        - Não faça isso, cara. Deixa o bicho em paz. É apenas um gato.
        Continuou apontando a arma para o gato, tentando firmar a mão.
        - Só irei assustá-lo. - disse, mas sabia que pretendia matá-lo. Queria realmente matar aquele gato e ninguém poderia impedi-lo. Só não sabia porque queria matar o gato. Até hoje não soube explicar, a si mesmo, porque atirou.
        Mas o certo é que puxou o gatilho e o revólver explodiu. Seria apenas um gato asqueroso a menos na cidade. Simples. A uma distância de cinco metros, como excelente atirador que era, mesmo bêbado, dificilmente erraria.
        Mas o certo é que errou o alvo. Isso mesmo. Errou o maldito gato. E por uma fração de segundo, o gato se virou para ele e ficou olhando. Um olhar... inquietante? O gato sequer se assustou com o tiro. Incrível!
        - Desgraçado! - gritou, com raiva.
        E deu mais três tiros. Três tiros precisos e mortais. Ou quase. O gato pulou, ágil, e foi embora. Desapareceu atrás da casa verde. Nenhum dos tiros o pegou. Nenhum! Como foi possível?
        - Você errou. - Mateus disse, sorrindo.
        - Cale essa boca! - gritou, raivoso - Já disse que só queria assustá-lo.
        Mateus nada disse, mas sabia que o amigo queria matar o gato.
        Repentinamente, uma velha abriu uma das janelas da casa verde e ficou olhando para eles. Foi a única que ouviu os tiros; ou foi a única que teve a coragem de querer ver o que estava acontecendo.
        - O que foi? - gritou para a velha, num rompante de ira. Até arrependeu-se de ter gritado, mas já era tarde demais.
        A velha, fria e calculista (morena, rosto enrugado e antipático), ficou em silêncio e apenas o olhou. Um olhar... inquietante? Ou havia ódio neles? Parecia uma bruxa medieval. Que velha assustadora, sô! Nunca a tinha visto antes. Depois soube que a velha vivia sozinha e que tinha por companhia... gatos. Isso mesmo. Ela criava pelo menos uns dez gatos, um mais feio que o outro. Meu Deus! Parecia uma louca. Era viúva e vivia da pensão que o marido deixara. Também lia as mãos das pessoas, fazendo previsões do futuro e outras mandingas de cartomantes. Além de fazer partos caseiros e benzeduras. Um negócio sinistro.
        Arrepiou-se e nem quis mais olhar a velha. Tinha tentado matar um dos seus gatos e notou que ela não gostou nem um pouco. De repente, sua raiva passou e o que sentiu foi sono e um cansaço mórbido. Voltou a andar, Mateus do seu lado, para o quarteirão onde residia.
        O gato não tinha nenhuma mancha branca num dos olhos, tinha certeza disso.
        Mateus morreu no ano passado, com câncer no pulmão. Fumava muito, o sujeito.
        O terceiro incidente se deu quando tinha trinta anos. Mais uma vez dez anos depois. Este se deu na estrada. Dirigindo seu opala na periferia de uma cidade vizinha, à noite, atropelou e matou, sem querer, um gato. Foi sem querer mesmo, pois não o viu atravessar a rua, na frente do carro. Sentiu apenas o forte impacto nas rodas do veículo. Esmagara o bicho e, dando uma olhada para trás, viu vísceras, órgãos triturados e sangue, muito sangue. Lembrou que, na época, não sentiu medo e chegou a sorrir, mesmo sem saber porquê. Sorrindo, seguiu destino e deixou o cadáver do gato para trás.
        Voltando ao presente, novamente se perguntou se tais incidentes teriam algo a ver com os gatos que o seguiam.
        Acreditava que não. Quer dizer, esperava que não tivesse.
        A velha... a casa verde... os gatos...
        Três incidentes com gatos, com dez anos de diferença de um para o outro... E agora estava com quarenta anos... quarenta anos...
        Tremeu de leve, pensando que poderia...
        Afastou os pensamentos e terminou de tomar o café. Suas mãos tremiam.

V
        Os gatos o atacaram!

        Continua...
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 10/02/2006
Reeditado em 11/02/2006
Código do texto: T110304
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14850 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 20:45)
Joderyma Torres