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A Menininha da Praça

Noite de verão de 2004.  Fôra um dia difícil, atarefado, estava casado.  Não costumo demorar a pegar no sono, e tenho sempre noites agradáveis.  Mil problemas na cabeça mas quem não os têm?  Contas a pagar, prestações, problemas familiares... mas nada que uma boa noite de sono não ajude a relaxar.

Foi quando ouvi pela primeira vez...  um ruído característico, peculiar.  Vinha da praça que fica atrás do meu prédio.  Um barulho de balanço, daqueles que as crianças ficam se balançando, um ruído de metal enferrujado, arranhando em cada ida e volta.  Nada para se estranhar mas o fato é que eram 2 horas da manhã!  Quem estaria balançado a essa hora?
Curioso, espiei pela janela do prédio, dava para se avistar não muito longe a praça... lá, pude ver com clareza uma menininha.  Deveria ter seus 9 anos, não mais.
Ela se balançava alegremente, seus pés apontavam para o céu a cada ida do balanço.  Tudo muito normal mas... aquela hora?

Fiquei intrigado e fui dormir. Dormi com o ruído metálico do balanço em minha cabeça e nem sei se ela ficou mais tempo lá ou não, simplesmente eu dormi.

Na noite seguinte, fui dormir e nem me lembrava mais da noite anterior.  Estava como sempre, exausto e nem havia comentado nada com ninguém.
Então ouvi pela segunda vez.  Alguém se balançava novamente.  Acendi a luz e olhei para o relógio.  Uma e trinta da madrugada... corri para a janela e lá estava ela, toda alegre, a balançar.
 
A praça atrás de meu prédio era uma praça triste, feia,  andonada.  Poucas crianças iam lá brincar.  Era pouco iluminada a noite. A criança estava se balançando quase que no escuro, e a uma hora dessas!
Ora, que pai seria esse que leva seus filhos de madrugada a uma praça?
Nesse ponto, me dei conta da coisa.  Óbvio que deveria ser uma menina de rua, filha de algum mendigo que deveria estar dormindo na praça.  Senti uma pontada no coração... que mundo cão!  Ela era só uma criança, deveria dormir também alí ao relento, no frio.  De certo, passaria fome. Ah com certeza que sim!
Senti vontade de ir lá, levar algum alimento, um quilo de feijão, sei lá, algo para ao menos amenizar o sentimento de culpa por pertencer a uma sociedade tão hipócrita!  Mas estava cansado, tivera um dia rude. Pensei alto comigo mesmo – amanhã passarei lá e, de certo, o tal mendigo estará lá -
Fui dormir tentando esquecer esse triste problema, afinal, de problemas já bastam os meus!

Na noite seguinte, nem de lembrei do que havia prometido a mim mesmo.  Vida atarefada,  somos absorvidos por nossos problemas, o tempo que resta é para o lazer e bem estar. Afinal não é esse o objetivo da vida?  Direitos e deveres... meus deveres são cumpridos à risca, trabalho, tiro meu sustento, dou minha contribuição à sociedade sendo um elemento útil.  Seria justo agora receber meus direitos também.  Nesse jogo, quem tem tempo para o  “extra” ?  Ninguém tem!

Estava quase pegando no sono e ouvi novamente... sempre o mesmo ruído.  Já nem fui olhar... era ela!  Como a cobrar minha promessa! Como a dizer – olha, eu existo!!! –
Seria isso uma lição de Deus para me acordar meu lado caridoso? Seria uma provação a me atormentar a alma já tão atribulada?
Ora, que penso eu... Era apenas uma garotinha a se balançar num balanço!  Acho que estava ficando esquizofrênico!

Na noite seguinte, chovia!  Uma forte tempestade castigava minha cidade.  Minha insensibilidade era tanta que de novo não me lembrava da praça, se tinha mendigo ou não, muito menos de menininhas se balançando!  Quando a desgraça é alheia, é fácil esquecer.

Foi quando então ouvi novamente!  Não era possível!!!  de madrugada e na chuva?
Que pai desumano seria esse a expor seus filhos à chuva? Seria possível não ter nem um abrigo para um tempo tão horrendo?
Meu coração apertou!  E se fosse mesmo possível?  Se tal pai fosse um bêbado ou drogado, estaria essa menininha a mercê de tal destino?  Era cruel demais!  Mais do que eu podia suportar!
Vesti minha roupa decidido a fazer esse pai ouvir “poucas e boas”!  Que irresponsabilidade deixar uma criança na chuva, no frio... que desse a alguém para cuidar, mas maltratar assim, não!
Peguei um guarda chuva e desci o elevador.  Chovia torrencialmente!  Dei a volta por trás do meu prédio e alcancei a praça.  Pude ver ao longe, o vulto dela se balançando. Triste e dantesca figura!
Estava furioso e seu pai iria ouvir!

Caminhei pela praça mas estava vazia... nenhum mendigo!
Os trovões ribombavam como canhões e a cada clarão via o vulto a se balançar, não muito longe de mim...
Então estaria sozinha?  Que vida cão essa em que coisas assim acontecem!
Com o coração na mão de tristeza, fui até ela, debaixo da maior tempestade... o que iria falar?  Nem se tem o que dizer de cena tão patética e triste... sentia vontade de chorar, mas tinha de ser forte nessa hora!

Aproximei-me devagar... Foi quando então vi por entre a água turva que embaçava minha visão que ela não estava mais lá... de certo, fugira ao me ver!  Coitadinha,  deveria ter medo de mim... afinal, não sabia quem eu era.

Andei até lá e fiquei paralisado!  Um terror se apoderou de mim, meu coração disparou e parecia que ia arrebentar dentro do peito... faltou-me o ar!!!
Trovões iluminavam o local a cada estrondo!  Meu Deus não poderia ser!  Tentei correr mas minhas pernas não obedeciam ao comando!
Vi por entre uma mistura de pavor e desespero o que jamais poderia esperar ver naquele momento!
Não só a menininha não estava lá, mas o balanço estava quebrado!  Só havia a armação de metal e uma grande poça de água no local do balanço!  nada mais havia lá! nada!!!
Senti vontade de gritar, mas o grito não saiu do peito... fiquei lá parado, sem me mexer, sem pensar, sem ação!

Fiquei da mesma forma que ficara a vida toda em relação a desgraça alheia!  Impotente, inútil, apenas um misero ser arrebatado pela torrente da vida!
André da Costa
Enviado por André da Costa em 11/02/2006
Reeditado em 12/02/2006
Código do texto: T110752
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Sobre o autor
André da Costa
Viradouro - São Paulo - Brasil
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André da Costa