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O Pacto

Noite de inverno, 20 de Abril  de 1985.  Vinha dirigindo pela estrada descontraído.  Voltava do trabalho, as coisas iam bem.  Tinha feito ótimos negócios, estava ganhando muito dinheiro. Trabalho honesto, suado, mas eu vencera na vida!
Tinha uma família maravilhosa, minha mulher Elizabeth, e dois filhos, Mariana, de 12 anos e Sérgio, de 16.
Nessa noite havia saído mais cedo, prometi levar Elizabeth e meus filhos ao cinema, era noite de sexta feira... estava feliz!
Foi quando então, de repente, aconteceu.  Um carro vinha na contra mão, um bêbado, maluco, me fez dar uma guinada brusca para o lado, perdendo o controle do carro.  Saí da pista, capotei e fui parar num barranco, pouco abaixo da estrada...
Um silêncio se fez no ar.  Vi-me preso ao cinto de segurança, tonto.
A estrada era pouco movimentada, e se não tivessem visto meu carro cair no barranco?  Tentei sair do carro, vi que estava sangrando na testa.  Senti medo!  Era mesmo só o que me faltava.  E o louco que fez aquilo nem parou para ajudar.
Tinha de dar um jeito de sair dali, pedir ajuda, sangrava cada vez mais... comecei a temer o pior!
Lembrei-me da família... tinha uma boa situação financeira, eles ficariam bem sem mim, mas não era justo!  Porque eu?  Adorava a vida, lutei desde criança para chegar aonde cheguei para acabar tudo assim, do nada?  Não!  Comecei a sentir ódio!  Do louco que fez aquilo, do mundo, da injustiça, de tudo!
O tempo passou... horas a fio, sangrando... ninguém aparecia para ajudar.
Não poderia conceber perder tudo por causa de um louco bêbado na estrada... amava minha mulher, minhas filhas, mais que tudo na vida!  Ah, sim... eu daria minha alma para ter de volta minha família!
Comecei a tussir sangue... temi o pior.  De repente, ouvi uma voz!  Oh felicidade, alguém vira a fumaça da estrada e descera o barranco!  Estava salvo!  Era um homem, abaixou na janela do carro e perguntou – você está bem? –
Olhei para ele, quis esboçar um sorriso, mas desmaiei.

Não sei quanto tempo dormi... estava dolorido, minha cabeça latejava... abri os olhos lentamente.  Elizabeth acariciou meus cabelos, disse baixinho... descanse querido, você nos deu um grande susto!  Mas durma, precisa recuperar as forças...
Dormi profundamente.
Acordei no dia seguinte, com as mãozinhas de minha filha sobre as minhas... que sensação maravilhosa!
- Papai, você está bem?  Sentimos sua falta.  Fique logo bom!
Elizabeth se aproximou e me contou... ficara em coma por uma semana e estava agora em casa, me recuperando!  Graças a Deus! Tudo foi um grande susto!  Apesar de estar acamado, sem poder me levantar, estava bem.  Agora era uma questão de tempo!

O tempo passou lento, os dias quando se está acamado custam a passar.  Elizabeth mudara... não estava mais carinhosa comigo, estava algo até mesmo, rude!  Fiquei cismado!  Sempre a amara e quase nunca tivemos brigas... eu era rico e...  seria isso?  Estaria ela assim por que queria que eu tivesse morrido para ganhar a pensão? A Casa?  Não haveria motivos para ela mudar...
O tempo passou... todo dia tinha brigas em casa.  Estávamos todos nervosos, normal, afinal estava acamado, enfermo, era um peso para eles no momento, mas estava vivo!  Comecei a pensar que no fundo Elisabeth queria que não estivesse!  Teria ela pensado que eu iria morrer, não acordar do coma e ter feito planos com outro homem?  A fúria tomava conta de mim.
Até mesmo meus filhos, me tratavam com ar de arrogância!
Sérgio teve inclusive a coragem de me  perguntar se eu poderia comprar para ele um carro novo!  Afinal eu destruí o que ele pegava emprestado para sair.
Que insensibilidade, num momento como aquele!  Mais preocupado com carro do que com o pai!  Profundo desgosto me dilacerou o peito!
Mariana era outra, mal falava comigo, parecia com raiva de mim... o que eu fiz?  O que Elizabeth deve ter falado a ela na minha ausência, que enregelou seu coração infantil?
O tempo passava, as brigas se tornavam freqüentes... brigas entre eu e Elizabeth, entre Mariana e Sérgio, o ambiente familiar tinha chegado ao fundo do poço!
Chamei Elizabeth e dei um ultimato!
Confesse!  Você quer que eu morra para ficar com a casa e a pensão!
Ela me chamou de louco, havia um ódio em seu olhar, nunca tinha visto aquilo nela!  Para mim estava mais que claro, ela queria que eu tivesse morrido!  E o que é mais doloroso para mim... meus filhos também!

O tempo passou e não aquentava mais aquele inferno!  Fui me arrastando pela casa, alcancei a porta para sair, esfriar a cabeça.  Estava trancada!  Só faltava essa!  Trancar-me em minha própria casa!  Aos berros, Gritei por Elizabeth.
 - Que palhaçada é essa de me trancar aqui?  Ah mas eu sei porque!  Você espera que eu morra ou mesmo vai me matar e quer que os vizinhos não me vejam vivo!  Vai ver já deve ter até dito a eles que já morri!
Estava enlouquecido, enfurecido.  Mariana e Sérgio apareceram e se limitaram a brigar entre si, xingando um ao outro, nunca os vi agirem assim...

Estava desesperado, não podia mais viver aquela vida. O acidente me fez ver a realidade, o monstro com o qual estava casado e os filhos ingratos que tinha!
Não agüentava mais ficar nem mais um minuto naquela casa!  Preferia a morte a viver naquele inferno!
Arrastei-me até meu quarto, abri a mesinha de cabeceira e empunhei minha arma, que sempre ficava ali...
Minha casa estava mudada, era um lar feliz, agora era aquilo!  E tudo por cobiça, meu dinheiro!  Não podia mais!
Apontei a arma para a cabeça e disparei!  A bala entrou em meu cérebro, pude sentir queimar os miolos mas... não morri.
Dei então um segundo tiro... sangrava, mas não perdia a consciência!
Elizabeth entrou no quarto e simplesmente sorria para mim!  Sim, sorria, era isso que ela queria não é?  Pois era isso que iria acontecer, iria me matar mesmo!
Dei um terceiro tiro, também na cabeça.  Nada.
Olhei para Elizabeth e vi em seu semblante um olhar de indescritível maldade!  Essa não era a Elizabeth que eu me casara!
 
Meus Deus, agora compreendia!  A lembrança me veio a cabeça como um relâmpago!
Durante o acidente,  ainda preso dentro do carro, eu pensei -   “daria minha alma para ter de volta minha família”
Agora eu compreendi... naquele 20 de abril de 1985 eu não me salvara, como imaginei.  Eu morri, mas dei minha própria alma, pouco antes de morrer!
E o Diabo cumpriu sua parte,  me deu de volta minha família...  mas no inferno!
André da Costa
Enviado por André da Costa em 15/02/2006
Reeditado em 16/02/2006
Código do texto: T112360
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Sobre o autor
André da Costa
Viradouro - São Paulo - Brasil
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André da Costa