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Papai

Introdução.

É um conto pesado, se não se sentir à vontade com violência e apelo sexual, aconselho à não ler. Mais da introdução no final do conto, pois senão vira exploit.


Papai

Não consigo me lembrar a quanto tempo estou preso, a última coisa que me recordo foi de ter saído do trabalho e ter entrado em meu carro. Agora acordo com uma puta dor de cabeça, ainda consigo ver pontinhos brancos no meu campo de visão. Levo vários segundos antes de conseguir discernir algo a meu redor. Estou em uma espécie de masmorra, com correntes partindo dos meus braços e pernas e preso à parede. O único ponto de luz provém de um buraco na parede logo à minha frente, cerca de 3 metros distante de mim. O odor é terrível, rançoso e pesado, quase é possível cortá-lo no ar, uma mistura de fezes, decomposição, doença e o mau, puro e simples. Se Grenouille estivesse aqui, teria um colapso, com seu olfato sobrenatural. O quarto tem cerca de 3x3 metros, mas não consigo ver muita coisa a escuridão é tão pesada quanto o odor. A luz que entra pela parede me permite ver muito pouca coisa, apenas minhas correntes, a parede atrás de mim e partes do meu corpo. Tento forçar meu corpo para frente, com toda a minha força, mas é inútil, após várias tentativas o máximo que consigo é machucar meus pulsos e tornozelos. Mudo de tática e começo a gritar por ajuda até onde minhas cordas vocais me permitem, também inútil, o único som que escuto é o meu próprio eco na sala quase vazia. Exausto, começo a choramingar, nada disso devia estar acontecendo, estou em pleno século XXI, morando numa grande cidade, lugares como esse onde estou não deveriam nem mais existir. Tento convencer minha mente de que tudo é um sonho e vou acordar logo, provavelmente gritando e arfando, mas não consigo, é tudo muito real. Começo novamente a puxar as correntes e gritar por socorro desesperadamente, me machuco bastante dessa vez e minha garganta parece que está forrada com cacos de vidro. Penduro-me nas correntes e mesmo achando que nunca mais iria conseguir dormir, adormeço.

Acordo. Não sei quanto tempo se passou, mas meus braços ardem como se houvessem sido arrancados. Não é uma boa idéia dormir pendurado pelos braços. Fico novamente de pé, estou fraco e quase caio, mas consigo me manter de pé. Além do fedor e da escuridão, agora a temperatura ambiente parece ter subido para uns 45 graus. Estou completamente suado e os insetos fazem do meu corpo um parque de diversões. Começo a imaginar quem poderia ter feito isso comigo, faço uma lista mental de todos os meus inimigos e pessoas a quem prejudiquei, a lista é imensa, afinal eu sou um advogado e advogados fazem muitos inimigos no decorrer de sua carreira, tento diminuir o tamanho da lista, para apenas casos de ódio extremo, a lista continua grande. Meu estômago começa a doer, me dou conta que não como ou bebo nada desde que saí do meu escritório, não sei quanto tempo atrás. Distraio-me o máximo que posso, fazendo minha lista mental de inimigos, mas não consigo mais me concentrar nisso e o terror novamente cai sobre mim. Começo a me desesperar novamente, mas já não tenho forças para tentar arrancar os grilhões da parede, meus tornozelos e pulsos estão em carne viva. Minha mente começa a deslizar lentamente rumo ao desfalecimento, tento me manter acordado, mas minhas pálpebras ficam pesadas e começo a piscar incontrolavelmente.

- Acorda seu filho da puta. - Escuto uma voz infantil arranhando no fundo de minha mente.

Abro os olhos, assustado, totalmente desperto dessa vez. Parada a poucos metros de mim, está uma garotinha com lindos cabelos louros caindo até a cintura. Ela usa um vestido rosa com babados e uma fita no cabelo, combinando com o vestido. Abraçada junto a seu corpo, leva uma boneca de porcelana, daquelas muito antigas. Seu olhar é triste, mas ela não aparenta medo. Começo a recuperar a esperança de conseguir sair desse lugar e depois tentar descobrir quem fez isso comigo.

- Ei, garotinha, qual o seu nome? - Eu pergunto.

Ela nada responde, apenas fica me olhando, com os grandes olhos azuis e tristes. Por um momento, acredito que já a conheça de algum lugar.

- Onde estamos? - Continuo o interrogatório.
- Eu quero sair daqui, será que você pode me ajudar?

Novamente nenhuma resposta, mas agora ela começa a se aproximar de mim.
Tenho a impressão que ela não move os pés, é como se ela estivesse flutuando, porém provavelmente é apenas minha mente cansada me pregando alguma peça. Ela chega perto o suficiente para que eu possa sentir o seu cheiro agradável, aquele cheiro de sabonete e xampu infantil. Ela levanta o rosto e me encara, com um sorriso tão brilhante que por um momento acho que vou enlouquecer. Delicadamente ela deixa seu braço direito pender ao lado do corpo, solta sua boneca de porcelana, que cai no chão e fica me fitando com seus olhos vazios. A garotinha começa a acariciar o meu corpo que estremece a seu toque. Um misto de prazer e repugnância percorre meu corpo, de baixo para cima, arrepiando todos os meus pelos. Suas mãos delicadas descem em direção ao meu pau e começam aquele movimento de vai e vem e, mesmo contra todas as probabilidades devido as minhas condições atuais, tenho uma ereção tão forte que parece que minhas bolas vão explodir. O pequeno anjo move sua boca em direção ao meu instrumento e continua o movimento que tanto me agrada. Ao longe a escuto dizendo: "Você gosta disso, não gosta, papai?".
Talvez tenha sido somente minha mente pregando mais uma peça, já que olhei para ela e não parecia emitir nenhum som. Aproximo-me do êxtase e quando estou para explodir, o prazer é trocado por uma dor incomparável, algo que eu nunca senti em toda minha vida, mesmo na época em que era criança e caí da laje, quebrando vários ossos e, como castigo meu pai ainda me surrou antes de me levar para o hospital. A dor vem subindo, do meu ventre até meu estômago e sinto um líquido quente escorrendo entre minhas pernas. Fico com medo de olhar para baixo, mas me forço a olhar. O que vejo quase faz minha mente se partir em pedaços. No lugar onde estava meus órgãos genitais agora se encontra apenas um grande buraco, pelo qual jorram jatos de sangue e pedaços de órgãos jazem pendurados. Olho para a garotinha, mas agora seu rosto se transformou nas faces de um pequeno demônio, com uma boca redonda e cheia de dentes pontiagudos, lembrando aquelas ampliações das faces dos vermes, que vemos nos livros de ciência. A menina-demônio-verme parece sorrir para mim e vejo dentro de sua boca ensangüentada as partes que agora me faltam. Tento gritar, mas não consigo, fico paralisado e mudo de terror.
Todo o meu corpo começa a tremer, minhas pernas falham e fico pendurado apenas pelos braços. A dor continua e imploro para acordar desse pesadelo, desmaiar ou morrer de uma vez, mas nada disso acontece, continuo acordado, a dor se infiltrando em todos os pontos do meu corpo, mal consigo pensar.
Minhas pernas agora estão completamente vermelhas ensopadas com o meu sangue.

- Você gosta disso, não gosta papai? - Novamente a voz em minha mente. E a criança-demônio enfia sua mãozinha pela abertura em meu ventre. Suas garras cortam como uma navalha bem amolada e sinto alguma coisa se romper dentro de mim. A essa altura dor já passou qualquer ponto suportável, mas minha mente se recusa a apagar. Ela parece estar procurando algo dentro de mim, sinto suas garras me cortando por dentro e abrindo caminho através dos meus órgãos; intestino, estômago, esôfago e chegar ao coração. Sua mão se fecha em torno do dele e começa a apertar, imploro pela morte, mas não sou atendido. A dor, não consigo mais pensar, lágrimas descem em rios pelos meus olhos e o sangue jorra pelo meu ventre enquanto ela puxa seu braço, segurando meu coração em sua mão pequenina. Não acredito no que vejo meu coração ainda pulsa em sua mão, e eu continuo vivo, em frangalhos, mas vivo.
Acredito que seja a dor, deixando minha mente turva, pois isso é impossível, ninguém sobrevive sem o coração.

- Você gosta disso, não gosta papai? - A maldita voz em minha mente se eleva mesmo acima da dor. - Trouxe mais alguns amiguinhos para brincar com você.

A luz que entra pela parede oposta pisca por alguns instantes e entre uma piscadela e outra, vejo que mais e mais crianças, ou seja lá o que forem, surgem diante dos meus olhos. Vários meninos e meninas, com idades variadas, mas nunca mais velhas que uns 10 anos de idade. Grito para se afastarem de mim, mas não me escutam e continuam avançando, com os olhos vazios e um meio sorriso no rosto.

Algo se rompe em minha mente, acho que enlouqueci completamente, mas a dor não desaparece e a única coisa que consigo sentir além da dor é aquela voz:

- Você gosta disso, não gosta papai?


Nota retirada de um jornal de grande circulação nacional.

Foi feita justiça? Por Ronaldo Soares.

"Faleceu ontem, em um acidente de carro, Richard Silvestre. A causa da morte foi traumatismo craniano, após acertar de frente um caminhão que vinha na contramão. Richard ficou conhecido há 5 anos, após ser acusado de estuprar e matar mais de 30 crianças. Advogado brilhante fez sua própria defesa e foi inocentado, mesmo havendo provas suficientes para condená-lo.
Aproveitou-se de uma brecha no sistema legal e conseguiu sair livre de todas as acusações. A única menina que conseguiu fugir do cativeiro reconheceu Richard e descreveu com detalhes todas as atrocidades as quais ele a obrigava a se submeter. Ela ainda contou que ela a obrigava a chamá-lo de papai, apelido pelo qual ficou conhecido na mídia. Procuramos algumas das mães e perguntamos se achavam que a justiça havia sido feita finalmente. A maioria disse que sim, que ele teve o que mereceu. Mas uma delas disse:

- Foi muito pouco para ele, pois ele não sofreu nem um décimo do que causou às nossas crianças. Deveria ir parar no inferno, onde sofreria horrores durante toda a eternidade.”.


Introdução (continuação)

Escrevi esse conto a algum tempo, pensando na reportagem onde um rapaz pulou da janela após a polícia federal confiscar seus computadores, onde havia fotos de pedofilia. Pensei comigo, isso foi pouco, qualquer animal que faça uma coisa dessas com uma criança, merece sofrer eternamente. Então saiu esse conto, espero que tenham gostado.
Khapeta
Enviado por Khapeta em 26/02/2006
Reeditado em 23/04/2007
Código do texto: T116183
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Sobre o autor
Khapeta
Nova Iguaçu - Rio de Janeiro - Brasil, 39 anos
2 textos (425 leituras)
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