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Eu fui um Demônio

A Floresta começa a escurecer.
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São 16:30, e entre as árvores as primeiras sombras noturnas aparecem. Logo a lua irá se pôr. E outra vez a agonia voltará.

Agora estou tranqüilo. Mas essa tranqüilidade é o prenúncio da minha agonia.
Aqui estou, sozinho, nesta cabana, longe da cidade e das pessoas.

Como tudo começou?Por quê estou aqui??
Não sei ao certo, vai ver foi quando, ainda criança, eu cortei minha mão naquela cruz no cemitério, no dia de finados, e me sentei no portão da casa dos mortos, onde várias pessoas estavam; umas vendendo, outras comprando; velas, flores; alguma coisa para deixar nos túmulos;
Talvez aquele cão enorme, negro, de pelos lustrosos, que lambeu minha ferida; não sei ao certo. Talvez isso não tenha explicação. Simplesmente aconteceu; o certo é que não sei.
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Logo a lua se porá: O que irá acontecer?? Não sei!!
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Voltei a mim no curral de um sítio. O cheiro das fezes dos animais me fez acordar. Bem na hora. Ouvi passos se aproximando. Logo me escondi em meio ao mato do lado do curral. Um senhor de idade, perto dos sessenta ou setenta, apareceu para soltar as duas vacas magras e o cavalo de carroça. Os animais saíram a passo lerdo. Estavam a vontade. Abanavam a cola para espantar as moscas. Pensei que ele ia tirar leite, mas olhando o estado das vacas , vi que isso seria impossível. Esperei ele voltar para dentro da casa. Entrei de novo no curral.

Só então eu percebi meu estado. Estava nu. Cheio de titica de galinha no corpo e esterco de gado no cabelo. A minha perna direita estava sangrando. Tinha arranhões por todo meu peito. Pareciam arranhões de espinhos....................

Aconteceu de novo!!! Eu sei!! Eu sinto!! Espero que tenha sido um Animal. Deus!!! Não consigo me libertar!!! Porquê!!! Porquê isso acontece comigo?? Porquê??

Porquê não consigo lembrar de nada?!
Bem, talvez seja melhor assim, meu inferno já é enorme e eu não agüentaria mais.
Fui criado em meio a orações, meus pais eram católicos fervorosos. Fui batizado, crismado, sempre ia ás missas.

Porquê?? Merda!!! merda, será que não será mais fácil eu mesmo dar cabo de mim?? Mas... e minha alma?? Será que já a perdi?? E se não a perdi?? Será que não irei perdê-la cometendo suicídio??


Já faz dois anos que me afastei das cidades e das pessoas. Dois anos. Dois anos vivendo aqui, neste fim de mundo, isolado, sem ninguém para conversar, só os pássaros. Será que de nada adiantou??

A próxima noite de lua cheia será daqui a duas semanas. Até lá teria que resolver tudo. Já não agüento mais estes malditos arranhões no peito e nas pernas. Estão inflamando. O corte da perna é profundo. Deve ser arame farpado.
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Tenho saudades de um corpo de mulher. A minha mônica... Só depois eu vinha a saber que ela estava esperando nosso primeiro rebento.
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Oh!- malditos sejam, todos aqueles, que me caçam sem piedade, e que não alcançam sucesso. Que tenham mais sorte na próxima investida, para meu sossego.
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No espelho eu noto a minha imagem. Estou mais magro, perto de 65 quilos, meu corpo de 1,73 começa a se curvar para frente, meu rosto está coberto por uma espessa barba. Também, dois anos sem fazê-la. No lugar aonde vou a beleza não importa.
 
Ontem escutei um barulho de cavalos, e cães. Os caçadores estão chegando perto. Tomara que me encontrem antes de sexta. Sexta é dia de lua , e o pior, é dia 13, não gostaria de passar essa danação maldita a mais nenhuma alma.
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Não posso andar. A perna direita infeccionou e tive que cortar mais abaixo do corte, fazer o sangue correr para fora. Saiu um líquido meio esbranquiçado, onde a ferida fora feita. Sangue podre. Meu , ou dele??
Não sei porque fiz isso, afinal eu estou rezando, pedindo a minha morte. Esperando por ela aqui trancado. Acho que meu instinto de auto preservação. A verdade é que estou com medo de morrer.
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Queria ver mônica... Eu não pude me controlar. Esqueci que dia era e resolvi sair com ela. Um erro que pago até hoje.
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Já aconteciam coisas estranhas comigo desde os 15 anos, na puberdade. Toda sexta eu me trancava em casa. Meus amigos enchiam meu saco para sair, me chamam de bicha, maricas, florzinha, porém eu me escondia, e só saia no sábado e domingo.

Por quê me escondia?? Na época eu não sabia. Era algo instintivo. Tinha dores de cabeça horríveis nos dias que se seguiam ás noites de lua cheia. Então comecei a acordar em lugares estranhos, e sempre nu. A primeira vez que aconteceu??
Não consigo lembrar direito, deixe-me ver.... A primeira vez eu acordei nos fundos de um galinheiro. Estava nu, com frio! Olhei ao meu redor assustado!!! ‘Como eu fora parar ali?? O que tinha acontecido comigo??
Meu corpo estava coberto de titica de galinha. Um cheiro horrível saia da minha boca. Olhei ao redor. Vi umas camisas velhas jogadas na cerca do galinheiro. Peguei duas. Uma eu amarrei na cintura.


E essas coisas começaram a se tornar freqüentes. Quatro anos se passaram sem eu saber o que estava acontecendo. E durante esse tempo todo eu agüentei merda em meu corpo todo sábado depois de uma sexta de lua cheia.

Comecei a ler diversos livros sobre demonologia, vampiros, lobisomens, mas nunca encontrei algo que se encaixa-se a mim. Ao meu caso. Galinhas, pombos, corujas, coelhos; no começo eram aves, ou pequenos animais; eu acordava, como sempre, em lugar incerto, nu, e com sangue em meu corpo, junto com arranhões e pequenos cortes, além das fezes.
A comida que minha mãe fazia, por assim dizer, meu estômago começou a recusar. Comia uma quantidade cada vez menor a cada dia que passava. Meus pais notaram que algo de errado acontecia comigo. Eu fiquei com medo de machucá-los. Resolvi me mudar.

Fui morar sozinho em uma cidade maior, onde não me notassem. Nessa época apareceu Mônica. Saíamos volta e meia juntos, mas eu nunca saía ás sextas; Por ter saído de casa, morar sozinho e não ter uma namorada, os meus amigos do trabalho me enchiam o saco, nada que eu já não conhecesse, me chamavam de viado, tapado, burro, idiota, etc.. mas isso era café pequeno perto do meu pesadelo.

Comecei a atacar os animais no zôo. E humanos também. A fome era grande e eu tinha de saciá-la, não, eu não, ele.

Porquê tinha de acontecer logo com ela?? PORQUÊ?? Eu gostava dela... Era simpática. Não era bonita. Mas era gostosinha. Isso, era gostosa. Tinha um corpo que me fazia perder o jeito. Eu ficava encabulado, quando estava com ela. Talvez devido ao fato de eu nunca ter me aproximado tanto de alguém devido ao meu problema.

Me lembro do primeiro beijo. Seu cheiro.... Sua pele.... Sua boca vermelha, seus lábios úmidos...hahh... sua língua na minha ... A respiração entrecortada... Eu me lembro que afagava seus longos cabelos negros, deslizando minhas mãos pelo seu costado. Minhas mãos tremiam quando toquei suas nádegas. Ela juntou mais seu corpo junto ao meu. Eu tremia. Meu coração parecia saltar de felicidade. Era a minha primeira emoção do toque, do sentir outro corpo junto ao meu... A primeira e única vez... Eu estava no paraíso. Transamos na sala, na cozinha e no banheiro. Em todos os cantos do seu apartamento. Nos tornamos um só. Ela me pertencia, e eu pertencia a ela. Eu ia descobrindo caminhos em seu corpo que antes não conhecia. Seus olhos eram lindo... Os peitinhos durinhos... eu sugando-os, seu sexo era delicioso, saia um perfume inebriante...

AAAAhhhiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!! Aaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!! Ahhhhhaaa!!! Maldição!!!! Maldito!!! Eu. Eu!!! Porquê??? Porquê eu?? Porquê ela???? PORQUÊ??


Me lembro de quando acordei... Deus!!!! Que horrível!!! Quanto sangue no seu apartamento. Havia uma linha de sangue que ia do quarto ao banheiro. Ela havia sido arrastada. Sangue por todos os lados. O sofá esta todo vermelho, rasgado, e quando cheguei era azul. Poças coaguladas no piso. Encontrei pedaços de seus membros superiores ao lado da porta do quarto. Na cama suas partes internas estavam dispostas.

Sai tonto pela sala. Encontrando a cada passo um pedaço dela. Ó Céus!!! Fui eu!! Eu!!

Peguei minha mochila, coloquei umas camisetas e calças e me mandei. Não olhei para trás. As trevas me envolviam cada vez mais. O inferno estava comigo. O Demônio devia estar rindo ás custas do meu tormento. Ele me deu uma noite de amor, e o resto da minha vida foi só chagas, arrependimento e dor.
Uma noite só. Quanta saudade.... Ele havia me tirado família, amor, namorada, nada mais eu tinha para ele, só minha alma; Porém se era isso que o Diabo queria, ele teria que suar um bocado.

Quando eu era eu, e não ele, eu expiava meus pecados, me punia, eu rezava até escurecer. Jamais havia perdido minha fé. Pois acreditava que era essa fé que haveria de me salvar.... mas os anos foram se passando...

Andei durante tempos, de cidade em cidade, comprando companhias e amizades na noite para saciar meu apetite. Não tinha paradeiro fixo. A cada lua cheia minha alma mais se afundava nas trevas. Meu espírito aprendeu a chorar em silêncio.
A covardia sempre me impediu de acabar com esse pesadelo. Diversas vezes provoquei incidentes esperando uma punição mortal. Mas eu ainda estou aqui....

Tento escrever para passar o tempo. Tempo, maldito tempo de merda. Essa chuva que não acaba mais acabou afastando os caçadores. Torço para que me achem logo. Quarta feira a lua cheia aparecerá. Espero que eles venham preparados para o terror, caso venham na sexta.

Minha perna me impede de movimentar-me pela cabana. Então continuo a descrever meu pesadelo. Meu inferno pessoal.
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É hoje!!! Tem de ser hoje. eu pressinto. Pior para aqueles caçadores idiotas. como podem ser tão burros, virem ao meu encalço justo hoje.

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AAaaiiiii!!!! Eu rolo no chão da cabana.
Que dor!!! Isso queima!!! Me arrasto. Minhas mãos!!! Meu Deus!!! Esses pelos!!! Aaaiiii.....eles conseguiram! Graças a Deus!!! A vista começa a se nublar. Escarro sangue. Me arrasto até a frente do espelho. Meu Deus!!!
Eu fui... um... um... um Demônio!!! consegui pegar um papel e caneta, um dos caçadores parece entender o que estou fazendo, segura minhas mãos sangrentas..Estou morrendo...Obrig...
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PEGUEI ESSE RELATO NA CABANA ONDE MATAMOS AQUELA COISA.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 27/02/2006
Reeditado em 13/08/2007
Código do texto: T116570

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes