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A Escadaria do Prédio Miller

Era aniversário do meu sobrinho.  Uma linda festa, muitos convidados, estavam todos felizes.
Na mesa, lugar para 12 pessoas, era uma alegria muito grande ver toda a família ali reunida.
Sentei-me junto a meu sobrinho, que estava eufórico por ter ganhado de presente o que ele mais queria... um videogame!
Comi com muita satisfação, como não comia há muito tempo.  Bebi um bom vinho, afinal festas para que servem?
Estava com meus 45 anos, não deveria abusar tanto, ainda mais porque eu era cardíaco, já tivera problemas antes com o coração mas... festa a gente perdoa tudo!

O tempo passou rápido, como o tempo passa rápido quando a gente se diverte!  Já era noite e muitos já tinham ido embora quando de repente acaba a luz!  Tudo no escuro!  Rápido, as empregadas trazem grandes candelabros com velas.  Falta de luz agora não seria mais problema se não houvesse o fato de estar no décimo quinto andar de um prédio!  Descer de escadas?  Nem pensar, ainda mais eu, preguiçoso como era, exercício nunca foi a minha praia.
Resolvi esperar e continuar o papo, que por sinal estava muito animado... mais comida... mais vinho... e o tempo passa.

Duas horas se passaram, já estava ficando tarde, morava longe, tinha de ir!  O jeito era encarar esses 15 andares!  Afinal não seria nenhum drama, desceria de 5 em 5 e descansaria entre os andares.

Despedi-me de todos, de meu sobrinho, e empunhei uma vela, seria mais que suficiente para chegar lá com alguma luz.

Entrei nas escadarias pela pesada porta de aço onde se lia “emergência”.  Estava um breu total, só a fraca luz da vela tremulava mostrando timidamente, os degraus a minha frente.
Deixe de preguiça homem!  - pensei eu -  avante!

Comecei a descer.  Aos primeiros andares já notava que a mocidade a muito me deixara e os anos de sedentarismo se fizeram transparecer... já estava cansado!

Fui descendo, degrau por degrau, iria contar uns 5 andares para parar e descansar um pouco.  Eu bufava!  A vela mal iluminava e eu por mais de uma vez quase que tropeçava nos degraus.

Descansei 10 minutos nos 5 primeiros e de novo me pus a descer mais... Sinceramente estava resolvido a melhorar minha forma física, estava muito debilitado para qualquer atividade.  Anos de festas, bebidas, fumo cobravam o seu preço!

Foi quando então senti uma pontada no peito.  Uma dor aguda, velha conhecida minha.  Droga, justo naquela hora!
Sentei-me na escada para descansar um pouco, estava exausto.
Lembrei-me dos tempos de criança, quando subia rampas e escadas como um foguete!  Ah os tempos de criança que não voltam atrás!  Perdido em minhas lembranças, com o cansaço que estava, cochilei por um instante!

De repente, um grito!  Um grito terrível, vinha de andares abaixo dos que eu estava... seria alguém que pudesse ter caído e rolado escada abaixo?  Afinal eu mesmo quase rolara há um tempo atrás
Levantei-me e notei que a vela havia acabado.  E agora?  No escuro!  Estava um breu total, não via nem minhas mãos em frente à face!
Tinha de continuar a descer, não havia jeito... subir, isso meu físico não agüentaria nunca, mal estava conseguindo descer!

Fui tatiando com as mãos a parede da escada, e descendo, pé ante pé, os degraus... demoraria muito a chegar mas não tinha jeito.
A escuridão era total e eu tinha perdido completamente a conta de quantos andares descera.  O jeito era continuar a descer

Com as mãos grudadas na parede, notei que as mesmas ficavam cada vez mais úmidas e viscosas a cada lance de andar que descia... e havia um cheiro desagradável no ar, uma atmosfera sufocante, insalubre...  comecei a ficar extremamente angustiado, ainda mais por que eu já descera muito e nada do térreo chegar.

Comecei a ouvir vozes... era uma mistura confusa, um coro de choro, sussurros, gritos agoniados, sei lá o que era, só sei que muito me angustiavam!

Apalpei meus bolsos e peguei minha caixa de fósforos, seria minha única luz ali... ascendi um e tentei abrir uma das portas de aço que davam para o andar, estava trancada!  Que absurdo, essas portas nunca podem ficar trancadas!  Queria ver em qual andar estava porque tinha a sensação que já descera os 15 andares a muito tempo!

Continuei a descer, pé ante pé, devagarzinho... a escuridão era total.  Notei então que havia alguém nos degraus pouco abaixo de mim.  Tentei falar-lhe mas nada!  Não respondia, ficava ali, mudo, em pé a minha frente.  Quem seria?  Alguém como eu, perdido na escada?  Tentei novamente um contato mas nada, permanecia mudo!  E o mais estranho é que aquela pessoa exalava um cheiro insuportável, chegava a feder mesmo!

Continuei a descer... mais, e mais... até que me desesperei!  Meu Deus, já desci muito mais que 15 andares e esse prédio só tem 15 andares!  Teria eu passado do térreo e alcançado algum anexo, alguma obra de metrô por baixo do prédio?  E por que descia sempre?

O suor frio me banhava a face!  Comecei a notar com as mãos que as paredes estavam imundas, não é à toa que exalavam esse cheiro terrível... e aqueles gritos, aquelas vozes vindas sempre de baixo, o que haveria lá?

Sentei-me nos degraus e senti novamente a presença de alguém do meu lado... não via nada, dada a escuridão total, mas tinha alguém ali!  Exalava um cheiro nauseabundo, eu tremia só de sentir aquele cheiro!  E não dava uma palavra... apenas ficava no breu a me olhar, fixo como uma estátua!

Estava apavorado, acho que ia ter um treco!  Tinha agora de subir as escadas, na esperança de alcançar novamente o décimo quinto andar, onde estariam meus familiares, ficar longe desse pesadelo!  Nunca deveria ter descido!
 
Mais movido pelo desespero do que por qualquer coisa, me pus a subir!  Degrau por degrau!  Já nem pensava no cansaço, só queria sair daquele lugar horroroso!

Subi... Subi... mais de hora se passou, quando de repente tropecei numa coisa!  Abaixei tateando no escuro e vi que era um corpo de uma pessoa!  Provavelmente a que teria dado aquele horrível grito!

Peguei no bolso a caixa de fósforos e ascendi um!
Uma sensação de terror se apoderou de mim... quis gritar, correr, chorar, todo meu corpo estava em choque!  Sob a luz tênue do fósforo pude ver que aquele corpo tombado na escada era... eu!!!

Mil pensamentos fervilharam em minha mente, parecia que ia enlouquecer!  Um suor frio me banhava a face.  Nunca fui uma pessoa religiosa, nunca pratiquei nem freqüentava igrejas, mas o pouco que sabia me davam uma noção de céu e inferno!

Então era isso.  Recordei da dor no peito horas antes! Eu naquele momento que recostei para descansar não cochilei, como havia pensado, mas tinha morrido ali sentado!
E agora meu espírito estava aqui, a vagar, vendo o próprio corpo!  Meu inferno seria esse, vagar pela escada, preso nessa escadaria, para sempre!

Dei um grito de pavor, desci as escadas correndo, trombando com as paredes, gritando feito louco, descendo e subindo, sempre!

Uma escadaria que para mim não teria mais fim...
André da Costa
Enviado por André da Costa em 14/03/2006
Reeditado em 30/03/2006
Código do texto: T123351
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Sobre o autor
André da Costa
Viradouro - São Paulo - Brasil
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André da Costa