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Mestre dos desejos – A vampira astral

Caminhava lentamente pela rua. Àquela hora da madrugada, apenas os bêbados e as prostitutas perambulavam pelas esquinas. E qualquer um que se aproximasse, era abordado pelos degenerados que há muito foram esquecidos pelo Deus em que acreditam; se é que algum dia, chegaram a acreditar...
 Numa dessas esquinas, porém algo me fez parar para refletir e relembrar o porque de eu estar pelas ruas, vagando àquela hora da noite: Era uma mulher morena que estava sentada no meio fio. A maquiagem borrada e os sapatos nas mãos lembraram-me muito uma pessoa que conheci no passado. Parei para observá-la melhor e notei que estava completamente alcoolizada.

Verão de 1989.

Fui chamada à sala da superiora sem motivo algum, aquela manhã. No colégio interno onde estudava - um dos mais renomados do país – muitas coisas eram ocultadas á sociedade burocrata que ainda fazia o pensamento dos cidadãos. Ninguém jamais iria imaginar que nem ali, onde éramos educadas para respeitar umas ás outras, a desconfiança, inveja e traição pairavam e tomavam seu espaço.
Assim que entrei o clima mudou quase que completamente. Francis, Amélia e Luisa estavam sentadas no sofá, confortavelmente, uma delas até lendo uma revista católica. A superiora me esperava observando os diplomas das muitas alunas que se formaram na instituição desde sua fundação. Ela se virou, com o rosto contraído e mandou que me sentasse, mas tendo em vista o clima pesado que se formara, preferi ficar de pé, atenta a cada palavra que eu sabia, seria atirada a mim como uma punhalada.
Ouvi tudo calada, cada injúria e acusação deferida a mim injustamente. Nada pude fazer perante três pessoas que me odiavam sem motivo definido, três pessoas que teriam minha cabeça a premio...Três pessoas em quem confiei minha vida e meu segredo.
Julgada e condenada a sair daquele refúgio para sempre, segui para meu quarto pretendendo arrumar minhas coisas para ir embora, quando minha colega de quarto apareceu. A maldita mulher que ajudei a sair das drogas, e que agora me traíra da forma mais cruel. Ela trazia um resguardo - típico de quem está arrependido do que fez – na voz. Mas no olhar não conseguia esconder a felicidade e o triunfo de me ver cair.
— a culpa não foi minha... – falou, fingindo falsas lágrimas. – tentei impedir Francis... Ela está cega de ódio...
—não importa... - falei sem ter como olhá-la nos olhos. Sabia que se fizesse isso, certamente ia acabar arrebentando a cara daquela traidora infame. – o pior já passou.
—preciso do seu perdão... – ela falava, quase sem conseguir esconder o sorriso de felicidade ao ver minha mala sobre a cama. – antes que vá embora...
—não precisa fingir mais Amélia...A superiora já deu o veredicto. Fui condenada a um crime que não cometi e você sabe disso... Sabe que jamais roubei ninguém...
—você sabe, minha amiga...Que Francis me manipula...
— Francis não vale nada...Sei disso...Mais você vale menos, porque deixa se manipular por ela... – deferi já sem a mínima vontade de ser gentil como fui ensinada e quase perdendo a compostura perante aquela conversa. – agora se não se importar...Pretendo sair daqui, antes que todo o veneno de vocês três se impregne na minha pele.
—esta sendo injusta comigo...
—não me faça rir...Saia de uma vez, antes que seja acusada por assassinato. E dessa vez...Eu mesma vou á superiora e confesso o crime.
Virando-me as costas, Amélia saiu, batendo a porta as suas costas.

“Aquela foi a ultima vez que a vi, até aquele momento”. – pensei, observando a mulher que reconheci ter sido um dia uma das minhas melhores amigas e traidoras. Dei-me conta de repente que ela tinha se destruído pelo mesmo motivo que acabou com minha adolescência. As Drogas.
- ta olhando o quê? – perguntou, a voz carregada, como certamente estaria também seu pulmão a esta altura da vida... “Muito triste ver um conhecido seu se destruir? Não quando a pessoa merece a autodestruição...”, pensei voltando a caminhar pela noite, deixando a mulher para trás.
Dobrei a esquina na travessa. Não sei o que mudara em mim ao ver aquela maldita pagando pelo que me fez...Felicidade? Quem sabe o que se passa num coração desesperado por vingança, mergulhado na própria dor, anestesiado e semimorto.
Continuei a caminhar, o rosto borrado de maquiagem daquela mulher ainda em minha cabeça.  Fazia-me perguntar a mim mesma se era suficiente o que ela vinha passado todos aqueles anos...Todo o sofrimento, a morte da pessoa que mais amava e por fim a sua destruição. Era-me o suficiente para sentir-me vingada? Não sei responder.

—Ajude-a...! – Gabriel falava-me na memória. Aquele era mais um mecanismo de defesa que projetei para me sentir segura no mundo dos canibais.  Que não sossegam enquanto não sugam sua felicidade até o ponto em que você fica perdido. – Dê a ela o que ela precisa...Não deixe que ele faça sua cabeça outra vez...Ajude-a!

Não dei ouvidos a ele...Aquela não era a primeira vez que ele me falara em pensamento.  Mas era pedir demais, que eu fosse “solidária” com quem não mediu esforços na hora acabar comigo.

Parei novamente no ponto de ônibus. O frio havia aumentado e apertei meus braços dentro do casaco. À noite gelada podia ser percebida na minha respiração. Sentei-me e fiquei olhando a rua deserta.  Fechei meus olhos lentamente, cansada de minha jornada noturna.

Uma musica me veio á mente, sem razão alguma. Era estranho porque já fazia muito tempo que não a escutara. Já nem me lembrava quem cantava na época. Mas aquela foi uma musica que me marcou: In the shadows.

De alguma forma, eu me sentia assim...Inerte ao tempo, como se para mim ele jamais tivesse passado. Á espera para sair das sombras onde me escondo... Caçando meus inimigos e me vingando com as próprias mãos...

Um carro parou no sinal. Tocava a musica de quem meu pensamento se lembrara... Levantei-me e observei o carro com atenção...
De lá saiu um homem alto, cabelos cor cinza e olhos cor de mel, misteriosos. De alguma forma, eles – os olhos daquele estranho – me lembravam algo que a memória, ainda abalada pela visão daquela mulher, me ocultava.
Ele correu até mim e se sentou ao meu lado. O calor do seu corpo se chocou contra o meu, me dando a sensação de que o ar me havia faltado aos pulmões no mesmo instante. Mesmo surpresa com o estranho, prossegui sem dizer uma palavra. Apenas respirando.
—parece que vai chover... – ele disse de repente, a voz tão ou mais sensual que os olhos chamou-me a atenção de pronto.
—... - Dei de ombros sem conseguir raciocinar. Ele se virou para mim, abraçando a cap ao próprio corpo. Sorrindo.
—me chamo Igor. Igor Manov.
—... Ah, sim. Prazer. Meu nome é Liah. – falei cumprimentando-o sem graça. Ele sorriu.
—o que faz aqui? Há esta hora,...Sozinha? Não tem medo de ser atacada?
—...? – não entendi o repentino sarcasmo daquele desconhecido. – porque?
—oh... Não assiste tv? Não lhe chegou ao conhecimento os ataques que estão ocorrendo pela região? – perguntou curioso.
—não assisto tv...Meu trabalho ocupa muito meu tempo... – respondi séria. O trabalho era a coisa que eu mais prezava. E ele parecia ter percebido isso rapidamente.
—ah... Claro. Meu trabalho também me tira o sono... Mas leio jornais... E toda a semana é encontrada mais uma vitima daquele maníaco apelidado “Mestre dos desejos”.
—eles realmente não têm o que inventar... “Mestre dos desejos...!”. – comentei. – como se as vitimas pedissem ou ao menos desejassem morrer...
—vai saber... ? O que assusta é que ele ainda não foi pego... E do jeito que a justiça do pais é demente... Nem será pego.
—meu pai é juiz. – falei de repente e o rosto dele se voltou para mim assustado. Sorri – estou brincando... Ele já faleceu faz alguns anos...
—ah... Bom... Está com fome?
—um pouco... – respondi após me virar para ele sem entender.
—então... Quer que eu te pague uma bebida?
—desculpe, senhor... Mal o conheço... Não posso permitir isso.
—mas eu insisto... Olhe conheço um lugar aqui perto... É bem aconchegante...
—é sério...
—vamos... – ele se levantou. – eu estou pedindo... ? !
—ora, está bem... – respondi. A sensualidade daquele estranho já me tirando o raciocínio lógico. – mas não me lembro de existir algo aberto a esta hora...

Rimos o caminho todo com a conversa animada. Ele era além de extremamente sensual e bonito, super descontraído.
Paramos na travessa. Dali, só duas quadras até a minha casa... Eu não fazia idéia do porque dele ter parado... Continuei calada.
—Liah...? – ele falou depois de alguns minutos sem dizer uma única palavra.
— o que foi? – perguntei, imaginando certamente que ele ia me revelar o porque da parada repentina. Mas tudo o que ele fez, foi me fitar sombriamente por trás dos olhos claros. No olhar um pedido irresistível, que com certeza, derreteria até o mais gélido coração.
—sou... Um homem muito sozinho... Um escritor incompreendido... Amante de arte e de vida. – ele se aproximou, carinhoso. Receei por um segundo, mas aceitei seu toque imaginando porque negaria a ele aquela oportunidade. Nos beijamos docemente. Logo em seguida, ainda de olhos fechados, ele respirou fundo.
—o que foi? – perguntei insegura de mim mesma, de repente havia esquecido ate de como usar as palavras corretamente.
—você... É o que eu tenho procurado... E pra uma jovem com sua experiência... Não posso deixar de revelar minha origem...
—origem...? Amh...? Não entendo...
—não se assuste com o que vai ver... Somos exatamente iguais... Nós dois... É por isso que tenho te procurado... – ele me procurou mais uma vez em seus braços, beijando-me com um desejo inigualável. – e agora te encontrei.
— mas... Continuo...Sem entender... – falei procurando os lábios dele. – íamos tomar um drinque... Porque paramos aqui?
—antes preciso te mostrar muitas coisas... Você precisa saber... Como termina este tipo de vida insensata... – e me apertou em seus braços, encostando minha cabeça em seu ombro.
—hã? – abri os olhos novamente e estávamos, os dois, em outro lugar... Era um apartamento escuro e abafado em um lugar desconhecido...—o que...? Como viemos parar aqui? – falei, mas ele me fez um sinal para me calar. Puxando-me pela mão até a escada. No andar de cima, entramos em um quarto onde observei uma cena terrível. Uma mulher, com mais ou menos minha idade segurando uma arma de calibre doze, sentada ao lado de duas pessoas estiradas no chão, mortas á, pelo menos três ou quatro dias.
—lembra dela, Liah?
Aquele rosto inchado de lágrimas e um olhar enlouquecido me faziam lembrar perfeitamente Francis, uma menina mimada da qual me arrependi de ter conhecido.
—... O que ela fez da própria vida? – gritei levando a mão aos lábios. Ele me abraçou.
—ela não pode nos ouvir, querida... Francis enlouqueceu depois que o marido a abandonou... E a deixou sozinha com o filho recém-nascido... – temos que ajudá-la..., Uma voz falara novamente dentro de mim. Respirei fundo...
—ela os matou... Os próprios pais... Porquê?
—você não deu a ela o seu perdão... Seu livre-arbítrio a impediu de se perdoar e tudo o que ela penou nesta existência se deve a um único erro... Ter te feito tanto mal... No passado.
—mas... Eu a perdoei...
—o desejo de vingança ainda vive em seu coração... Mesmo agora que você a vê se destruir... Fica feliz.
—não! Você é mentiroso! Eu não sou má! Não sou tão perversa a esse ponto!
—você não é culpada... Esse anjo negro que dorme dentro de você... Ele sim... Pede que você destrua todos em seu caminho... Esta noite... Vim liberá-lo...
—O que ela vai fazer... – apontei para a imagem distorcida de Francis á minha frente que se dirigia aos pais. E deitou entre eles, beijando-os. Fechei os olhos, encostando minha cabeça levemente no ombro de Igor, sem coragem de olhar aquela cena maldita. – não quero ver mais nada!
—mas terá que ver! Cada dia todo o mal que desejou por anos, se realizou! – ele me sacudiu.
—não... Não achei que ela fosse acabar... Desta forma...
—agente nunca acha... – ele falou com um sarcasmo inconfundível na voz. – mas é sempre esse o mal que nosso coração, independente de nossa criação, deseja...
—me deixe ir... Por favor,... Vou vomitar! – levei as mãos à boca, mas foi impossível controlar aquela repulsa que sentira ao ver a forma como Francis brincava com os corpos dos pais, mutilados.
—... – ele repousou a mão em meu ombro. – não... Meu anjo... Ela teve o que merecia. Não foi somente você quem ela machucou... Não... Toda a sua existência... Por culpa dos próprios pais que negligenciavam sua educação... E sua moral.  – ele fechou os olhos, até para ele aquela cena se tornara chocante. Francis agora arrancava a roupa do pai e fazia cortes em seu corpo com a navalha... Em seguida no dela.
—ela está louca! – falei, abraçando-o triste. – vamos embora... Não quero ver quando ela começar a lamber o sangue do pai, feito um vampiro...
—atenderei seu desejo cherry... Vamos. – em segundos não estávamos mais ali, e sim no alto de um penhasco. Abri os olhos e me assustei ao ver onde estávamos. O abracei forte e ele sorriu.
—como viemos parar aqui? – perguntei assustada. – quem é você!?
—sou o mestre dos desejos, minha cara.
—você é o que? – me afastei rapidamente dele, mas o apertei contra mim na hora em que olhei para baixo.
—vim buscá-la! Vampira... – ele sussurrou.
—amh? Não entendo...Eu não sou...
—é sim... Por um acaso, és vampira, sim, cara mia... És vampira astral.
—como é? O que disse que sou?!
—vampira astral, meu anjo... Imaginei recebê-la já totalmente transformada... Mas me enganei... Por isso... Eu mesmo a transformarei esta noite.
—ah... Você é um... Não...
—sim... Eu sou um vampiro...
—você não é humano... Então, como posso te tocar?
—porque você está pronta... Para ser igual a mim...
      um único grito de susto se fez ouvir aquela noite. Eu não sentira dor. Parecia que sua mordida era mais uma carícia do que uma violência. Esperei então que a morte viesse selar meus olhos. Escorreguei pelas mãos dele que por pouco não me deixou cair do penhasco.
      Ele me puxou de uma vez e me segurou firme em seus braços... mordendo o próprio pulso e  dando-me o seu sangue. Em seguida a dor me foi fatal. Eu já havia estudado e sabia que o sangue era algo que o estomago humano não digeria.e não deu outra, minha morte se findou rapidamente. Eu me tornei igual a ele... como nunca antes... Uma vampira.




 





Alishah di Jaffet
Enviado por Alishah di Jaffet em 01/04/2006
Código do texto: T132145
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Sobre a autora
Alishah di Jaffet
Belém - Pará - Brasil, 28 anos
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