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O PUMA SANGUINÁRIO


Estou de pé, mãos erguidas,
pulsos presos por cordas brutais.
Uso bermuda e mais nada
no corpo sinto dores bestiais.


Lembro que fui açoitado
por incontáveis chibatadas.
Oh, sangram minhas costas!
Que quase foram dilaceradas.


É noite de lua cheia,
o vento está frio e enjoado.
Fui deixado ali, ao relento,
naquele terreno abandonado.


Terreno imenso, perto da casa,
cercado por um denso matagal.
Matagal escuro, maquiavélico,
nauseabundo e sobrenatural.


Sinto sede, sono e cansaço,
meu corpo está dolorido.
Minhas mãos ardem bastante,
estou tenso e deprimido.


Confesso que tenho... medo!
Não! Não quero morrer!
Tenho que fugir, sair daqui,
preciso, meu Deus!, sobreviver.


Grito por socorro, bem alto!
Grito, muito, desesperado!
Porém, ninguém me ouve.
Estou só! Só e desamparado.


E o pior ainda estava por vir,
naquela tétrica madrugada.
Ouço um ruído estranho,
um urro de alma penada.


Passos no tenebroso matagal.
Sinto a presença de alguém.
Um ser de mim se aproxima.
Quem será? Quem? Quem?


Meu Deus! Estou perdido!
Um animal surge, de repente.
Um puma negro e imenso,
que pára na minha frente.


Nunca senti tanto medo!
O puma parece me avaliar.
Olhos mortais, sanguinários,
já prestes a me atacar.


Permaneço imóvel, apavorado.
Vejo o puma perto de mim.
Ele me toca e me cheira,
meu horror não tem fim.


O puma sente o cheiro fétido
do meu sangue coagulado.
Lambe os lábios, ansioso,
parece que está esfomeado.


O puma me encara, cruel,
e solta um urro animalesco.
Urro que fere meus ouvidos.
Um urro tétrico e grotesco.


Fico arrepiado e trêmulo,
choro, ciente de que irei morrer.
O medo embrulha meu estômago,
sinto meu sangue ferver.


Enquanto espero o fim,
relembro como tudo começou.
Volto ao passado ignóbil;
um hórrido passado, sim senhor.


Fui vítima de um seqüestro.
Torturado com muitas chibatadas.
Sofri os horrores do cativeiro,
vivi noites insones e agitadas.


Oito dias de desespero,
Tendo pesadelos sombrios.
Sem saber se sairia vivo,
sentindo dores e arrepios.


Penso que o resgate foi pago.
Porém... eles decidiram me matar!
Filhos da puta! Escroques!
Fugiram, sem avisar.


Deixaram-me para o puma,
para que morresse lentamente.
E aqui estou... sofrendo...
nesse momento presente.


Fechos os olhos, em pânico,
antevejo a morte chegando.
Sinto aquele puma mordendo,
minha carne dilacerando.


"Meu Deus, ajude-me!"
- ouso rezar, desesperado -
"Livre-me desse malefício,
desse tormento desgraçado!"


De repente, ouço um barulho,
quebrando o silêncio reinante.
Vem do matagal, sim senhor!
Barulho forte e tronituante.


O puma estremece, subitamente!
Recua, parecendo embriagado.
Solta um apavorante urro de dor,
e desaba, todo ensangüentado.


O puma está morto!!!
Aquele tiro o matou!
Incrível! Mas... de onde veio?
Quem foi que atirou?


Outro tiro rasga a escuridão,
causando-me profundo terror.
Penso que fui atingido.
Porém... não sinto dor.


O que aconteceu? Pergunto-me.
Oh, estou deitado no chão!
O tiro acertou as cordas.
Estou livre! Livre, irmão!


Sentindo dores no corpo.
Levanto-me, cambaleante.
O puma ali perto, imóvel,
mesmo morto... é apavorante!


Na minha frente o matagal.
Mas, não vejo mais nada!
Onde está meu salvador?
Cadê você, meu camarada?


Ele não aparece...
Fui salvo por um desconhecido.
Jamais o vi, juro.
Mesmo assim estou agradecido.


Com as mãos amarradas,
começo a andar, na estrada.
Lentamente, cheio de dores,
vou andando na madrugada.


Calculo que andei bastante,
mais de seis horas, certamente.
Doem meus músculos,
está embaçada a minha mente


Eis que amanhece o dia,
desaparece a escuridão.
Vejo o sol, vejo tudo!
Será o fim da minha aflição?


Saio da estrada de terra batida,
e pego a BR, rodovia principal.
Dou alguns passos, os pés ardendo.
Preciso andar! É essencial!


Oh, não suporto tanto sofrimento!
Desabo na BR, desfalecido.
Desmaio, não vejo mais nada!
Caí... derrotado... e perdido.


Acordo, horas depois,
numa cama de hospital.
Médicos, enfermeiras, parentes,
recebo tratamento especial.


Contei como tudo aconteceu.
No entanto, para meu estupor,
minha história não foi comprovada.
Não foi assim que tudo se passou.


Eles me disseram que... que...
Nenhum puma foi encontrado!
Não havia cordas, nem matagal,
nem aquele terreno abandonado.


Meu cativeiro era uma fazenda.
Fazenda perto de um descampado.
Acreditam que fugi pela janela,
e andei num terreno acidentado.


Tudo foi, então, esclarecido.
Os bandidos foram capturados.
Nenhum resgate foi pago.
Eles se renderam, ao se verem cercados.


Mas... e o puma???
Não é possível! Não pode ser!
Não havia fazenda porra nenhuma!
Estão enganados, podem crer.


Fui amarrado tenho certeza.
Alguém me salvou do animal.
O puma! O puma devia estar lá!
Morto, perto do matagal.


Oh, ninguém acreditou em mim!
Dizem que delirei com o sofrimento.
Que não havia puma, nem cordas,
apenas imaginei o ignóbil tormento.


Resolvi ficar calado,
para não pensarem que enlouqueci.
Tudo bem, fui preso na fazenda,
fim de papo, paramos por aqui.


Porém, até hoje tenho pesadelos,
com o puma querendo me comer.
Merda! Sempre acordo gritando!
Pois não consigo esquecer.


O puma! Medonho, sanguinário!
Urrando, diabólico e esfomeado!
Se não fosse aquele tiro salvador,
eu estaria morto, estraçalhado.


Leitor, peço que acredite em mim!
Não estou louco, por favor!
Tenho certeza que o puma existiu,
Sei que vivi aquele horror.


Juro! Por Deus, acredite, leitor.
Aquele puma queria me comer!
Oh, você também não acredita!
Ninguém acredita, fazer o quê?


FIM


Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 24/04/2006
Reeditado em 05/03/2007
Código do texto: T144732
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
70 textos (14846 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 22:52)
Joderyma Torres