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CONTOS DE CRETUS - A FENIX

       O suor deslizava lentamente por seu corpo machucado, repleto de feridas cobertas por sangue seco e moscas. A nem sentia dor alguma, não fosse pelo corpo preso  por correntes e pregos cravados em seus membros  e naquela velha e suja cruz de carvalho, talvez nem mesmo sentisse desconforto. O olho direito estava arrancado, ou pelo menos sentia que estava. “Maldito corvo...” pensava Jerry (Mariposa). Pensava também na ironia daquele fato, o fazia lembrar das passagens bíblicas que ouvia nas missas enfadonhas na cidade pequena em que passara a infância. Porem o que o fazia de fato se questionar, não era o fato provavelmente ser enviado ao inferno, mas sim de ser um demônio, o pior de todos, pois carregava a moral, foi criado entre os homens e não havia maior castigo do que esse. Ser juiz de seus atos, e sempre se condenar.
   O carro – que estava parado dentro da igreja em que estava preso –, agora tinha sua porta aberta, provavelmente um de seus algozes que saia após um cochilo. Era Terry, mesmo com a escuridão sabia que era ele, com sua perna manca e suas costas curvadas. A bengala em uma das mãos, e na outra a escopeta com cano cerrado. Sentara-se na única cadeira que lá havia, de frente para Jerry, e ligara o pequeno som ao lado, era Billie Holiday na fita falha, e Jerry conhecia bem a musica, “Moonglow”. Terry continuou o olhando enquanto ascendia o charuto e ajeitava a jaqueta enorme para lhe proteger do frio da madrugada, enquanto Jerry apenas tinha uma calça jeans rasgada, mas no entanto não sentia frio, sede ou fome. Acreditava que tamanha tortura o insensibilizou física e psicologicamente, e que talvez, dessa vez fosse possível finalmente morrer, o que o levava a acreditar que a justiça divina de fato existia. Fechou o olho sadio e abaixou a cabeça, não haveria porque fazer um filme mental de sua vida, tudo se resumia em desastre, ainda que magnífico, um desastre. Sentia saudade dos sobrinhos, da irmã carinhosa e do pai autoritário, sentia até mesmo saudade das discussões, de um Jerry pequeno e inquieto que corria o mais próximo que podia para ver o pai fazer tão belamente hipócrita seus discursos ao povo que se fazia acreditar, mas ainda assim o elegiam ao senado. Queria  sua mãe  ali, apenas para que pudesse olha-la e ouvir “O que você fez foi certo... os meios justificam os fins meu filho”, queria sobretudo a força de seu otimismo que tanto o enchia de esperança e nunca o derrubava. Queria amar muito mais, viver muito mais.
 - Você é mesmo dos infernos... como pode estar vivo após dois dias? – a voz rouca de Terry o acordou de seus pensamentos. Ergueu levemente a cabeça e entreabriu o olho esverdeado e fitou sua silhueta na escuridão, só podia notar o cintilar avermelhado do charuto que queimava entre seus dedos.
- Você não notou que nem mesmo o inferno me quer? – Sorriu levemente por fim, mas Jerry sabia que o algoz não notaria, nem mesmo a ironia em suas palavras já tão falhas. O homem apenas maneou a cabeça negativamente, e lhe apontou a escopeta
 - Não sei porque não o mato de uma vez... talvez seja porque um homem que mata uma família como você matou, merece a mais lenta das torturas.
- Quem somos nós para julgarmos Terry, Mas ainda assim belíssimas palavras meu
caro – ecoou a voz pela nave da igreja abandonada. Mas Jerry também sabia de quem era a voz, Sr.Wolves, como se intitulava, os óculos de armação redonda, a face de traços finos e lhe davam a impressão de uma pessoas desprezível, sempre com um sobretudo escuro que escondiam suas roupas.
          Wolves passou pelos carros, e subiu os dois degraus que davam ao altar onde a cruz fora presa e Jerry estava, sorriu por um momento  enquanto observava os ferimentos de perto, e então continuou:
- Mas, Terry, lembre-se que somos pagos para assassinar, e não para sermos a espada impiedosa da justiça, deixe isso para os heróis do cinema – terminou as palavras num tom carregado de escárnio. Sempre agia com arrogância, era como se soubesse ser superior a Terry ou os dois outros homens que vigiavam Jerry, mas não parecia ser o líder, na verdade, Jerry suspeitava não existir lideres em clubes de caça, já que de fato, eram isso que eles eram, caçadores, não de recompensa, caçadores de “homens”, nada mais que isso. O olho se abriu lentamente, e notou que Wolves tocava suas feridas e por fim ouviu: Me diga... o que diabos é você? Assim garanto que minha historia sobre essa caçada será muito melhor – disse com em seguida uma risada rápida. Jerry continuou o olhando, sorriu levemente com a pergunta, justamente por ter a resposta em sua mente.
- Sou o Espírito que nega a eternidade. E com justiça... tudo aquilo que nasce do vácuo merece ser aniquilado. Tudo aquilo que vocês chamam de devastação, pecado mortal, resumindo: Mal é minha essência. – Wolves fitou a criatura que era Jerry, parecia assustado com a imagem terrível daquele ser em quase “decomposição”, os olhos se arregalaram por trás dos delicados óculos redondos, e sorriu, e seu sorriso logo se tornou uma gargalhada asquerosa.
- Fausto! Quem diria que as belas palavras de Goethe estariam nos lábios de uma criatura tão patética, romanticamente presa em uma cruz e sem um dos olhos! Há! Isso sim daria um bom livro, não acha Terry? – dizia enquanto caminhava pela igreja suja, mas logo as risadas cessaram no momento em que uma motocicleta havia parado a frente do portal  já a muito tempo sem porta daquele templo. Dela desceram os dois últimos integrantes daquela “Alcatéia”, Johnny e Pablo, ambos transbordando juventude pelo porco musculoso e a mente limitada, as cabeças raspadas e a expressão austera na  face apenas afirmava a idéia de que não passavam de cães de guarda. Johnny carregava um saco de papel, e logo os colocou sobre o capô do carro enquanto tirava algumas caixas pequenas e latas de cerveja. Já Pablo, abria o porta mala do veiculo estacionado na nave daquele “santuário”. Wolves voltou a olhar Jerry, e sorrindo murmurou algumas palavras que Jerry não compreendera, e nem mesmo iria precisar, a tortura voltaria, se é que ela havia de ter cessado em algum minuto daqueles três dias.
Jerry podia se ver, caminhando pelo corredor velho e úmido do prédio do território da gangue “apache”. Enquanto se via entrar na sala escura onde um rastro de sangue o levava, parecia gritar para que não entrasse, que fosse embora, mas nem mesmo escutava, então se vez o rápido lampejo do tiro, o corpo cambalear, e outros clarões em virtudes das pistolas, que com seus projeteis lançados, desbravavam o mais profundos que podiam o corpo de Jerry. Ele caiu, não havia mais salvação. O olho se abriu, se dava conta agora que nem mesmo era um pesadelo aquilo, e sim uma lembrança do seu presente inferno. Agora o corpo estava terrivelmente dolorido, sentia o cheiro de carne queimada que exalava do próprio corpo, e como era insuportável! O dor medonha. Rangeu os dentes, e por fim gritou. O ódio tomou-lhe conta, como se o coração finalmente voltasse a retumbar em seu peito, o desejo de vingança animara aquela criatura execrável que tornara-se Jerry. Moveu os braços e pressionou o peito para frente, e a cruz, que estava muito queimada quebrou-se, e enquanto sentia a perecer se desgrudar da madeira o corpo caia para frente, enquanto os pés atravessavam o longo prego que o prendia a base da cruz. Sangue jorrou. Os pregos do pulso ainda estava lá, com as negras correntes presas, mas a madeira já estava longe, Jerry apenas olhou para frente, enquanto escutava os passos dos seus carrascos se aproximarem.
Os quatro estavam ali, observando assombrados aquela cena, Mariposa (Jerry) não estava ali. O coração acelerado, o medo lhes tomaram conta, estavam paralisados, pois mal sabiam se poderiam fugir de um homem que sobrevivera de chamas intensas, e da própria crucificação. Wolves  tentara correr até o carro, e o mesmo fizera Pablo e Terry ( ainda que fosse o ultimo), mas Johnny não teve a mesma sorte. Ambos ouviram a queda de Jerry, ou simplesmente “daquilo” atrás do jovem. O grito de Johnny fora terrível, muito mais pelo pavor do momento, do que a dor da corrente acertando seu rosto. Ao derrubar o homem por terra, Jerry abaixou-se, e fincou um dos pregos que antes estava preso seu pulso em um dos olhos de Johnny, que gritou enquanto seu corpo tremia  vertiginosamente. Wolves tentara ligar o carro, mas não conseguia devido o nervosismo que lhe tomava conta. A janela se quebrou com mais um golpe com a corrente. Jerry o agarrou pelo pescoço, mas notara que Terry erguia sua inseparável escopeta, mas o tira acertara o asqueroso Wolves a queima-roupa. Jerry jogou o corpo do homem morto contra o frágil usuário da escopeta e com um impulso pulou o carro, caindo do outro lado, mas nesse momento Terry tentava sair. Jerry gritara enquanto acertava um chute com suas pernas queimadas e repletas de sangue. Terry caiu enquanto tentava proteger o rosto, mas seu desespero o impossibilitava de reagir de outra forma. Mariposa (ou Jerry) apenas pegou o pequeno punhal à cintura de do homem, punhal esse que ele conhecia bem, e o enchera de perfurações no abdômen, fixando seu único olho saudável Mariposa na face escondida de Terry, cravou a arma no peito da vitima, e usando de toda sua força, puxou a lamina até o umbigo enquanto ouvia o grito cortar a silenciosa madrugada. Sentiu as mãos grande de Pablo o segurarem, mas nem mesmo sentira dor, apenas calor, nada mais que calor. O homem agarrou Mariposa o jogando contra o capô do carro. Suas costas amassaram a lataria frágil do carro popular. Ouvira inúmeros tiros e os projeteis furava o capô, e aquele que atravessavam sua carne nem mesmo lhe proporcionavam dor, era como se tivesse concentrado o ódio de todo o inferno dentro de seu corpo, que tudo aquilo que fosse vil lhe desse forças e resistência, até mesmo aqueles tiros pareciam o fortalecer, aumentar seu ódio. E assim avançou contra Pablo, que era muito maior do que Mariposa, mas ficara claro que isso não fora empecilho algum. Desferira o golpe, cortando os olhos do homem. Um grito! A maldade parecia dançar conforme Mariposa tocava, e sua sinfonia lúgubre era magnífica, entre cortes, socos e gritos que obtinham uma combinação perfeita aos seus estorricados ouvidos. E lá estava Pablo, seu sangue encharcando as mãos de Mariposa, seu maxilar separado do corpo, e este estava contorcido ao degraus que levavam altar da velha igreja. Jerry. Mariposa. Nem mesmo sabia ao certo que era. Apenas observou aquela cena e olhou para o céu, que lentamente anunciava o crepúsculo de um novo dia
- Eu sou o espírito que merece ser aniquilado...Ou a imortalidade é meu mais severo castigo?
Zé Rizzotto
Enviado por Zé Rizzotto em 21/05/2006
Reeditado em 21/05/2006
Código do texto: T160210
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Sobre o autor
Zé Rizzotto
Cuiabá - Mato Grosso - Brasil, 30 anos
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Zé Rizzotto