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BRINCADEIRA MACABRA

              Hannah riscou lentamente o fósforo na caixa, fazendo com que o palito incandescente iluminasse os rostos das pessoas, em silêncio, reunidas no seu quarto, sentadas em círculo, em volta de um pentagrama desenhado a giz, no assoalho de madeira, no lugar em que normalmente ficava um grande tapete lilás.
            Com muito cuidado, a jovem acendeu o pavio da vela, fazendo arder a parafina sobre o castiçal prateado que roubara da mãe dias antes, centralizado entre as quatro amigas e o seu namorado; todos ansiosos, repetindo uma brincadeira que viram em um filme de terror, desejando comprovar a existência de forças sobrenaturais.
            A vela iluminou suas faces pálidas, dando a eles uma aparência soturna, amedrontadora, como se fossem completos desconhecidos, enclausurados num mesmo pesadelo infernal.
            Crescia a tensão à medida que o ponteiro do relógio, na cabeceira da cama, lentamente corria, marcando os segundos. Respiravam ofegantemente, enquanto do lado de fora uma terrível tempestade se formava, arrastando, com uma força descomunal, pedaços de papeis e folhas secas pelas ruas desertas naquela sexta-feira à noite. Pingos de chuva batiam no dormente da janela aberta. As gotas carregadas pelo vento forte diminuíam a fraca luz amarela no centro do círculo humano, formando sombras apavorantes na parede. Pássaros assustados grunhiam aflitos, num voo furtivo, como se previssem a chegada de um mal cada vez mais iminente.
            Molhados pelas gotas que aumentavam a densidade rapidamente, Marcos Paulo, namorado de Hannah havia alguns meses, levantou-se, quebrando o círculo, sob os olhares aflitos das meninas.. Estava ali contra a sua vontade, não que temesse a evocação de seres sobrenaturais, na verdade era um cético, aceitara participar daquela brincadeira apenas para provar à namorada que perdiam tempo naquela obsessão por fenômenos espirituais. Poderiam estar no cinema, fingindo assistir a um filme, enquanto trocavam carícias na escuridão da sala de projeção em vez de se trancarem no quarto com as amigas mais chatas e esquisitas que a namorada tinha, e ainda temendo uma intervenção constrangedora dos pais dela. Conhecia suficientemente Ricardo e Clara para saber que se os pegassem ali, naquele macabro ritual, castigaria a filha e ainda o culparia por influenciá-la pelos distúrbios da menina. Não queria que os sogros se indispusessem com ele, logo agora que conseguira conquistar a confiança necessária para sair sem se importar com a hora em que deveria trazê-la de volta. Colocaria todas as conquistas a perder por causa de um capricho de tolo. Não estava gostando daquilo.
            Uma violenta lufada do vento acertou-o em cheio, fazendo com que se engasgasse. Advertido por Hannah e as três desengonçadas amigas, puxou as janelas de madeira com força, pois sabia que o peso fez ceder as dobradiças, emperrando a janela exterior. O ruído áspero da madeira sendo arrastada provocou indignação em Hannah, que o repreendeu asperamente, temendo que os pais subissem para se certificarem de que as coisas estavam bem no quarto.
            Marcos Paulo era apaixonado por Hannah desde que a conhecera na escola. A timidez da menina fazia com que os garotos pregassem as mais diversas e maldosas peças na recém-chegada. Ele tomou suas dores e a defendeu. Venceu as piadas cruéis e a rejeição dos seus amigos de anos, mas, como prêmio, aproximou-se daquela estranha que tanto lhe fascinava. Tornaram-se colegas, pois ela não lhe permitia intimidades maiores do que a cordialidade. Às vezes se encontravam e conversavam assuntos banais, sem muita profundidade, porém Hannah se empolgava quando falavam sobre cinema, principalmente filmes de horror famosos apenas em pequenos grupos de aficionados por produções de baixo custo, mas de enredo e, principalmente, medo elevados. Foi justamente esse o ponto que o fez admirá-la tanto, a grande diferença das demais garotas do colégio, tão preocupadas com a moda da próxima estação e a cor do esmalte que estava na moda. Hannah era diferente, excêntrica e única. Gostava de leituras desprezadas por toda a classe e assuntos tão variados que o encantava a forma como ela expunha suas opiniões.. Era uma jovem de conteúdo, rotulada pela aparência incomum. Quando os seus amigos faziam piadas sobre ela, e era comum fazerem, Marcos Paulo discutia ferozmente com eles. Quando ela lhe dera uma chance, abraçara sem pestanejar, entregando-se àquela paixão que o consumia desde que seus olhos a encontraram na porta da sala de aula, vestida com uma saia xadrez um pouco acima dos joelhos, camisa preta e óculos de armação grossa, levemente tortos, destacando seus vivos olhos azulados. Uma fina mecha loira caía sobre sua face muito branca, dando-lhe um ar sensual. Na intimidade, ela não era sombra da menina dura e insensível que demonstrava ser. Quando sozinhos, Hannah era meiga e afetuosa. Derretia-se quando ele carinhosamente deslizava as mãos por seus cabelos dourados, pagando-lhe com um sorriso delicado estampando na boca fina. Havia um ano que ela mudara sua aparência, antes desengonçada como as amigas reunidas naquele momento para uma mulher atraente. A primeira das mudanças foi quando deixou os óculos na gaveta, fazendo a vontade dos pais ao usar lentes de contato; depois as roupas escuras e largas foram substituídas por modelos de cores mais vivas e justas. Ela ficara ainda mais fascinante do que ele pensara que um dia pudesse ficar. Mas, contrariamente, não ficou feliz com a mudança de Hannah. Depois que resolvera se cuidar, ela atraíra a atenção daqueles que a menosprezavam. Marcos Paulo sentia que a perderia definitivamente para um jogador titular do time de futebol da escola, alguém de corpo atlético e bem apessoado. Mas não. Hannah não ligava para aparências, o mais importante numa pessoa era sua personalidade, o seu eu interior. Escolheu justamente o reserva, o menos atlético dos esportistas da escola, fazendo Marcos Paulo se sentir especial e o mais cara mais sortudo de todos, tendo frequentemente em seus braços o corpo delicado da garota que amava mais do que a ele mesmo.
            Porém, quando Hannah tinha seus acessos de raiva, deixando a meiga figura esquecida, libertando a criatura ignorante e obsessiva de seu controle, pensava seriamente se não deveria ter ouvido os conselhos dos amigos, ignorando seus sentimentos de amor. Odiava quando ela o tratava com desdém, dando-lhe ordens como se fosse um subordinado qualquer, como acabara de fazer, falando-lhe asperamente sobre a janela arranhando como unhas afiadas num quadro negro.
            Voltou ao círculo contrariado, sentando-se em seu lugar determinado, enquanto do lado de fora os raios seguidos de estrondos apavorantes cortavam a noite, anunciando a tempestade que se aproximava.
            Iluminada pela chama inquieta, Hannah se preparava para iniciar o ritual que os motivara àquela brincadeira perigosa. Retirou de uma bolsa de couro velha um manuscrito muito amarelado, tomava coragem para lê-lo em voz alta, fraquejava um pouco mesmo estando determinada a prosseguir com a evocação. A natureza dava sinais para que desistissem de chamar pelos mortos.
            Não acredito que vou participar dessa besteira; Marcos Paulo pensava visivelmente incomodado, remexendo-se no lugar como quem no primeiro momento oportuno espera a chance de fugir sem olhar para trás. O suor brotava de seus poros como minas de água escorrendo em seu apreensivo rosto. O incômodo aumentava à medida que as amigas de Hannah lançavam-lhe olhares descontentes, censurando a própria amiga por levá-lo a participar do momento tão esperado por elas durante meses.
            Foi Camila quem primeiro mostrou estar contrariada com a presença do rapaz, ironizando-o:
— Seu namorado parece não querer estar aqui, Hannah. Acho melhor você mandar sua criança medrosa para baixo das asas da mamãe.
            O rapaz a encarou, sentindo ódio. Quis revidar a ofensa, mas deteve o impulso, fingindo não dar importância à zombaria. Continuou calado, para não irritar a namorada. Não gostava das amigas de Hannah, que, como ele, insistia em manter as antigas amizades, apesar da enorme diferença que havia entre elas. Marcos Paulo olhava fixamente para seu desafeto, menosprezando-a.
Camila era, se não a, uma das mais estranhas meninas do colégio. Conhecida como O Corvo por trajar, faça chuva ou faça sol, calças e blusas pretas que cobriam toda a pele clara, deixando somente as mãos descobertas. Exibia imensas unhas pintadas grosseiramente de esmalte preto, o que lhe dava um aspecto repugnante. Além de tudo, o que mais realçava sua lugubridade era o imenso cabelo preto, despenteado, encobrindo-lhe o rosto lívido. Na escola, vivia deslocada, sempre solitária, vagando pelo pátio e conversando sozinha como se alguém a escutasse. Diziam que falava com os mortos, já que aos vivos era indiferente.
            Deixava transparecer claramente seu descontentamento com as pessoas que estavam prestes a compartilhar aquele que seria o grande momento de sua vida. Camila e Hannah se conheciam havia muito tempo, desde a época em que descobriram juntas a paixão pelo obscuro e o sobrenatural. Seus pais trabalhavam na mesma empresa, o que possibilitou que a amizade entre elas se formasse logo, afinal Hannah chegou à cidade sem nenhuma amiga ou mesmo uma conhecida. Felizmente, para as duas, Camila, obedecendo a um apelo do pai, auxiliara Hannah nas lições da escola, nascendo assim um forte elo entre as duas solitárias. A amizade ficou abalada quando Marcos Paulo surgiu, afastando-as gradativamente. Tinha que dividir as atenções da amiga com um insuportável garoto. Não admitia perder nada para ninguém, principalmente a dócil presença de Hannah em seus dias. Para piorar as coisas, processou-se a mudança visual na companheira e, antes que pudesse argumentar contrariamente, o namoro com aquele que mais odiava, seu oponente, seu rival, rumava para uma relação séria. As duas discutiram agressivamente, com palavras repletas de ciúme. Afastaram-se por um tempo, nutrindo receio pela conduta ruim que tiveram, mas, assim que se acalmaram, reataram a sólida amizade, dessa vez sigilosa, escondendo de todos, principalmente de Marcos Paulo, um grave segredo.
            Depois das complicações que tiveram, Camila conheceu Diana, uma menina ingênua e desamparada, que, como ela, errava pelos cantos, sofrendo as injúrias de todas as pessoas de sua escola. Como estudavam em lugares diferentes, durante o período das aulas, cada uma vivia em sua própria ilha, mas assim que regressavam ao prédio onde moravam, passavam as horas unindo solidões. A iniciação da Diana no mundo sombrio se deu facilmente, a jovem, numa angústia desesperada em fazer parte de um grupo, qualquer que fosse, fez com que ela abraçasse as paixões de Camila como se fossem as suas. Intimamente, não gostava muito de mexer com coisas do sobrenatural. Tinha um medo terrível de aparições, vozes sombrias, pancadas atemorizantes, lendas noturnas e tudo o mais que envolvia o mundo oculto, mas, paradoxalmente se envolvia em todas as experiências da amiga, temendo novamente ficar sozinha.
            Diana estava ali apenas para agradar Camila. Receava, porém, que a tentativa de evocação desse certo e algum ser cruel aparecesse diante dos seus olhos e lhes fizesse mal. Não era corajosa como a amiga, tampouco como Hannah, mas sabia dos riscos que poderiam ter caso algo desse errado. Estava insegura pelo que faziam e, para piorar ainda mais seu pavor, a tempestade chegara com uma força colossal, estalando as telhas e zumbindo fortemente em meio aos clarões nervosos de relâmpagos. O seu medo crescia, cada vez que Marcos Paulo também demonstrava seu desconforto.
            Hannah se virou para Hellen, a mais nova integrante no grupo de amigas, mas em contrapartida, a que mais conhecia sobre os fenômenos espirituais. Quem a olhasse, jamais perceberia o gosto pelo oculto em seus olhos. Sempre bem vestida, muito educada e inteligente, relacionava-se com todos, participando de qualquer meio social. Separava muito bem seus gostos mórbidos da vida pública. Apesar da pouca intimidade com as outras meninas, tornara-se uma espécie de ídolo. Criada em uma família católica, descobriu a existência de algo além do céu e do inferno quando participara de uma missa, como sempre, acompanhando a mãe, beata ativa da irmandade cristã. Sentia um leve incômodo sempre que entrava na nave religiosa, tendo a impressão de que era vigiada constantemente por pessoas que não estavam presentes. No começo, inspirada pela devoção materna, julgou que o diabo a tentava justamente quando buscava a palavra divina. Descobriu, para seu espanto, a real causa do desconforto. Sentada no banco, sempre o terceiro da fileira esquerda desde que começou a acompanhar a mãe, viu os olhos da imagem do anjo Gabriel fitá-la como se buscasse sua alma. Não querendo acreditar no que lhe parecia uma alucinação, correu os olhos pelo altar, constatando a desesperadora verdade: as imagens a encaravam, pareciam querer dizer-lhe algo, talvez alertá-la ou puni-la de algum ato que não sabia qual era. Gritou em pânico, interrompendo a missa e causando um alarido perplexo por sua postura. Correu aos braços de Jesus tristemente pregado na cruz, rezando angustiada para que as sinistras visões findassem, mas, ao contrário do que esperava, a imagem de Cristo também a encarou. Gritou novamente, fugindo da igreja para nunca mais voltar.
            O que parecia ser um ponto definitivo para que esquecesse e evitasse qualquer contato com o sobrenatural, na verdade lhe impulsionara para uma estranha fixação. Mesmo com as severas represálias da mãe, desistiu dos ensinamentos do catecismo, dando adeus à crisma. Ficou obcecada pelos estudos mediúnicos, descobrindo-se intermediária entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Seguiu a doutrina kardecista por algum tempo, mas a demora em desenvolver suas aptidões fez com que se afastasse, certamente sob influência de um espírito inferior. Buscou então o entendimento nas manifestações obscuras datadas da Idade Média, quando mulheres eram queimadas vivas por serem consideradas bruxas. Agora que não existia inquisição, deveria apenas esconder seus verdadeiros interesses dos pais, a fim de evitar conflitos desnecessários.
            Hellen ouvia vozes, uma confusão de apelos e palavras ininteligíveis. Tinha uma sensibilidade absurda em perceber as vibrações dos lugares em que estava, principalmente as ruins. Não se afastava, porém. Gostava da carga negativa que arrepiava seus pelos, provocando um frio glacial em sua espinha, mesmo no verão escaldante. O mistério a encantava, a certeza de que a existência continuava depois da morte, não no céu ou no inferno, mas na própria Terra, junto àqueles que respiravam e sentiam com o corpo.
            Quando Hannah e Camila lhe mostraram o manuscrito de evocação encontrado nos pertences da finada avó de Hannah, Hellen logo se mostrou disposta a realizar o ritual. Não por almejar ganhar mais poderes ou prever o futuro, isso não a interessava. A oportunidade de, ela mesma, ser a responsável pelo experimento sem que ninguém lhe tolhesse a fama, a glória e a satisfação de ao menos em uma coisa sentir-se especial era tudo o que desejava. Mostraria para todos que não era louca.
            — Hellen, você começa? — perguntou Hannah, mostrando confiança nas habilidades da amiga.
            — Já era sem tempo — respondeu ansiosa pelo início do rito. — Façamos silêncio!
            Conforme pedido, nenhuma daquelas cinco almas inquietas ousou quebrar a mudez que os assolava. Ouvia-se apenas o expirar ofegante coletivo, à espera das primeiras manifestações. Concentradas, as meninas meneavam a cabeça concomitantemente, aliviando a tensão nos músculos. Marcos Paulo, inversamente, parecia sentir que algo mudaria em sua vida assim que Hellen começasse o rito. A chama iluminando o rosto da jovem o atormentava como um fantasma no espelho. Não conseguia atender ao pedido de concentração, não lhe era possível se abstrair dos pensamentos perturbadores que todo aquele cenário lhe provocava. Sabia, portanto, que se algo desse errado na evocação das entidades a culpa pelo fracasso recairia sobre ele. Começava a desejar que realmente acontecesse alguma manifestação, mesmo contrariando sua incredulidade, ou as amigas de Hannah o acusariam pela frustração do intento malogrado.
            — Seres noturnos — evocava Hellen — ouçam o nosso apelo. Seres noturnos, que transitam entre as sombras da escuridão, Seres noturnos, que caminham pelos vales sombrios da destemperança, ouçam o nosso chamado. Estamos aqui, de corpo e alma, para cumprir a sua vontade. Espíritos condenados à dor, libertem-se da prisão sombria e venham a nós que tanto imploramos por sua presença — ela se calou, olhando mais uma vez o papel em suas mãos.
            A voz de Hellen causava medo em Marcos Paulo. Jamais imaginara sentir tanto pavor em sua vida como sentia naquele instante macabro. Começava a duvidar das próprias incertezas, passando a temer que os tais seres evocados respondessem o chamado.
A chama trepidou, quase se apagando. Mesmo com janelas e portas fechadas, um vento árido fez mover o manuscrito e revolver demais papéis pelo quarto. Parecia ter alguém soprando em seus ouvidos, uma respiração pesada e perenal.
Hellen sorriu, dando continuidade à evocação.
— Seres da Noite e da Morte, nós oferecemos nossos corpos virginais; que neles manifestem-se conforme sua vontade. Façam de nós o instrumento para o seu regresso. Em troca, apenas pedimos o poder que nos aprovarem pelo nosso humilde presente. Venham a nós, jovens castas, para à sublimação do seu contentamento inefável.
A temperatura abaixara de forma notabilíssima, enquanto Hellen lia o manuscrito. O piso de madeira envernizada parecia uma imensa placa de gelo. A respiração quente, mal saída dos pulmões, tornava-se uma contínua nuvem opaca logo que saía pelas narinas e bocas. Do lado de fora o temporal devastava tudo o que encontrava com sua força descomunal, inundando ruas e arrastando carros. Em breve, a energia elétrica seria cortada se as forças da natureza não diminuíssem tamanha fúria.
— Venham — suplicou Hellen confiante do que fazia.
Diana, tão apavorada como Marcos, sentia-se desconfortável. Ela lançava os olhos para o namorado da amiga como se lhe suplicasse para intervir na conjuração. Arrependera-se de participar do grupo e do preço que deveria pagar para conseguir o poder prometido pelas amigas. Não vale a pena, não vale; dizia para si mesma, tentando inutilmente mover-se. Estava fixada no chão, ardendo como brasa, apesar do frio intenso que sentia arrepiá-la até as pontas do volumoso cabelo.
— Venham — repetiu Hannah, enquanto Hellen corria com os olhos pelo quarto com um leve sorriso no rosto.
Três andares abaixo, Saulo, o pai de Hannah, levantou do sofá, assustado com os relâmpagos.
— Não pensei que choveria tanto — comentou com a esposa, olhando a torrente pela janela.
— Se fosse você, querido, não ficaria tão perto da janela. Se um raio cair aqui perto, você pode se machucar — ela o alertou.
— Você tem razão, Wanda — disse ele, fechando as cortinas e caminhando para a imensa escada que levava aos andares superiores. — Acho melhor ver se as meninas estão bem lá em cima. Não confio muito naquele rapaz trancado com Hannah, longe dos meus olhos.
— Deixe de ser bobo, Saulo — ironizou-o. — Você não confia em nossa filha? Hannah sabe muito bem o que é certo ou errado. Eu sei o que pensa minha filha. Tenho total confiança nela como também tenho em Marcos Paulo. Eles jamais fariam nada que desrespeitasse a nossa casa. Não duvido nada que neste exato momento devem estar conversando ou ouvindo alguma música.
Saulo meneou a cabeça, contrariado.
— Nunca se sabe, meu amor. Não vai acontecer nada de mal se eu apenas conferir se está tudo bem lá em cima. Depois, aproveito para também ir para o quarto, essa chuva me deu sono. Você vem?
— Ainda não — respondeu ela. — Vou ler mais um capítulo do meu livro aqui mesmo, porque no quarto é impossível com suas reclamações me apressando para desligar o abajur. Boa noite — disse ela, simulando um beijo no ar.
— Boa noite — respondeu ele, subindo o primeiro lance de escadas e voltando em seguida. — Se eles descerem correndo, você saberá que eu tinha razão em me preocupar.
— Querido — exclamou impaciente — faça-me um favor, vá dormir e deixe as crianças em paz.
Não deu ouvidos. Subiu novamente as escadas, pensando no que a filha e o namorado estariam fazendo no quarto. Talvez estejam só ouvindo música. Deixe de ser bobo, seu pai desconfiado, por acaso está pensando o quê? Que as amigas estão encobertando alguma coisa? Não sei, este mundo hoje está tão profano. Além do que, não fará mal aparecer e ver com meus próprios olhos que eu estou enganado; fazia o seu monólogo, a fim de convencer-se que estava exagerando nas preocupações, enquanto subia os degraus.
Chegando ao último lance de escadas, Saulo sentiu uma lufada gélida soprar contra seu rosto.
— Como está frio aqui — exclamou, esfregando os braços.
 Os pulmões arderam como se respirasse o ar dos árticos. A visão ficou turva, perdendo nitidez e forma rapidamente. Cansado, viu-se arrastado por uma força desconhecida para o próprio quarto. Mesmo tentando vencer a exaustão que o forçava a cerrar os olhos, não resistiu, desabando sobre a cama ainda arrumada e desfalecendo rapidamente, enquanto o sangue tornava a esquentar.
            — Venham — ordenou Hellen, num tom severo. — Tomem nossos corpos a sua vontade!
            Com os olhos tensos, Marcos Paulo viu o rosto de Hellen mudar como se fosse outra pessoa a sua frente. Um calafrio forte subiu pelas suas costas, enquanto a jovem se contorcia lenta e pausadamente. Preparava-se para correr em seu auxílio, mas a mão de Diana parou em seu peito, impedindo-o de se levantar. Ela também estava diferente. Um brilho maligno refletia em seus olhos, enquanto Camila sorria com malícia.
            Hannah se ergueu sensualmente, encarando-o com desejo. Ainda fitando-o, curvou-se na frente de Hellen e, sem tirar os olhos do namorado, beijou a amiga com volúpia. As bocas unidas num beijo ardente, cheias de libido.
            Não era possível acreditar no que via acontecer. Camila e Diana se tocavam ao seu lado, deslizando as mãos decididas nos seios e gemendo de um prazer doentio. Parecia-lhe ter invadido a famosa ilha grega de Lesbos e, como convidado especial, assistia ao espetáculo muito próximo do palco.
            Pensou protestar, levantando-se imediatamente e censurando a namorada, mas a excitação o fazia esquecer dos valores morais. Apesar da estranheza e do susto, as quatro amigas se tocando, roçando as carnes umas sobre as outras em posições extremamente sensuais, entregou-se à orgia e à luxúria, assistindo perplexo o comportamento surpreendente das meninas. Não dizia nada, uma mudez bestial o calou, selando-lhe a boca seca.
            Hannah sensualmente despiu a camisa com maestria. Fazia movimentos circulares com os quadris como ele nunca antes vira. A língua corria sobre os lábios carnudos, cheios de desejo e sedução. Em poucos segundos todas estavam nuas, envolvendo-o com seus corpos, enquanto as mãos tateavam-no, explorando cada parte sua. Marcos tremia num misto de excitação e medo. Algo acontecera a elas, algo macabro as forçava a agirem daquela maneira. Não podia, apesar da sensação prazerosa das mãos delicadas e decididas em seu peito, deixar que continuassem a tentá-lo. Esforçou-se sobremaneira para rasgar a invisível mordaça.
            — Parem com isso — ordenou com dificuldade.
            Lutava, rejeitando aquele que seria seu ápice como homem, tendo a seu bel-prazer quatro jovens vorazes pelo seu sexo, Hellen o enlaçou com os braços, forçando-o ao chão com fúria. Muito mais forte do que ela, segurou-a a fim de afastá-la, mas seus músculos não eram capazes de mover o menor peso. Uma força maior residia naquele delicado corpo, uma força superior a dos homens, um poder demoníaco as dominava.
            — Não lute — disse-lhe Hannah num tom áspero.
            De olhos arregalados, o horror tomava-lhe de assombro. A voz dominadora e sombria arranhava-lhe os ouvidos de forma irreconhecível, fazendo-o suar hesitante e perplexo.
            Não resistiu por muito tempo. A fraqueza do sexo venceu sua vontade. Deixou-se entregar ao desejo da carne sem lutar mais, tornando-se um objeto nas mãos nervosas que pouco antes erravam de incerteza. Esqueceu a moralidade, aprazendo-se no jogo macabro ao qual, até então, não sabia por que havia sido convidado.
            O barulho da água estalando incessantemente sobre os telhados e poças de água fazia Wanda encolher-se no sofá da sala, aquecendo-se com o próprio corpo. Não era dada a medos, pensava somente nos estragos que a chuva provocaria. Certamente; concluiu com pesar; amanhã as notícias em todos os telejornais serão sobre a violência da chuva e sobre centenas de desabrigados, tristemente acolhidos em escolas e chorando pelas suas perdas. Meu Deus, por que tudo isso?
            Mal pronunciou mentalmente a última sentença, sentiu uma força maléfica a vigiar. Não estava mais sozinha na sala, uma sentinela invisível a observava, lendo seus pensamentos. Uma voz invasora disse severa em sua mente:
            — Deus não está aqui, mulher!
            Wanda se sentiu letárgica. Tentou gritar pelo marido, mas a voz morria em sua garganta. O corpo amoleceu instantaneamente, caindo sobre as almofadas num sono profundo.
            Sugado completamente pela volúpia das quatro demoníacas amigas, Marcos Paulo estava exaurido, mal conseguindo manter-se viril, apesar dos movimentos constantes e prazerosos de Diana sobre seu corpo. Estava deitado no centro do círculo. Em volta, Hannah, Camila e Hellen observavam atentamente a amiga possuída perdendo a pureza do corpo, ávida pelo sêmen do jovem em seu ventre. Os movimentos tornaram-se mais velozes e firmes. Seu corpo bateu contra o do rapaz num frenesi intenso até sentir-se inundada pelo esperma que escorria de dentro de si, amalgamado ao próprio sangue do hímen rompido.
            Os olhos de Marcos Paulo se fecharam, enquanto um sorriso de satisfação se desenhava em seus lábios, ainda sentindo o jovem corpo de Diana sobre o seu. Pensava na loucura que as quatro fizeram naquela noite. Não sabia se quando o chamaram para participar da evocação tinham em mente realizar a orgia ensandecida. Jamais imaginou que Hannah, que sempre censurara suas mãos quando se atreviam sobre seu busto, pudesse lhe dar um prazer tão doentio e profano. Mas o que importava o medo de antes, as sensações negativas que tivera quando Hellen proferia as palavras sombrias, chamando os Seres da Noite para juntarem-se a elas, se o prazer do sexo o sublimara.
            — Meninas, eu... — quis agradecê-las pelo momento de satisfação, mas o pânico o calara. O brilho intenso da lâmina prateada nas mãos de Camila congelou-o. O medo retornou mais terrível do que antes.
            O punhal desceu sobre o peito de Marcos Paulo, provocando-lhe uma dor imensurável. Sem forças, não conseguiu se esquivar dos sucessivos golpes perfurando sua pele. O sangue se esvaia em jatos atrozes, espirrando nos corpos nus a sua volta. Tentou gritar por socorro, mas a língua nervosa de Hannah invadiu sua boca num beijo vulgar. Não havia volta para a sanção da pena. O preço da obscenidade estava calculado desde o princípio. Só ele não sabia.
            A dor era mortal.
            Hannah arrancou com os dentes a língua do namorado, mastigando-a como um bicho, enquanto o sangue escorria por entre os seus lábios carnudos. Camila abriu uma fenda em seu peito. Mergulhando o rosto no sangue que jorrava, lambuzou-se como uma fera desesperada. Diana mastigava o pênis flácido, engolindo a carne de Marcos Paulo como se o jovem fosse o banquete dos demônios. Hellen, por sua vez, preparava-se para arrancar-lhe o coração e destroçá-lo com os dentes estranhamente amarelados.
Fartaram-se à noite inteira, devorando a carne quente e suculenta como índias antropófagas consumindo o espírito do tolo rapaz, iludido pelos contornos juvenis das jovens possuídas por demônios cruéis.
            A orgia continuou entre elas, esfregando-se umas nas outras numa imundice bestial. Os corpos ensanguentados deslizavam pelo chão, enquanto as bocas sorviam o líquido vital derramado sobre elas. A loucura seguiu freneticamente até que, por fim, a chama da vela se apagou, fazendo-as adormecerem instantaneamente, unidas e despidas ao lado do cadáver desfigurado de Marcos Paulo.
            A tempestade findou, trazendo a calmaria de volta à cidade inundada e destruída.
            Pouco depois, o sol entrava pelas gretas da janela de madeira em pequenos fachos de luz, aquecendo os corpos nus, encobertos por uma grossa camada de sangue seco. O cheiro da morte dominava o quarto como o cheiro de um perfume barato.
            Diana abriu os olhos. Seu grito árido cortou o silêncio em que jazia a casa, acordando as três amigas que ainda dormiam exaustas.
            Sentia nojo de si mesma, sofrendo náuseas fortíssimas ao tentar retirar a nódoa avermelhada de seus braços. Uma terrível confusão mental a abalava, enquanto as lágrimas irrompiam de seus olhos num total estado de loucura.
            — Acalme-se — pediu Hellen, investigando o quarto como se deduzisse o que acontecera a elas enquanto a chuva caía devastando o mundo.
            — O que aconteceu conosco — Camila perguntou confusa, estranhando o fato de estarem completamente nuas.
            — Não consigo me lembrar — disse Hannah, recompondo-se, ainda bocejando de sono. — Onde está o Marcos Paulo?
            — Não está aqui! Meu Deus, será que ele nos viu assim e se aproveitou de nós? — perguntou Diana, com a voz entrecortada por soluços nervosos.
            — Deve ter fugido — exclamou Camila cinicamente. — Ele estava tremendo antes mesmo de... — parou. Não se lembrava de nada além da evocação de Hellen, parecia ter dormido desde então, uma parte de sua vida retirada de si, apagada como uma história ruim. — Será que deu certo, Hellen? Não consigo me lembrar de nada!
            — É mesmo preciso explicar, meninas? Basta olharmos para nós agora. Eu não me lembro de ter tirado minha roupa, mas, como todas podemos ver, estamos nuas. É óbvio que tivemos sucesso.
            — Pode até ser que tenhamos evocado algum espírito, mas não noto nada de diferente em mim — hesitou um pouco — a não ser esta dor terrível em minha vagina — explicou Hannah, levando as mãos ao seu sexo, incomodada pela dor.
            — A minha também dói — confessou Diana ainda mais assustada do que antes. Estava prestes a romper novamente em lágrimas quando Hellen tomou-lhes as palavras.
            — Seguimos o ritual à risca, conforme dizia o manuscrito de sua avó Hannah. Se algo deu errado a culpa é do seu namorado. Quando você se propôs a trazê-lo, um homem atlético e de bom coração, devia ter se certificado de que ele também era corajoso.
            — Marcos Paulo é corajoso. Não fale mal dele, Hellen.
            — Você se apaixonou — lamentou a amiga. — Sua idiota, não bastava usar aquelas roupinhas ridículas que você vestia para conquistá-lo, como também se misturou àquela gentinha hipócrita da escola. Que decepção, Hannah!
            — Mentira — gritou asperamente, fazendo os olhos brilharem avermelhados. — Não precisava ter mudado a minha aparência para o Marcos Paulo me notar. Sinto muito se ninguém olha para você, Hellen, mas o Marcos Paulo me ama de verdade e eu também o amo. E daí que me apaixonei por ele, você não tem nada com isso! De qualquer jeito, a minha primeira vez seria com ele e mais ninguém.
            — E mesmo assim você o trouxe aqui ontem, Hannah. Como você é perversa!
            As duas discutiam sob os olhares assustados das amigas, que viam o corpo de Hannah se iluminar de um tom vermelho vivo, como se estivesse em chamas. Ela trincava os dentes, sentindo o sangue ferver e a fúria devastar seu íntimo. Queria voar sobre Hellen e fazê-la calar-se, arrancar sua língua e exibi-la como um troféu sinistro. Ela a provocava por quê; se perguntava em silêncio, quando ouviu a voz de Hellen em sua cabeça.
            Pelo fracasso do ritual!
            Não perceberam as novas habilidades dadas pelos demônios durante a noite. Estavam tão cegas numa luta de vaidades que não viam a força macabra exalando de seus poros.
            Camila exigiu que parassem e as duas emudeceram. Tentavam retrucar, mas as bocas estavam seladas como se estivessem costuradas.
            — Parem com isso, suas idiotas! Só vocês não perceberam que estamos diferentes. Hannah, você está brilhando como uma labareda avermelhada. Hellen, posso senti-la invadindo meu pensamento. Deu certo, meninas! — dizia eufórica com o sucesso, sem saber o alto preço que teriam que pagar pelas novas faculdades que receberam.
            Voltaram-se para Diana, muda, fitando fixamente para o lado oposto do quarto, atrás da cama. Seus olhos cheios de lágrimas e o rosto severo as deixaram preocupadas.
            — O que foi, Diana? Ainda não descobriu o seu presente? — brincou Hellen, aproximando-se da amiga chorosa.
            Diana não respondeu, permanecendo imóvel diante das amigas, fitando o chão, numa expressão apavorante de angústia e arrependimento.
            O que foi, Diana? — A voz Hellen invadiu sua mente.
            Diana vomitou um pedaço de carne aos pés das amigas, fazendo-as torcerem os narizes, enojadas.
            — O que é isso? — perguntou Hannah.
            — Parece um pedaço de pênis — respondeu Hellen, dando em seguida uma forte e irônica gargalhada. — O que você andou fazendo, garota?
            Diana estendeu o dedo em direção ao chão encoberto pela cama, sem mover mais nenhum músculo. As três amigas se aproximaram e, ao ver o que provocou a mudez da cúmplice satânica, também ficaram apavoradas.
            O cadáver de Marcos Paulo estava mutilado. Em todo o corpo faltavam grandes pedaços de carne. Em alguns pontos chegavam a ver os ossos esbranquiçados à mostra como em uma aula de ciências biológicas. Por baixo dele, uma mancha avermelhada formava uma poça espessa e fétida de sangue. O cheiro da morte vinha dele, a sensação de desespero, delas.
            Hannah não conseguiu controlar o peso em sua consciência, libertando um grito de arrependimento por ter envolvido Marcos Paulo naquela estúpida troca. Ajoelhou-se sobre o namorado, tentando inutilmente trazê-lo a vida. Não parou, mesmo percebendo que lhe faltava o coração.
            — Pare com isso! — Diana gritou longa e guturalmente, fazendo a voz irromper de sua garganta, como se viesse das profundezas mais obscuras do inferno.
            As janelas interiores estouraram, espalhando os fragmentos do vidro pelo quarto, em seguida o televisor explodiu, assim como todos os objetos frágeis que decoravam o quarto de Hannah. O som ecoou pela casa, ultrapassando as paredes e portas, estourando tudo com sua cólera desesperada.
            As três levaram imediatamente as mãos aos ouvidos, tentando impedir que os tímpanos estourassem tamanha altura da voz lacerante. Os gritos de Diana pareciam nascer em suas cabeças comprimindo o cérebro com violência. Caíram no chão, padecendo de fortes dores.
            Hellen tentou transmitir um último pensamento, a última ordem a fim de lhes poupar o sofrimento. Pare de gritar, Diana, ou você vai nos matar. Mas a jovem enlouquecida não cessou o grito visceral, fazendo o sangue escorrer abundantemente dos ouvidos das três amigas ainda nuas, agonizando no chão frio do quarto, como se um objeto pontiagudo fincasse sucessivamente em suas cabeças. Faça-a calar-se, Camila; implorava apavorada.
            Camila sofria tanto que não conseguiu concentrar-se. De nada adiantou o toque do demônio. Ela, a única que poderia cessar com as punhaladas vocais, estava incapacitada, retorcendo-se como uma serpente prestes a morrer.
            Quando Diana finalmente parou de gritar era tarde demais. As amigas estavam igualmente mortas. Perdera o controle quando o pânico a tomou de súbito e o presente que acabara de receber a isolava novamente no mundo. A velha sensação de vazio voltou a atormentá-la como se regressasse para lhe cobrar a ausência. Chorou como uma criança que se perdera dos pais, engasgando-se com as próprias lágrimas vertidas com remorso e desilusão.
            Agachou-se, beijou carinhosamente cada uma das amigas mortas, demorando-se ao fitá-las tenramente como irmãs mais velhas. Uma lágrima pingou em sua mão, chamando-lhe de volta à realidade. Estava sozinha no mundo, prestes a encarar uma existência ainda mais isolada e banida do calor das pessoas. Não queria ser vista como uma aberração da natureza, uma criatura temida e temível. Sonhara apenas em ser querida, em ser estimada. Quando finalmente encontrara pessoas iguais a ela, amigas inseparáveis apesar das convenções da podre sociedade, afastou-as graças a suas fraquezas, graças ao seu medo e a sua falta de controle. Por que fizeram aquilo? Não eram suficientes as brincadeiras macabras que faziam? Não bastavam a velha tábua ouija, o copo ou o compasso formando palavras ou as histórias que contavam antes de dormirem? Por que esqueceram as brincadeiras seguras para atraírem seres tão poderosos e perigosos? Algo, uma premonição tentara alertá-la a demover-lhes a idéia. Sonhara com a avó de Hannah, que conhecia apenas por uma foto desgastada pelo tempo, dizendo para esquecerem o seu manuscrito. Não valeria o ganho, se a consciência se sentisse derrotada. Por que não dera ouvidos aos sonhos de aviso; por que não ouvira a si própria? Questionava-se angustiada, reconhecendo a pior das verdades: estaria presa à solidão, vivendo isolada do mundo a cada dia.
            — Não — gritou Diana longamente — eu jamais vou ficar sozinha de novo.
Jogou-se pela janela do terceiro andar. O vento cortava sua fina pele à medida que chão ficava mais próximo. A cabeça bateu violentamente no concreto, partindo o seu crânio. Os ossos quebrados penetraram em seus órgãos, provocando um forte e gravíssimo sangramento interno.
Contorceu-se em pequenos espasmos, antes de ter a visão escurecida e a dor cessar definitivamente.
— Esperem por mim — sussurrou dificultosamente, enquanto o sangue jorrava de sua boca.
***
            Saulo acordou com o estrondo vindo do quarto da filha. Sem entender ao certo como fora parar na cama, subiu as escadas apressado, invadindo o quarto brutalmente. Suas pernas tremeram e o ar lhe faltou ao ver com seus próprios olhos a filha sem vida ao lado das amigas.
            Desmaiou de pavor e revolta.
            No dia seguinte, o jornal local publicava a manchete principal, com foto, na primeira página:
           
Jovem insana mata o namorado e amigas em ritual satânico, durante o temporal que devastou a cidade.


in: Pesadelos - contos de horror e medo
Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 04/06/2006
Reeditado em 08/01/2010
Código do texto: T169068

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
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