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Um filho entregue ao mal

Um filho entregue ao mal

Ela andava pelas ruas da cidade com um ar de cansaço no rosto, no entanto, essa expressão poderia muito bem ser disfarçada por sua felicidade. O cansaço vinha da longa caminhada que estava fazendo pelo centro para comprar as roupas para o bebê. Com aquela barriga enorme, ela tinha que parar e descansar. Sentava-se em um dos bancos em uma praça e esperava as pernas pararem de doer enquanto acariciava a barriga e sorria para a criança em seu ventre. Conversava com o bebê e recuperava todas as forças assim que o sentia chutando.
- Já quer sair, filho? Mamãe tá esperando... – dizia ela, cheia de sorrisos.
Então se levantava e continuava a andar. Já tinha algumas sacolas na mão e ainda tina mais a comprar. Depois de completar o enxoval, decidiu parar para comer um churro. Adorava churros e tinha mais vontade de comê-los depois que engravidara. Pobre do marido que tinha que sair durante as madrugadas frias só para comprar churros com doce de leite. E ele ia todas as vezes, sem reclamar, só garantindo um beijo na boca dela e outro na barriga antes de ir. Ele voltava com cara de sono, mas feliz. Esperava ela acabar de comer o churro antes de ir dormir.
Eram um casal feliz e dificilmente alguém diria o contrário. Tinham seus momentos difíceis, porém superavam tudo. E a vinda do filho estava para melhorar as coisas ainda mais. Voltou para casa com as compras feitas e resolveu parar na pracinha do bairro. Adorava o lugar com suas árvores, o parquinho com o chão só de areia. Era coberto por grama, mas ficou gasto de tantas crianças brincarem ali.
- Vamos parar um pouco para mamãe descansar, meu filho?
Sentou-se no banco e içou observando algumas crianças brincando com os pombos. Adorava vê-los, pois ela fora criada naquela vizinhança, assim como o marido e queria que o filho também vivesse naquele bairro pacato.
- Olha, filho. Daqui um tempo você vai estar fazendo isso e a mamãe vai estar junto. Papai também...
Nem viu quando a  velha sentou do seu lado. Maldita. Infelizmente, nem tudo eram flores no bairro. Aquela maldita era a ex-sogra do marido. Ele deixara a antiga namorada em um fim conturbado. Depois disso, namorou e casou-se com a futura mãe de se filho. Mas a velha e a filha maldita continuaram atormentando. Desistiram há poucos anos, quando perceberam que nada adiantaria.
No entanto, ela não gostava de passar diante da casa da velha. Tinha uma aura ruim. Apesar de não ser religiosa ou supersticiosa, evitava o local. Sabia que a mulher era quase uma bruxa. Vivia fazendo ervas para resolver certos problemas femininos... filhos indesejados, mais precisamente. Vivia daquilo. “Que nojo”, pensou, segurando a barriga.
A velha tentou tocá-la, mas ela se afastou.
- Com licença – disse, se levantando.
- Queria pedir desculpa moça. Boa sorte com o seu bebê... Olha, pra provar que não guardo Ada. Pra você ter boa sorte – disse ela, entregando um pequeno colar para ela.
Não queria pear aquilo. Era sujo... sentia que era vindo das mãos daquela pessoa, mas a velha se levantou e segurou a mão dela. O pingente do colar era uma mulher grávida. Nem o notou direito, porém estava sensível quanto a qualquer coisa de gravidez. Foi embora para casa correndo. Deixaria o carro na rua para o marido buscar.
Acalmou-se apenas quando chegou em casa. Queria brincar com as roupas do filho, porém estava tudo no carro. Trocou de roupa e colocou uma camisola. Insatisfeita, foi para frente da televisão. Nada melhor para desligar a cabeça. Ficou ali parada e a tarde foi se acabando. Começou a escurecer. Entediada e com sono, pegou o maldito colar e começou a olhá-lo. Jogou-o sobre a mesa e apoiou os pés lá. Acabou dormindo.
Acordou quando sentiu um incômodo na barriga. Quis se levantar, porém não conseguiu. A barriga doeu mais ainda.
- Não! – gritou. As lágrimas de desespero começaram a correr no mesmo instante. Ela sabia o que estava acontecendo! – Não, meu filho! Não me deixa!
Olhou para os lados procurando o marido. Chorava e pedia ajuda. Então olhou para frente e por sobre a barriga viu algo, algo que estava entre suas pernas. O corpo gelou e a barriga doeu ainda mais. Havia uma pessoa entre suas pernas... Não soube de onde tirou coragem, porém subiu a camisola para entender o que acontecia.
Gritou de horror! Foi um grito de loucura. O sangue escorria de suas pernas, passando pelo sofá e caindo no chão. Ajoelhada, parecendo um cachorro, uma mulher coberta por névoa lambia o sangue. Lambia cada centímetro.
Pediu para estar sonhando, porém o nome Mitzenli era sussurrado em sua mente e ele sabia que tudo era verdade. Aquele era um demônio e não era. Era algo feito do mal... Uma parte de um mal maior...
- Me acorda!!! Meu filho! – gritou.
E a criatura continuava lambendo o sangue. Começou a lamber no sofá e a se aproximar da virilha dela. E então a dor da barriga aumentou. Era como se a barriga fosse pressionada de todos os lados. Ela tentou segurar tudo, mas não adiantava. Pôde sentir quando a  cabeça do filho começou a sair dentre as pernas. Podia jurar que ouvia seu choro. Mas não havia nada além da mudez da morte. Ela chorou e gritou, segurando a barriga e tentando fechar as pernas, mas a criatura segurou-a pelos joelhos com facilidade. Manteve as pernas abertas enquanto filho saía coberto por sangue e placenta. E ela gritava.
Quando o feto caiu sobre o tapete, a criatura a soltou, porém ela não tinha mais forças nem para fechar as pernas. Apenas chorava. Pensou que ia desmaiar ali, porém o horror a manteve desperta, quando viu o demônio se abaixar de novo, agora para dar a primeira mordida na carne do minúsculo cadáver. E assim ela assistiu ao filho sendo devorado pedaço por pedaço por um avatar de Mitzenli. Vomitou e soltou tudo o que comera sobre si mesma para depois desmaiar.
Mais tarde, ela veria que aquele pingente tinha uma mulher grávida, porém com o rosto coberto de desespero e raiva.


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Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 16/06/2006
Reeditado em 16/06/2006
Código do texto: T176625

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Sobre o autor
Shaftiel
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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