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Perseguição e assassinato

Perseguição e assassinato

Ele andava pela calçada quase encolhido. Tinha as mãos no bolso e a cabeça baixa, com os olhos sempre atentos ao que passava pelos cantos de sua vista. Aprendera a enxergar muito bem o que se passava a seu lado. Desviava-se das pessoas como se tivesse medo de tocá-las. De fato, o medo era uma constante em sua vida. Era tão grande, que não tinha as mãos no bolso da jaqueta para se proteger, mas sim para tatear a pistola presa ao coldre. O buraco no bolso fora adaptado para que pudesse sacá-la facilmente. Na outra mão, havia uma faca, também sempre preparada.
Seu olhar desconfiado sempre afastava as pessoas. E por causa dele, elas sempre o observavam de soslaio, com um misto de asco e  receio daquele indivíduo estranho. Julgavam-no sem entender o que o homem havia passado. De certo, quando andava confiante e cheio de si, orgulhoso de ser um servo fiel de Kriene´Lavi, eles o temeriam e o respeitariam. Agora que deixara o culto e não orava mais para aquela divindade negra, muito menos usava seu treinamento militar para massacrar os soldados do Templo ou das ordens religiosas, as pessoas queriam vê-lo longe. De que adiantara abandonar toda a sanguinolência para agora ser desprezado pelas pessoas com as quais queria se desculpar?
Às vezes suas mãos tremiam, ansiosas por saltar das roupas e atirar, matar, sentir aquela violência deixar o corpo e apreciar a beleza do sangue escorrer dos corpos, pelo chão e respingando sobre ele. A cabeça doía, chamando por novos momentos como aquele. No entanto, ele tudo evitava e caminhava para encontrar a redenção. Esperava ter tempo para isso. Muito tempo, pois o culto estava atrás dele. Sempre estivera.
Entrou no prédio e subiu as escadas para o apartamento. Não gostava de usar o elevador, temendo alguma surpresa naquele ambiente fechado. Ao menos, se houvesse uma emboscada na escada, poderia se defender e teria mais chance de escapar usando seu instinto. Instinto... fora justamente ele que o levara aquela situação. Retirou as mãos do rosto e coçou-o, pedindo forças a si mesmo para poder suportar.
Abriu a porta de casa para ser recebido pelo único ambiente em que se sentia bem. A esposa o abraçou e a filha logo apareceu para abraçar suas pernas. Acalmou-se no mesmo instante, tendo as forças reabastecidas pelo afeto. O coração só batia exasperado quando imaginava que os dois pudessem sofrer um atentado. Fazia de tudo para impedir aquilo. Passava horas andando disfarçado para que não encontrassem sua casa. Mudava de tempos em tempos ou alugava outros apartamentos apenas para si, tudo para que não encontrassem sua família. No entanto, suspeitava que seus temores estavam para se realizar.
Sonhara com sangue escorrendo e com Kriene´Lavi nas últimas semanas. Aquela criatura feita de lâminas, nascida apenas para fatiar corpos e agredir, surgia como uma sombra em seus sonhos. Enquanto a filha corria para o quarto para pegar a prova com a nota boa na escola e a esposa ia preparar o jantar, ele caminhou até a janela. Abriu levemente a persiana e olhou lá fora. Notou dois homens parados conversando e olhando para o prédio. Estava ali há dias e ele não suportava mais vê-los. Estavam o ameaçando.
No dia seguinte, após uma noite difícil em que acordara suado pro causa de um pesadelo, ele saiu para trabalhar. Ajudava algumas ordens secretas com informações sobre os cultos, quase como um consultor. Claro que eles desconfiavam dele, porém ajudavam sua família com muito dinheiro e até lhe davam proteção. E foi essa proteção que lhe causou preocupação naquele dia:
- Acho melhor você tomar cuidado – disse o líder da ordem.
- Por quê? – perguntou. Teve vontade de levar a mão à pistola ou à adaga, porém não tinha nenhuma delas. Nunca poderia mostrar que andava com armas ou a ordem o recriminaria. Era como um alcoólatra  em recuperação andar com uma garrafa de vodka.
- Dois dos seus guarda-costas foram mortos ontem. Pelo que traçamos, conseguiram despistar o culto de você, porém acho melhor tomar cuidado. Vamos providenciar para que sua família mude-se mais uma vez.
A esposa! A filha! O coração quase explodiu. Batia mais rápido do que um relâmpago. Podia ouvir as próprias batidas. O líder da ordem viu a preocupação nos olhos dele.
- Acalme-se. Já enviamos proteção para eles.
Aquilo não o acalmou. Voltou para casa assustado, lembrando-se de pegar as armas que esconder habilmente, antes que seus guarda-costas percebessem. Conseguira fugir durante sete anos. Sete anos sem matar ninguém, apenas colaborando para salvar sua alma e impedir que os cultos continuassem com suas matanças. Sentia que precisaria voltar a matar para salvar sua família. E bastaria um tiro para que tudo voltasse a ser o que era antes. Não era justo! Não era justo! Estavam forçando o álcool na boca do viciado. Eles sabiam o que estavam fazendo. Mesmo que matasse membros do culto, aqueles malditos estariam vencendo.
Subiu as escadas decidido a matá-los. Sua alma estaria perdida, mas salvaria sua família. Entrou em casa e a esposa logo percebeu o ar de preocupação. Era hora de mais uma mudança. Ele olhou pela janela enquanto ela enviava a filha para o quarto. Os dois homens estavam lá. E ele podia sentir o cheiro de violência no ar. Haveria morte naquela noite.
Abraçou a esposa com todas as forças. O casal conversou sobre a situação e ela decidiu que realmente era melhor sair dali. Foram dormir sabendo que dificilmente conseguiriam ter um sono digno. Ele quis deixar uma arma debaixo do travesseiro, mas ela impediu. Foi com cuidado que a convenceu a deixar pelo menos a adaga.
- Acha que eles virão? – ela perguntou, quase implorando por uma resposta negativa.
Ele não quis falar dos sonhos em que Kriene´Lavi avisava que estava se aproximando.
- Acho que sim – disse, vendo a dor nos olhos dela.
- Acho que vou pegar...
- Sim... pode pegá-la. – Sabia que ela estava se referindo à filha. Decidiu naquela mesma noite que as mandaria embora e virou-se para descansar um pouco. A esposa acabou voltando sozinha, sem a filha.
Foi tomado pelos mesmos sonhos de violência. Chovia sangue e ele erguia a cabeça, pedindo por mais. Abria a boca como uma criança se divertindo em beber água da chuva. Ria como um desgraçado que se conformara com sua degradação. Era um viciado com a consciência de seu estado lamentável após anos chafurdando em uma droga que destruía algo ainda mais sagrado que seu corpo, a sua própria alma.
Então viu sua família sendo morta e sua filha gritando horrorizada. Podia ouvir o barulho na porta. Maldição. Foi só então que tomou consciência de que dormira. Alguém acabara de entrar no quarto e ele não percebera. O cansaço o vencera. Rápido como um lince, pegou a adaga e levantou-se para a escuridão. Não precisava enxergar para sentir onde estava o sangue... onde estava o sangue que precisava ser libertado do corpo. Cada pulsar de uma artéria era um clamor do sangue para ser retirado da prisão do corpo.
Atacou o inimigo. Cravou a adaga até o punho e empurrou o inimigo. Ao lado dele, a esposa gritava. Levantou-se e a puxou para correr até o quarto da filha. A adrenalina espalhava-se pelo corpo e o cheiro de sangue começava a tomar suas narinas. Ainda bem que deixara a adaga cravada no corpo ou poderia fazer alguma bobagem. Então viu as sombras se movendo e viu que havia mais inimigos. Eles riam...
Sentiu a esposa puxando para trás, tentando voltar para o quarto. Então compreendeu os gritos dela e a mente clareou para as risadas. De fato, havia pessoas em sue apartamento, mas elas estavam saindo junto com as sombras. Uma delas acendeu a luz antes de ir. Julgou que fosse apenas para mostrar os corpos de dois de seus guarda-costas. Não era. Quando olhou para trás, viu o motivo. Ainda segurava a esposa. A mulher estava com o braço esticado, tentando desesperadamente alcançar o corpo no chão. Ele baixou a cabeça e chorou, pois sua adaga estava cravada no peito da filha. O corpo inerte ainda sangrava. A esposa gritava. E a mente dele... a mente dele se despedaçava. Soltou a mulher e deixou que ela abraçasse o cadáver da filha.
Do fundo da alma torturada, Kriene´Lavi avisava:
- Eu estou dentro de você... Eu sou você e você sou eu. Eu o espero no Abismo.
Mordeu os lábios até sangrar. Então pegou um castiçal na escrivaninha e virou-se para a esposa...
Shaftiel
Enviado por Shaftiel em 24/06/2006
Código do texto: T181793

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Sobre o autor
Shaftiel
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