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A MALDIÇÃO DO CIGARRO

- Você quer mesmo parar de fumar?
- Quero.
- É uma decisão definitiva e pensada?
- Sim.
- Sem arrependimentos?
- Sem arrependimentos.
- Qual sua idade?
- 45.
- Você fuma há quanto tempo?
- Desde meus quinze anos.
- Qual a média?
- Dependendo do dia, até dois maços por dia.
- Tem algum maço aí com você?
- Sim.
- Dê-me.
- Tudo bem.
- Obrigado. Vou queimar todos esses cigarros. É casado?
- Separado. Dois filhos, ambos casados. Moro só, mas tenho namorada.
- Bebe?
- Sim.
- Pratica exercícios físicos?
- Caminhada nos finais-de-semana, quanto tenho disposição.
- Ok. Estás realmente convicto de sua escolha?
- Sim.
- Muito bom. Gostei de saber que estás decidido. E sei que você vai conseguir.
- Com certeza.
- Bem, a partir de hoje, meu amigo, você deixará de fumar.
- A partir de hoje?
- Isso mesmo. Hoje.
- E qual o método? Que remédio deverei tomar?
- Nenhum.
- Nenhum?
- Sim. Não há método, nem remédios.
- Como assim?
- Hoje você irá para casa.
- Poderei sair normalmente?
- Sim.
- E você não preencherá uma ficha?
- Não.
- Não me dará remédios?
- Não.
- Nenhum tipo de terapia?
- Nada.
- Mas... será se vai funcionar?
- Vai. Acredite.
- E se eu fumar às escondidas?
- Será problema seu.
- Como assim?
- Foi o que eu disse.
- Mas... não estou entendendo.
- Você me procurou, certo?
- Sim. Encontrei um cartão, no banco de um ônibus, que dizia: "Pare definitivamente de fumar. Método infalível e gratuito. Procure-nos na rua Malak Borba, casa 34."
- Certo. Está com o cartão? Pode mostrá-lo?
- Sim. É esse.
- Ah, sim... certamente. Posso ficar com esse cartão?
- Claro.
- Obrigado. E o que levou até esta casa?
- Fiquei curioso, pois há muito tempo que tento parar de fumar, sem conseguir.
- E você apertou a campainha e agora está conversando comigo.
- Isso mesmo.
- Confia em mim?
- Desculpe, mas duvido que você consiga me fazer parar de fumar. Essa casa é sombria. A rua é sombria, num bairro de periferia. Tudo é muito estranho. Pensei que ia me dar remédios ou algum tipo de tratamento moderno.
- Pensou que ia encontrar uma clínica, com placas na frente?
- Sim.
- E pessoas vestidas de branco, macas, recepção e ambiente que cheira a remédio?
- Exatamente. Foi isso mesmo que pensei.
- Você apertou a campainha e eu atendi.
- Uma surpresa. Não era o que eu esperava.
- E não acredita que eu consiga fazê-lo parar de fumar.
- Isso mesmo. Você nem ao menos perguntou meu nome.
- Certo.
- Ou meu endereço, minha profissão.
- Não será necessário.
- E o que devo fazer?
- Você irá para casa, jogará todos os cigarros que ainda tem no lixo e seguirá sua vida normal. A única diferença é que você não fumará mais.
- E se eu fumar?
- Problema seu.
- Gostaria que se explicasse melhor. Como assim, problema meu?
- Meu amigo, a partir do momento em que você apertou a campainha desta casa, naquele exato momento, precisamente, você iniciou um processo.
- Esse é teu método?
- Exatamente.
- Você utiliza algum tipo de psicologia, é isso? Você diz que eu vou parar de fumar e quer que eu acredite que vai funcionar?
- Sim.
- Desculpe, mas acho que perdi meu tempo em vir aqui.
- Você verá que não perdeu seu tempo.
- Pensei que estivesse tratando com um homem sério. Você é médico?
- Não sou médico.
- Curandeiro? Homeopata? Padre? Especialista em alguma coisa?
- Não.
- Meu Deus! Estás brincando comigo?
- Também não.
- Tudo bem. Não irei mais discutir esse assunto. Posso ir?
- Pode. E lembre-se: o processo começou. Você nunca mais voltará a fumar.
- Tenho minhas dúvidas. Posso saber seu nome?
- Não.
- Não quer me dizer seu nome?
- Não quis saber o seu. Por que iria dizer o meu?
- Eu devia denunciá-lo por brincar com as pessoas.
- Não vai ser necessário, pois você verá que meu método é infalível.
- Tudo bem. Paramos por aqui. Obrigado e adeus.
- Adeus, amigo. E não esqueça minhas palavras.
- Na verdade, nunca estive aqui, se quer saber.
- Veremos.

      ***

Quando saiu da casa faltava dez minutos para as cinco horas da tarde.
Sábado de sol.
Rua sombria, cercada por casas antigas e sinistras. Pareciam mansões mal-assombradas. Não sabia que existia uma rua assim na cidade. Não esqueceu o arrepio incômodo que sentiu, quando apertou a campainha da casa. Foi como se forças estranhas e maléficas tivessem entrado em seu corpo. Uma sensação horrível! Já pensava em ir embora quando a porta se abriu e aquele homem o atendeu.
Detestou aquele lugar e desejou sair dali o mais rápido possível.
"Veremos". O que ele quis dizer com aquilo?
Seguiu para a parada, localizada em outra rua. Pegou o ônibus, vinte minutos depois, e suspirou, aliviado, ao afastar-se do bairro, rumo ao centro.
Enquanto viajava, pensou naquele homem alto, magro e narigudo. Parecia um abutre e tinha os olhos frios e maquiavélicos. Além disso, teve a impressão de que havia um brilho satânico naqueles olhos. Provavelmente espalhava aqueles cartões pela cidade só para enrolar as pessoas. Não tinha método nenhum e apenas se divertia com o desespero dos outros. Merecia ser processado, sem dúvida.
Ele ficou com seu maço de cigarros. Babaca!
Desceu no centro e seguiu para o terminal.
Mais vinte minutos e entrou no ônibus que o levaria até seu bairro.

      ***

Optou por não sair, naquela noite fria.
Jantou bife no restaurante da esquina e alugou dois filmes de suspense.
Ligou para Márcia, 38 anos, divorciada, sua namorada, amante e amiga, mas esta não aceitou seu convite de ver os filmes com ele. Tudo bem.
No dia seguinte, domingo, pretendia almoçar com o filho mais velho.
Morava num apartamento, de sua propriedade - quitado, no terceiro andar de um velho prédio de cinco. O prédio não possuía elevador e havia dois apartamentos por andar.
Enquanto assistia ao primeiro filme, sentiu uma irresistível vontade de fumar. Havia dado o maço ao narigudo, mas tinha mais dois na gaveta. Ficou pensando se conseguiria mesmo parar de fumar. Havia tentando inúmeras vezes, sem sucesso.
Levantou-se e pegou um dos maços. Pensou nas palavras do homem narigudo:
"A partir de hoje, meu amigo, você deixará de fumar."
Otário!
Ia retirar um cigarro do maço, mas mudou de idéia.
Tinha que tentar. Tinha que ter força de vontade, porra.
Devolveu o maço à gaveta e retornou ao sofá da sala.
Na metade do segundo filme, sentiu sono.
Tomou banho e deitou-se na cama de casal do quarto.
Pela primeira vez em anos, ia tentar dormir sem ter fumado antes.

      ***

Não suportou a pressão.
Acordou às duas horas da madrugada, doido para fumar.
Merda! Suas mãos tremiam, seu corpo ansiava por um cigarro.
Levantou-se, meio cambaleante, e foi até a cômoda. Abriu a gaveta e pegou o maço.
Não pensou no narigudo. Dane-se!
Retirou um cigarro, todo trêmulo, e o acendeu, num átimo de segundo, com o isqueiro.
Sentou-se na cama e saboreou a primeira baforada. Adorou a doce sensação da fumaça penetrando seus pulmões. O cérebro tornou-se mais leve.
Maravilhoso! Delicioso!
De vez em quando era acometido por tosses enjoadas, mas nada superava essa delícia que era fumar. Meu Deus! Poderia pegar um câncer a qualquer momento.
Mais baforadas, as costas apoiadas no travesseiro.
Foda-se o câncer! Seja bem-vinda, santa fumaça, que inebriava seu espírito! Fumar dava-lhe uma tenra tranqüilidade.
Depois que devorou o cigarro em toda a sua essência (tragando com a nítida volúpia de um viciado!), deitou-se e, aí sim, conseguiu dormir.
Tudo levava a crer que teria uma noite calma.

      ***

Às cinco horas da mesma madrugada, seu horror começou.
Acordou com uma terrível dor de cabeça.
Sentiu profundas pontadas em seu cérebro, como se quisessem rasgá-lo.
Suas mãos! Havia manchas avermelhadas nela. Manchas nojentas. Algo parecido com... varíola!
Meu Deus!, pensou, apavorado. O que estava acontecendo?!?
Tentou levantar-se e caiu, pois estava tonto. As dores aumentavam. As manchas dominavam suas mãos e braços.
Levantou-se, trôpego, e dirigiu-se para a porta. Não lembrou de recorrer ao telefone.
Conseguiu abrir a porta.
- Alguém me ajude! - gritou, em desespero - Ricardo! Eu preciso de...
Desabou, no piso do corredor, sem sentidos.

      ***

Acordou num quarto de hospital.
Aplicaram-lhe uma injeção. Sua dor de cabeça passara, mas os médicos não conseguiram identificar o que significavam as manchas avermelhadas. Não era varíola, nem sarampo. Talvez algum tipo de alergia, concluíram. Perguntaram se tinha consumido algum tipo de medicamento. Negou.
Ficou em observação até as manchas sumirem, o que ocorreu duas horas depois.
Os filhos e Márcia o visitaram, naquele domingo de sol.
- Tudo bem, pai? - o mais velho quis saber.
- S-Sim... - conseguiu dizer - Foi só um s-susto...
Soube que Ricardo, o vizinho do lado, que possuía carro, o conduzira até o hospital.
Recebeu alta (caso as manchas voltassem a aparecer, deveria informar o médico de imediato) e passou o domingo na casa do filho mais velho, recuperando-se. Comeu churrasco e assistiu a um jogo do campeonato brasileiro de futebol. Brincou com os netos.
Não bebeu, nem fumou, durante o dia. Resistiu à vontade de fumar. Era uma vontade quase insuportável, mas ele superou.
Voltou para casa à noite, depois que os filhos verificaram que já estava completamente recuperado.
Agradeceu ao Ricardo pela ajuda.
Jantou sopa e perguntou-se se aquelas manchas, mais a dor de cabeça, tinham algo a ver com o homem narigudo. E por que teria? Inconcebível! Com certeza foi algum tipo de alergia. Provavelmente isso não aconteceria de novo.
Por que a imagem do homem narigudo lhe veio à memória? Estranho...
Às onze horas da noite, não resistiu e fumou um cigarro.
Queria parar, mas não tinha força de vontade suficiente. Não tinha forças, porra!
Fumar era o que importava. Fumaça nos pulmões, uma bênção para lhe dar ânimo. Tragadas saborosas, o prazer do tabagismo. Cigarro adocicado.
Porém, o pesadelo voltou. Às três horas da madrugada, teve outro ataque.

      ***

Dor de cabeça!
Pontadas insuportáveis nos neurônios. Mil agulhas o perfuravam.
Manchas avermelhadas por todo o corpo. Coceira. Muita coceira...
Levantou-se e abriu a porta da sala. Desembocou no corredor. Novamente não se lembrou de pegar o telefone e chamar por socorro.
- Meu Deus! - gritou, ensandecido - Meu Deus!
Gemia de dor. Coçava o corpo. Maldita coceira! Seus dedos ávidos roçavam a pele, por cima das manchas. Era como se pequenos vermes andassem por sua pele, criando essa coceira insuportável. Arg! Suas pernas tremiam.
Bateu na porta do apartamento do Ricardo.
Estava com a aparência grotesca, devido às manchas.
No rosto, inclusive.
Parecia um monstro oriundo do inferno.
- Ricardo... por favor...
Desmaiou diante de um Ricardo assustado.

      ***

Permaneceu internado durante quatro dias. Márcia o acompanhou, na medida em que o trabalho o permitia, dando-lhe todo o apoio de que necessitava.
Os médicos coletaram amostras de: pele, urina e sangue.
Novas injeções.
Que vontade de fumar!
A dor de cabeça só passou na segunda-feira.
As manchas e a coceira permaneceram até terça-feira. Coçou-se tanto que chegou a se ferir nos braços. Suspirou de alívio quando a coceira foi embora.
Praticamente não dormiu direito, nos últimos três dias. Queria tragar, colocar em seus pulmões a prazerosa e, ao mesmo tempo, maléfica, nicotina.
Os filhos lhes davam apoio.
Os médicos diagnosticaram alergia crônica a algum tipo de medicamento ou alimento.
Teve que contar tudo o que consumira na semana que passou. Bife, frango, churrasco, sopa, café, leite, pães, manteiga, frutas, etc. Nada fora do normal.
Tomava cerveja, de vez em quando, e fumava.
Os médicos iriam avaliar a quais substâncias era alérgico, para que evitasse o consumo. Receitaram um comprimido para alergia. Deveria tomar um por dia. Aconselharam-no a abandonar as bebidas e os cigarros.
Recebeu alta na sexta-feira pela manhã. Obteve dispensa de oito dias do trabalho.
Durante o tempo em que estava internado, não fumou, nem bebeu.
Pensava em fumar todos os dias. Fumar, fumar, fumar...
Foi melhorando aos poucos.
Pediu desculpas a Ricardo pelo transtorno. Este parecia apavorado com ele. Tranqüilizou-o, dizendo que tudo estava bem.
Sua vida foi retomando a normalidade.

      ***

Ficou sem fumar por vinte dias, desde que recebera alta.
Foram vinte dias tranqüilos, sem maiores problemas, do ponto de vista da saúde. Quer dizer, não tivera mais ataques, nem dores, nem coceira.
Com relação ao cigarro, porém, foram vinte dias de angústia, pois nunca passara tanto tempo sem fumar.
Por várias vezes estivera prestes a acender um cigarro. Chegara a tocar neles, resistindo por pouco. Sonhava sempre com cigarros, muitos, acendendo um atrás do outro. Passou os vinte dias pensando em fumar.
Não jogou fora os maços. E, aos trancos e barrancos, foi resistindo.
Os médicos, após os exames de pele, urina e sangue, disseram que ele não era alérgico a nenhum tipo de substância, o que tornava seu caso absolutamente estranho.
Voltou a trabalhar, como se nada tivesse acontecido. Contou aos colegas de trabalho que tivera um ataque alérgico, mas que estava tudo bem. Eles só estranharam o fato de não ter colocado um cigarro na boca, desde então. Disse-lhes que estava tentando parar de fumar.
Márcia passou a dormir com ele todas as noites e a dar-lhe a devida assistência.
Grande companheira! Ela, que não fumava, ficou feliz em saber que ele lutava contra o vício.
- Você vai conseguir, meu amor. - ela dizia, carinhosa - Continue tentando.
Não revelou a ninguém a conversa que tivera com o homem com cara de abutre.
Passou exatos vinte e dois dias sem fumar. Um recorde em sua vida.
Num determinado sábado, no entanto, o negócio desandou. Ele e Márcia decidiram ir ao Murilos Beer, para tomar uns chopes e dançar. Havia esquecido de tomar o comprimido contra alergia.
Ocuparam uma mesa e começaram a tomar todas.
Não sabe se foram os chopes ou a música ou se a vontade, que estava adormecida, despertou como um vulcão, dominando-o completamente.
O certo é que ele comprou um maço e acendeu seu primeiro cigarro, após dias de abstinência.
Márcia não gostou de ver aquela cena, mas nada comentou.
Passaram a noite dançando, namorando e bebendo. Ele fumou seis cigarros.
De madrugada, no apartamento, fizeram amor de modo intenso, onde cada beijo e cada carícia evidenciava uma entrega suprema. Márcia adorou.
Duas horas depois, novo ataque.

      ***

As agulhadas no cérebro!
Dor! Muita dor!
Márcia foi testemunha de uma cena grotesca.
As manchas voltaram a aparecer, seguidas da coceira.
Ele se contorcia na cama, sem ter forças para se levantar.
- Meu Deus! - gritava, enlouquecido - Dói! Dói muito! Márcia! Márcia!
Viu Márcia, pálida e apavorada, levantar-se e ligar para o hospital.
Suas mãos rasgavam a pele, tentando dizimar a coceira.
As dores!
Intensas. Brutais. Animalescas.
Vomitou no piso, em convulsões violentas. Seu corpo todo tremia.
Desmaiou em seguida.

      ***

Novamente o hospital.
Mais três dias de internação.
Injeções, soros, exames, remédios.
Havia chegado a uma conclusão, mas nada revelou aos médicos.
A dor de cabeça e as manchas sumiram no dia seguinte.
Havia uma curiosidade mórbida dos médicos com relação ao seu caso. O paciente estava sofrendo um caso crônico de alergia? Ou se tratava de uma doença rara? Por que as manchas sumiam de repente? Que substância levava o paciente a ter tais ataques? Discutiram entre si, pois não queriam dar-lhes alta. Um deles disse que, caso voltasse a ter novo ataque, teria que permanecer mais tempo internado, para exames mais profundos. Não querendo ficar nem mais um minuto no hospital, concordou e aceitou os termos.
Recebeu alta e voltou para casa, quarta-feira, com Márcia.
Ela nada dizia; apenas lhe dava carinho e apoio.
Dormiram juntos e ele não fumou. Teve sonhos agitados, com o homem narigudo lhe oferecendo cigarros e rindo. Ele fumava e morria, lentamente, em agonia, asfixiado com a fumaça. Morria e ouvia as gargalhadas do narigudo. Acordou de madrugada, assustado, mas sem fazer barulho. Márcia nada percebeu.
Na quinta-feira, à tarde, depois que Márcia foi para o trabalho, ele saiu e pegou dois ônibus, numa viagem para o outro lado da cidade.

      ***

Desceu do veículo e andou alguns metros.
Dobrou à direita e entrou na rua Malak Borba.
Lá estavam as casas estranhas - mansões sinistras e assustadoras. O vento era forte, naquela rua deserta. Parou diante da casa 34. Novamente sentiu um calafrio, uma sensação de que algo macabro estava por vir. Sem pensar em mais nada, apertou a campainha. Queria resolver o assunto o mais rápido possível.
Para sua surpresa, uma mulher idosa, talvez com mais de 60 anos, magra e que usava óculos de grau, abriu a porta.
- Pois não? - ela perguntou, encarando-o.
- Boa tarde. Estive aqui há um mês e fui atendido por um senhor, mas não sei o nome dele. É possível eu vê-lo?
- Um homem? E o senhor não sabe o nome dele?
- Infelizmente ele não quis se identificar.
- Poderia descrevê-lo?
- Alto, magro, moreno, com um nariz grande e pontiagudo.
A idosa, ao ouvir a descrição, pareceu levar um susto.
- Você tem certeza, filho, de que conversou com essa pessoa há um mês?
- Tenho.
- Aqui nesta casa?
- Sim, senhora.
- Meu Deus! Isso é impossível.
- Como assim, impossível?
- Por favor, entre.
Ele entrou e o que viu foi uma sala totalmente diferente. Sofá, estante, televisão, cortinas, tapetes, telefone, mesinha de centro. Quando conversara com o narigudo, havia apenas uma escrivaninha e duas cadeiras.
"Que estranho." - pensou, tenso - "O que estava acontecendo?".
- Sente-se que já volto.
A idosa sumiu dentro da casa. Ocupou o sofá e ficou à espera, as mãos frias, o corpo em total estado de tensão.
A idosa retornou, minutos depois, e lhe estendeu algo.
- Veja. - ela murmurou, séria, sentando-se ao lado dele.
Pegou duas fotos das mãos da idosa e uma folha de papel. Eram fotos em preto-e-branco, de um homem que, com certeza, era o mesmo com quem conversara, há cerca de um mês.
- É este o homem com quem o senhor disse que conversou? - a idosa perguntou.
- S-Sim. É esse mesmo.
- Meu Deus... - a idosa murmurou e parecia assustada - Meu Deus...
- A senhora está bem? Eu disse algo errado?
- Esse homem é meu filho...
- S-Seu filho?
- Sim... E ele morreu há dois anos...
- Morreu? Como assim?
- Meu filho está morto. Morto, entendeu? - a idosa levantou a voz, entre nervosa e histérica - Portanto, o senhor não poderia ter conversado com ele. Nunca! Houve um engano de sua parte. Veja o outro papel, por favor...
- N-Não pode ser! - disse, tentando não perder o controle. A folha de papel, na verdade, era uma certidão de óbito. Ali estava o nome do narigudo: Kleber Lummer Grutty. Morte por enforcamento.
O calafrio novamente dominou seu corpo. O medo! O medo penetrou sua mente. Lábios trêmulos, palidez no rosto, estômago embrulhado. Respirou fundo, tentando voltar à calma.
- Meu nome é Lúcia Lummer Grutty. Meu filho mexia com feitiços. Era adepto da magia negra. Jamais consegui convencê-lo a mudar de vida. - a senhora continuou, as lágrimas descendo por seu rosto - Era um menino estranho e bebia muito. Entrou em depressão e passou a ter visões e pesadelos. Não resistiu e enforcou-se no nosso quintal, há dois anos. O senhor não é o primeiro a apertar nossa campainha, alegando tê-lo visto. Várias pessoas batem na minha porta, desde então, afirmando que conversaram com ele. Não sei o que meu filho fez para provocar isso. Não suporto mais essas coisas, entende? É por isso que guardo essas fotos e a certidão de óbito. Eu queria...
Levantou-se, trêmulo. Sem saber como, acreditou na idosa! Meu Deus! Ela falava a verdade! Foi recuando até a porta, os olhos arregalados.
A idosa permaneceu sentada e apenas murmurava:
- Eu sinto muito... desculpe-me...
Abriu a porta bruscamente e saiu da casa.
Começou a correr, chorando, o horror dominando seu corpo. Correu naquela rua sinistra, deixando tudo para trás. O vento frio lhe batia no rosto. Teria ouvindo uma gargalhada?
Palavras sinistras badalavam em seu cérebro:
"Meu filho mexia com feitiços."
"Veremos".
Corria, apavorado. Dobrou a esquina.
"A partir de hoje, meu amigo, você deixará de fumar."
Continuou correndo, a esmo.
"- Você irá para casa, jogará todos os cigarros que ainda tem no lixo e seguirá sua vida normal. A única diferença é que você não fumará mais.
- E se eu fumar?
- Problema seu.
- Gostaria que se explicasse melhor. Como assim, problema meu?
- Meu amigo, a partir do momento em que você apertou a campainha desta casa, naquele exato momento, precisamente, você iniciou um processo."
Processo... processo... processo...
Teria conversado com um fantasma? Um zumbi? Estaria enlouquecendo? Delirando? Tendo visões satânicas? Teria fantasiado tudo aquilo? Teria o narigudo lançado uma maldição? A maldição do cigarro? Seria ele o demônio? O próprio lúcifer?
Não pode ser! Impossível! Nunca acreditara em feitiços e tinha certeza de que o narigudo era real. Havia conversado com ele, porra! Ou não? Teria sido drogado? Induzido ao erro? À loucura?
Nãããooo! Não sabia mais o que pensar. Sua mente entrou em frangalhos compulsivos. Delírio! Paranóia!
Parou, ofegante, ao alcançar uma praça e... vomitou.
Vomitou tanto que seu peito ardeu. Vômito seguido de tosse. Tossiu muito, quase sufocando. Sua garganta ardia, seu estômago embrulhava.
A dor de cabeça voltou, tão terrível como violenta.
As manchas surgiram, estendo-se por todo o seu corpo.
- Meu Deus! Dói! Dói! - gritou, apavorado.
Deitou-se no chão e começou a rastejar. Seus cotovelos arranhavam, no atrito com o piso de cimento.
Coçava o corpo, arranhando-se. Maldita coceira!
Maldita dor!
Pontadas sobrenaturais no cérebro! Manchas no rosto, no dorso, costas, pernas...
Rolava sobre si mesmo, em desespero.
Tentou erguer-se, mas... estava sem forças. Sem suportar as dores, desmaiou ali mesmo.

      ***

Sentiu seu corpo em movimento. Mãos o conduziam... para onde?
As dores se espalhavam. Dores cruéis! Terríveis! Insuportáveis! Arrrggg!!!!
Sua mente... catatônica... delirante...  imersa na dimensão do medo...
Viu o narigudo ali perto. Surgiu do nada! Sentiu sobre si o frio e diabólico olhar do narigudo. O olhar da morte! Ouviu seu riso sarcástico. O narigudo oferecia cigarros. Recusou e tentou fugir, sem sucesso. Gritava, mas ninguém o ouvia.
As visões se sucediam, enlouquecendo-o.

      ***

- O senhor tem certeza, doutor?
- Sinto muito, mas, infelizmente, os exames deram positivo.
- Não pode estar enganado?
- Dois laboratórios examinaram seu pai, rapaz... Não temos dúvida.
- E-Então ele... ele...
- Isso mesmo. Ele está com câncer nos pulmões.
- Meu Deus! - Márcia disse, chorando.
- Em estado terminal. Deverá morrer em seis meses, um ano no máximo.
- Mas... como esse câncer não foi diagnosticado antes, doutor? - um dos filhos insistiu, ainda incrédulo e com a voz embargada pela tristeza.
- Pensamos que fosse um ataque alérgico. Depois da última crise, decidimos realizar exames mais profundos, na pele, no cérebro e nos pulmões. Infelizmente descobrimos o câncer. Confesso que é a primeira vez que um câncer ocasiona tais sintomas: dor de cabeça, manchas, coceiras e ânsias de vômito. Estranho, mas aconteceu.
- Pobre pai... fumava muito...
- Sinto muito. É o tipo de notícia que não gostamos de dar.
- Eu... o.. amava... - Márcia murmurou e continuou a chorar.

      ***

O narigudo estava ali, com seus olhos frios e malévolos. Estendia para ele um cigarro. Tentava fugir, mas não conseguia. Pegava o cigarro (sem saber como - por mais que tentasse recusar!) e o colocava na boca.
O narigudo estendeu um isqueiro aceso.
"Fume! Lembre-se... o processo... é irreversível..."
Soltou a primeira baforada. Tentou não fumar, mas não tinha... forças. A fumaça, lotada de nicotina, penetrava seus pulmões, deixando ali dentro um câncer corrosivo.
O narigudo, sujeito feioso e com cara de abutre, soltava altas gargalhadas.
Zombava dele.
"Você não parou de fumar... não acreditou em mim... e vai morrer".
As palavras do narigudo, num tom de voz animalesco e nauseabundo, o atingiam duramente.
Mas... tinha que reagir! Não iria morrer assim, vitimado pelo câncer, merda!
- Não! - gritou, enlouquecido - Não irei morrer de câncer, maldito! Abutre filho da puta!
Retirou as agulhas do braço. Levantou-se, cambaleante, da cama e aproximou-se da janela. Estava no quarto andar do hospital.
O narigudo apenas o olhava, sempre rindo.
Ignorando o narigudo, jogou fora o cigarro.
Trêmulo, as manchas no corpo, as coceiras o incomodando.
Sentia muita dor de cabeça. Dores no peito. Dores horríveis!
Respirava com dificuldade.
- Nãããooo!!!... Tudo... menos câncer... - murmurou, em lágrimas.
Subiu no peitoral da janela, que não tinha grades, e se projetou para a frente, quebrando os vidros, numa queda mortal.

      FIM

Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 30/07/2006
Reeditado em 31/07/2006
Código do texto: T205577
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 04:39)
Joderyma Torres