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O vermelho na noite.

    Estava eu a vagar por uma longa estrada. O frio da noite me causava sensações agradáveis, mas ao mesmo tempo me deixava apreensivo. O céu descoberto, as estrelas pareciam tão próximas agora, poderia ver o desenho que estas formavam com tanto esplendor, magestria. O frescor das mangueiras a noite tem outro sentido. O canto das corujas rompia o silêncio e a terra úmida amortecia meus pés causando uma deliciosa sensação  de estar andando nas nuvens. A solidão traz outros companheiros e estes me perseguiam com pudor.
    Vozes finas, uma música melancólica me tirava a atenção. Tons de vermelho se contrastavam com a escuridão em interruptas listras de formas pitorescas. Uma visão desagradável aos olhos humanos mas a mim deixava a impressão de que não era uma ilusão. Não passava nenhum carro por ali, sequer um andarilho, uma alma vivente que pudesse dar mais luz a realidade. O céu parecia mais negro agora. Senti em meu rosto uma mão me tocar, era tão lisa, aveludada, fria que congelou-me completamente. Ainda ouvia a canção melancòlica, a súplica. Uma figura de formas bem dispostas dançava logo a frente, de vermelho sangue. Não pude mais ouvir o canto das corujas. Sentia meu corpo pesado, afundando na terra úmida. O frio me cortava como uma navalha e meus olhos não suporvam o brilho intenso das estrelas. Um sopro quente atingia meu pescoço sem dó. Minhas mão já estavam congeladas. Apenas conseguia manter minha direção, embora com certa dificuldade por causa do nevoeiro que aqui se formava.
    Por um momento fechei os olhos. Vi pessoas dançando em volta de uma fogueira. Pareciam felizes, satisfeitas. O som dos tambores parecia distante, mas podia ouvir perfeitamente o uivo dos lobos. Via também uma floresta densa, de grandes cipestres. O som dos tambores ficava mais intenso, como se estivesse se aproximasse de mim. Abri os olhos e tentei correr. Estava indo em direção da misteriosa bailarina. Já podia ver claramente seu vestido, os longos cabelos. A Lua iluminava seu rosto pálido, de feições magnificas, simétricas. A bela mulher estendeu suas graciosas mãos como quem convidando para dançar. O som dos tambores chegou a tal volume que meus ouvidos não mais suportavam.
    De repente vi um fogueira rodear a mulher de vermelho. O calor me queimava copiosamente. Minhas vestes agora pesavam como chumbo, tive que tirá-las senão correria o risco de ser queimado junto com ela. Um grito de desespero calou o som dos tambores e não pude suportar o terror dessa cena, cai ao chão sem forças.
    Só pude acordar no dia seguinte. Logo a minha frente vi a carcaça de um carro aparentemente incendiado, próximo a uma encruzilhada. Uma velha senhora chorava ao segurar um pedaço de tecido vermelho. Perguntei a ela o que estava acontecendo, então ela disse:
- Minha filha morreu queimada nesse carro. A culpa foi minha, pensei que o ritual poderia salvá-la... - continuou a chorar segurando forte o pedaço de tecido vermelho.
 
     
Mazin Queiroz
Enviado por Mazin Queiroz em 18/08/2006
Reeditado em 18/08/2006
Código do texto: T219579
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Sobre o autor
Mazin Queiroz
Gama - Distrito Federal - Brasil, 32 anos
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Mazin Queiroz