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CRIATURA DAS TREVAS


        Estou com medo! Apavorado! Meu Deus! A criatura estava dentro do meu apartamento. Consigo vê-la nitidamente.
        Como poderei descrevê-la? É... tão... horrível... nojenta... nauseabunda...
        Ela estava ali, perto da estante, parada na minha frente, num silêncio angustiante. Exalava um fétido odor de enxofre. Era um ser fedorento! A custo contive a ânsia de vomitar, ao sentir aquele odor fétido.
        Alta, provavelmente com mais de dois metros. Pele marrom (gosmenta, como se derretesse), garras afiadas (com unhas longas e sujas), corpo musculoso e sem órgãos genitais. Cabeça pontiaguda, nariz imenso e afilado, dentes esparsos. Da boca imensa fluía uma baba asquerosa, que pingava no piso.
        Aqueles olhos! O que dizer deles?
        Amendoados, avermelhados e exalavam um brilho intenso, como uma lanterna. Eu poderia sentir o ódio que emanava daqueles olhos. Um ódio mortífero! Fixos nos meus. Penetrantes! Cruéis! O esgar da maldade demoníaca!
        A criatura... parecia esperar alguma coisa. Seria melhor se dissesse o que pretendia. Mas... ela não falava nada! Merda!
        Estou de pé, o corpo trêmulo, minhas costas no vidro da varanda da sala. Atrás de mim havia apenas o terraço. Estávamos no último andar daquele prédio de trinta. Meu prédio, por sinal. Eu tinha muitos prédios.
        Onze horas e cinqüenta minutos de uma noite fria. Chuviscava, lá fora.
        Não consigo parar de olhar a criatura. Minha mente trabalhava, num desespero atroz, tentando pensar num meio de me livrar desse aperto.
        Devo ter cometido um erro.
        Mas... como?!?
        Eu fiz tudo certo. Tudo absolutamente certo.
        Lembro que fui até a encruzilhada e deixei o material. As três velas pretas, o frango assado, a garrafa de cachaça, uma bíblia rasgada, o crucifixo. Tudo sobre uma toalha vermelha. À meia-noite de uma sexta-feira treze.
        A cena estava nítida em minha memória.
        Ajoelhei-me diante daquele pequeno altar improvisado, acendi as velas, coloquei o crucifixo de ponta cabeça, o frango sobre a bíblia, retirei do bolso da calça o livro de magia negra que comprei numa casa especializada em rituais satânicos e proferi, em voz alta, o texto das páginas oito, nove e dez. Segui as instruções à risca.
        Após ter concluído a oração, a única coisa diferente que aconteceu foi um vento súbito, que surgiu do nada. Um vento frio e forte, que durou apenas alguns segundos. Arrepiei-me, claro, mas não tive medo.
        Eu não tinha medo, naquela época. Era jovem e ambicioso, com idéias diferentes de todos os meus amigos. Afinal, era do tipo que jamais acreditei que o trabalho dignificava o homem. O lazer sim, o trabalho não. O ócio sim, o trabalho não.
        Eu tinha vinte anos.
        Três dias depois, ganhei na megassena acumulada. Milhões de reais! Sozinho. Não sei se teve algo a ver com o ritual da encruzilhada. Pode ser que sim. O certo é que aquilo mudou minha vida. Era filho único de uma mãe viúva. Ajudei-a, obviamente. Ajudei também meus parentes mais próximos.
        Investi no negócio imobiliário. Comprei mais de cinqüenta apartamentos. Descobri que tinha tino para esse tipo de transação. Revendia-os, mais tarde, a preços mais altos. E tornava a comprar mais apartamentos. Depois passei a comprar terrenos, casas, mansões. Passei a construir prédios, para vender os apartamentos.
        Multipliquei meu dinheiro consideravelmente. Várias vezes.
        Eu tinha um lucro de milhões e milhões. Tornei-me um homem rico, muito rico. E sem trabalhar muito. Sem ter que seguir horários ou obedecer ordens ou acordar cedo. Nada disso. Eu bebia, dava festas, transava com várias mulheres, viajava, curtia a vida. Isso nos primeiros anos.
        Mas... o tempo passou.
        Minha mãe morreu e eu, mais maduro, casei duas vezes.
        O primeiro casamento foi tumultuado e precipitado. Eu não a amava. Mesmo assim, tivemos um filho, atualmente adulto. O rapaz poderia ser meu sucessor nos negócios, mas, infelizmente, optou pela carreira de médico. Uma pena...
        Hoje estou com cinqüenta anos, milionário e com uma esposa linda e sensual, de vinte e oito. Ela me adora e está grávida.
        Tudo ia bem quando...
        A criatura surgiu!
        Justamente hoje, numa sexta-feira treze. Trinta anos depois.
        Por quê? Por quê?
        O que fiz de errado?
        A princípio, achei que estava delirando, em conseqüência da taça de vinho que tomei depois do jantar. Havia conversado ao telefone com minha esposa e ela estava bem. Voltaria amanhã, após três dias ausente. Ótimo! Para completar, meu filho iria me visitar amanhã, acompanhado da minha nora e de meus netos. Passaríamos o final-de-semana na minha fazenda. Os próximos dias seriam de alegria.
        De repente, tudo desabou.
        O inferno! O caos! A miséria! O desespero!
        Em forma de uma criatura sinistra, silenciosa e maquiavélica. E real, acima de tudo. Ela existia e estava diante de mim, com intenções assassinas. Não havia dúvidas quanto a isso. Meu instinto animal dizia isso.
        Trêmulo, ousei quebrar o silêncio, pois precisava saber:
        - O q-que v-você q-quer?
        Silêncio.
        A criatura apenas me olhava.
        Se pudesse alcançar o telefone...
        - O QUE V-VOCÊ QUER, SUA F-FILHA DA PUTA??? - gritei, em pânico.
        Uma lágrima desceu, evidenciado meu horror.
        Se conseguisse alcançar a pistola, que estava dentro da gaveta, no escritório...
        - É por c-causa do r-ritual?
        A criatura não piscou sequer os olhos. No entanto, deu um passo a frente. Cercava-me, sem me dar opções. Eu não tinha alternativa, porra!
        Só havia um jeito de sair dessa. Lutando. Sempre pratiquei esportes. Tênis, golfe, natação. Malhava na minha academia particular, duas vezes por semana. Fazia caminhada aos domingos, quando podia. Diminuíra o consumo de bebidas alcoólicas, restringindo-me apenas ao consumo de vinho. Fazia dietas.
        Precisava tentar.
        Controlei meu medo. Busquei a raiva dentro de mim, canalizando-a para uma entidade que queria destruir minha preciosa vida, dizimar tudo o que eu construíra ao longo dos anos.
        - SAIA DAQUI, MALDITA! - gritei, tentando intimidá-la.
        Respirei fundo e joguei-me sobre a criatura.

                          ***

        Quando abri os olhos, percebi que estava deitado numa cama de solteiro. Minha cabeça apoiada no travesseiro. A roupa de cama e a fronha eram brancas.
        Fazia frio. Brrrrrr...
        Usava camisa e calça pretas e estava descalço.
        O quarto, de paredes vermelhas, era iluminado por uma lâmpada fluorescente.
        Não havia mais nada naquele quarto, a não ser a porta e a cama.
        Que estranho, pensei.
        Onde estava? Como fui parar ali?
        Tentei levantar, mas não consegui. Minhas costelas doíam terrivelmente. Era como se meus ossos houvessem sito triturados. Minha cabeça também doía. Pontadas enjoadas.
        De repente, a porta se abriu e uma loira alta e sensual entrou no quarto. Ela usava blusa decotada e short justo, ambos pretos. Suas coxas eram grossas, seios imensos, lábios cheios e um corpo maravilhoso. Ela sorriu e seu sorriso era... sexual, carnal e provocante.
        - Deite-se. - ela murmurou, séria, e sua voz era doce e grácil, do tipo que despertava nos homens os instintos mais libidinosos e eróticos - Descanse.
        - O que aconteceu? - perguntei, tenso. Tentei não olhar para os imensos seios dela.
        - Nada.
        - Nada?
        - Você é um homem de sorte.
        - Sorte?
        - Quer dizer, você apenas caiu do trigésimo andar de seu prédio.
        Tomei um susto.
        - C-Caí?
        - Sim.
        - Mas... mas.. - eu não sabia o que dizer.
        - Foi uma queda feia. Mas não se preocupe. Tudo deu certo.
        Senti um estremecimento. Naquele instante, um pressentimento ruim, uma sensação perniciosa, dominou meu corpo. De repente, percebi que, na verdade, nada deu certo. Algo terrível aconteceu. Meu Deus!
        - Tudo deu certo, conforme eu planejei. - a loira disse e soltou uma gargalhada.
        Uma gargalhada insana, alta e sinistra, que quase arrebentou meus tímpanos.
        E ela se transformou.
        Em segundos, aqueles cabelos loiros caíram, a pele tornou-se marrom (gosmenta, como se derretesse), as mãos viraram garras, o corpo feminino adquiriu músculos e os olhos... os malditos olhos...
        Aquele brilho... um ódio mortífero...
        Horrorizado, vi a criatura surgir diante de mim, rindo de modo animalesco e sobrenatural.
        Comecei a chorar, em desespero, ao compreender tudo.
        O ritual na encruzilhada... a riqueza... anos de sucesso... Meu Deus! Eu iria pagar o preço agora.
        - NÃÃÃÃÃOOOOO!!!!! - gritei, ao sentir a criatura me tocar.

                         FIM
Joderyma Torres
Enviado por Joderyma Torres em 20/08/2006
Código do texto: T221008
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joderyma Torres
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil, 51 anos
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Joderyma Torres