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3 horas da madrugada

Muitas vezes acordo na madrugada, me levanto, vou até o banheiro e volto a dormir.
O silêncio nesse horário é total.
A casa mergulhada na penumbra.
Sempre que isso acontece acabo olhando para o relógio.
Talvez por uma questão biológica ou incrível coincidência, a hora que isso acontece é sempre por volta de três horas.
Às vezes três em ponto, outras faltando pouco ou passando um pouco.
Nunca tinha notado isso, até o dia em que ouvi sons estranhos, como animais rosnando.
Confesso que sentia um arrepio toda vez que ouvia esses sons.
A partir desse dia, notei que o horário era sempre aproxomado.
E os sons começaram a se tornar mais audíveis.
Rosnados, vozes abafadas, gemidos e gritos bem ao fundo.
Comecei então algumas pesquisas.
Falei com pessoas ligadas com religiões
Quase ninguém soube me dar alguma explicação plausível, na verdade nem sabiam nada sobre o assunto.
Até que um padre me disse conhecer alguém que poderia me ajudar.
Era um outro padre já bem idoso que vivia em um convento, praticamente isolado e pouco contato tinha com pessoas.
Seria difícil falar com ele, mas eu precisava tentar.
O padre que me deu a dica, me disse que iria tentar um contato.
Depois de muita dificuldade ele conseguiu.
Melhor que não tivesse conseguido.
Existem coisas que é melhor nunca sabermos.

Fui ao encontro do tal padre.
Chegando lá, não vou negar que me assustei.
Ele aparentava ser bem mais velho do que era, sua fisionomia mostrava linhas de dor, de quem tinha visto coisas que não deveria ter visto e que não queria compartilhar com mais ninguém.
Nos apresentamos e relatei os aocntecimentos que me levaram até ali.

Ele fixou seus olhos no meu, como se enxergasse minha alma e me perguntou se eu realmente queria e estava preparado para saber o que ele tinha pra me dizer.
Afirmei relutante que sim. Apesar do medo que tomou conta de meu ser.

Ele se ajeitou em uma cadeira, tão velha quanto ele e começou a narrativa.
Me perguntou se eu sabia a que horas Jesus Cristo havia falecido.
Sinceramente não sabia, tinha uma idéia de que era à tarde, mas não sabia exato a hora.
Sexta feira à nona hora, ou 15 horas no nosso sistema atual.
Não entendi o porque da pergunta.
Ele fez a conexão, 15 horas, ou 3 da tarde.
A que horas você costuma acordar e ouvir os sons? Perguntou.
Três da madrugada. Respondi.
Vê alguma ligação? Algo familiar? - Ele questionou.
E continuou:
Os demônios satirizam a hora da morte de Cristo e usam três horas da madrugada para festejarem, para se alegrarem.
Aproveitam para andar pelas ruas. Assustam quem por elas andam desavisados e fora de hora.
Algumas pessoas são influenciadas por isso e acabam acordando perto dessa hora.
E acabam ouvindo coisas. E com o tempo acabam vendo coisas.
Os sons que você tem ouvido nada mais são do que demônios expressando seu ódio e todo seu desespero. Se arrastam pelas ruas.
Não sei se é o que você esperava ouvir, mas é o que tenho para te dizer.
Infelizmente.
Com o passar do tempo, vai não somente ouvir mas também ver coisas que sua mente jamais imaginou existir.

Agora você sabe o porque estou aqui, isolado e protegido nesse convento.
Durante muito tempo eu ouvi os sons.
E na noite em que comecei a ve-los, não consegui mais dormir, somente depois que vim para cá. Aqui eles não entram.

Hoje estou me mudando para o convento e dividindo o quarto com o padre.
Há duas noites não durmo.
O que eu vi é algo aterrador e não quero mais ver.
Tenho medo de dormir.
Somente em terreno sagrado.
Os demônios são muito além do que imaginamos.
Impossível descrevê-los.
São o mal encarnado.
São o ódio vivo.
Existem.
E saem sempre às 3 horas da madrugada.
Eu sei disso, eu os ouvi e vi.
Paulo Sutto
Enviado por Paulo Sutto em 04/06/2010
Reeditado em 18/08/2012
Código do texto: T2299191
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Paulo Sutto
Itapira - São Paulo - Brasil, 49 anos
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Paulo Sutto



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