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Sangue e Prazer

Je suis belle, ô mortels! comme un rêve de pierre,
Et mon sein, où chacun s'est meurtri tour à tour,
Est fait pour inspirer au poète un amour
Eternel et muet ainsi que la matière.

— Baudelaire, “LA BEAUTE”

França, meados do século XIX. Em meio às ruas de Notre-Dame uma figura feminina caminha em meios aos inúmeros bordéis que ali estão. Vozes, sussurros, gritarias, bastante agitação marcam esta noite em meio à cidade de Notre-Dame. É um dia festivo, aliás, mais do que de costume.
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Um velho barão acabara de voltar da América do Norte. Voltara cheio de novas idéias de como fazer um novo império, uma nova nação e, ao mesmo tempo, novos e inimagináveis poderes que teria após alguns experimentos.
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Em um dos bordéis, chamado de Coeur d’Or, possui uma espécie de clube onde os fregueses pedem bebidas antes de escolherem suas meretrizes, estava recostada uma mulher. Ela vestia um longo e belo vestido, mais bonito que o das outras. Seu corpo era esculturamente belo, com formas e silhuetas extremamente provocativas. Seus lábios eram grandes, de um vermelho tão vivo que parecia que estavam pintados com sangue fresco. Seus olhos faiscavam em um verde-esmeralda tão radiante quanto uma jóia de um rei. E sua tez era branca, no conjunto ela parecia uma boneca de porcelana francesa, perfeita em todos os detalhes, contrastando com seus fartos cabelos castanhos, que estavam soltos, na altura dos ombros.
Um homem olhou para ela e ela o fitou. Seus olhos traziam um brilho dominador, voraz, que imediatamente encheram o coração daquele homem de desejo. Ele ofereceu-lhe dinheiro e ambos foram até o quarto, que ficava no sótão do lugar.
Foi uma orgia intensa entre ambos. Os toques das mãos daquela meretriz fizeram aquele homem entrar em êxtase, mas um prazer tão profundo que ele nunca tinha experimentado com outra mulher. Suas mãos percorriam aquela pele sedosa, ele nunca tinha tocado uma mulher assim antes. A mulher deu-lhe um beijo no peito e o homem gemeu ainda mais de prazer, dormindo logo em seguida.
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Uma mulher acabara de sair da catedral de Notre-Dame. Ela vestia uma roupa semelhante a uma batina de madre, mas na cor preta. Trazia consigo uma maleta de médico, preta, que parecia ser muito pesada. Portava uma cruz feita em prata pura, que reluzia com os lampiões da cidade. Seu rosto mostrava sinais de cansaço extremo, parecia não dormir a dias. Tinha um rosto muito bonito, mas muito castigado pelo cansaço. Olhos de um azul muito sereno, mas que pareciam transmitir um misto de dor e sofrimento. Seus longos cabelos louros estavam maltratados, presos por uma trança rude. Ela caminhava por Notre-Dame a procura de alguma coisa. E certamente encontraria essa noite.
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O barão saíra de sua mansão, que ficava afastada da cidade. Ele levara consigo dois criados, muito fortes. Ele parecia estar com pressa de chegar na cidade, por algum motivo ignorado pelos criados, que apenas obedeciam a suas ordens.
Chegando a cidade, o barão se aproxima de uma casa antiga, que parece em ruínas. Todos em Notre-Dame tinham medo dessa casa, parecia saída de alguma história de Victor Hugo ou de Byron, com seu aspecto lúgubre.
O barão pediu imediatamente que os criados esperassem por ele do lado de fora. Com seu sabre em punho, adentrou na casa.
A casa estava sem iluminação, contando apenas com a pouca luz que vinha da lua. O barão parecia não se importar, ele parecia enxergar nitidamente. Ao vasculhar aquela casa, se deparou com o motivo do medo do povo.
Era uma figura horrível. Tinha uma forma translúcida, quase invisível. Seu rosto era de um jovem, que parecia estar em eterno pranto. Seu corpo mostrava marcas de feridas, possivelmente golpes de adaga e uma perfuração na altura do coração.
A figura do barão ficou estupefata. Não esperava encontrar alguma coisa pertencente ao antigo dono daquela casa, outrora uma antiga casa de luxo.
A criatura repetia um lamento fúnebre que gelava o ar da casa. As cortinas rasgadas balançam ante o vento desse lamento. A figura caminhava lentamente até o barão, com uma expressão de agonia perpétua.
— Filho, quem fez isso com você?
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Amanheceu. Estranhamente a cidade estava calma, diferente da agitação de ontem. A vida boêmia consegue ser um mundo à parte do mundo normal, corriqueiro. Os bordéis estão fechados. Nenhuma sombra de ontem, apenas mais um dia comum.
Mas hoje seria diferente.
Estranhamente o barão não aparecera. Um de seus empregados disse que ele estava dormindo e que não gosta de ser perturbado. O barão não era assim antes da viagem, murmuravam nas ruas. O empregado disse ao povo que ele sofria de insônia e que só conseguia dormir de dia.
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Do outro lado da cidade uma figura feminina andava a procura de alguma coisa. Ela parecera dormir muito pouco, ainda com sua vestimenta de madre, ainda com sua maleta de médico, enfim, ainda do mesmo jeito que estava à noite. Então ela parou em frente a uma estalagem e pediu uma cama. Ela estava exausta e precisava muito dormir.
O estalajadeiro viu o estado da mulher, parecia arrasada, cansada demais de algumas coisas, possivelmente uma viagem muito longa ou até mesmo ela teria sido assaltada (isso não era incomum nas noites francesas). Ele lhe deu um quarto a mulher foi dormir, prometendo pagar o dono da estalagem assim que acordasse.
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Anoitece. Estranhamente essa noite seria atípica para três pessoas. A mulher que estava trabalhando no bordel acorda com um homem nu e morto em sua cama. Ela acorda assustada e não sabe como aquele homem veio parar em sua cama. Ela gritou de susto e alertou todo mundo dentro do estabelecimento. As mulheres subiram e ficaram horrorizadas com a cena.
A guarda apareceu algum tempo depois. Então começaram a interrogá-la sobre o ocorrido. Uma olhada mais atenta ao corpo revelou marcas de mordida no pescoço do homem.
A guarda não disse nada, mas olhou estranhamente para a mulher. Suspeitava de algo nela, de algo que não sabia se era verdade ou apenas mito.
Ao que parecia, um vampiro matara esse homem.
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O barão acordara de noite. Ao sair de sua mansão, vira um grande destacamento de guardas perto do prostíbulo. Seus olhos brilharam ao ver a cena e ao ver uma mulher saindo de lá.
Rapidamente ele saiu de sua mansão e se dirigiu ao mesmo casarão que estivera na noite anterior. Lá dentro ele entrou por uma escotilha no chão e adentrou em alguma sala secreta.
Alguma coisa nefasta irá ocorrer em breve.
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A mulher acordara na estalagem. O estalajadeiro trouxera a ela pão, frutas secas e um copo de leite. Pediu para que ela comesse, porque ela parecia fraca demais. Com relutância ela aceitou e comeu um pouco. Precisava estar forte e agradeceu ao estalajadeiro.
Luc de Saint-Claire era seu nome. Ele era um senhor bonito, na casa dos trinta anos, com boa constituição física, corpo com dotes atléticos. Possivelmente serviu a guarda antes da estalagem, ele possuía o mesmo porte de um general. Possuía um cabelo acinzentado, bem curto e olhos negros que exalavam um brilho de honestidade. E de certo modo, se afeiçoara àquela mulher.
Algo naquela mulher chamava atenção e ele precisava ajudá-la.
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“Um vampiro?” exclamava o povo. Mas como um mito desses poderia ser verdade? Mesmo com a crença, as pessoas simplesmente não engoliriam essa verdade, algo que para elas seria impossível conceber.
O povo ignorante ligou o fato ao barão. Era evidente que fora o barão o culpado por tudo, afinal, ele sempre dormia de dia e saia à noite, quando as velas morriam ao peso das trevas. E afinal, teríamos aqui uma revolta, talvez.
Contudo, alguém resolvera ir até a casa do barão antes. Visitar a figura nefanda do barão e, quem sabe com isso, acabar com o mal que se instaurou dentro daquela cidade.
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Luc, o estalajadeiro resolveu sair a noite, quando ouviu os guardas indo do prostíbulo em direção a mansão do barão. Era estranha aquela movimentação, nunca o povo foi contra as extravagâncias do barão. O estalajadeiro encontrou o barão em meio à rua e disse, espantado:
— Tua casa...
— Invadida?
— Sim, mas...
— Rápido, temos que impedi-los de entrarem!
Ambos correram para alcançar a guarda da cidade. O barão tinha medo de algo e eles deveriam chegar logo.
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A essa hora estavam a chegar na mansão do barão o seu dono, o estalajadeiro e uma mulher, aquela mesma que acabara de sair de um bordel. E todos chegaram após os guardas.
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Mortos!
Todos mortos. Seus corpos dilacerados e seus rostos com sorrisos extremados, como se estivessem satisfeitos com algo. O barão estava horrorizado e pediu aos outros dois que entrassem com ele, talvez eles pudessem ajudar a finalizar esse mal.
“Como?”
“Preciso de duas pessoas para acabar com isso”
“Mas...”
“Espera, madame”
“Entramos?”
“Certamente.”
Ao adentrarem na casa encontram tudo destruído. Os móveis estão em frangalhos, mortos. Um lastro de sangue vivo se arrasta pelo chão, como se um corpo estivesse sendo arrastado.
Chegaram a uma porta. Abriram. E seria algo que, certamente, iriam se arrepender.
O corpo do filho do barão jazia nu, em um canto. As paredes estavam repletas de sangue, vivo. E uma figura estava lá, lambendo os dedos.
Era uma grotesca figura feminina. Estava seminua, tinha uma beleza mórbida, que provoca excitação e nojo.
A mulher entrou em combate. Pegou uma faca e começou a desenhar símbolos com sangue. Pediu que o barão e o estalajadeiro cuidassem dela e Luc recebeu um corte no braço, vindo da mulher.
A luta transcorreu sem maiores dificuldades, até que a figura grotesca se desfez ante uma luz rubra. Aquele demônio se desfez ali e um fim foi dado a tudo o que estava errado nessa cidade. Acabou. Fim.
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Há sete anos um homem chamado Edgar Molloise, conhecido como Barão Gantir, resolveu estudar as artes arcanas. Era jovem e havia seduzido uma bruxa chamada Safire. Casaram-se. Tiveram um filho.E Safire morreu de causa suspeita...
Gantir queria trazer sua mulher de volta, seu amor era doentio. Então foi até a América do Norte aprender alguma coisa que pudesse fazer sua mulher voltar. Devotou seus estudos a isso e, seu filho, ficara sozinho.
André, como ficou conhecido mais tarde, queria a atenção do pai. Estudou secretamente o que o seu pai tinha em casa. Acreditava que, ressuscitando sua mãe, seu pai iria lhe dar atenção.
Resolveu então sacrificar uma virgem para isso. Era uma freira, de uma cidade vizinha. Torturou-a, para que desse mais resultados. No final falhou, mas com o sangue recolhido chamou um demônio feminino.
Vindo a imagem de sua mãe falecida, o demônio copulou com o jovem, lhe sorvendo o sangue. O barão então tentou arrumar um meio de espantar esse demônio e a cada noite lutava.
Não deu certo. O que decorreu foi contado acima. E eu, Juliè, estava na cidade. Usei da minha magia para derrotar esse demônio. E depois? Não interessa, apenas queria lhe contar que era eu, meu amor. Pena que o menino morreu langue, assim como aquele vagabundo. Agora volto ao que sempre faço todas as noites.
Saio para devorar homens!
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 24/09/2006
Reeditado em 24/09/2006
Código do texto: T248489

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Sobre o autor
Fabio Melo
Santo André - São Paulo - Brasil, 32 anos
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Fabio Melo