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SE EU PUDESSE VOAR

         Estava John Engels entrando na delegacia para visitar seu velho amigo, Adam Crowley. Chegando lá, viu seu amigo numa cadeira de rodas, Ele então veio até ele e disse:
—Meu amigo, o que houve?
—John, você não acompanha os jornais mesmo, não é?— diz Adam, um pouco irônico. Teve uma perseguição que fizemos, estávamos procurando um perigoso contrabandista de drogas. Então, eu estava liderando a perseguição, fui ao encontro do contrabandista e tomei um tiro, A bala ficou alojada na medula. Em uma parte que não pode ser retirada. Então, perdi o movimento das pernas. E agora me deslocaram para essa merda de serviço burocrático!
Engels olhou para o amigo, Foi estranho vê-lo naquele estado, ele não esperava que um homem como Adam ficaria assim. Adam tinha um porte atlético, tinha altura mediana, era forte, cabelos e olhos negros e um rosto vigoroso. Em seus trinta anos estava no seu auge. Mas o tiro lhe tirou uma carreira brilhante, assim Engels pensava. Desde que chegara a Nova Iorque, Engels teve Adam como um amigo de verdade, uma pessoa que sempre podia contar, até poderia contar sobre seus segredos, se isso não fosse colocar seu amigo em apuros realmente piores.
Os dois ficaram conversando por horas. Na delegacia, Engels era muito respeitado, pois já ajudara os investigadores e os policiais em muitos casos, em especial aqueles que não tinham explicações plausíveis. Depois, Engels foi embora e voltara ao seu escritório.
Naquela tarde, a campainha tocou. Ao mandar entrar, viu que eram três pessoas, uma mulher e dois homens, ambos vestidos de branco. Os homens vestiam ternos e a mulher um vestido estilo oriental. Todos tinham feições orientais, provavelmente eram descendentes de japoneses ou chineses.Os dois homens possuíam cabelos bem curtos e espetados. A mulher, com seus longos cabelos negros até a cintura, chegou à escrivaninha de Engels e disse:
— Sr. Engels, precisamos de teus serviços. Me chamo Tomiko Kenryu e me falaram que só você pode resolver este caso. Meu pai, Fujita Kenryu foi morto e sua cabeça decepada. A nossa espada de família foi roubada.
—Mas vocês não contataram a polícia? — indagou Engels, com olhar fixo na jovem dama.
Ela, respirando fundo, respondeu:
—Bom, eu acredito numa coisa que meu pai dizia. Que ele era perseguido por uma criatura de nossos ancestrais, um demônio terrível. E a polícia não vai achar esse demônio. E sei que você investiga essas coisas, Sr. Engels. E sei também que você irá matar esse demônio. Pago o quanto for preciso, cavalheiro, pago aquilo que você precisar para vingar a morte de meu pai.
John, abrindo uma garrafa de cerveja, falou:
—Bem, senhorita Kenryu, vamos ver. Se o que me contas for verdadeiro, o preço será muito caro. Entretanto, podemos negociar. Eu aceito o teu caso, mas quero ver o que você tem que possa pagar pelo meu serviço. Eu decidirei qual o pagamento, esteja ciente disso, eu trabalho assim.
—Sr. Engels — disse Tomiko, meio hesitante — compreendo, até pareço meio maluca falando isso. Mas aceito teus termos. Pode, me chamar apenas de Tomiko, sabe, não estamos numa situação tão formal assim. Além disso, falaram que você cumpre com todos os seus contratos o que me deixa ainda mais aliviada. Bom, certo, senhor Engels, aceito sim, onde eu assino?
—Vejo a sinceridade em teus olhos, Tomiko. Não preciso de contratos ainda mais que eu sei que estás de luto. Eu acho que em uma semana voltarei com o caso resolvido. Agora, por favor, não me chama de senhor. Como dissera a mim, não estamos numa situação tão formal. E peça aos seus homens para guardarem suas espadas, não precisa deles para conseguir minha lealdade ou mesmo que eu cumpra meus acordos.
—Não é por isso. Acontece que tenho muito medo de ser seqüestrada. Esses homens são ex-alunos do meu pai, eles são pagos para serem meus guarda-costas. Me estranha um homem como o senhor não possuir guarda-costas.
— Digamos que não preciso.
—  Entendo. E quero que você recupere a espada de meu pai. Sem ela, nossa credibilidade acaba caindo como família.
— Compreendo. Trarei também a espada de teu pai.
— Tome um desenho. Ela possui esse ideograma que significa...
— ...justiça celestial — interrompe Engels.
— Sim, isso mesmo, você sabe japonês?
— Sei muito mais do que pensas.
—E bem, acho que meu caso está em boas mãos. Aqui tem meu telefone e meu endereço, pode me ligar se eu puder ajudar em suas investigações. Tenha uma boa tarde.
— A ti também.
Todos saíram da sala de Engels. O próprio estava pensando. Ele ficou intrigado com o caso. Pensou em qual tipo de demônio teria voltado. Ele resolveu sair e pensar um pouco. Então, de noite, viu uma viatura. Resolveu seguir e ela parou, junto com outras, perto de uma academia de artes marciais.
Ele entrou, Como os policiais o conheciam, Engels pode ver a cena do crime e ficou chocado. Um homem, de descendência oriental, tve sua cabeça decepada. O golpe era perfeito. Os policiais precisavam de um perito, alguém que pudesse investigar aquele corpo. Então Engels disse:
— Chamem Adam.
Os policiais riram, Falaram que Adam estava “aposentado” que um homem como ele deveria somente fazer serviços burocráticos. Engels se enfureceu com um que dizia que Adam “era um inútil inválido”. Ao ouvir isso, Engels se inflamou e pegou o policial pelo colarinho, ergue-o do chão e disse que não se responsabilizaria pelos atos dele caso mais um comentário desses fosse feito. Os outros ficaram com medo, Engels tinha um porte físico que podia causar medo se ele assim quisesse.
Acabaram por chamar Adam, pois ele era o único com formação para investigar o caso. Ele chegou, auxiliado por Engels, ao local do crime. Analisando o corpo e o local, deu seu prognóstico:
— Percebo que esse homem foi morto com apenas um golpe. Não há escoriações pelo corpo, como se tivesse apenas levado esse golpe. A arma que cortou a cabeça também estava em brasas, não há sangue na sala, que indica que o corte foi cauterizado no momento em que foi feito. Essas marcas de queimado no pescoço também indicam isso.O local não foi lavado, não há marcas de lavagem aqui.
Adam estava certo. Engels já vira isso diversas vezes, o seu amigo devia ter algum pacto com o diabo, brincava ele. Era uma análise muito rápida para um homem e que estava certa. Engels tirou algumas fotos para ele e saiu do lugar. Precisava analisar melhor o caso.
Voltando ao seu escritório, resolveu deixar as fotos e voltar para casa. No caminho começou a pensar muito no que havia acontecido e no deboche que fizeram ao seu amigo. Ele não acreditou na disposição que Adam tinha para trabalhar mesmo tão limitado, mesmo preso a uma cadeira de rodas. Engels já viu homens se desesperando com isso, Ele admirava ainda mais seu amigo, ele adorava isso nele, essa garra. E pensava que em muitos momentos ele mesmo deveria ter tido essa garra.
Naquela noite Engels não dormiu. Então resolveu ligar o seu computador e procurar algumas coisas pela internet. Ele pesquisou sobre o homem morto e sobre a academia. O velho mestre havia emigrado do Japão há seis anos, o mesmo tempo que o pai de Tomiko. Achou estranha essa coincidência e começou a ler mais. Então, depois de algum tempo, resolveu salvar tudo e ligar para Tomiko no dia seguinte, para resolver isso.
Então amanheceu. Ligou para Tomiko e combinaram de almoçar num restaurante japonês. Fazia tempo que Engels não comia decentemente e resolveu ir até lá, precisava conversar com ela.
Vestiu um sobretudo de couro. Carregou alguns equipamentos básicos, os quais ele não sai de casa. Pressentiu algo ruim naquele dia. Então ele foi até o restaurante. Era um lugar bonito. A jovem dama estava elegantemente vestida, com um vestido de cores vermelhas e verdes com vários desenhos orientais estilizados. Deixava seu belo e longo cabelo preso e maquiava bem seu rosto. Estava muito bonita. Então foram a uma mesa reservada, que ela tinha reservado para os dois.
— Engels — disse Tomiko, um pouco encabulada — agradeço pelo teu telefonema, não sabia que ia me ligar tão rápido.
— Bom, eu vim aqui porque ontem mataram mais uma pessoa, da mesma maneira que mataram teu pai. Eu queria ouvir essa história sobre teu pai, sobre esse demônio que ele dizia estar atrás dele. Essa seria uma informação muito útil.
— Certo, vou lhe contar, mas antes, espere nosso almoço chegar. Nossa, Engels parece abatido. Seu rosto tão bonito está tão cansado. Você está bem?
— Não dormi essa noite, nem um pouco. Fiquei procurando sobre esse caso, sabe, eu vi o homem morto ali, na minha frente. Tu não imaginas como foi...
—Sim, imagino sim. Imagino como estás cansado Engels. E fico feliz pelo teu empenho nesse caso, agradeço muito. Juro que te pagarei da maneira que me pedir e talvez até algo mais...
A comida chegou. Era uma espécie de macarrão, chamado yakissoba. Engels até gostava, mas achava o sabor estranho, não era o que ele estava acostumado. Daí a mulher resolveu começar a contar.
—Bom, segundo meu pai, há mil anos, um jovem e impetuoso samurai foi aprisionado. Ele havia desonrado sua família, matado a todos e ao seu mestre. Depois disso, foi condenado a morte. Mas como nenhum carrasco queria executá-lo, chamaram quatro samurais de elite para fazer esse serviço. Seus nomes eram Kenuchi Ryoma, Harutaki Ryuji, Tanaka Kenryu e Shinoguchi Kenochi.
—Kenochi era o sobrenome que estava na academia do homem que morreu — interrompeu Engels.
—Sim, ele era um grande amigo de meu pai. Kazuma. Bom homem, forte, apesar da idade. Então, depois de conseguirem executar esse samurai, os quatro foram amaldiçoados pelo mesmo, dizendo que algum dia iria voltar para matá-los. Dez anos depois ele voltou e matou um deles. Voltou como um demônio, que tinha poderes muito grandes. Daí veio Hakushin, um homem santo, diziam que era um servo de Buda, que matou a criatura com um corte de espada. Esse homem disse as quatro famílias que agora deveriam guardar as espadas e elas iam servir como uma lembrança de sua nobreza.
Engels escutava com atenção a história. Então, subitamente, quatro homens com submetralhadoras cercam o casal. Apontam para a cabeça de Tomiko e para a dele, falado que vão atirar caso eles reajam. Tomiko dá uma cotovelada, e afasta um dos homens e Engels resolve reagir. Quando um dos homens resolve atirar, sua arma explode, arrancando a mão. Engels então, se interpõe na frente de Tomiko e toma um tiro. Ele sangra e um dos homens ri de Engels, quando o vê se levantar como se nada tivesse acontecido.
—Só isso? — fala Engels, rindo. Essas balas são coisas de amador. Vamos ver o que vocês são realmente capazes de fazer.
Engels sacou uma espada curta, do tamanho de uma régua escolar. Os homens acharam graça naquilo, achavam que Engels era idiota em combatê-los, que devia estar louco. Não riam mais depois que Engels matou dois deles com a espada.
Ele foi com uma velocidade vertiginosa. Matou dois homens rapidamente, com vários cortes precisos. Os outros dois foram embora, amedrontados. Tomiko, olhando atentamente para Engels, ficou espantada. Ele havia salvado sua vida, ela estava agradecida, mas também estava surpresa, ele matara dois homens com uma facilidade mortal. Ela nunca tinha visto isso antes. Não imaginava que Engels pudesse lutar tão bem assim.
—Sr. Engels — perguntou Tomiko — como você conseguiu matar tantos em tão pouco tempo?
— Treinamento, senhora.
Então veio a polícia. Eles interrogaram Engels por horas, até que liberaram-no. Então Engels se dirigiu a Tomiko e perguntou, acendendo um cigarro:
— Diga-me, senhorita, por que os homens as Yakuza estavam no teu encalço?
— Como você sabe que eles eram...
—Não me faça de idiota. Percebi pela técnica deles, pela maneira como eles se movimentavam. E creia, tu me deves respostas.
—Certo, acho que lhe devo explicações. Os Yakuza sempre tiveram raiva de meu pai por ele não querer ensinar as técnicas aos homens deles. Nunca ele ensinou técnicas de espada para estes homens tão cruéis. Então, eles vieram até aqui perseguindo meu pai. Há uns dois anos temos recebido ameaças deles, mas pensei que com a morte do meu pai iam parar os ataques. Já perdi dois irmãos com isso. Por pouco que eu também não parto desse mundo. Graças a ti, Engels, consegui sobreviver.
—Então eles atacaram você, certo? Então acho que isso explica algumas coisas. Eu vou atrás deles, acho que eles, de alguma forma estão ligados ao assassinato de teu pai. Mas apenas peço uma coisa. Proteja-se, acho que vou precisar de mais alguns dias para encerrar o caso. Mas pode ter certeza que o assassinato de teu pai será vingado.
Então Engels deixou Tomiko em casa. Resolveu ligar para Mike, um amigo que tem contatos com o submundo para saber sobre as atividades da Yakuza. Ele sabia que não seria barato, mas Mike era fiel a Engels.
Esperou dois dias. Mike ligou para Engels e disse que a Yakuza se reuniria numa casa de chá naquela noite. Seria o momento perfeito para fazer algumas perguntas. Engels anotou o endereço e disse que o valor do favor estava depositado na conta de Mike.
Voltou para casa e vestiu uma capa de couro preta, chapéu, botas e um cinto grande. Levou uma espada longa, uma pistola, uns cartuchos de munição, uma faca e uns frascos com líquidos. Mesmo com tantos itens, a capa escondia todo o volume, como se Engels não possuísse nada debaixo dela. Essa capa era um objeto encantado de forma a ocultar itens que estivessem sob ela. Então foi até a casa de chá.
Chegando lá, passou e resolveu comer alguma coisa. Viu um grupo de uns vinte homens chegando, todos vestidos com ternos. Pelo olhar dos funcionários, deduziu que eram da Yakuza. Um dos homens o fitou, como se estivesse desconfiando dele. Então Engels pediu um chá e esperou um pouco. Então, começou a prestar atenção neles. Um dos homens reconheceu Engels. De repente, todos sacaram submetralhadoras e atacaram-no, com rajadas que destruíam tudo. Então Engels, com um sorriso nos lábios, diz:
— Parabéns, parabéns. Agora é a minha vez!
Engels tira debaixo da capa um frasco, que incendeia ao tomar contato com o ar. Esse líquido queima o rosto de um dos atiradores. As pessoas começam a sair do lugar, deixando Engels e os membros da Yakuza sozinhos.
Um homem tenta a todo custo acertar Engels, mas este se move com uma agilidade fenomenal, inumana. Ele se esquivava dos tiros, parecia coisa de filme. Engels deu um soco que deixou o homem inconsciente. Depois, ele pegou um cabo de vassoura e acertou mais alguns, deixando-os inconscientes.
Um dos homens largou a submetralhadora e disse:
—Muito bem gaijin. Percebo que luta muito bem. E também percebo que não pode ser acertado por nossas armas, não estou certo, Engels?
— Então se rende?
— Nunca!
O homem tirou o terno e pegou com um dos capangas que ainda estava de pé uma katana. A arma devia ter uns seiscentos anos, a julgar pelo aspecto. Ele falou com seus homens em japonês e pediu para que ficassem de tocaia, com suas armas e dizendo a Engels que lutariam os dois.
— Seria louvável — disse Engels — se seus homens não fossem ficar aqui.
— Você... você ouviu o que eu disse a eles?
— E você acha que não?
— Não se preocupe, vou matá-lo sem dor.
O homem tinha um longo cabelo negro, uma tatuagem de um dragão que percorria o corpo todo e seus olhos estavam compenetrados em Engels. Engels sacou sua espada e os dois começaram a lutar.
Engels achava incrível a velocidade do bandido, ele rebatia seus golpes com uma habilidade fascinante. Então, a velocidade com que o bandido se movia começou a aumentar e muito.
Engels percebeu que um homem comum não tinha tanta velocidade. Resolvera também usar alguns artifícios. Quando o homem o golpeou, Engels se moveu como um raio até as costas dele e o acertou com uma espadada. O golpe deveria tê-lo matado, mas o homem ainda lutava.
Logo em seguida, Engels percebeu do que se tratava. Era um vampiro. Um vampiro oriental. Raramente ele teve contatos com eles e percebeu que não teria como vencê-lo pelos meios normais.
O vampiro se moveu e acertou um golpe no pescoço que fez Engels cair no chão. O homem limpava o sangue da katana, dando as costas. Mas em seguida ouviu uma gargalhada.
––Devia ter se certificado que eu estava morto — diz Engels, se levantando com a roupa suja de sangue.
Então, o ferimento foi fechando aos poucos. E o vampiro percebeu que Engels não era humano.
— O que é você — pergunta o vampiro, amedrontado.
— Seu fim — retruca o investigador.
Engels pegou sua espada. Com um golpe preciso, acertou o torso do vampiro, fazendo-o cair no chão, sangrando. Logo em seguida esse sangue começara a pegar fogo, colocando o corpo do vampiro em chamas. Ele estava desesperado, pedia com muita clemência para que Engels fizesse parar o fogo.
— Somente se me responder umas perguntas –– respondeu Engels, com um ar triunfante.
Então o vampiro concordou.
Então ambos conversaram durante o resto da noite. Engels descobriu que a Yakuza havia invocado um demônio para matar o mestre do estilo Kenryu. O antigo mestre havia  se negado a ensinar aos membros da Yakuza os segredos de sua arte. Antes haviam tentado mandar membros da própria Yakuza mas estes eram rechaçados facilmente.
De posse dessas informações, Engels deixou os membros da Yakuza irem embora. Percebera uma coisa singular. O homem que conjurou o demônio não sabia da ligação dele com a família Kenryu e nem com as outras famílias. E Engels sabia quem era aquele demônio.
Pela manhã, Engels pediu para falar com a policia. Queria deixá-los avisados para protegerem a casa de Saotome Ryoma e Hiroyuki Ryuji. Ele ligou para os dois e pediu para os dois se hospedarem na sua casa, que ficava longe aquela região. Engels cercou a casa de velas azuis com símbolos arcanos e pediu para os dois manterem sempre uma dessas velas acesas. Então começou a se preparar.
— Engels — disse Adam, pelo telefone — você por acaso tem alguma idéia de como prender esse assassino?
— Tenho, meu amigo, tenho.
Depois, Engels foi para a casa de Ryuji. Preparou-se, com uma espada longa em punho, uma espada com cabo feito de mármore e com a guarda em forma de caveira. Segurava a Espada do Lamento Solitário, uma arma que, segundo a lenda, foi forjada por um homem que lamentava a morte de sua amada. O poder dessa arma, além do corte normal, é provocar uma dor muito grande, capaz de incapacitar um homem em questão de segundos.
Então, logo em seguida, Engels ouve um ruído vindo de trás dele. Ele vê um demônio com armadura samurai enegrecida, um rosto totalmente queimado e uma enorme cicatriz atravessando seu braço, a única parte não coberta pela armadura. Olhou para os lados e viu todos os policiais desacordados.
—Helaziel! — rufou o demônio, soltando fumaça pelo que parecia ser suas narinas. Tu estás aqui? Como? Cadê o miserável que vim matar?
— Demônio, ou deveria chamá-lo Mekuma — falou Engels de forma sarcástica.
Engels conhecia o demônio. Sabia quem ele era e tinha se preparado de forma a aniquilá-lo imediatamente. O demônio não matara os policiais, apenas os colocara para dormir com um encanto, pois não havia honra em matar policiais, que nem teriam chance de lutar dignamente contra ele.
O combate começara. Engels começara a golpear o demônio, mas ele desviava e defendia muito bem os golpes. Mekuma acertava Engels de forma soberba. Então o investigador acertou uma espadada muito forte.
Mas foi à toa, o golpe nem sequer arranhou o monstro.
Então Mekuma acertava Engels com golpes rápidos, muito rápidos. Depois, com o investigador sangrando muito, ele diz:
— Anjo, teus golpes não podem me ferir. Desde que fiz meu pacto para conseguir poder, nenhuma criatura vinda do céu pode me ferir. Tu, mesmo sendo um anjo caído, viestes do céu e não podes me ferir. Agora, morra com honra, anjo.
Depois disso, cinco tiros são disparados. Todos acertam Mekuma e ele cai no chão. Desacredita no que vê. Um homem, numa cadeira de rodas o acertara de forma mortal. Era Adam. Ele estava na viatura, quando percebeu que os policiais estavam dormindo. Havia subido, com dificuldade, para ver o que estava ocorrendo. Quando viu o  demônio quase matando seu amigo, deu cinco tiros certeiros.
Mekuma caíra no chão. Os tiros o mataram de forma violenta. O pacto dele não dizia que não podia ser ferido por um mortal. E foi isso que pôs fim no grande Mekuma.
No dia seguinte, na casa de Engels, Adam conversava com seu amigo.
— Engels, meu amigo. Agora o caso encerrou, não é mesmo?
— E eu te agradeço. Pensei que ia morrer àquela hora. Mas aquilo que você viu...
— ...um demônio? Engels, acha mesmo que não sabia contra o que você lutava?
— Mas então...
— Sim, isso mesmo, sempre soube. Sempre soube que você nunca lidava com casos convencionais. E então, aquilo fica entre nós, certo? O demônio, você sabe, esse acontecimento fica entre nós. Creia, isso até parece coisa saída de uma história em quadrinhos e não quero  minhas crianças acreditando que demônios vivem por aí. Também acho que ninguém poria uma fé na gente se visse isso não é?
— Está certo, meu amigo, está certo. E muito obrigado. Por tudo.
— Eu também te agradeço. Por acreditar em mim. Por ainda acreditar em mim.
Logo depois, Engels foi para um hospital. Lá estava uma criança, que estava internada. Engels conversou com um médico.
— Então, doutor? Ela está bem?
—Teve pesadelos. Dizia que seu anjo estava morrendo, dizia que o seu anjo precisava de ajuda. Mas vejo que o senhor está bem, mesmo com alguns machucados.
— Não foi nada. Apenas alguns acidentes de trabalho.
Então John chegou para perto da menina. A menina sorriu. Disse, com sua voz melodiosa:
— Meu Anjo, você gostaria de poder voar?
—Se eu pudesse voar — disse Engels, com sua voz serena — não voaria como um rei. Se eu pudesse voar, te levaria daqui e te daria uma nova vida.
— Mas você pode voar — disse a menina — afinal, você tem asas.
—Não preciso de asas para voar. E hoje percebi isso. Nem de asas, nem de nada, tudo que preciso é uma coisa, minha criança.
Vontade.
Após dizer isso uma lágrima cai do olho de Engels.
Fabio Melo
Enviado por Fabio Melo em 27/09/2006
Código do texto: T250298

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Fabio Melo